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Ola pessoal!

Nesta postagem, irei apresentar o resumo das aulas da disciplina Museologia do 6o período do curso de Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – A Museologia e o Seu Campo de Estudo

A palavra Museologia é formada por duas expressões gregas: museon (lugar das musas) e logos (estudo ou reflexão através da sensibilidade e razão). A origem da palavra museu – o “lugar das musas” -, é onde os objetos eleitos como sendo os melhores representantes da sua espécie ficam guardados para serem apresentados para as pessoas apreciarem as suas qualidades e refletir sobre o seu significado. O objetivo maior da Museologia é o estudo do “fato museológico”, isso é, o estudo das relações sensíveis que se estabeleceram entre as pessoas e os objetos apresentados em um cenário expositivo. Entretanto, a Museologia por muito tempo foi considerada como uma disciplina que estudava exclusivamente as práticas desenvolvidas no interior dessas instituições. Mas, a partir da década de 1970, tal modelo passou a ser questionado passando a defini-la como uma ciência social que estuda os objetos de museu como fontes de conhecimento. Esta percepção do objeto como fonte de saber e de reflexão produz uma importante diferença no momento de selecioná-lo para integrar um acervo de museu, pois existem vários tipos de conhecimento conforme o valor que lhes é atribuído, e também por “quem” lhes atribui este valor. Para “quem” estes objetos podem ter significado? Que tipo de conhecimento o estudo desses objetos pode produzir? E que tipo de reflexão poderá ser feita?

Atualmente, quando a ciência museológica seleciona objetos para integrar um acervo, o faz pelo seu valor enquanto fontes de conhecimento e questionamento, isso é, “percebendo” a sua capacidade de fazer as pessoas refletirem sobre as suas realidades anteriores e atuais quando elas se deparam com eles. Assim, a Museologia é uma ciência da informação, na medida em que seleciona, conserva, ordena e investiga as informações contidas nos objetos e acervos museológicos. E, também, uma ciência social aplicada por realizar pesquisas sobre tais informações e divulga-las para o público na forma de conhecimento através de exposições. Os museus só passam a existir quando o homem adquire a consciência de seus patrimônios natural e cultural. Assim que a consciência dessas práticas tem início, começa a se definir a identidade dos grupos humanos em todos os tempos e lugares. E a partir daí que a humanidade passa a construir esses espaços chamados de museus e os utiliza para preservar esse patrimônio, isto é, para preservar seu legado histórico, ecológico, artístico e cultural. Então, a função primordial dos museus é: selecionar, guardar, conservar, pesquisar e divulgar tudo aquilo que seja eleito patrimônio.

O patrimônio natural se constitui no espaço físico onde um grupo humano se instala e vive. O patrimônio cultural nos objetos materiais (tangíveis) que produz para viver e também nas suas criações imateriais (intangíveis). Essas criações imateriais se baseiam nas práticas que o ser humano constrói para compreender o mundo em que vive e se reconhecer como um grupo unido, como, por exemplo, o folclore, a gastronomia, a língua, a mitologia, entre outros. A natureza onde nascem as águas, mares, rios e florestas, onde produzem alimentos, são espaços importantes para a vida das pessoas. Do mesmo modo são as cidades, os bairros, as praças e os prédios construídos para as pessoas viverem e se utilizarem deles. São criações materiais.

O campo de estudo da Museologia é a investigação da instituição “museu”, dos acervos nela contidos e das interações desses acervos com as realidades dos vários grupos humanos. Em um amplo universal, podemos destacar: a pintura, a escultura, a arquitetura, a numismática (moedas), os meios de transporte, a armaria, a indumentária (vestuário e joalheria), a heráldica (brasões), o mobiliário, as condecorações, a tapeçaria, os utensílios domésticos, prataria e ourivesaria, os acervos religiosos, as danças, a literatura, o teatro, o folclore, a culinária típica e várias outras formas de expressão que o homem cria para identificar-se e organizar-se em sociedade. Todos esses conhecimentos são investigados em uma perspectiva sócio-histórica e aplicados pela ciência museológica através da museografia, da expografia, da conservação e restauração, dos estudos de público e da pedagoga museal. Existem vários tipos de museus conforme os acervos que possuem. Para isso, a Museologia interage com várias outras disciplinas. A pesquisa museológica abrange o amplo universo das expressões artísticas e, também, se relaciona intimamente com o campo das ciências humanas, a Antropologia, a Arqueologia, a Ciência Politica, entre outros. Há ainda uma relação próxima com as ciências exatas – a Física e a Matemática – e com as ciências biológicas e da terra, como a Medicina, a Astronomia e a Química. A Museologia engloba vários campos do saber criando elos para produzir conhecimento a partir de uma diversidade de informações contidas nos seus acervos.

 

Resumo da Aula 02 – Histórico da Museologia no Mundo e no Brasil

A palavra museu teve origem na antiga Grécia. Museion era o nome dado aos templos das musas, que representavam os ramos das artes e das ciências. Eram locais reservados para debates filosóficos e estudos artísticos, científicos e literários. Mas, com o passar do tempo, a ideia de museu foi adquirindo novos significados, até que, no século XV, colecionar objetos virou uma mania em toda a Europa. As pessoas importantes tinham um costume em ter um “gabinete de curiosidades” em suas casas, para exibir objetos raros e exóticos como prova de sua riqueza e poder. Com a expansão das navegações para o oriente e para o novo mundo, essas coleções passaram a ser enriquecidas com obras de arte, artefatos científicos e outros objetos provenientes das Américas e da Ásia, adquiridos pela nobreza e pela burguesia ascendente. Além de objetos, tais coleções também passaram a abrigar espécimes da natureza (animais, plantas e minerais raros e exóticos), formando as primeiras coleções científicas criadas por estudiosos que buscavam reproduzir o ambiente natural de espécies vindas de terras distantes. Por outro lado, os gabinetes de curiosidades eram adquiridos mais pelo prazer de colecionar e demonstrar poder do que para servir como elementos de pesquisas. Não havia um critério científico na formação dessas coleções. Foi entre os séculos XV e XVI que surgiram as primeiras coleções organizadas para formar acervos de instituições parecidas com as que hoje conhecemos como museus. Mas foi somente no final do século XIX que surgiu, na Inglaterra, uma instituição criada para essa finalidade: o Museu de História Natural de Londres. E o primeiro a classificar os objetos por classes foi Carlos Lineu, criador do método de classificação científica. A partir de então, as coleções passaram a ser usadas também para a pesquisa, e os antigos gabinetes transformaram-se em museus, tal como hoje são conhecidos. Contudo, tais instituições não eram abertas para o público, apenas para estudiosos e membros de sociedades científicas.

Em 1753, surgiu o Museu Britânico em Londres (Inglaterra). Entre 1750 e 1773 o Museu do Louvre, em Paris (França) e, em 1783, o Museu Belvedere em Viena (Áustria). Mas somente no final do século XVIII, na França, foi permitido ao público ter acesso a essas instituições, marcando o surgimento dos primeiros museus nacionais. Em 1808 surgiu o Museu Real dos Países Baixos (Amsterdã, Holanda). Em 1810, o Altes Museum (Berlim, Alemanha). Em 1819, o Museu do Prado (Madri, Espanha). E em 1852, o Museu Hermitage (São Petersburgo, Rússia). Criados dentro do espírito nacionalista da época, tais museus tinham como função formar cidadãos através do conhecimento do seu passado, e participarem de maneira decisiva na construção dos Estados nacionais emergentes e das nacionalidades. Durante o século XIX, várias expedições coloniais recolhiam espécimes da flora e da fauna, e assim foram se formando as coleções de Mineralogia, Botânica, Zoologia, Etnografia e Arqueologia. Ainda em 1870, surge o Museu Metropolitano de Nova Iorque (EUA) com um perfil mais pedagógico, e serviu de modelo para outros museus norte-americanos e, também, influenciando a ação de museus latino-americanos, como MASP (Museu de Arte de São Paulo) e o Museu de Antropologia da Cidade do México.

No Brasil, a primeira instituição museológica surgiu no início do século XIX. O Museu Real, criado por D. João VI, no Rio de Janeiro, em 1818, veio a ser o atual Museu Nacional. De início, seu acervo era composto por uma coleção de história natural doada pelo próprio príncipe. Em seguida, seu acervo foi enriquecido por uma importante coleção de Egiptologia adquirida por D. Pedro I. Contudo, o Museu Real manteve um perfil colecionista e, somente no final do século XIX, adquiriu um caráter científico. Ainda no Brasil, em 1884 foi criado o Museu do Exército e, em 1868, o Museu da Marinha. Depois foram criados o Museu Paranaense (1876) e o Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (1894). Em seguida vieram os museus etnográficos: o Paraense Emílio Goeldi (1866) e o Museu Paulista (1894), atualmente Museu do Ipiranga. As pesquisas desenvolvidas por estes museus apoiavam-se nas teorias darwinistas, a partir da qual eram interpretadas as origens e a evolução das espécies e da sociedade, que mais tarde foi a base da Antropologia. Tanto no Brasil quanto no mundo, os museus se constituíram baseado na história e na cultura do seu país e, por outro lado, na Pré-História, na Arqueologia e Etnologia.

No Brasil, assim como nos outros países, os museus de modelo enciclopédico predominaram até 1930, quando entraram em declínio junto com as teorias evolucionistas. Os museus brasileiros mantiveram suas ações a favor do nacionalismo, celebrando a exuberância da nossa natureza e a cultura do nosso povo. Esta temática nacionalista teve força no Museu Histórico Nacional (MHN), no Rio de Janeiro, em 1922, junto com o Movimento Modernista. O objetivo das ações realizadas pelo MHN era educar o nosso povo através dos valores nacionais. As exposições apresentavam fatos e personagens da nossa história, incentivando o culto à tradição e à formação cívica como fatores de união e progresso. A partir de então, o MHN tornou-se referência para outros museus brasileiros, e contribuiu para a criação do curso de graduação em Museologia, em 1932, que funcionou no próprio museu até 1979.

A partir da década de 1980, outros tipos de instituições passaram a ser criadas principalmente nas capitais e grandes cidades do Brasil e do mundo. Além de reunirem acervos de diversos tipos para realizarem suas exposições, alguns centros culturais se especializaram em adquirir e conservar acervos específicos, tornando-se referência no tratamento desses acervos.

 

Resumo da Aula 03 – Museus, Centros Culturais e Centros de Memória

Os museus são instituições sócio-históricas de pesquisa: históricas, de ciências, comunitárias, de artes, universitárias ou específicas de uma expressão cultural. Em geral, os museus se diferenciam pelo tipo de acervos e estudos que levantam. As exposições, os eventos, os programas educativos e outras atrações que acontecem nos museus também podem diferenciá-los. Os museus podem ser públicos ou privados. Também podem ser mantidos por uma comunidade, uma escola, um clube, uma empresa ou por qualquer grupo de pessoas que têm um interesse em um determinado assunto. Os ecomuseus  (museus comunitários) englobam todo o patrimônio cultural e natural de uma comunidade. Esses espaços geralmente são geridos pela própria comunidade, pois eles são os verdadeiros herdeiros do seu patrimônio e têm interesse em reproduzir essas tradições no tempo presente. Suas tradições podem ser conservadas através de comemorações de datas importantes ou reverenciadas em personagens da própria comunidade.

Muitos museus também possuem bibliotecas e espaços interativos como cinemas, teatros, restaurantes entre outros. Nesses espaços acontecem diferentes eventos e programações desenvolvidas para vários tipos de público. Muitos desses espaços deixaram de ser apenas museus na sua forma tradicional e tornaram-se referências de lazer e cultura em suas cidades, passando a ser chamados de Centros Culturais, ainda que muitos mantenham o nome de museu. Em diversas cidades do Brasil e do mundo, existem e continuam sendo criados museus no formato de centro culturais. Para alguns museólogos, os centros culturais são a evolução do museu tradicional. Mantendo os princípios da museologia, os centros culturais geralmente são criados por empresas, para utilizá-los como instrumentos de visibilidade institucional. Com recursos próprios, os centros culturais produzem exposições, eventos e programas educativos diferenciados daqueles que normalmente são oferecidos pelos museus tradicionais. Através deles, é possível envolver-se com estímulos variados e simultâneos a partir de acervos múltiplos, onde cada espaço assume um sentido próprio, e onde tudo é informação. A informação não está disposta convencionalmente, mas de modo que o visitante não tenha dificuldades para encontrá-la.

Temos também os Centros de Memória. Mantendo os critérios da prática museológica, essas instituições também coletam, conservam, pesquisam e divulgam acervos que podem se referir a determinados períodos históricos. Em geral, esses espaços realizam exposições permanentes sobre um tema específico com diversos formatos. Também produzem periodicamente eventos para comemorar datas e acontecimentos importantes, e manter vivas essas lembranças na memória das suas comunidades ou de um país.

 

Resumo da Aula 04 – A Comunicação Museológica

A comunicação museológica é a denominação genérica dada às diversas formas que os museus usam para transmitir conhecimentos: exposições, artigos científicos, estudos de acervos, catálogos de coleções, filmes, teatros, palestras, oficinas, etc. É o cenário expositivo que se potencializa a relação entre o homem e o objeto, e é nessa relação que o público tem acesso à poesia das coisas, das pessoas, dos fatos históricos e dos lugares de memória. Aos profissionais de museus, cabe a tarefa de construir esse encontro, pesquisando os acervos, abordando temas socialmente relevantes, elaborando mostras e estudando as formas como os diversos tipos de público se relacionam com os objetos organizados em um cenário expositivo. O objetivo maior da comunicação museológica é de produzir emoções e reflexões que possam transformar a atitude das pessoas quando elas são confrontadas com suas realidades.

Nos primórdios da Museologia, as exposições tinham um caráter puramente contemplativo. Eram organizados de modo enciclopédico e somente pesquisadores eram capazes de perceber e entender essas estruturas e seus significados. Para o visitante comum, eram apreciadas passivamente, apenas para satisfazer curiosidades. Com o tempo, as exposições passaram a ser concebidas por equipes de especialistas, para serem compreendidas e provocarem uma atitude ativa e crítica no público. Assim surgiram as equipes interdisciplinares formada por pesquisadores, educadores, historiadores, designers, museólogos e outros especialistas da área da expografia. Atualmente se oferece ao público a oportunidade de aprender através de um comportamento ativo-cognitivo (intelectual, emotivo e crítico), interagindo com a exposição. É na interação ativa e crítica entre a mensagem apresentada e o visitante que a exposição permite que as pessoas vivenciem uma experiência de apropriação do conhecimento. A pesquisa de recepção de público estuda os modos e consequências do encontro entre a mensagem que se quer transmitir e o seu destinatário. O público, de fato, recria criticamente a mensagem (cada um do seu jeito), a partir do seu próprio universo referencial, fazendo uma síntese subjetiva do conteúdo. É nessa relação profunda entre objeto-sentido, tema-sentido e exposição-sentido que ocorre a reflexão, a aquisição do conhecimento e a mudança de atitude.

Os estudos de transmissão de mensagens através de exposições estão intimamente relacionados com a área da Comunicação Social. Por outro lado, pensar que existe um predomínio do emissor sobre o receptor sugere uma relação de poder, como se houvesse uma relação sempre direta, linear, de um polo (emissor) sobre o outro (receptor). Por isso, o processo comunicacional museológico não está na mensagem, e sim na interação. Museu é diálogo, e não um monólogo. Por isso, a avaliação de uma exposição se dá sobre os efeitos da interação com o público, e não sobre um processo linear entre emissor e receptor. A exposição é o local de encontro entre o que o museu quer apresentar, buscando provocar um comportamento ativo e crítico do público à sua síntese subjetiva. Uma exposição interativa é aquela que permite ao visitante caminhar livremente pelo seu espaço, observar os objetos, relacioná-los ao tema abordado, aprender o seu conteúdo temático, entre outros. Nela é possível observar, comentar, analisar, julgar, criticar, comparar, relacionar, lembrar, rejeitar, etc. É nessa relação que o público recria o discurso expositivo e dá a ele um novo sentido. As vezes acontecem ao mesmo tempo eventos sobre assuntos totalmente diferentes. São as chamadas “estruturas de acolhimento”, onde pode acontecer algo surpreendente. Isto também faz parte de uma experiência de qualidade.

 

Resumo da Aula 05 – Acervos Museológicos

A seleção de objetos é um critério fundamental, porque tem a ver diretamente com a proposta do museu de confrontar o homem com a sua realidade. Imagina uma caneta simples, como tantas outras canetas. Agora pense na caneta que a Princesa Isabel usou para assinar a Lei Áurea, que formalizou o fim da escravidão no Brasil. Esta não é uma caneta qualquer. É um objeto ligado a um fato histórico, e é isso que a torna diferente de todos os outros objetos, isto é, de todas as outras canetas. Quando você o vê em uma exposição, imediatamente pensa naquele episódio da História brasileira e no processo histórico que envolveu o fim da escravidão. Geralmente, tais objetos não são apresentados isoladamente. E sim são contextualizados em um tema e apresentados junto com outros objetos também significativos, para potencializar as reflexões sobre o tema que o museu quer abordar. Portanto, o elemento estruturador de uma exposição é o objeto museológico, e o cenário expositivo deve ser pensado para dar destaque a este objeto e ao seu significado. O objeto é a “musa” da exposição, seu elemento-chave. E o acervo museológico é o conjunto desses objetos institucionalizados em um museu. Portanto, um objeto institucionalizado é aquele que passa a fazer parte do acervo de um museu. Primeiramente ele é selecionado pelo seu valor intrínseco para integrar o acervo e, em seguida, é formalmente integrado a esse acervo pela institucionalização.

Não apenas objetos podem ser musealizados. Pode-se também musealizar monumentos, praças, prédios, cidades ou outras expressões da cultura consideradas significativas para um grupo social. Nesses casos, a institucionalização vai além dos museus e atingem outras instâncias institucionais, como, por exemplo, um município, um país ou até mesmo toda a humanidade. É assim que são constituídos os patrimônios culturais da humanidade. Um bem “tombado” é um bem patrimonial institucionalizado. Isso significa que ele foi “registrado” por uma instância governamental pela sua importância e, portanto, é protegido. Tombamento significa registro. O objeto musealizado é aquele que é selecionado para ser conservado em um museu, e o objeto tombado é aquele que não pode ser guardado em um museu. Assim são os bens culturais materiais e imateriais. Não é possível guardá-los em um museu, mas eles devem ser conservados, e por isso são registrados como patrimônio cultural, isto é, tombados. Por outro lado, o valor intrínseco de um objeto conservado em um museu, ou de um acervo museológico, só existe quando lhe é atribuído um sentido, isto é, quando possui um significado sócio-histórico. Para que isso aconteça, o objeto precisa que seja usado para transmitir conteúdo desse significado ou dessa cultura. Assim, o museu se torna o repositório desses sentidos e conhecimentos contidos nos objetos e acervos, e as exposições são os meios usados para transmitir esses saberes e significados.

Os recursos expográficos podem ser diversos: ambientes, trajetos, textos, legendas, desenhos, fotografias, etc., podendo formar um grande conjunto de efeitos especiais usados para explicar um conteúdo e enriquecer a experiência dos visitantes. É na interação do público com os objetos, acervos e com os recursos expográficos que os museus dialogam com as pessoas a respeito do tema em questão. Do mesmo modo, as pesquisas que se realizam sobre os objetos musealizados obedecem a critérios semelhantes à pesquisa histórica acadêmica. E o conhecimento produzido é o resultado da análise histórica de fontes documentais, onde o objeto é o próprio documento. Como o objeto é o próprio documento, é necessário de condições especiais para serem selecionados, guardados, pesquisados e seus conteúdos apresentados em um contexto temático para serem questionados pelo público. Como já vimos, existem vários tipos de acervos. Madeira, couro, metal e outros materiais têm tratamentos diferentes para que durem mais tempo e preservem suas características físicas.

Os acervos também podem ser vivos como, por exemplo, o jardim botânico ou zoológico, as plantas e os animais são conservados vivos, e assim são expostos. Há também os não-vivos que também podem ser conservados através da taxidermia (empalhamento). Tais acervos são conservados conforme as suas naturezas, e recebem um tratamento especial para aumentar sua durabilidade. As condições de higiene, temperatura, luz e outras variáveis climáticas são permanentemente controladas. Então, o objetivo da pesquisa museológica é de promover o uso social dos seus acervos, aproximando a sociedade dos significados que eles exprimem e os conhecimentos que neles existem.

 

Resumo da Aula 06 – Como os Museus, Centro Culturais e de Memória podem Apoiar a Pesquisa Histórica

No final da década de 1980, iniciou-se em várias cidades brasileiras e de outros países a criação de centros culturais que deram uma nova feição aos museus tradicionais. Também foram criados os museus comunitários, os centros de memória, os ecomuseus e os centros de referência. Os museus que aqui podemos citar são: Museu da Língua Portuguesa (SP), Museu de Astronomia e Ciências Afins (RJ), Museu Emílio Goeldi (PA) e Instituto Butantã (SP). Estas são instituições museológicas tradicionais que se especializaram no tratamento e pesquisa de acervos e temas específicos. Ao longo do tempo, os novos tipos de museus ajustaram suas programações a partir das demandas recebidas dos diversos públicos, adaptando-se aos seus acervos, recursos e aproveitando suas características físicas, espaciais e simbólicas. Por exemplo: estar localizado junto a uma natureza exuberante ou em uma área histórica da cidade, possuir uma bela arquitetura, entre outros aspectos. Sendo assim, programas educativos multidisciplinares passaram a ser criados para o aprendizado da História, usando novas linguagens e tecnologias para desvendar novas áreas do conhecimento histórico. Nesses programas, períodos e fatos históricos são revistos e analisados por vários ângulos da pesquisa histórica contemporânea, tornando-os atraentes para os diversos tipos de público.

Além de espaços expositivos e de lazer, muitos museus e centros culturais possuem ricas bibliotecas e núcleos de pesquisa histórica e de outras disciplinas. Tais pesquisas são geralmente atualizados a cada evento para serem divulgadas em site, livros, revistas e outros veículos publicados pela própria instituição. As apresentações musicais, de poesia, de contadores de estórias, visitas guiadas e outras atividades são direcionadas para um tema histórico escolhido e apresentadas em diferentes linguagens. Há também museus diretamente ligados a instituições de pesquisa. Muitas universidades possuem coleções nos seus centros acadêmicos para usá-las nas aulas práticas. Por exemplo: as faculdades de Medicina, Biologia, Odontologia, Geologia e outras áreas ligadas às ciências da terra possuem acervos que vão desde esqueletos humanos até espécimes de animais, plantas e minerais. O Museu da Energia Nuclear (Recife) é mantido pela Universidade Federal de Pernambuco. A Estação Ciência é ligada à Universidade de São Paulo.

Também existem os centros de referência, que são instituições especializadas na pesquisa de assuntos ou áreas específicas do conhecimento. Por exemplo: o Museu da Vida é ligado ao Instituto Oswaldo Cruz (RJ), que é um centro de referência na pesquisa biomédica. Há também os centros culturais privados que se especializaram em reunir, conservar e disponibilizar coleções específicas, geralmente ligada a artes plásticas e outras expressões culturais. O Instituto Moreira Salles (RJ, MG e SP) especializou-se em conservar e pesquisar acervos ligados à fotografia e à música popular brasileira. Todas essas instituições possuem sites, bibliotecas e laboratórios que podem ser visitados e usados para pesquisa. Por outro lado, muitos museus são localizados nos próprios prédios e lugares onde os acontecimentos ocorreram. As cidades históricas e os ambientes naturais também são uma boa forma de se ter contato com o espaço real e com as realidades. Visitar tais espaços permite trocar experiências e adquirir conhecimentos para a formação de pessoas capazes de interferir no presente. Além de promover a interação social, ampliam a observação, a percepção e a crítica, enriquecendo todo o processo de aprendizado. Portanto, visitar cidades históricas é uma forma de estabelecer contato direto com os ambientes onde os fatos ocorreram, favorecendo a observação, a percepção, a reflexão e a crítica.

 

Resumo da Aula 07 – Equipe Técnica de Museus

A ciência museológica atua sobre os métodos de seleção, conservação e pesquisa de objetos que possuam significados considerados importantes para os grupos sociais. Então, pode-se dizer que a museologia é um campo para profissionais que desejam trabalhar com a comunicação através dos objetos e acervos. Ou seja, trabalhar na seleção, restauração e conservação de objetos, pesquisa de acervos, elaboração de publicações, entre outros. O profissional de museu, seja de qualquer área, mas que atue no campo museológico, é legalmente regulamentado desde 1984. Seus direitos são preservados através dos Conselhos Regionais (COREM) e do Conselho Federal de Museologia (COFEM). As equipes que trabalham em museus são constituídas por profissionais de diversas formações, que atuam em áreas distintas: áreas de administração e documentação, historiadores, museólogos, educadores, arqueólogos, antropólogos, restauradores, designers, comunicadores e arquitetos. Dependendo do tipo de projeto, há profissionais de muitas outras áreas, formando uma equipe multidisciplinar.

Inicialmente, para se conceber uma exposição ou um evento e decidir sobre o seu tema e como abordá-lo, a direção do museu se reúne com o grupo de especialistas “da casa” para analisar a sua viabilidade. Nessa fase, são analisados: os recursos disponíveis (financeiros, materiais, etc), a importância do tema, a maneira para abordá-lo aos públicos que se quer atingir, se está de acordo com a ética, os objetivos e resultados que se quer alcançar. Além de riscos, condições de segurança, patrocinadores, entre outros. Depois vem as pesquisas.

Produzir um evento exige o envolvimento de toda a equipe do museu. As pesquisas iniciais normalmente são realizadas por museólogos, arqueólogos, etnólogos, biólogos, geógrafos e historiadores. Em seguida vem os educadores, museólogos, conservadores, programadores virtuais, comunicadores, arquitetos, designers, cenógrafos, cenotécnicos, aderecistas, artistas e outros. Tais profissionais serão precisos dependendo do tema a ser abordado. Durante o evento, atuam os seguranças, os monitores e assessores de imprensa. No final, é feita uma avaliação da atuação de cada uma das áreas envolvidas, além dos resultados produzidos sobre o público.

Diferentemente dos outros profissionais, as atenções do museólogo estão voltadas para a comunicação museológica. Por isso, ele se torna uma figura central como coordenador dessa grande equipe. Ele coordena os interesses de todos os profissionais em relação às expectativas do público e da própria instituição e seus parceiros. Ou seja, o museólogo atua simultaneamente como coordenador e comunicador. É ele quem seleciona os objetos do acervo do museu e atua em equipe. A relação que o público estabelece com os objetos, com os acervos e com a forma como eles são apresentados estimula a reflexão sobre o seu papel na sociedade. O museu torna-se um canal de comunicação e espaço de debate de temas importantes selecionados por diversos profissionais a partir de pesquisas realizadas sobre as demandas da sociedade.

O designer, o arquiteto e o próprio museólogo são os profissionais que dão destaque aos objetos e os inserem na cena expositiva, associando-os ao enunciado central até o seu desenvolvimento conceitual. Tais profissionais devem saber explorar criativamente o lado sensorial do visitante. Para isso, usam diversos recursos: cores, sons, luzes, temperaturas, aromas, etc., construindo um ambiente ao mesmo tempo agradável e harmonioso entre a forma e o conteúdo.

O papel do educador define os objetivos educacionais de uma mostra e as estratégias didático-pedagógicas a serem aplicadas. Para isso, ele pesquisa as reações dos visitantes diante de determinadas situações expográficas. Por trabalhar com estudantes, o educador entende o espaço expositivo como uma grande sala de aulas interativas. Atualmente, os programas educativos de museus, centro culturais e de memória são desenvolvidos por empresas especializadas, contratadas periodicamente através de editais.

Geralmente a instituição define quais tipos de público quer atingir. É um trabalho de inclusão social que requer uma pesquisa prévia de público. Por exemplo: uma amostra que quer receber deficientes visuais, crianças ou pessoas da terceira idade que necessitam de recursos especiais. Desse modo, os objetos devem ser escolhidos e dispostos de maneira conveniente, e o tema explicado de modo a favorecer os sentidos que faltam nesses públicos, para que a experiência seja a mais interativa possível. No caso dos deficientes visuais, devem explorar o tato, a textura, os aromas e os sons, e os textos em braile ou narrados por um monitor/gravação. Para os deficientes auditivos, é necessário o uso de Libras. Para as crianças, um tema deve ser apresentado através de jogos e brincadeiras. Para as pessoas de terceira idade, os textos devem ser em letras maiores, bem visíveis, entre outros. A qualidade de uma amostra é medida pela sua capacidade de acolhimento. O educador, o designer e o museólogo são profissionais fundamentais na construção da experiência criativa do público. Portanto, os profissionais que atuam em museus devem possuir conhecimento multidisciplinar.

Ao conservador cabe a tarefa de verificar as características do meio físico e as condições em que os objetos ficarão expostos, e realizar as ações de controle ambiental. A segurança é um aspecto fundamental para os museus e os acervos, seja pela responsabilidade de guardar e conservar objetos valiosos e frágeis, seja pelo risco de manipular, transportar e expor esses objetos em locais para públicos diferenciados. Para transportar e expor objetos raros e de valor é exigido um seguro contra danos de diversas naturezas, desde incêndio e furto até catástrofes naturais. Os valores desses seguros são expressivos. Já o historiador atua desde a concepção até as pesquisas de vários tipos que são necessárias para se realizar uma ação museológica. Em todos os segmentos do museu, o historiador estará presente para documentar todas as fases do projeto e comentar os seus resultados na perspectiva sócio-histórica daquele momento, ou seja, vai criticar a importância daquela ação sobre a sociedade na atualidade e as transformações que produziu o momento histórico presente. Para o historiador, o museu é o mundo.

 

Resumo da Aula 08 – Principais Conceitos Usados na Museologia

O objeto museológico é o objeto institucionalizado, isto é, musealizado. É aquele que é selecionado para integrar o acervo de um museu. Tais objetos não são neutros, e possuem um significado, um sentido simbólico, afetivo e informacional. Essa definição de objeto museológico remete ao conceito de musealização, ou seja, são valorizados como documentos e selecionados para provocar o confronto do homem com a sua realidade. Este confronto é fabricado no cenário museológico para ser pensado, discutido e entendido pelas pessoas. Por outro lado, é necessário que os museus não sejam usados como instrumentos de manipulação, pois o exercício da cidadania e do livre pensamento crítico é a finalidade almejada pela disciplina museológica. Os objetos museológicos devem ser preservados e usados pela sociedade como referências para refletir e agir sobre a realidade, pois a (re)construção da identidade cultural de um povo é baseada nas reflexões que esse povo faz sobre suas realidades, a partir do contato com o seu patrimônio cultural.

O fato museológico (ou museal) estabelece a relação entre o homem e o objeto em um cenário expositivo ou natural. A exposição também procede de uma seleção prévia de determinados objetos, tanto pelos valores que eles representam como pelo que se quer questionar sobre esses valores. O objeto não significa apenas o objeto físico, mas o conjunto das expressões que formam o patrimônio cultural, ou seja, as danças, a gastronomia, a literatura, a natureza, entre outros. São todas essas linguagens faladas, escritas, representadas que amplificam o sentido da palavra objeto, e que no seu conjunto constituem um acervo patrimonial. Então, o patrimônio cultural é formado pelo conjunto de objetos físicos (materiais), simbólicos (imateriais) e naturais (ambientes e lugares), e o fato museológico é o resultado do encontro do homem com esse patrimônio. Nos museus são mostrados em um cenário expositivo para provocar esse encontro do homem com a sua realidade. Nos ecomuseus, o patrimônio é a própria natureza, e o cenário expositivo é a própria paisagem. Nos museus comunitários, o patrimônio pode ser uma pessoa viva a quem foi atribuído um sentido, porque ela exprime a cultura daquele grupo.

A musealização é um dos conceitos-chave da ciência museológica, e é através dessa noção que se entende o valor dado aos objetos, isto é, pela sua capacidade de exprimir, significar, dar sentido. É um processo que se inicia com a seleção de um objeto pelo olhar museológico sobre as coisas materiais, naturais ou simbólicas, e a capacidade de perceber os sentidos que esse objeto pode possuir para a sociedade como um todo. O ato de musealizar considera a importância da informação trazida por eles em termos de documentalidade, testemunhalidade e fidelidade, além do seu poder de “questionar” para incitar as pessoas a refletirem e agirem sobre as suas realidades atuais. Resumindo, a musealização é um processo que integra a seleção, a preservação e a comunicação. Entretanto, o ato de musealizar um determinado objeto também pode conter uma intenção ideológica, pois é um processo seletivo impregnado de informações vinculadas a valores socioculturais que se quer transmitir para perpetuá-los. Em síntese, a musealização é um processo que realiza uma série de ações sobre os objetos: aquisição, conservação, catalogação, pesquisa e comunicação. Desse modo, pode-se musealizar os objetos por suas qualidades históricas, antropológicas, sociológicas, técnicas, artísticas, econômicas, etc. É daí que o conceito de musealização se imbrica com a noção de acervo e surgem novos conceitos, como os de “patrimônio comunitário”, “patrimônio integral” e “referência patrimonial”.

O patrimônio comunitário é o conjunto de bens partilhados por um grupo de pessoas instaladas em um espaço físico delimitado, e que ao longo do tempo criam hábitos próprios cuja preservação é importante para a identidade cultural daquele grupo. O patrimônio integral é o conjunto de bens naturais, materiais e imateriais que deve ser preservado para a integridade dos seres vivos. A natureza, o ar, a água e os valores universais como a ética, a justiça e a paz são bens patrimoniais integrais. Já a referência patrimonial é um elemento que pode ser um objeto ou uma expressão da cultura, ligado a um conjunto patrimonial maior e que pode representá-lo. Tais conceitos levaram à criação de vários tipos de museus: ecomuseus, museus de cidade, museus comunitários, museus de bairro, etc. Cada um com seus objetivos de desafios metodológicos de construir a relação entre o homem e o objeto.

 

Resumo da Aula 09 – Museologia: Principais Marcos Teóricos

Século XV: objetos raros e exóticos eram selecionados por critérios puramente pessoais e guardados em locais chamados de “gabinetes de curiosidades”.

Século XVI: a partir do Renascimento foram agregados aos objetos, além dos valores estéticos, monetários e, também, o valor histórico. Era o período da Revolução Comercial.

Séculos XVII e XVIII: com o advento da Revolução Científica, os objetos passaram a ser selecionados também pelo seu caráter científico, em geral ligados à História natural e cultural do Novo Mundo. Porém, foi durante a expansão imperialista europeia que os primeiros museus criados no século XVIII integraram às suas coleções, objetos que interessavam mais à pesquisa científica. Daí em diante, os museus passaram a ser abertos ao público e tornaram-se centros de produção de conhecimento, principalmente para a História Natural e para a Antropologia. Desde então, os objetos deixaram de ser coletados somente pelo seu caráter científico e passaram a ser também selecionados e exibidos para ilustrar aquele período histórico, como símbolos de riqueza e domínio europeu sobre o mundo.

Século XIX: as exposições foram marcadas por uma forma enciclopédica de apresentar as coleções.

Século XX: ainda que os museus tenham passado a estar abertos ao público e voltados para a divulgação de conhecimento, somente no início do século XX esse propósito foi ampliado e organizado como uma ação efetiva, especialmente na França, para depois ser copiado por outros países. Portanto, o resultado prático desse primeiro pensar museológico foi a criação de uma pedagogia museal. É dessa época em diante que a Museologia passa a ser epistemologicamente pensada, isto é, pensada de uma forma organizada, ordenada. A Museologia passa a existir de fato como ciência. Mas ainda nessa fase, persistia um problema: como e o que exibir nas exposições ainda era decidido por um pequeno número de especialistas que não consideravam o olhar público. Não havia diálogo na comunicação museológica. O público não interagia com a mostra. E os museus brasileiros seguiram esse mesmo modelo.

No Brasil, os museus de ciência foram os primeiros a receber regularmente grupos de estudantes e escolas. Por isso, foram os pioneiros na criação de serviços de difusão educativa para a divulgação dos resultados das suas pesquisas para os jovens e os leigos através da linguagem mais acessíveis. O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi o primeiro a criar uma área de difusão educativa para transmitir seus estudos de Antropologia e História Natural. Em seguida foi o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Museu Paulista, o primeiro estudava a natureza amazônica e o segundo, também estudava a História Natural do Brasil e outros países da América do Sul. O Butantã em São Paulo e Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, também seguiram os mesmos passos.

Sendo assim, as primeiras questões pensadas pela ciência museológica foram a recepção de público e a transmissão de conhecimento para públicos constituídos por não especialistas. Foi somente na década de 1970 que começaram a surgir os chamados “museus vivos” ou “interativos”. No início, eram grandes aquários e zoológicos onde os animais ficavam soltos em seu habitat natural, e as visitas eram guiadas por biólogos e oceanógrafos que explicavam ao público os conhecimentos sobre a fauna e a flora. Como exemplo temos o Simba Safari e Estação Ciência em São Paulo, o Museu da Vida no Rio de Janeiro, e o Projeto Tamar na Bahia. Tais iniciativas trouxeram para os museus a interatividade, e mudaram o conceito de musealização.

A história da Museologia também teve declarações importantes. São eles:

  • Declaração do Rio de Janeiro (Brasil – 1958): destacou a importância dos museus como recursos educativos, trazendo um novo entendimento ao objeto museológico mais valorizado no seu conjunto com outros objetos do que pelo seu valor isolado;
  • A Carta de Veneza (Itália – 1964): ampliaram a noção do patrimônio, incorporando os bens naturais e a arquitetura das cidades como referências patrimoniais. Também trouxe a pesquisa sobre o relacionamento das pessoas com a natureza e com as cidades. O objetivo foi ampliar e democratizar o conhecimento sobre o patrimônio. Os parques naturais, as praças e prédios passaram a ser considerados referências patrimoniais, e com o tempo tornaram-se mais acessíveis à população;
  • 9a Conferência do Conselho Internacional de Museus – ICOM (França – 1971): mostrou a necessidade de dar aos museus uma dinâmica mais adequada. Nessa época, a sociedade pressionava por mais liberdade de expressão. Foi pela primeira vez apresentado a ideia de uma Museologia comprometida com as questões políticas da época, a “Nova Museologia”;
  • Mesa Redonda de Santiago (Chile – 1972): esse encontro, com influência da UNESCO, produziu um documento considerado dos mais importantes para a Museologia, que apela para uma ação museológica comprometida com a sociedade, com a economia, com a educação e política. A noção de patrimônio foi ampliada para objetos e monumentos a serem preservados em seu próprio local de origem. Também surgiu a ideia de patrimônio cultural da humanidade, aplicado para cidades, monumentos e bens naturais;
  • Declaração de Quebec (Canadá – 1984): a “Nova Museologia” é reconhecida e, como consequência, é criado no ano seguinte o Movimento Internacional para uma Nova Museologia (MINOM). É também lançado o conceito de ecomuseu, dando origem aos museus comunitários e centros de referência;
  • Declaração de Oaxtepec (México – 1984): é lançado o conceito de ecodesenvolvimento, que consiste em promover a emancipação cultural, econômica, social e ambiental de populações instaladas em locais específicos e delimitados;
  • Declaração de Caracas (Venezuela – 1992): a partir de 1990, diversas instâncias governamentais e não governamentais passaram a fazer parte das discussões museológicas. A Declaração de Caracas, junto com a Eco-92 (RJ), atualizou os conceitos de patrimônio integral e museu integral propostos na Mesa de Santiago (1972). A ideia de patrimônio mundial da humanidade se fortaleceu, e as ações dos profissionais passaram a ser reconhecidas pelos governos. E, também, surge a noção de Pedagogia do Patrimônio e de Tesouros Humanos Vivos;

A Pedagogia do Patrimônio abrange todas as ações pedagógicas fundamentadas sobre o patrimônio cultural. Ou seja, o patrimônio cultural pode ser ensinado através de qualquer método, programa ou disciplina, e esse ensino pode ser destinado a alunos de qualquer nível escolar ou social. Os Tesouros Humanos Vivos (ou Patrimônio Cultural Vivo) mantém fortes ligações com o passado, e reconhece a fragilidade de várias expressões culturais que estavam em vias de extinção. Assim, para proteger essas referências culturais, a Declaração de Caracas propôs o reconhecimento dos Tesouros Humanos Vivos.

A Política Nacional de Museus (PNM) é um documento emitido pelo Ministério da Cultura em 2003, e o seu objetivo é democratizar os museus. Tal postura defrontou os museus brasileiros com os seguintes desafios: Promover e incentivar a criação das disciplinas para debater o patrimônio cultural e proteger a memória coletiva; Criar e implantar sistemas para identificar e classificar Tesouros Humanos Vivos; Estudar, refletir discutir e apresentar modos e estratégias para que os museus possam se aproximar das comunidades e suas expressões culturais.

 

Resumo da Aula 10 – Curadoria em Museus

A palavra “curador” vem da expressão latina tutor, e significa “aquele que cuida”. Nos museus, os curadores são responsáveis pela administração de uma exposição em todas as suas fases e níveis. Geralmente são profundos conhecedores do tema abordado ou, conforme o tipo da mostra, especialistas em História, Filosofia ou Estética. Os objetos musealizados são escolhidos pelo curador, ou por uma equipe de curadores, a partir dos seus significados e capacidades expressivas. As demais responsabilidades e tarefas administrativas são distribuídas, as vezes, pelo próprio curador. Este foco na interpretação explica por que a curadoria é sempre considerada o coração de uma exposição museológica. Mesmo naquelas exposições em que não existe uma coleção a ser mostrada – centros de ciências ou de museus para crianças -, é necessário interpretar a pesquisa feita pela curadoria, pois é através dela que será elaborada a narrativa do conteúdo que a exposição irá apresentar ao público. Quando não há um curador, normalmente são os museólogos ligados à própria instituição que se incubem dessa responsabilidade. Há também os “curadores convidados” como artistas, educadores, especialistas, colecionadores, entre outros. Esta característica não altera o caráter fundamental da curadoria. Seja individual ou em equipe, é uma função estratégica que exige esforço de pesquisa e deve ser bem executada.

No planejamento de uma exposição museológica, a curadoria necessita fazer: idealizar e formular o conceito da exposição; pesquisar o tema; analisar e selecionar os objetos; documentar os objetos selecionados; preparar e ordenar as legendas, os textos, os gráficos e demais instrumentos; avaliar o resultado. Pois a ideia central de uma exposição é a estratégia criada pela curadoria para abordar uma questão e propor uma reflexão. Os objetos são os principais ingredientes de uma exposição, e o modo de distribuí-los no espaço físico é a primeira preocupação dos organizadores de uma mostra. Em uma mostra que apela para o sentido estético, a reação mais comum é a simples contemplação. Este tipo de mostra propõe uma experiência mais orientada às emoções e sentimentos. Nas exposições de tipo histórico, os objetos são organizados dentro de vitrines ou inseridos em dioramas (representação de uma cena), ou ainda dispostos em galerias usadas para auxiliar a compreensão de tema ou relacioná-los entre si dentro do contexto. As exposições do tipo exploração apresentam temas arqueológicos ou de história natural. A disposição do acervo segue uma ordem cronológica, onde toda a superfície do piso e da parede é utilizada para exibi-lo. Já as exposições interativas incluem experimentos, simulações e demonstrações ao vivo. Geralmente são apresentadas em museus de ciência e tecnologia, salas multimídia, aquários, planetários e parques temáticos.

 

Bons estudos! 🙂

Marcell