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Ola pessoal!
Tudo bom?

Nesta postagem será apresentada o resumo das aulas da disciplina História Moderna: Da Formação do Sistema Internacional do 4º Período do curso Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

Vamos lá?

 

Resumo da Aula 01 – A Europa Moderna

A Idade Moderna é o termo que usamos comumente para designar o período entre os séculos XV e XVIII. É um período relativamente curto, se considerarmos que a Idade Média se situa entre os séculos V e XV. Em História, devemos formular nosso entendimento de tempo. Nos dias de hoje, as mudanças ocorrem muito rapidamente. Regimes de governo desaparecem e são substituídos. Ideologias, sistemas políticos, ideias, tecnologias. Algo que hoje é “moderno”, amanhã será obsoleto.

Nos três séculos que durou a Idade Moderna, grandes transformações se operaram sob diversos pontos de vista. É claro que ainda restaram heranças do período medieval, mas poderíamos dizer que a Idade Moderna marca a transição entre o mundo medieval e o contemporâneo, em todos os aspectos da vida em sociedade.

Durante a Idade Média, vigorou o modo de produção feudal ou feudalismo. Nesse modo de produção, não havia um estado centralizado, mas diversos feudos, comandados por um senhor feudal com plenos poderes. Os servos aravam a terra para o senhor e recebiam em troca proteção e parte da colheita. A outra parte ia para o sustento do senhor. Os servos estavam ligados à terra e eram responsáveis por todo o trabalho, além de pagarem diversos impostos ao seu senhor. Por um outro lado, os servos não tinham status de mercadoria como os escravos. Seus direitos e deveres eram diferentes daqueles atribuídos aos escravos e ele era a princípio, livre, ainda que tivesse ligado à terra e devesse obrigações ao senhor feudal.

Em uma realidade fragmentada como a medieval, não havia sentimento ou identidade nacional. A identidade que os diversos feudos tinham em comum era dada pelo catolicismo, já que a mesma religião era professada nas diversas regiões. No caso ibérico, essa identidade religiosa foi imprescindível para aglutinar a população em torno do rei. Isabel e Fernando, reis de Aragão e Castela, terão o título de reis católicos, concedido pelo Papa, em uma demonstração de que a Igreja via a união com bons olhos.

A burguesia tinha grandes interesses em um estado centralizado. A centralização do poder nas mãos do rei seria o ponto de partida para o modo de governo que caracterizaria a Idade Moderna: o absolutismo. Ainda que Portugal e Espanha tenham sido os primeiros a se unificar, é a França que é considerada o modelo de absolutismo por excelência. Na Inglaterra, isso ocorre durante o reinado de Henrique VIII e o modelo de rei absoluto francês é Luís XIV, o Rei Sol. Entretanto, o estado absolutista que antes era importante para os burgueses, se torna um obstáculo para o desenvolvimento mercantil. À medida que o estado interfere diretamente na economia, este desenvolvimento encontra-se limitado, pois acaba tendo que abarcar as necessidades burguesas e as necessidades reais. A burguesia arcava com os custos do estado, mas estava fora das decisões político administrativas.

Se na Idade Média a medida da riqueza era a terra, agora passa a ser o metal precioso que o estado acumula. Essa característica é chamada de metalismo. O metal é necessário para a cunhagem de moedas, que por sua vez, implica na compra de mercadorias, que por sua vez implica no lucro gerado pela venda destas mercadorias, que por sua vez, implica no acúmulo de moedas. A ideia geral é que ao acumular e investir na moeda, ela geraria lucro, tornando o estado, a nobreza e os burgueses, cada vez mais ricos.

O mercantilismo não é um sistema econômico, mas um conjunto de práticas econômicas característicos dos estados modernos. É possível afirmar que o mercantilismo daria origem ao sistema capitalista, e alguns teóricos entendem esse momento como o início do capitalismo comercial. Outra prática mercantilista é a balança comercial favorável. Vender mais do que comprar, ou seja, exportar mais do que importar para que não haja déficit. Mas nem todos os reinos conseguiram aplicar esta medida. Espanha e Portugal, por exemplo, mesmo recebendo toneladas de metais preciosos de suas colônias, viviam em constante déficit financeiro devido as muitas mercadorias compradas na França e na Inglaterra, além de contraírem empréstimos com os holandeses. O ouro e a prata da América apenas passavam por Portugal e Espanha, mas iria enriquecer os cofres dos outros reinos.

Temos também os lances do protecionismo e das práticas do monopólio, onde o estado taxava os produtos estrangeiros, como forma de estimular uma nascente manufatura nacional. Também estabelecia monopólios comerciais, como é o caso do pacto colonial. Mas é importante perceber que a Idade Moderna não rompe completamente com a estrutura medieval, mas a transforma, agregando novos elementos dando origem a um novo modelo de sociedade.

 

Resumo da Aula 02 – As Grandes Transformações

Quando falamos sobre Idade Média, a influência católica é claramente percebida durante toda essa época. A Igreja possui não só o poder espiritual, mas um enorme poder político e econômico. Em uma Europa fragmentada, o catolicismo acaba se tornando a única identidade que a sociedade possui. Os livros eram copiados a mão nos mosteiros e então distribuídos pelo continente. Ou seja, a Igreja claramente escolhia o que seria lido ou não pelos fieis. O que podemos concluir é que as tarefas eclesiásticas estavam muito além daquelas concernentes ao mundo espiritual. Com a unificação dos estados, a Igreja passa a ser parte integrante, indissociável, da nova estrutura de poder. O melhor exemplo disso é seu papel desempenhado na unificação da Espanha e na partilha das colônias ultramarinas entre os reinos ibéricos. Não podemos esquecer também que a unificação espanhola somente ocorreu de fato após a expulsão dos muçulmanos de Granada, o que tornou a fé católica hegemônica no reino.

Também cabia a Igreja a confecção dos chamados registros paroquiais. Além de documentos diversos, os registros de nascimento, morte, batismo e casamento eram realizados por esta instituição que servia então como uma espécie de cartório. Em 1494, o papa serve como intermediário na assinatura do Tratado de Tordesilhas que divide as possessões ultramarinas entre Portugal e Espanha. A utilização do papado como intermediário garantia aos reinos ibéricos a legitimidade do acordo, que estaria, portanto, aprovado por Deus, representado pelo papa.

Mas essa adequação não se deu sem conflitos. Se os ibéricos aceitaram como “natural” a intervenção da Igreja católica nos assuntos do estado, o mesmo não ocorreu na Inglaterra através do pedido de divórcio de Henrique VIII.

Por um outro lado, é certo que as reformas religiosas possuem um fundamento intrinsecamente político, mas é na reforma anglicana que este aspecto se torna mais evidente. De fato, devemos entender estas reformas no grande conjunto de transformações das mentalidades vivido entre o final da Idade Média e o início da Era Moderna. É o lance dos renascimentos: comercial, urbano, científico e cultural. O renascimento cultural é sempre o primeiro que nos vem em mente por ter deixado um enorme legado, a arte renascentista. O renascimento cultural é fruto da mudança de mentalidades que ocorre em sua época, especialmente entre os séculos XIII e XVI. Na Idade Média, a arte, que privilegia temas religiosos, está sob a influência da Igreja. As obras medievais são quase como uma ilustração da Bíblia, retratando passagens famosas ou o martírio e a vida dos santos católicos.

Na Idade Média, os burgos, as cidades medievais, ficavam geralmente em uma confluência, caminhos de passagem entre vários feudos, cujos servos se dirigiam até lá para trocar seu excedente agrícola. Nessas cidades ocorriam as feiras. Com a crise do século XIV, essas cidades de desenvolvem e se tornam grandes centros comerciais. Contudo, algumas cidades italianas, que possuíam uma posição geográfica privilegiada, se desenvolvem antes e mais rapidamente. É o caso da Veneza e Florença, cujo mercado se deu através do comércio de bens de luxo, vindos do Oriente. Esse comércio fez surgir uma burguesia sólida, que passou a se dedicar não só ao comércio, mas também as atividades bancárias, acumulando grande capital. Essa burguesia passa a financiar os artistas do renascimento, encomendando obras para adornar seus palácios residenciais ou seus locais de trabalho. Por isso que um dos maiores museus do mundo, a Galleria Degli Uffizi, que fica em Florença, contém um imenso acervo de arte renascentista e era onde a família Médici, que governava Florença, exercia suas funções administrativas.

O renascimento, a reforma e a expansão marítima evidenciam que não há só um novo mundo a ser conhecido, mas, sobretudo, um novo homem. Na Idade Moderna, se forma uma nova concepção de indivíduo, de Estado e de sociedade. Segundo Jacob Burkhardt, na Idade Média, o homem reconhecia-se a si próprio apenas como raça, povo, partido, corporação, família ou qualquer outra das demais formas de coletivo. Na Itália, pela primeira vez, desperta ali uma contemplação e um tratamento objetivo do Estado e de todas as coisas deste mundo. O homem torna-se um indivíduo espiritual e se reconhece como tal.

 

Resumo da Aula 03 – A Europa no Século XVII

Um dos campos privilegiados onde podemos notar a herança medieval é, sem dúvida, a religião, mas as manifestações artísticas do período também demonstram esses conflitos. A arte engloba vários campos de produção, como a arquitetura. Então podemos ver que o renascimento retoma conceitos estéticos da antiguidade clássica, valorizando a cultura greco-romana. Todavia, o movimento de contrarreforma no século XVI, em especial após o Concílio de Trento, fez com que a Igreja revisse sua posição em relação à arte renascentista, da qual ela tanto se beneficiaria no século interior. Com o concílio, cujo um dos objetivos era reagir à expansão do protestantismo, o catolicismo reforça seu aspecto moral especialmente no que concerne as artes plásticas. Podemos citar, como exemplo, a Capela Sistina, uma das obras primas de Michelangelo.

Tradicionalmente, entre a Idade Média e a Moderna, havia na Itália algumas famílias particularmente poderosas. Essas famílias possuíam terras e, com o renascimento urbano e comercial, passaram também a se dedicar ao comércio e às atividades bancárias. A herança familiar cabia ao filho mais velho e, por isso, os demais filhos deviam seguir carreiras de prestígio, e nada mais prestigioso que a Igreja. Era comum que membros de família poderosa tornassem cardeais e, portanto, aspirantes à cadeira do papa. O novo pontífice não é somente o chefe da Igreja Católica, mas também um chefe de estado. Por um outro lado, a Igreja possuía um vasto território, muito maior do que lhe cabe em nossos dias. Sendo assim, a eleição do papa não era apenas uma questão espiritual, mas, sobretudo política.

Outras formas artísticas surgiram particularmente influenciadas pelo pensamento católico. Dentre elas, destacamos o barroco, um estilo importante não só na Europa, mas também nas colônias americanas, em especial no Brasil. Nos países marcadamente católicos, como Itália, Espanha e Portugal, o barroco se desenvolveu e chegou às colônias, tendo sido uma das principais manifestações artísticas do período colonial. Ainda que a arte barroca tenha um viés religioso, ela em nada se parece com a arte medieval. Diversos elementos renascentistas foram incorporados nos estilos que seguiram o renascimento e com o barroco não foi diferente. As paisagens realistas, os retratos anatomicamente bem feitos, a noção de profundidade fazem parte do legado renascentista para a arte moderna.

No Estado de Minas Gerais (Séc. XVIII), destaca-se a obra de Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), escultor, entalhador e arquiteto. Já na Bahia (Séc. XVII), coexistem diversas irmandades que erguem vários templos aos santos de sua devoção.

O embate entre o classicismo e barroco reflete a luta entre a Igreja e a ciência, a fé e a razão, tão característica da Idade Moderna. Enquanto o barroco florescia nas artes, diversos cientistas faziam enormes avanços em suas áreas de conhecimento, como Kepler, com seus estudos sobre o movimento dos planetas e Isaac Newton, com a Teoria da Gravidade. Com a contrarreforma e as atividades intensas da Inquisição, os diversos cientistas que contestavam os princípios católicos eram expostos a constantes processos e investigações, que culminavam, em alguns casos, com a morte na fogueira, como ocorreu com Giordano Bruno. Dentre os pressupostos da contrarreforma, estava também a expansão da fé católica, e as colônias americanas representavam um vasto território a ser conquistado, em termos espirituais. A proximidade entre a Igreja e o Estado Ibérico permitiu a chegada da cultura europeia ao continente americano.

Durante a Idade Média, eram comuns os conflitos armados, dentro e fora da Europa. Podiam se referir as disputas dinásticas, como a Guerra das Duas Rosas, na Inglaterra, ou longos embates religiosos, como é o caso das Cruzadas. Com a centralização dos Estados nacionais, essa situação não se alterou muito, mas agora as disputas assumiam um caráter nacional e estavam diretamente relacionadas a busca por territórios e a conquista de novos mercados, dentro dos parâmetros do mercantilismo. Porém, nem todos os estados se centralizaram. A Itália e a Alemanha permaneceram divididas em reino, por várias razões entre elas, a questão religiosa, já que o papado possuía diversos reinos, sobretudo na Itália.

O equilíbrio de poder entre as nações europeias, centralizadas ou não, era frágil. Havia disputa pelas possessões ultramarinas, reivindicadas pela França, por exemplo, que não reconhecia o Tratado de Tordesilhas. Soma-se a esse contexto, a ameaça de invasão dos turcos em regiões do Sacro Império Romano Germânico e da Península Itálica e temos uma Europa em ponto de ebulição. Nestas condições, um conflito armado não tardaria a acontecer e em 1618, tem início a Guerra dos Trina Anos, que começou na cidade de Praga, na atual República Theca, que na época era governada pelos Habsburgos. A Dinastia Habsburgo era católica e buscou na religião o princípio unificador entre os estados. Entretanto, a reforma já se espalhara pelos reinos e os protestantes se opuseram à iniciativa de consolidação do catolicismo na região, que opôs duas ligas: a Liga Evangélica, dos princípios protestantes e a Liga Sagrada, dos princípios católicos.

Quando a França ganha a guerra em 1648, não podemos afirmar que o catolicismo tenha sido derrotado, pois o estado francês não abandonou essa religião. A derrota foi imposta a uma dinastia e seus aliados católicos, e não ao catolicismo. A Paz de Vestfália foi uma série de tratados que alteraria a configuração geopolítica europeia para selar o fim do conflito. A França incorpora a região da Alsácia, dentre outros territórios. A Holanda e Suécia são reconhecidas como Províncias Unidas e Confederação Suíça. O Sacro Império Romano Germânico, derrotado, fragmenta-se ainda mais, dividindo-se em reinos menores, o que pode significar a unificação tardia da Alemanha, que ocorrerá somente no século XIX.

Do ponto de vista religioso, os tratados garantem liberdade de culto para católicos, luteranos e calvinistas, o que acaba com as pretensões dos Habsburgos de instituir o catolicismo como religião hegemônica. Vestfália é emblemática porque inaugura o chamado sistema internacional moderno, pois pela primeira vez são reconhecidos princípios de soberania e a ideia de estado-nação.

 

Resumo da Aula 04 – O Projeto Colonial Europeu

A existência de novas terras, embora não estivesse provada, não era exatamente um mistério. Vários navegadores, cartógrafos e astrônomos já haviam indicado que estas terras deveriam existir. Mas as expedições eram caras e esse era um investimento de alto risco. Foi necessária uma série de fatores para que esta expansão pudesse de fato ocorrer, dentre elas, com apoio político e financeiro do estado e a existência de uma burguesia disposta a investir naquilo que seria, a princípio, uma aventura arriscada. Os ibéricos saíram na frente. Em parte por sua localização geográfica privilegiada, em parte pela centralização precoce de seus estados.

Se no início da expansão foi um processo diferente para cada país europeu, mais ainda é a empresa colonial montada por cada uma dessas nações. Durante muito tempo, convencionou-se dividir os projetos coloniais em colônia de exploração e de povoamento. Em uma análise superficial, apontava-se que a colonização ibérica era de exploração, pois tinha como objetivo fundamental explorar as terras descobertas sem o intuito de desenvolvê-la. Já a colonização inglesa seria de povoamento, pois a aplicação da negligência salutar teria concedido às colonias autonomia suficiente para que tivessem uma organização política própria, sofrendo uma interferência menor da Coroa do que o que foi aplicado no Brasil e em boa parte da América. Ainda que as colonizações tenham sido diferentes, tinham um objetivo em comum: gerar lucro para a metrópole.

A Espanha, enquanto metrópole, buscou sempre impor um rígido controle sobre suas colônias, através da criação de diversos mecanismos administrativos. Quando falamos sobre a chegada dos espanhóis na América, lembramos muito dos impérios Inca e Asteca. Embora tais sociedades tenham sido as mais notórias, haviam diversas outras sociedades indígenas, em diferentes graus de desenvolvimento. A grandeza desses impérios americanos impressionou os espanhóis, mas isso não os impediu de subjugar essas sociedades, em busca do ouro e da prata que a Europa tanto necessitava. No século XVIII, a Espanha havia formado um extenso império, que ocupava grande parte das terras americanas. Mas os conflitos sociais eram recorrentes e os problemas administrativos como a corrupção eram constantes. As disputas de poder entre criollos e chapetones acabaram sendo um dos principais motores da independência das colônias espanholas, no século XIX, pois, durante o século XVIII, por questões internas da Espanha, o poder metropolitano foi se tornando cada vez mais frágil.

Durante o século XVIII, a Espanha passou por uma grave crise sucessória, que provou a Guerra da Sucessão, envolvendo diversos reinos europeus. O rei Carlos II, da dinastia Habsburgo, casado com uma princesa francesa, não tinha herdeiros. O rei francês Luis XIV, reivindicava a posse do trono espanhol para seu neto, Felipe, já que com a morte de Carlos II, o trono ficaria vago. Um herdeiro francês no trono espanhol significa uma brecha para França no continente americano. Então, iniciou-se um conflito culminando na vitória francesa e a ascensão de Felipe V ao trono. O novo rei precisou assinar o Tratado de Utrecht que permitia a Inglaterra comercializar com as colônias espanholas, o que quebrou o monopólio sobre o comércio que a Espanha mantivera até então.

De fato, o século XVIII foi extremamente conturbado no continente europeu. Toda a Europa sofreu o reflexo da Revolução Francesa de 1789 e da expansão napoleônica que a seguiu. As independências que ocorreram no século XIX, têm sua origem nos acontecimentos do século XVIII. A Espanha foi invadida por Napoleão, o que abalou sua estabilidade e tornou-se incapaz de administrar suas colônias com o rigor usual. Por um outro lado, com o aumento das exigências metropolitanas, o clima da insatisfação entre a elite criolla local cresceu, disseminando as propostas de rompimento. Os criollos reivindicavam autonomia política e os dois principais líderes do processo de emancipação foram José San Martin e Simon Bolívar. Simon Bolívar defendia que as ex-colônias deveriam formar um único país, de dimensões continentais, em uma ideologia que ficou conhecida como Bolivarismo. Entretanto, embora aparentemente as antigas possessões espanholas tivessem muito em comum, tinham também muitas diferenças e interesses conflituosos. A estrutura majoritariamente agrária da América Latina permaneceu no pós-independência e manteve-se como um legado do passado colonial. Quando compararmos os processos de formação dos estados nacionais latinos e norte americanos, vemos que, embora diferentes, ambos mantiveram resquícios de seus legados coloniais.

Quando a Inglaterra tomou posse no território americano, não havia a princípio, nada que justificasse um intenso esforço de exploração. Além disso, a Inglaterra passava internamente por duras disputas religiosas entre católicos e protestantes que se arrastavam por vários anos, até encontrar uma paz relativa no reinado de Elizabeth I. Entre os Ibéricos, a posse da terra era concedida a ricos fidalgos ou a nobres, enquanto na América inglesa, pequenos lotes eram distribuídos aos cidadãos comuns. No aspecto político, os colonos ingleses possuíam maior autonomia, embora seguissem as leis inglesas, estavam organizados em câmaras e legislavam sobre os assuntos locais.

Entre 1756 e 1763, a Inglaterra envolveu-se na Guerra dos Sete Anos contra a França. Embora tenha saído vitoriosa, a Inglaterra sofreu grandes prejuízos e viu na exploração colonial a maneira de diminuir a crise econômica que se alastrava pelo reino. Então, a Coroa aumentou os impostos e criou novas taxas para poder recuperar seus cofres e estabelecerem diversas novas leis nas quais submetiam os colonos ao jugo metropolitano. Essas leis foram chamadas de “Leis Intoleráveis” e provocaram uma enorme reação colonial. Em 1774 houve o primeiro congresso na Filadélfia onde buscava um acordo com os ingleses. Mas a Coroa permaneceu irredutível e, em 1776, os Estados Unidos declaram sua independência e entram em guerra contra a Inglaterra. Os ingleses foram derrotados e tiveram que reconhecer a emancipação das 13 Colônias em 1783. Em 1787, foi promulgada a Constituição, a mesma que vigora até os dias de hoje, garantindo os direitos nacionais. Contudo, cabe a cada estado legislar sobre os aspectos que não estão contemplados na Constituição, permitindo a manutenção do sistema escravista. Nos estados do Sul, os negros possuíam suas próprias escolas, eram separados nos transportes coletivos e proibidos de frequentar os mesmos estabelecimentos que os brancos, em uma realidade que perdurou até a década de 1960.

Como pudemos perceber, as ex-colônias inglesas e latinas, guardam em suas estruturas socioeconômicas uma enorme herança de seu passado colonial. No conjunto da era moderna, o processo colonial foi fundamental para a consolidação dos estados nacionais europeus e à medida que estes enfraqueciam, ruía igualmente seu poder sobre as colônias. Foram os conflitos vivenciados pelos reinos europeus que proporcionaram as condições para os movimentos de independência e para a formação dos estados nacionais americanos que, mesmo livres de jugo metropolitano, ainda se mantiveram atrelados a um passado colonial.

 

Resumo da Aula 05 – O Oriente Moderno

Quando falamos sobre História Moderna, imediatamente nos vem à mente a ascensão dos reis absolutistas europeus e a formação dos Estados Nacionais, mas e a Idade Moderna fora do contexto europeu? O Oriente sempre atraiu os olhares curiosos dos europeus. Um exemplo disto é a jornada do veneziano Marco Polo, no século XII. Polo teria vivido na corte de Kublai Khan, um dos mais poderosos imperadores do seu tempo e, ao regressar para a Europa, descrevera as maravilhas e os mistérios orientais. O historiador indiano Sanjay Subrahmanyam enfatiza que a história da Eurásia moderna não pode ser vista como mero produto ou resultado do “comando” da história européia, sem a qual, supostamente, não existiria. De modo geral, o que os historiadores contemporâneos questionam é a própria visão de Oriente, construída pelos europeus ao longo de sua história. Segundo Edward Said, o Oriente não é apenas adjacente à Europa; é também o lugar das maiores, mais ricas e mais antigas colônias europeias, a fonte de suas civilizações e línguas, seu rival cultural e uma de suas imagens mais profundas e mais recorrentes do outro. Além disso, o Oriente ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente) com sua imagem, ideia, personalidade, experiência contrastante. Partindo destes pressupostos, veremos a expansão e a consolidação dos impérios chinês e japonês, entendendo a história oriental e ocidental como conectada.

A China Sob a Dinastia Ming (1850) – O apogeu do Império Chinês ocorreu durante a Dinastia Ming, que governou a China entre os séculos XIV e XVII. Os grandes símbolos chineses, como a Muralha da China e a Cidade Proibida foram construídos durante o governo Ming. Durante o último período desse governo, a China passou por uma crise agrária devido as péssimas condições climáticas. Tais problemas deram início à fome que, aliada à cobrança de impostos por parte do Estado, provocou uma enorme insatisfação da população chinesa. O governo Ming estava em declínio e era vulnerável, sobretudo, nas fronteiras, onde estava sujeito a diversas invasões.

Dinastia Qing (última Dinastia Chinesa) – Em meados do século XVII, os manchus, que habitavam na região da Manchúria, nordeste chinês, invadiram a China e tomaram o poder, inaugurando uma nova dinastia, a última, Dinastia Qing. Assim como havia sido ocorrido na Dinastia Ming, a figura do imperador era sagrada. Seu poder remete ao dos reis absolutos europeus, tendo o poder decisório definitivo nas questões políticas e religiosas. O Estado Chinês era extremamente complexo e possuía diversos ministérios.

China e Tibet na Dinastia Qing – O poder não era necessariamente hereditário, o imperador podia escolher seu sucessor entre seus filhos ou entre um parente, sempre do sexo masculino. Sob essa dinastia, a China conheceu uma enorme expansão territorial englobando a Manchúria, a Mongólia e o Tibet. Interessante saber que em 1950, o Tibet foi invadido pela China durante o governo comunista de Mao Tse Tung. O líder tibetano era também líder religioso, Dalai Lama, e que foi expulso pelos chineses permanecendo até hoje um político exilado. A presença chinesa no Tibet não é uma novidade, embora o caráter violento que ela assumiu, no século XX, não tenha tido precedente. Durante a Dinastia Qing, Dalai Lama tornou-se o conselheiro espiritual do imperador. Segundo a antropóloga Ana Cristina, um dos fatores fundamentais para o sucesso da invasão e a deposição dos Ming se deve ao fato dos Manchus terem prometido que respeitariam as diferenças religiosas chinesas e, que no caso do Tibet, essa promessa teria sido cumprida.

Fim da Dinastia Qing e a Queda do Império Chinês – Durante o século XVII, o catolicismo europeu passa a exercer uma influência significativa na China e também no Tibet. Contudo, cisões dentro da própria igreja católica e conflitos entre as ordens religiosas fizeram com que, no século XVIII, o cristianismo fosse banido do país. O cristianismo está intimamente ligado ao declínio do Império Qing. Além da corrupção do aparelho de Estado, em 1851 estourou a Rebelião Taiping, de caráter religioso. O conflito começou liderado por um grupo que pregava o cristianismo e tinha como objetivo derrubar as religiões dominantes, o confucionismo e o budismo. O Estado reprimiu a rebelião com violência em um conflito que durou até 1864, e deixou milhares de mortos. O prejuízo foi imenso, não só do ponto de vista financeiro, mas também político. O Império Chinês mostrara sua face autoritária denunciando sua fragilidade política.

A Dinastia Qing também já havia sido derrotada na Guerra do Ópio, travada contra o Reino Unido. Desde o século XVIII, a Companhia Britânica das Índias Ocidentais tinha permissão da Coroa Britânica para realizar o comércio colonial. O chá era um dos principais produtos da Companhia, e a China era uma grande produtora. Mas, em 1839, a China negou-se a permitir o livre comércio do ópio aos britânicos, provocando uma reação imediata do Estado Inglês. Com a derrota, os chineses precisaram pagar uma indenização aos ingleses, além da concessão de portos que seriam administrados pelos britânicos. Mas a maior perda foi territorial, com a cessão de Hong Kong para a Inglaterra, conforme estabelecido no Tratado de Nanquim de 1842. Hong Kong voltaria a ser da China somente em 1997, após negociações diplomáticas.

A incapacidade de conter a corrupção corroía o Estado e o último grande golpe foi a Guerra dos Boxers, de caráter nacionalista, ocorrido em 1899. Os boxers protestavam contra o cristianismo e exigiam uma diminuição na interferência estrangeira no país. Oito nações acabaram se envolvendo no conflito: Japão, Império Alemão, Áustria-Hungria, Itália, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia. A derrota dos boxers marcou o declínio dos Qing e o aumento da interferência estrangeira no país que durou até 1912, quando um golpe foi liderado por Sun Yat-sen e extinguiu a monarquia estabelecendo a República da China.

China e Japão – A China exerceu não só uma influência cultural sobre o Japão, mas também os dois impérios tiveram, ao longo de suas trajetórias, diversas disputas territoriais. Entretanto, por ser uma ilha, o Japão manteve sua cultura milenar bastante preservada das interferências estrangeiras.

Japão – A formação das classes sociais no Japão, remete ao século III, no chamado Período Yayol. A cultura do arroz e a posse de terras promoveram a ascensão de uma aristocracia de caráter militar, os famosos samurais. Durante o período medieval, nos éculo XII, o imperador, preocupado com os conflitos no reino, concebeu a Minamoto no Yoritomo o título de xogum. O xogum era um chefe militar que estaria, a princípio, subordinado ao imperador. Entretanto, os poderes do imperador no Japão nunca foram absolutos. O primeiro xogun trouxe o regime xogunato, que perduraria por séculos. Os samurais eram guerreiros que serviam a um senhor feudal, chamado de daimyo. Suas relações são muito parecidas com o de suserania e vassalagem que caracterizam a Idade Média na Europa. O samurai fornecia proteção às propriedades da aristocracia e em troca recebia terras e grão. Durante a Idade Moderna, Período Edo, os samurais tornaram-se uma classe e ascenderam politicamente o último xogunato, chamado de Tokugawa. Esse xogunato permaneceu até a restauração de Meiji, em 1868. Politicamente, os Tokugawa procuravam manter os senhores de terras sob o mais rígido controle. Por seu caráter militar, o Japão promoveu diversas tentativas expansionistas, investindo contra a Coreia e contra territórios chineses. O sistema xogunato manteve o Japão preso a um sistema feudal que já havia sido extinto na maior parte dos países. Sua base econômica era agrária e seu principal produto era o cultivo do arroz.

A partir do século XIX, a Revolução Industrial na Inglaterra se espalha por outros países como Estados Unidos e França, e a busca por novos mercados tanto consumidores quanto fornecedores de matéria-prima tem início. O Período de Meiji teve apenas um imperador, Mutsuhito, que assumiu o governo aos 16 anos e reinou até sua morte, em 1912. Seu governo durou um pouco mais de 4 décadas e suas transformações inseriram o Japão no sistema capitalista, e permitiram que o país se tornasse a potência industrial mais importante da Ásia do início do século XX. Também extinguiu os samurais e adotou um modelo de exército nacional. Podemos ver que a principal característica da Era Meiji foi o processo de ocidentalização. Por um outro lado, a rapidez com as mudanças fez com que uma parte da tradição japonesa fosse esquecida, tendo sido recuperada somente séculos depois.

Embora a monarquia existisse ha séculos, somente em 1889 foi promulgada uma constituição, estabelecendo o regime monárquico constitucional a ser adotado pelo país. A moeda iene foi criada e estimulou a produção industrial, com a criação de estradas e ferrovias que fornecessem infraestrutura para o escoamento de mercadorias. Vários estudantes, intelectuais e políticos foram enviados ao Ocidente, em especial EUA e Inglaterra, para conhecer o sistema capitalista que o imperador pretendia ver consolidado. A intensa troca de conhecimento permitiu a introdução de inúmeras inovações tecnológicas que beneficiaram sobretudo a indústria.

Por um outro lado, as reservas nacionais não bastavam e o Japão foi obrigado a invadir outros países, como a Coréia e a Manchúria, não só para garantir sua soberania, mas também para obter recursos, gerando uma série de conflitos internacionais que envolveriam a Rússia, a França e a Alemanha. Quando o Imperador Meiji morreu em 1912, legou ao seu filho um país moderno, mas cheio de problemas financeiras, que, a princípio, só podiam ser resolvidos a partir da expansão territorial culminando com a entrada do Japão na Primeira Guerra Mundial, em 1914.

 

Resumo da Aula 06 – O Iluminismo

Na Idade Moderna, surgem questionamentos sobre para que serve o Estado e como ele deve funcionar para ser legítimo. Ao conjunto de teorias formuladas para entender e analisar o homem, a sociedade e o Estado moderno, damos o nome de Iluminismo. Em termos ideológicos, o absolutismo teve diversos defensores entre os filósofos e os pensadores da época estão: Jean Bodin, Jacques Bossuet, Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes.

Jean Bodin era um jurista que viveu no Séc. XVI, e se dedicou a elaborar teorias sobre a soberania, sendo considerado o pai da Ciência Política. Sua principal obra é A República, onde defende os princípios da soberania e do direito divino dos reis, reconhecendo a existência de três tipos de regime: monarquia, aristocracia e democracia. Bodin acreditava na monarquia como o regime necessário à manutenção da ordem. O Estado soberano, amparado no direito divino, pode assegurar a ordem, necessidade fundamental para o desenvolvimento da sociedade.

Jacques Bossuet era teólogo e viveu na França entre os séculos XVII e XVIII. Na verdade, como religioso, é compreensível que este pensador tende a buscar na religião os fundamentos da política. Assim defende também a teoria do direito divino segundo a qual um rei ocupa este cargo porque esta é a vontade de Deus e como tal não pode ser questionada e nem sofrer oposição. As revoltas populares e a oposição ao poder real, passam então a ser consideradas como heresia, sob este ponto de vista. Na Idade Moderna, embora exista uma noção sobre a separação Igreja e Estado, em alguns casos, a Igreja acaba servindo como uma instituição que legitima o poder real, como é o caso da Espanha e da França católicas.

Nicolau Maquiavel foi um dos mais notórios filósofos absolutistas que nasceu e viveu em Florença, na Itália. Sua principal obra, O Príncipe, publicada no século XVI, uma citação, que de fato não se encontra no livro, ficou famosa: “o fim justifica os meios”. Na verdade, esta é uma interpretação um tanto equivocada da obra de Maquiavel que defendia o uso de qualquer meio para atingir um objetivo, desde que esse objetivo fosse justo e contribuísse para o bem maior. É importante lembrarmos que a Itália era dividida em reinos autônomos, e que só seria unificada no século XIX. Essa divisão fez com que, mesmo na Idade Moderna, algumas famílias dominassem os reinos italianos e não era raro disputarem o poder, como é o caso dos Médici, em Florença e dos Sforza, de Milão.

Thomas Hobbes foi um inglês que viveu no século XVI, e suas obras influenciaram sobremaneira o pensamento iluminista. Sua principal obra é o Leviatã, que trata da necessidade do Estado. Hobbes era um contratualista, ou seja, defendia a teoria do contrato social, que seria retomada pelo iluminista Jean-Jacques Rousseau. Para ele, os homens nascem iguais, e, no estado de natureza – nosso estado primitivo, sem Estado ou leis – tendem a destruir para obter o que desejam. É a chamada guerra de todos contra todos, o que nos remete à frase pela qual Hobbes é constantemente lembrado: “O homem é o lobo do homem“. De acordo com o contrato social, o homem precisa do Estado para poder sobreviver em sociedade. Daí a defesa do absolutismo, pois só um Estado único e soberano é capaz de conter as paixões humanas.

O Iluminismo foi um movimento intelectual que surge no século XVII e está em diálogo constante com as teorias que haviam sido formuladas pelos defensores do absolutismo. Hoje em dia, entendemos que um governo legítimo necessita ser democrático e que o voto é a ferramenta mais comum e importante de participação popular. Na Idade Média, não havia pensamento corrente sobre o Estado na Europa porque não havia Estado. Na Idade Moderna, discutia-se o que era cidadania, formas de participação popular, até onde alcança o poder de um soberano, quais são os elementos necessários para um estado forte, e assim por diante. Na Idade Contemporânea, discutimos os Estados autoritários, liberais, capitalistas ou socialistas. São as nossas preocupações contemporâneas. As ideias iluministas foram pensadas a partir da existência do Estado absolutista e apontam para o esgotamento deste modelo administrativo. Não só na política, mas também na economia. Ao olhar a organização do Estado fragmentado em feudos na Idade Média, os iluministas enxergam aquele período como “idade das trevas”. A fragmentação do Estado é vista como algo primitivo, desorganizado e a centralização como indispensável, mas não da maneira que foi aplicada, dando origem ao absolutismo, mas com uma maior participação popular e a partir de princípios fundamentais, como liberdade e igualdade.

Entre os séculos XVI e XVIII, ocorre na Europa, um movimento denominado Revolução Científica. Durante séculos, a ciência esteve ligada a Filosofia, e muitos cientistas eram também filósofos. O Renascimento, a Reforma e, sobretudo, a invenção da imprensa, contribuíram para uma nova forma de pensar a ciência. No século XV, com a imprensa de Gutemberg, a tarefa de compartilhar ideias tornou-se muito mais fácil. Grandes obras de cientistas como Copérnico e Galileu podiam ser lidas em outros países, traduzidas para outros idiomas e se tornariam mais acessíveis do que jamais foram. É claro que havia limitações e, a principal delas, era a Igreja, que condenava várias teorias científicas e julgava os cientistas como hereges.

Os principais representantes da Revolução Científica foram Isaac Newton e René Descartes. Newton nasceu na Inglaterra no século XVII, suas teorias no campo da Matemática e da Física são estudadas até hoje. O cientista passou a teorizar sobre a queda de objetos e se essa força que os faz cair em direção a terra existiria também fora dela. É a chamada Lei da Gravitação Universal. René Descartes foi um matemático francês a quem é atribuída a frase: “Penso, logo existo“. Descartes defendia o uso de princípios matemáticos para entender não só as leis da natureza, mas também a Filosofia e a ciência em geral. Sua obra, O Discurso do Método, defende o empirismo e a observação científica como forma de fazer ciência, em uma definição que se tornou o paradigma que definiu o que é ou não ciência. Descartes é considerado o pai da Matemática Moderna e o fundador do empirismo e do racionalismo.

Apesar dos iluministas enxergarem a Idade Média como “idade das trevas”, hoje avaliamos que a Idade Média teve uma grande contribuição cultural e que o feudalismo é fruto de seu tempo. Compreender as estruturas políticas e econômicas significa também compreender o homem e a sociedade do período com suas particularidades, enfim, com a sua própria história.

Voltaire foi um dos iluministas francês que viveu entre os séculos XVII e XVIII, e defendia a separação entre a Igreja e Estado com mais fervor. Foi um crítico ferrenho da intolerância religiosa e do regime absolutista. Em suas obras, denunciava os privilégios da nobreza em contraste com a miséria da população francesa. Por um outro lado, a crítica tanto de Voltaire quanto a de outros iluministas é a instituição eclesiástica e não à fé ou a crença em Deus. As ideias de Voltaire influenciaram diversos movimentos, como a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos.

De modo geral, os iluministas defendem o predomínio da razão em detrimento da fé. Este é um dos princípios também defendidos pelo francês Denis Diderot, que organizou a Enciclopédia, e teve a contribuição do filósofo D’ Alembert tendo como uma das patrocinadoras, a rainha Catarina da Rússia.

 

Resumo da Aula 07 – O Mundo das Ideias: A Influência do Pensamento Ilustrado

O conceito do Antigo Regime se popularizou através do trabalho de Alexis de Tocqueville. Tocqueville utilizava a noção de Antigo Regime para caracterizar a França entre os séculos XVI e XVIII, absolutista, mercantilista, religiosa e estamental, ou seja, com pouca mobilidade entre as classes sociais. Mais tarde, o uso dessa expressão passou a designar outros reinos europeus, na mesma época e com características semelhantes, como Portugal.

A centralização de poder e o afastamento da população da administração pública são apontados como exemplos de atraso a tirania. O Estado do Antigo Regime, para os iluministas, deveria ser reformado ou extinto, para dar lugar a um sistema político moderno, e que de fato atendesse às necessidades da população como um todo e não só de algumas classes, como o clero e a nobreza. A perseguição ao pensamento ilustrado acabou por fazer com que este se desenvolvesse, sobretudo, em reinos onde a influência católica fosse menos relevante, como a anglicana na Inglaterra. No caso da França, embora fosse um reino católico, a maioria dos habitantes eram protestantes, os chamados huguenotes. As regiões protestantes ou que tivessem uma tolerância religiosa maior, se tornaram campo fértil para a propagação de ideias iluministas.

A difusão de ideias, o contato com a imprensa, com livros e panfletos, acaba por fazer com que na cidade surjam discussões sobre os direitos públicos e tenha início uma reivindicação pela maior participação do povo no Estado. A palavra iluminismo costuma nos remeter aos pensadores franceses, já que a França era o modelo do absolutismo da Idade Moderna. Mas este movimento atingiu diversas regiões da Europa e teve representantes de diferentes nacionalidades, como o inglês John Locke.

Locke viveu na Inglaterra do século XVII e é considerado um dos fundadores do empirismo filosófico. Ele acreditava que ao nascer, o indivíduo fosse uma tábula rasa, como um quadro em branco. Para ele, todos os homens nascem iguais e não são, a princípio, nem bons e nem maus. Na medida em que adquirem experiências diversas, vão tendo seu caráter e suas personalidades moldadas pela vida em sociedade. Do ponto de vista político, sua obra, Dois Ensaios Sobre o Governo, Locke critica a doutrina do direito divino e o Estado absolutista. A grande preocupação deste filósofo é conciliar a liberdade inerente ao indivíduo, seu direito natural, com a manutenção da ordem social e política. A defesa do direito natural, comum a Hobbes e Rousseau, é chamada de jusnaturalismo.

Outro importante contratualista, além de Locke, foi Jean-Jacques Rousseau. Suíço, viveu no século XVIII e uma de suas principais obras é Do Contrato Social. Diferente de Hobbes que acreditava que o homem natural era comparável a um lobo, para Rousseau, o homem natural é bom desde o nascimento, sendo corrompido somente através da vida em sociedade. Dessa maneira, para que exista a sociedade, o homem deve abandonar seu estado de natureza primitivo. Suas teorias políticas, expostas no contrato social, foram fundamentais para a formação de uma democracia burguesa que, em finais do século XVIII, acabaria por derrubar o poder absoluto na França, durante a Revolução Francesa.

A reorganização do Estado absolutista é o tema que mais preocupou e atraiu a atenção dos Filósofos da época, tanto dos teóricos que apoiam o regime, quanto daqueles que o condenam. Por um outro lado, para controlar o abuso de poder, o filósofo francês Charles de Montesquieu elabora a separação de poderes em executivo, legislativo e judiciário. O poder executivo é aquele que administra, e pode ser exercido pelo rei ou, nos dias atuais, pelo presidente da república, por governadores e prefeitos. O legislativo é encarregado de criar as leis do país e o judiciário, de fazer cumpri-las. Suas ideias se basearam no sistema de governo inglês. Na Inglaterra, o parlamento é dividido em duas câmaras; a Câmara dos Lordes, formada pelo clero e por membros da nobreza e a Câmara dos Comuns, formada por membros do povo.

A obra de Montesquieu também influenciou a elaboração da Constituição dos EUA, que entrou em vigor em 1787. Dentre as influências iluministas na elaboração da Constituição norte-americana, além de Montesquieu, podemos citar o pensador escocês David Hume. Enquanto Montesquieu defendia que quanto maior a nação, mais difícil de governá-la, Hume ia pelo caminho oposto, pois defendia a grandeza nacional. Hume também influencia o pensamento positivista e o desenvolvimento do pensamento liberal, desenvolvido por outro escocês, Adam Smith.

Adam Smith, o pai da economia moderna, desenvolveu em sua obra A Riqueza das Nações (1776), os princípios do liberalismo econômico, uma das mais importantes vertentes do sistema capitalista. Smith levanta críticas às práticas econômicas do Estado Absoluto: o mercantilismo. Para Adam Smith, o controle da economia por parte do Estado limita o seu desenvolvimento e provoca crises econômicas que se tornam cada vez mais graves à medida que a influência estatal se torna cada vez mais forte. Dessa forma, Smith defende a NÃO intervenção do Estado na economia e a livre concorrência. A livre concorrência permitiria o completo desenvolvimento do mercado, bem como o investimento em inovações tecnológicas cujo objetivo fosse baratear os custos da produção e, portanto, do produto final.

Se Adam Smith pregava o afastamento do Estado na economia (liberalismo), no neoliberalismo há um Estado, mas este não gera diretamente os assuntos econômicos, mas sim, os regula. Podemos citar as agências reguladoras aqui no Brasil. Elas não determinam o preço dos serviços básicos, como fornecimento de energia elétrica ou telefonia, mas estabelecem um teto máximo para as tarifas destes serviços. O liberalismo influenciou outro pensador, o suíço Benjamin Constant. Constant viveu entre os séculos XVIII e XIX, e defende a separação do Estado, mas não acredita no esvaziamento do poder real e acredita que ao rei devem ser dados poderes de chefe de Estado. Mesmo que o rei detivesse poderes administrativos, estes não deveriam permitir a imposição de uma tirania. É esse pensamento que no Brasil dará origem ao poder moderador, instituído pelo governador D. Pedro I, na constituição de 1824.

Não é a toa que os iluministas defendem o racionalismo, a liberdade política e comercial, e a participação popular. As elites coloniais, tanto as brasileiras quanto os criollos da América espanhola encontravam, nos ideais iluministas, a base teórica que fundamentaria os movimentos emancipacionistas que eclodiriam no século XIX.

 

Resumo da Aula 08 – Revoluções Inglesas

Foi a Revolução Inglesa que criou condições favoráveis para que no século seguinte a Inglaterra fizesse a Revolução Industrial que alteraria todo o sistema produtivo e se alastraria pelo mundo, alterando para sempre não só as relações de produção, mas também as condições sociais com o nascimento de uma nova classe: a operária. Tais revoluções são divididas em 3 fases: A Revolução Puritana, A República De Cromwell e a Revolução Gloriosa. Por um outro lado, com o avanço nos estudos, percebemos que entender o momento com três revoluções diferentes não fazia sentido. Dessa forma, o termo no plural caiu em desuso e as mudanças ocorridas no século XVII são consideradas como uma única revolução.

Na Dinastia Tudor, muitas terras que pertenciam a Igreja passaram a ser propriedades do Estado, que também confiscou boa parte da riqueza dessa igreja. Após um breve período de restauração católica com Mary I no trono, a Inglaterra volta a ser protestante durante o reinado de Elizabeth I. A Era Elisabetana também ficou conhecida como Era de Ouro, pois a rainha consolidou seu domínio, mas optou por não se casar, sendo conhecida como a Rainha Virgem. Por um outro lado, sem casamento, não era necessário firmar nenhuma aliança com o país de origem do futuro marido, não resultando, portanto, na divisão do poder. Sendo uma Rainha Virgem, Elizabeth foi comparada a Virgem Maria que era exaltada tanto pelos católicos quanto pelos anglicanos. Essa estratégia permitiu que a rainha consolidasse seu poder e unificasse definitivamente seu reino. Mas essa escolha teve seu preço. Não se casando, a rainha não deixou herdeiros e encerrou consigo a dinastia Tudor. Após sua morte em 1603, sobe ao trono Jaime I, rei da Escócia e da Irlanda, descendente do rei Henrique VIII.

Com o desenvolvimento do comércio, a gentry (nobres que partilhavam interesses com burgueses) e os yeomen (pequenos e médios proprietários rurais) passaram a cercar suas terras e dedicá-las à pastagem, especialmente de ovelhas, interessados no lucrativo comércio de lãs, que abasteceria as tecelagens inglesas. Esse processo, conhecido como cercamento dos campos, expulsou os camponeses de suas terras, causando um êxodo rural e provocando o inchaço nas cidades e a insatisfação da população. A migração para a cidade permitiu a existência de uma mão de obra que trabalharia nas indústrias. Por outro lado, além de perderem suas terras, os camponeses eram obrigados a viver nas cidades que não estavam preparadas para recebê-los. Assim, há o aumento do desemprego, de miséria e de fome, o que acabaria por caracterizar as péssimas condições de vida a qual os operários seriam submetidos durante a Revolução Industrial.

Na política, de acordo com a Carta Magna assinada em 1215, o rei não podia, por exemplo, criar nenhum imposto sem a anuência das câmaras, mas não estava disposto a respeitar as vontades do parlamento. Para isso, valia-se as teorias absolutistas, como a de direito divino, para justificar suas aspirações. A Carta garantia os direitos inalienáveis dos nobres e limitava o poder real, mas permitia que o rei convocasse o parlamento de acordo com sua vontade ou quando as circunstâncias o exigisse.

Durante o reinado de Jaime I, sucessor de Elizabeth, a Inglaterra envolveu-se em diversos conflitos pela Europa, como a guerra dos Trinta Anos. As disputas entre católicos e protestantes provocaram uma fuga em direção as colônias da América. Os graves problemas nas finanças fizeram com que o rei convocasse o parlamento depois de 7 anos sem fazê-lo. Os representantes do povo queriam a todo custo limitar o poder real e Jamie I insistia em governar despoticamente. Em 1625, quando Jaime I morre, seu filho Carlos I sobe ao trono e se depara com uma Inglaterra ingovernável.

Por conta das guerras, Carlos I convocou o parlamento em 1628. Através da fragilidade do rei, o parlamento fez uma série de exigências em troca de seu apoio. Mas, Carlos I entendeu tal atitude como uma afronta ao poder real e o dissolveu, governando sozinho mas com o apoio da Câmara Estrelada, um tribunal formado por nobres de confiança e que consista em um Conselho Real Privado. E, para tentar sanear a economia, Carlos I desrespeitou a Carta Magna cobrando diversos impostos. E, também, para tentar forjar uma unificação de seu reino, Carlos I tentou impor à Escócia católica a religião anglicana inglesa, provocando a fúria dos escoceses que se rebelaram e invadiram a Inglaterra. Diante dessa situação, Carlos I foi obrigado a convocar novamente o parlamento em 1640, mas os parlamentares queriam mais é frear as iniciativas absolutistas do rei e limitar definitivamente seu poder. E, com essa atitude, Carlos I novamente dissolveu tal convocação que foi considerado como “parlamento curto”.

Sem ter apoio, o rei novamente voltou atrás convocando o parlamento. Mas desta vez, os parlamentares não queriam mais que o rei dissolvesse a assembleia. Foi estabelecido o ato trienal, onde o parlamento seria convocado com ou sem o consentimento do monarca a cada 3 anos. Em 1640, as tensões entre o rei e o parlamento tornam-se insustentáveis, provocando uma guerra civil em 1642.

Por outro lado, a impossibilidade de se conciliar nos territórios de Carlos I, fez com que em 1641, a Irlanda se rebelasse contra o domínio inglês. Então o rei solicitou ao parlamento um exército para lutar contra os irlandeses. Porém, o parlamento temia que o rei utilizasse o exército em causa própria e se voltasse contra os próprios parlamentares. Então foi levantado a luta armada em 1642. O embate entre as forças do parlamento e os apoiadores do rei ficou conhecido como Revolução Puritana e trouxe grandes prejuízos para seus negócios. O monarca era apoiado por alguns nobres e por uma parte da burguesia financeira, que temia uma guerra civil. Porém, Carlos I não conseguiu derrotar as forças parlamentares e fugiu para Oxford. O conflito durou 3 anos e, em 1645, o rei foi finalmente derrotado na Batalha de Naseby. Em seguida, fugiu para a Escócia, mas os parlamentares escoceses não eram simpatizantes do rei e o prendeu mandando de volta para a Inglaterra, onde foi decapitado em 1649.

A guerra civil também criara uma cisão dentro do exército parlamentar inglês. De um lado surgiu os levellers, formado por pequenos proprietários rurais que defendiam a igualdade política e, do outro, temos os camponeses que formavam os diggers, que queriam reformas políticas e econômicas, no tocante à posse de terras. Nessas batalhas, o líder destacado foi Oliver Cromwell. Cromwell era de uma família nobre, mas que não detinha muitas posses, tendo sido eleito pelo parlamento e 1640. Chegou a comandar o exército parlamentar com enorme sucesso, sobretudo pelo novo modelo implantado, o “new model army”. Sob seu comando, estava estabelecida a meritocracia onde aquele que demonstrasse mais bravura e se destacasse no campo, faria jus ao título de oficial, independente de sua origem. À medida que existia uma possibilidade de ascensão profissional e social, a carreira militar tornou-se bastante atraente para as classes operárias.

Entre 1649 e 1653, embora ainda houvesse um parlamento que por direito deteria o poder executivo, todas as decisões de fato estavam centralizadas nas mãos de Cromwell. Essa fase ganhou o nome de República de Cromwell, pois o líder do Estado não era um monarca, pois a monarquia estava abolida, mas a nobreza prevalecia. Uma das primeiras medidas de Cromwell era acabar com as cisões entre os parlamentares e mandou executar os líderes dos levellers e dos diggers. Sua política externa era agressiva e o seu maior rival, no comércio ultramarino, era a Holanda.

Para acabar com os holandeses e garantir a posse inglês, em 1651, é publicado o chamado Ato de Navegação. Esse ato fazia com que qualquer mercadoria que chegasse aos portos ingleses deveria ser transportada em navios de bandeira inglesa. A frota inglesa passou a dominar os comércios americanos, asiático e europeu o que, obviamente, deixou a Holanda extremamente insatisfeita, resultando na Guerra Anglo-Holandesa. Os outros países europeus também foram prejudicados com o tal ato, mas não tinham forças pra desafiar a grandiosa Inglaterra, por isso, somente a Holanda, prejudicada diretamente, iniciou a guerra (1652-1654). Mas foi em vão, a Holanda saiu derrotada o que acabou confirmando a supremacia inglesa nos mares. A partir desse ponto, a Burguesia acumulou um enorme capital que, no século XVIII, seria investido na industrialização.

Sob a gestão de Cromwell, os cercamentos dos campos se intensificaram. Para diminuir as disputas agrárias, as terras dos partidários do antigo rei foram confiscadas e vendidas aos produtores rurais. O domínio inglês sobre a Escócia e a Irlanda foi consolidado sendo estabelecido a Commonwealth (grupo de Estados governados por um só lider). Cromwell foi considerado Lorde Protetor por reprimir impiedosamente as rebeliões e as oposições ao seu governo, considerado um salvador da Inglaterra. Porém, o mesmo não se pode dizer em relação à Irlanda, onde a perseguição aos católicos gerou verdadeiros massacres. Sua gestão foi muito rígida, não permitindo nenhum tipo de oposição, e expandiu os princípios puritanos a todo custo. Em 1653, o parlamento foi dissolvido, eliminando o último entrave ao poder absoluto que ele de fato exerceu.

Embora Cromwell não fosse rei, seu filho, Ricardo, foi escolhido para ser seu sucessor. Porém, o filho não tinha as mesmas habilidades políticas do pai e nem era amado pelo exército. Ricardo governou por menos de 1 ano e, em 1660, um novo parlamento foi eleito já querendo restaurar a monarquia. A monarquia agora iria obedecer às vontades do parlamento, sendo a ele submetido, o que gerou a famosa expressão para definir o poder monarca inglês: “O rei reina, mas não governa”.

Com o resultado desse processo, Carlos II da Dinastia Stuart, sobe ao trono e governou a Inglaterra de 1660 até a sua morte em 1685. Mas o parlamento olhava a monarquia com desconfiança e procurava evitar o que havia repetido com os reis anteriores. Jaime II, irmão de Carlos II, torna-se o sucessor no trono real e procurou restaurar o absolutismo seguindo o exemplo do pai, Carlos I, e, como se não bastasse, era um católico fervoroso e procurou reintroduzir o catolicismo na Inglaterra protestante. Jaime II contava com a prerrogativa da Magna Carta que previa o direito real de dissolver o parlamento quando bem entendesse. Mas, diante dessa postura do rei, o parlamento buscou um novo monarca, que também pertencesse a Dinastia Stuart. A escolha recaiu sobre a filha de Jaime, Maria, casada com Guilherme de Orange. Diante das pressões, o rei fugiu para França e sua filha, Maria, foi conduzida ao trono inglês. Essa fase ficou conhecida como Revolução Gloriosa, pois provocou uma mudança de poder na Inglaterra sem que houvesse derramamento de sangue.

Mas havia uma condição para que Maria e Guilherme pudessem reinar: a assinatura da Declaração de Direitos. Essa declaração foi redigida pelo parlamento e era vetado ao rei revogar as leis estabelecidas pelos parlamentares, que por sua vez poderiam escolher a quem entregar o trono após a morte do rei. As finanças da corte também seriam regulamentadas pelo parlamento, que decidiu, entre outras coisas, a politica interna, externa e a resolução de conflitos. É através desta declaração que foi assinada em 1689 que foi criado o sistema de monarquia parlamentar inglesa que conhecemos hoje. A atual rainha Elizabeth II, embora reine, não governa de fato, cabendo este papel ao primeiro ministro e ao parlamento inglês.

A Inglaterra emergiu da Revolução Inglesa como um país pronto para implantar e fortalecer o sistema capitalista e com as condições propícias para que realizasse a Revolução Industrial do século XVIII.

 

Resumo da Aula 09 – Revolução Francesa

Na França, embora o feudalismo tenha sido substituído pelo absolutismo, os nobres e o clero continuaram tendo grande importância política e detendo diversos privilégios que eram negados à população. A burguesia crescia e se fortalecia com o desenvolvimento do comércio e com o estímulo proporcionado pelas grandes navegações, mas não tinha os mesmos direitos das elites. Os burgueses eram os responsáveis pelo sustento da luxuosa corte francesa e a maior parte da população ainda habitava o campo. E mesmo aqueles que viviam nas cidades, não participavam da vida política que era dominada pelo absolutismo. Ainda que somente o povo trabalhasse e, portanto, movimentasse a economia, era submetido a altos impostos, que deveria sustentar as classes que não produziam, como o clero e a nobreza. Esses, além de construírem uma elite, não pagavam impostos, ou seja, quem trabalha e sustenta o Estado não tem direitos políticos, e quem não produz e vive dos impostos é quem determina todas as decisões e rumos que o país deve seguir. Esse modelo se chama de sociedade estamental, que é uma sociedade rígida, dividida em classes onde há pouquíssima mobilidade social. Mesmo que um burguês compre títulos de nobreza, ele sempre será visto como um burguês ou um nobre de segunda classe.

A sociedade Estamental é dividida em Clero, Nobreza e Povo. O primeiro Estado, o Clero, é dividido em alto e baixo clero. No alto clero estavam os bispos e, no baixo, os padres e representava 0,5% da população. O segundo Estado, a Nobreza, que era dividida em palaciana, que vivia na corte e, a nobreza rural, proprietária de terras e a nobreza de toga, representando 1,5% da população. Por último, o terceiro Estado era formado pelo resto da população, e consistia em alta burguesia como os banqueiros, os trabalhadores urbanos e camponeses, representando 98% da população.

A principal reivindicação do terceiro estado era a abolição dos privilégios dos nobres e clérigos. Mas os opositores do regime eram duramente perseguidos e acabavam sendo julgados e enviados à Bastilha, uma fortaleza onde funcionava como prisão e acabou tornando-se símbolo do autoritarismo dos reis absolutistas. Os impostos que recaíam sobre o terceiro Estado eram tão altos que o dinheiro chegou a ser usado para a construção do maior palácio da França, e um dos maiores do mundo: Versalhes.

No Século XVII, o Rei Luís XIV, o rei sol, iniciou a construção de um palácio que refletisse a grandeza da monarquia e de seu governo, e autorizou que um novo palácio, maior e mais suntuoso fosse erguido – Versalhes. O primeiro a ser erguido foi o Palácio do Louvre no século XII. E para tornar a situação mais grave, a Inglaterra veio com a sua Revolução Industrial fazendo com que importar produtos ingleses tornassem mais baratos do que comprar mercadorias nacionais na França. Além disso, em 1787, uma seca provocou uma devastação nas colheitas e o preço dos alimentos disparou, espalhando a fome entre o povo. Os cofres franceses estavam vazios e, além disso, a Coroa havia apoiado a independência dos Estados Unidos e gastou uma pequena fortuna com esse empreendimento. Então, para driblar a crise, o rei formou uma Assembléia de Notáveis com representantes dos três Estados. Porém, o fracasso dessa assembléia precipitou a convocação da Assembléia dos Estados Gerais.

O ministro Jacques Necker, um burguês, propôs mais poderes aos burgueses, mas o clero e a nobreza não aprovaram. O primeiro e o segundo Estados não queriam nenhuma alteração que pusesse em risco seu modo de vida, ou os obrigasse a abrir mão de seus privilégios. O terceiro Estado não tinha mais condições de arcar com os custos, então uma mudança pacífica ou radical se tornaria inevitável. Para manter seus status, o primeiro e o segundo Estados queriam que a votação se desse por estamento, e não universal. Sendo assim, seria sempre dois Estados contra um, ou seja, o terceiro Estado sempre perderia. Esse lance fez com que o terceiro Estado se autoproclamasse Assembleia Nacional. O rei então decidiu fechar a assembléia, mas os membros reuniram-se e receberam a adesão da parte do clero e da nobreza que havia sido influenciada pelos ideais iluministas.

Cabe lembrar que o rei Luis XVI era neto do rei Sol, portanto defendia o absolutismo. E também recebia apoio de Maria Antonieta, sua esposa e rainha. Em 9 de Julho de 1789, a Assembléia Nacional iniciou os trabalhos para redigir uma constituição. Porém, a demissão do Ministro Necker provocou a indignação geral.

No dia 14 de Julho, a população invadiu a Bastilha dando início a primeira fase da Revolução Francesa, a fase da Assembléia. A Bastilha significava a opressão e a falta de liberdade da população já que para lá eram levados os que se opunham ao absolutismo. Mais do que isso, essa invasão significou o começo da resistência da população, cujo desfecho seria a deposição do Rei Luis XVI. No campo, o povo saqueava e incendiava castelos, terras e propriedades da nobreza. No dia 4 de agosto, a Assembléia abole os direitos feudais, desobrigando os camponeses a pagarem tributos em trabalho aos nobres e à Igreja. E no dia 16 de agosto, é aprovado a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Esta declaração estava aplicada diversas ideias iluministas, como a liberdade, a igualdade jurídica e o direito à propriedade e à liberdade de expressão. Porém, Luis XVI se recusou a aprovar a declaração de direitos provocando a ira da população. Versalhes foi invadido e o rei foi obrigado a se transferir para outro palácio.

Em 1791, a constituição francesa estava pronta e estabelecia que a França adotaria a monarquia constitucional, dividida em três poderes, que limitava o governo do rei através do parlamento. Os privilégios e os estamentos foram eliminados, mas os ideais de liberdade da revolução não se estenderam para as colônias francesas. Nelas ainda vigoravam a escravidão, como o Haiti. A fuga de Luís XVI foi frustrada e o rei foi preso condenado à morte pela guilhotina no ano seguinte.

Cabe lembrar que as nações europeias monarquistas viam com terror o que acontecia na França e julgavam que, se o movimento espalhasse, todas as casas reais da Europa estariam em perigo. Mesmo após a tomada da Bastilha e a condenação do rei, ainda havia diversos grupos que discordavam entre si. Os girondinos (alta burguesia) tendiam para o lado moderado e buscavam impedir o acesso das massas ao poder. Já os jacobinos constituíam o grupo mais radical da revolução formados por membros da pequena e média burguesia, liderados por Maximilien de Robespierre. Em 1792, a França atacou a Áustria, país da Rainha Maria Antonieta. Pois foi para lá que muitos nobres franceses haviam fugido, e esse reino buscava um reforço para conter os revolucionários franceses. Com a invasão da França pelas tropas austríacas, o povo reagiu imediatamente, atacando o palácio real e exterminando os membros da nobreza. O exército nacional foi acionado e os franceses saíram vitoriosos. Esse conflito marca o fim da Assembléia e o início de uma nova fase: a Convenção.

A Convenção Nacional que substituiu a Assembléia era formada por jacobinos. As primeiras medidas foram rever a constituição e instituir o voto universal, onde todos os cidadãos (sexo masculino) teriam direito a votar. Foi instituída a República e em 1793, o rei e a rainha foram decapitados.

Quando reunidos em assembleia, os jacobinos sentavam-se à esquerda, que virou sinônimo de radicalismo e oposição, enquanto os girondinos sentavam-se à direita, grupos moderados. Essa configuração política e as mudanças da Revolução Francesa foram tão significativas que algumas definições que utilizamos hoje, como direita e esquerda, nasceram nesse processo revolucionário.

Entre os mais radicais revolucionário, Maximilien Robespierre desencadeou o período da Revolução conhecido como Terror, em que muitos franceses foram guilhotinados. Mas acabou levando tiro e sendo preso. Em seguida, foi condenado à guilhotina e decapitado no dia seguinte. Danton, mais um que defendia uma postura radical, foi morto em 1794. Opositores, sans-cullotes, nobres, a guilhotina não fazia distinção. A violência jacobina fez com que esses perdessem o apoio do povo, o que abriu espaço para a retomada dos girondinos, que prenderam e executaram Robespierre e Saint Just na guilhotina. Robespierre, Danton e Saint Just eram líderes do Comitê de Salvação Nacional para conter a revolta de muitos nobres.

A convenção foi substituída em 1795 pelos girondinos, que trataram de organizar novamente a Constituição. Ela estabelece que o poder executivo seria exercido por cinco diretores – por isso o nome, diretório – eleitos pelo Legislativo e a população foi desarmada. Nesse mesmo ano, os realistas, que defendiam o retorno da monarquia, articularam um golpe contra o diretório, sendo frustrados por um jovem general, Napoleão Bonaparte, que por sua atuação, recebeu o comando do exército e o direito de fazer parte do governo. Anos mais tarde, Napoleão assumiria o poder através do golpe do 18 de Brumário. Assim terminava a Revolução Francesa e iniciava a Era Napoleônica.

 

Resumo da Aula 10 – Era Napoleônica

A Revolução Francesa mudou o mundo e gravou na história o nome daqueles que participavam de suas diversas fases. Napoleão inaugurou uma nova Era que ao terminar reconfigurou o mapa político da Europa e mudou toda a sua história, refletindo inclusive em outros continentes. Napoleão era descendente de uma família que não era considerada nobre, nasceu em Córsega, em 15 de agosto de 1769. Suas habilidades o levaram a Paris, onde foi estudar na academia militar. Embora não fosse um cara tão nerd, ele tinha habilidades na matemática, o que o levou a graduar-se como subtenente de artilharia. A oficialidade francesa, formada por nobres, o ignorava, já que ele não compartilhava da refinada educação dos jovens franceses. Mas durante a última fase da Revolução, os realistas buscaram tomar o poder através de um golpe de estado, mas foram contidos por um Napoleão de 26 anos, que os tempos de revolução haviam promovido à posição de general. E foi como general que Napoleão inaugurou uma nova era.

Atualmente, os historiadores entendem que o governo de Napoleão foi formada por um desdobramento da Revolução, mas não faz parte dela. Por isso, ouve uma divisão entre a Revolução Francesa e a Era Napoleônica. Podemos dividir a Era Napoleônica em 3 fases: Consulado, Império e o Governo dos Cem Dias.

Consulado (1799-1804) – Recuperação econômica e reorganização jurídica e administrativa da França. Em 1799, Napoleão recebeu o título de primeiro cônsul, inaugurando o Consulado. Esse lance ocorreu através do golpe conhecido como 18 Brumários. Passado 10 anos do início da Revolução Francesa, o pais vinha sendo governado por um colegiado de líderes chamado de Diretório. Napoleão havia retornado de sua desastrosa campanha no Egito, e a França sofria com revoltas internas, além de uma ameaça real de invasão da Segunda Coalizão (Forças reunidas pelos monarcas europeus liderados pelos Habsburgo e pela Rússia para acabar com a França Revolucionária). Napoleão utilizou muito de seu prestígio nos campos de batalha para derrubar seus opositores e consolidar seu poder, abrindo assim um caminho para coroar-se imperador cinco anos mais tarde. Além da burguesia, alguns políticos do Diretório também deram apoio necessário a Napoleão e propuseram o uso da força militar para que ele assumisse o governo, pois perceberam que ele era o cara ideal para consolidar o novo regime. Era o início do primeiro dos três períodos de Napoleão como governante da França, seguindo-se o Império e mais tarde, o Governo dos Cem Dias.

As reformas políticas eram urgentes e em 1800 foi aprovada uma nova constituição. O poder legislativo passaria a ser composto por quatro assembleias e o executivo ficaria a cargo de três cônsules. O primeiro cônsul detinha maiores poderes sobre os demais e esse cargo cabia a Napoleão. O período do consulado foi marcado por reformas e tentativas de conciliação com os países estrangeiros. No plano interno era preciso evitar guerras civis e conciliar os diversos interesses na política. Já no plano externo, foi levantado a paz de Amiens com o Reino Unido, que punha fim a uma crise que se arrastava há anos devido as Guerras Revolucionárias Francesas. O tratado fez com que o Reino Unido abrisse mãos de suas colonias em Trinidad e Tobago e Ceilão, devolver a Índia Ocidental e a Colônia do Cabo à Republica Batávia, e retirar suas tropas do Egito, assim como Napoleão que também retirou suas tropas dos Estados Papais e as fronteiras da Guiana Francesa serem definitivamente demarcadas. Entretanto, esse tratado não durou muito, foi quebrado no ano seguinte.

Era comum na Europa a prática do direito consuetudinário, ou seja, o direito nascido do costume. Não era usual que as leis fossem escritas, e elas eram seguidas por hábitos, o que permitia uma série de distorções. A quebra da lei era julgada pelos nobres ou pelos senhores feudais, e só favoreciam a quem bem quisessem. Só que Napoleão veio com o seu Código Civil derrubando esse direito consuetudinário, e estabelece o princípio da igualdade civil: “TODOS OS HOMENS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI“.

No plano econômico, havia muitos interesses dos burgueses, como a criação do Banco da França, que tinha, dentre suas atribuições, a emissão de papel moeda, permitindo a consolidação do capital financeiro e a expansão comercial. O papel moeda facilitava os burgueses nos empréstimos e a circulação monetária. Na Reforma Educacional foi estabelecido o ensino público, custeado pelo Estado. Porém as disciplinas consideradas “perigosas”, como história e filosofia, foram alterados para legitimar o novo regime. Também houve reformas nas cidades, canais e estradas foram abertos e, no campo, foi garantido a posse de terra pelos camponeses. Esse lance proporcionou a Napoleão um enorme apoio, não só entre a população urbana, mas também a rural.

O Consulado deu à França estabilidade suficiente para que Napoleão pudesse se lançar a novas conquistas. Ele poderia ocupar um lugar de destaque na política devido a tamanha admiração que ele obteve mas, antes de tudo, era um militar. Por outro lado, a principal rival da França era a Inglaterra, que no século anterior havia se industrializado e sua expansão comercial estava a pleno vapor. Além disso, Inglaterra tinha uma série de alianças entre os reinos europeus, como Portugal, se tornando uma inimiga poderosa.

Quando Napoleão estava no Egito, na época do Diretório, seu objetivo era tomar o domínio do Império turco otomano. O interessante na campanha do Egito, que durou até 1801, é que esta não foi somente uma incursão militar. Além do exército, foram designados para a região estudiosos, historiadores e cientistas. Já havia uma noção da importância histórica da região e Napoleão era um apaixonado pela história do Egito Antigo. Alguns estudiosos alegam que a destruição do nariz da Esfinge foi causada a tiros de canhão disparados pelo exército de Napoleão. Mas outros estudos mostram que desenhos da Esfinge do século XVIII a retratavam já sem nariz, e ainda é um mistério sobre o que tem causado tal destruição. Poderia ter sido provocado por uma erosão natural ou por combates travados anteriormente nesta região. Sarcófagos, tecidos, peças de ouro e jóias foram levados para França e fazem parte hoje do acervo do museu do Louvre, o que é frequentemente questionado pelo governo egípcio contemporâneo, que durante muito tempo reivindicou o retorno das peças.

Império (1804-1814) – Em 1803, a Inglaterra se alia à Rússia e à Áustria com o objetivo de fazer frente ao poderio militar francês. Mas, em 1804, Napoleão é sagrado imperador, iniciando uma nova fase de seu governo. Se como cônsul tinha muitos poderes, como imperador ele se torna absoluto. Contrariando a tradição, Napoleão não permitiu que o papa o corasse. Pretendendo deixar claro quem era o poder na França, Napoleão se coroou e, em seguida, coroou a imperatriz Joséphine.

Os planos de invasão da Inglaterra foram frustrados com a derrota da França em 1805, na batalha naval de Trafalgar, na Espanha. Esta derrota evidenciou o poderio naval inglês e para contê-lo, foi decretado, em 1806, o Bloqueio Continental. Agora nenhuma outra nação européia poderia comercializar com a Inglaterra, deixando-a no isolamento. Entretanto, o Bloqueio Continental acabou sendo muito mais prejudicial à França do que a própria Inglaterra. Pois haviam nações aliadas aos franceses que também tinham relações econômicas com a Inglaterra, o que provocou uma enorme perda de apoio político.

Nos anos seguintes, em Portugal, o não cumprimento do Bloqueio por parte da Coroa Portuguesa, fez com que a França invadisse a Espanha e, em seguida, Portugal no ano de 1808. Portugal era um aliado dos ingleses e não podia se dar ao luxo de quebrar os acordos firmados com a Inglaterra e, também, não tinha condições de enfrentar o poderoso exército francês. Então, a Família Real Portuguesa fugiu para o Brasil. As medidas levantadas pela Coroa Portuguesa no Brasil foram fatores determinantes para a proclamação da independência em 1822.

Em 1812, a Rússia também quebrou o Bloqueio Continental. Então, confiante no poder do seu exército, Napoleão não hesitou em invadir o Império Russo. Ainda que tenha chegado a Moscou, Napoleão percebeu que cometeu o pior erro de sua vida, pois ele não contava com o poderoso e indestrutível inimigo: o inverno russo. As temperaturas chegavam a 50 graus negativos. As nevascas eram constantes, dificultando o transporte e a locomoção das tropas e o recebimento de suprimentos. Aproveitando o enfraquecimento francês, a Rússia uniu-se à Áustria e a Prússia, pondo o fim à série de vitórias francesas. Isolado e sem apoio político, Napoleão renunciou ao poder e foi exilado na ilha de Elba, em 1814.

Governo dos Cem Dias (1815) – Com o vazio do poder após a saída de Napoleão, a França restaura a monarquia com Luís XVIII, da dinastia Bourbon, irmão de Luís XVI, o rei decapitado pelos revolucionários. A restauração monárquica não foi bem recebida pela população, que via no retorno da monarquia um retrocesso das conquistas empreendidas na revolução. Napoleão tinha partidários e simpatizantes entre os franceses e, em 1815, fugiu de Elba para aquele que seria seu último período no poder, conhecido como o Governo dos Cem Dias. O retorno de Napoleão marca a continuidade do combate, mas em 1815 ele é definitivamente derrotado na batalha de Waterloo, na Bélgica. O exército de Napoleão foi derrotado pelos exércitos da Sétima Coligação que incluíam uma força britânica liderada pelo Duque de Wellington, e uma força prussiana comandada por Gebhard Leberecth von Blücher. Tal confronto marcou o fim dos Cem Dias e foi a última batalha de Napoleão. As razões de seu falecimento ainda não foram explicadas totalmente. Alguns acreditam que Napoleão tinha problemas estomacais, uma úlcera ou gastrite. Por isso, uma das causas prováveis da sua morte teria sido um câncer no estômago. Outros acreditam que Napoleão morreu por um possível envenenamento por arsênico. Outra possibilidade não comprovada inclui a sífilis, pois era uma doença que causou a morte de muitos homens na época.

Admirados por líderes e militares, sua política expansionista redesenhou o mapa europeu e foi necessário um congresso internacional para reconfigurar politicamente a Europa: o Congresso de Viena. O objetivo do Congresso foi reorganizar as fronteiras europeias e restaurar a ordem absolutista do Antigo Regime. Após o fim da Era Napoleônica, os países vencedores (Áustria, Prússia, Russia e Reino Unido) sentiram a necessidade de selar um tratado para restabelecer a paz e a estabilidade política na Europa.

 

Termino o resumo por aqui, pessoal!

Bons estudos! Boas provas!

reforma-protestante

Ola pessoal!

Esta postagem é um resumo da disciplina História Moderna da Transição do Feudalismo às Reformas Religiosas, 3o Período do curso Licenciatura em História, Universidade Estácio de Sá.

Boa leitura!

 

Resumo da Aula 01 – A Invenção da Modernidade

Idade Antiga: Da invenção da escrita até a queda do Império Romano, no século V d.C.

Idade Média: Da queda do Império Romano do ocidente até a tomada de Constantinopla em 1453.

Idade Moderna: Da tomada de Constantinopla até a Revolução Francesa, em 1789.

Idade Contemporânea: Da Revolução Francesa até os nossos dias.

Por incrível que pareça, as divisões históricas citadas acima foram levantadas por historiadores europeus. Ou seja, tais divisões foram levantadas tendo como base os marcos históricos, principalmente, ocorridos na Europa. Entretanto, durante décadas, foi esse o modo de pensar que lançou as bases do pensamento histórico que, agora, questionamos. Como todo processo histórico, a mudança foi lenta e, por causa disso, podemos dizer que existe muito medieval no homem moderno.

A Idade Média é dividida em Alta Idade Média e Baixa Idade Média. Na Alta Idade Média (séc. V até o ano 1000), o sistema feudal está em seu apogeu. Na Baixa Idade Média (séc. XI), o feudalismo começa a mostrar seus sinais de desgaste, culminando com a sua progressiva extinção. No século XIV, a Idade Média sofre com a peste negra, que dizimou boa parte da população europeia. A peste trouxe a fome, a pobreza, a miséria na Europa, levando a grandes motins e a uma enorme fuga do campo. Por um outro lado, a Igreja culpava espirituais, e todo aquele que não era cristão foi duramente perseguido, como ocorreu com os judeus.

Os burgos, na Idade Média, eram artesãos e pequenos comerciantes que, com o crescimento urbano, das cidades e da riqueza medieval, eles acabaram que consolidando suas próprias cidades. Seus habitantes foram chamados de burgueses e daí a denominação de uma nova classe social, associada aos comerciantes. O comércio tornou-se mais desenvolvido e o trabalho passou a ser organizado em corporações de ofícios ou guildas. Algumas cidades se organizam em repúblicas ou comunas, fazendo com que os burgueses ganhassem poderes políticos e administrativos, além de consolidar negócios.

Se na Idade Média, a terra era sinônimo de riqueza, na Idade Moderna o comércio e os metais preciosos passam a substituir a terra. O significado de riqueza e prosperidade acaba que mudando de sentido. Durante a vida na Idade Média, as cidades jamais desapareceram, mas sim apenas perderam sua relevância político-social. Por isso que é falado muito sobre o renascimento urbano no século XV. Com a crise agrícola, o feudo, principal unidade produtiva na Idade Média, começou a ruir. Na França, por exemplo, houve levantes camponeses contra a situação que se agravava cada vez mais (jacqueries). Tais revoltas indicam o esgarçamento desta relação e o surgimento progressivo de uma nova ordem social, na qual os senhores feudais veriam seus poderes diminuídos.

Durante a Idade Média, a terra gerava a riqueza, pois a economia era agrária e todas as relações sociais se desenvolviam a partir desse princípio. Na Idade Moderna, a circulação de moeda ganha importância e são necessários metais preciosos para cunhá-las, o que vai ser um dos motores das grandes navegações. Por um outro lado, já existia moedas na Idade Média, e aí? Cada feudo tinha sua própria unidade monetária e grande parte da economia era por meio de troca do excedente agrícola. Agora, já que a moeda readquire sua importância, levantemos aqui uma questão… qual moeda? Já que cada feudo tinha sua moeda.

Para unificar a moeda, seria necessário um poder central que a determine. Como na Idade Média o poder era fragmentado, a unidade monetária é mais uma das características que distinguem uma era da outra. Todos os fatores políticos, sociais e econômicos estão interligados neste momento de transição – uma transformação lenta e progressiva. Os marcos históricos não devem servir para engessar o pensamento, e sim como ponto de partida para novas interpretações da história. Nesse sentido, os Annales vão revolucionar a historiografia à medida que consideram os indivíduos envolvidos no processo histórico. Nasce aí a história das mentalidades.

Fernand Braudel, em sua obra O Mediterrâneo, divide o tempo histórico em três partes.

  1. Curta Duração: Fenômenos transitórios, que mudam constantemente e podem ser observados no decorrer do tempo de vida de uma pessoa;
  2. Média Duração: Onde se “encaixam” as grandes periodizações. A Idade Média, por exemplo, seria um “fenômeno” de média duração;
  3. Longa Duração: Ligado a mudanças que levam milênios, como as mudanças geográficas;

Se estamos falando em Modernidade, então temos que considerar a mentalidade do homem moderno. Se as estruturas políticas e econômicas podem levar séculos para mudar, com as mentalidades não poderia ser diferente. É comum aos católicos fazerem o sinal da cruz ao passarem diante de uma igreja, um costume medieval. Em diversas festas e manifestações culturais, festas religiosas ou carnaval, são reproduzidos práticas ancestrais. Mesmo que tenhamos perdido as referências originais, tais comemorações fazem parte da nossa mentalidade.

A nova organização social das cidades teve papel fundamental na mudança das mentalidades. A burguesia foi um de seus principais agentes. Mas antes, precisamos entender que burguesia é um conceito. Na Idade Média, burguês é o habitante burgo. Na Alta Idade Média, o burguês passa a ser não só habitante, mas também a classe mercantil. E, ao longo da Idade Moderna, a burguesia se torna uma camada intermediária entre a classe trabalhadora e a nobreza. Apesar de não terem sido nobres, os burgueses foram detentores de vasta riqueza acumulada através do comércio. Na Baixa Idade Média, a burguesia passa a ser visto como dono dos meios de produção por muitos historiadores, devido a Revolução Francesa e o fim da Idade Moderna.

Na Idade Moderna, enquanto os burgueses são dedicados à atividade mercantil, acumulando grande poder econômico. Na Idade Contemporânea, os burgueses passam a ser donos dos meios de produção devido a Revolução Industrial. Na modernidade, do ponto de vista político, é a aliança entre o rei e a burguesia que permite a formação e consolidação dos estados nacionais. Do ponto de vista econômico, irão investir nas grandes navegações e no projeto colonial, mudando definitivamente a Europa. No ponto de vista social, os burgueses financiam o renascimento e apoiam a reforma, construindo uma nova mentalidade.

Um outro conceito que precisamos entender é sobre o estado. O estado é um conceito múltiplo e se altera não somente de acordo com o tempo histórico estudado, mas também de acordo com os saberes da disciplina. Por exemplo, a sociologia tem uma acepção de estado diferente da história, diferente da política, diferente da filosofia, e assim por diante. Na Idade Média existia diversos estados governados por senhores feudais, só não eram centralizados. Ou seja, havia um estado mas não havia uma nação. O estado é uma instância política que regula a vida pública, que estabelece e faz cumprir as leis, que cobra impostos e que detém a legitimidade do uso da violência. Já uma nação pressupõe uma identidade nacional. Essa identidade é formada por vários elementos: uma língua única, uma moeda única, fronteiras territoriais, a existência de um exército nacional. Portanto, podemos ver que nação e estado não são sinônimos. Os hebreus, por exemplo, são uma nação sem estado. Pois, apesar de muitos judeus terem vivido na América, na Europa, no Oriente, em diferentes culturas, eles estavam ligados por vínculos religiosos e seguiam um mesmo livro, a Tora. Os judeus compartilham uma identidade que está além das fronteiras políticas mas se formou através dos princípios da fé. O Estado judeu foi formado no ano de 1948, mas enquanto nação, os hebreus existem há séculos.

 

Resumo da Aula 02 – A Transição: Medievo à Modernidade

Como conhecemos, o fim da Idade Média foi a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos no ano de 1453. Mas, podemos analisar também, a invenção da imprensa por Guttemberg ou a descoberta da América, por Cristóvão Colombo. Enquanto os iluministas irão se referir à Idade Média como Idade das Trevas, os críticos do absolutismo chamarão o período moderno de antigo regime. Ambas visões são carregadas de significados e ilustram a transição do pensamento de uma era para outra.

Duas características se destacam quando pensamos a sociedade medieval: o papel da igreja na vida cotidiana e a quase inexistente mobilidade social. No regime feudal, os papéis sociais são bastante definidos e estão demarcados desde o nascimento. Ou seja, o filho de um camponês será um camponês, assim como o filho de um senhor feudal será um senhor feudal. A fragmentação do poder medieval foi devido a invasão dos bárbaros no Império Romano já a falência. Quando ocorre o fim do império, as diversas regiões pertencentes a ele na Europa se fragmentam em outra estrutura. Nesse novo modelo, o centro de vida sociopolítico é o feudo e não mais as cidades.

A sociedade feudal era baseada nos vínculos de dependência pessoal, chamados de suserania e vassalagem. O vassalo recebia terras e bens do seu suserano, prometendo-lhe fidelidade e proteção em troca. Devido a esses vínculos sociais, foi surgindo uma pirâmide social típica da Idade Média: Clero, Nobreza e Camponeses, Servos e Burgueses. É importante ressaltar que os reis jamais desapareceram, mas só retomam sua importância política durante a Idade Moderna, no processo de centralização do poder.

O Antigo Regime herdará a mesma pirâmide social (Clero, Nobreza e Camponeses/Servos/Burgueses), mas será acrescentado os burgueses – é a classe mercantil se formando no renascimento urbano e comercial. Lembrando que os burgueses não possuíam título de nobreza. Durante a Idade Moderna, embora a burguesia concentre bastante poder econômico, ela não terá direitos políticos igualmente importantes. Essa insatisfação levará às chamadas revoluções burguesas que ocorrerão na época contemporânea, com a Revolução Francesa.

Cabe a nobreza ser o responsável pelas funções político-administrativas, já o clero tem o monopólio do ensino, que vai bem além de questões espirituais. Nenhuma destas ordens paga impostos, que recaem apenas sobre o terceiro estado, ou seja, a maior parte da população. O terceiro estado tem obrigações políticas, mas não direitos. Por um outro lado, quando dizemos que o clero tem o monopólio do ensino, queremos apontar que grande parte do conhecimento que é reproduzido passa pelas mãos da igreja. Isso concede ao clero um enorme poder de influenciar as mentalidades, além de ser o grande reformador de opinião durante a Idade Moderna. Esta é outra herança do período medieval.

Durante séculos, cabia à Igreja Católica, através dos monges copistas, reproduzir os livros. Isso era feito manualmente e os livros eram copiados e transmitidos. Havia aí uma clara intervenção da Igreja. Como era ela quem copiava e distribuía os livros, podia escolher o que produzir. Essa maneira de produzir também tornava o livro algo muito caro e portanto um símbolo de riqueza. A invenção da imprensa muda radicalmente essa situação. Os livros passam a ser reproduzidos em série, através de prensas, e tornam-se mais baratos e acessíveis a camadas mais baixas da população. O primeiro livro impresso foi justamente a Bíblia, que indica que, mesmo em um momento de ruptura, esta ainda está ligada ao poderio católico.

Sobre a questão do Antigo Regime, este ocorreu na maior parte da Europa Ocidental. Apesar das diferenças e especificidades que variam de uma região para outra, o estado do Antigo Regime é centralizado e unitarista, onde a monarquia detém o poder soberano e não existe a divisão de poderes que conhecemos hoje. A França é considerada o exemplo de Antigo Regime por excelência. Foi nesse país em que os estamentos atingiram tal nível de mobilidade que levou a uma revolução que derrubou o Antigo Regime, a Revolução Francesa de 1789. Foi também na França que o absolutismo alcançou o seu auge e, portanto, as contradições desse regime, também.

É importante ressaltar que a mobilidade social é largamente utilizada por analistas contemporâneos. Os homens da época estavam inseridos em um contexto em que essa mobilidade não era passível de ser observada. As classes são estabelecidas pelo lugar de nascimento e não pelas posses, o que só iria mudar na idade contemporânea. Por um outro lado, é através dos privilégios que as classes se mantém e funcionam. Um nobre pobre ainda faz parte da corte, um burguês rico não. Com isso, podemos concluir que a riqueza não significa ascensão ou mudança de status social.

Cabe lembrar que a unificação do estado só é possível a partir de uma aliança entre o rei e a burguesia. Enquanto o rei fornecia a estrutura política necessária para a expansão mercantil, os burgueses forneciam ao rei apoio e legitimidade, sem os quais a centralização de poder jamais teria sido possível. Durante o século XVIII, a burguesia pôde dispensar o rei absoluto devido a consolidação de um enorme poder financeiro por parte dos burgueses.

 

Resumo da Aula 03 – A Economia na Modernidade

A Idade Moderna se caracteriza pela era do mercantilismo, porém o mercantilismo não é um sistema econômico. O sistema econômico é a maneira pela qual uma sociedade organiza sua economia e, junto com ela, a sua política e a sua estrutura social, além do seu modo de produção. Já o mercantilismo em si, não possui tais características. O mercantilismo é um conjunto de práticas econômicas que marca a transição do sistema feudal para o sistema capitalista.

Por falar em modo de produção, um dos primeiros teóricos a pensar e definir tal questão foi Karl Marx, em sua obra O Capital. Max defendia que sempre que houve uma contradição entre as forças produtivas e as relações de produção, haveria um colapso do sistema econômico. É o que acontece no feudalismo. O poder econômico deixa de ser o senhor feudal para pertencer a burguesia. Entre os séculos IV a XI, ocorre a transição da Antiguidade para o Feudalismo. Entre os séculos XI a XIV, ocorre o renascimento urbano e a expansão da atividade mercantil. Entre os séculos XIV e XV, ocorre a transição do feudalismo para o capitalismo.

A expansão mercantil que ocorre ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, permite a ocorrência da acumulação primitiva do capital. Tal acumulação dará origem à Revolução Industrial. O mercantilismo é composta pelo Metalismo, pelo Protecionismo, pelo Pacto Colonial e pela Balança Comercial Favorável.

  • Metalismo: Enquanto na Idade Média a riqueza estava na terra, na Idade Moderna a riqueza estava no acúmulo de metais preciosos. Neste período é retomado o sistema monetário, e os metais eram necessários para cunhar as moedas. A busca destes metais será o motor da expansão marítima.
  • Protecionismo: Os reis cobravam altas taxas de impostos de produtos estrangeiros para proteger e incentivar o desenvolvimento econômico do Estado. Dessa forma, estimulavam o consumo e a confecção de produtos nacionais, dinamizando a economia interna.
  • Pacto Colonial: Era a garantia da metrópole de que a colônia comercializaria estes produtos somente com ela. Era o estabelecimento de um monopólio comercial que garantia a opção da metrópole em comprar e vender produtos coloniais ao preço que ela bem entendesse. Como a colônia era obrigada a vender para a metrópole, não podia determinar o preço que quisesse. Se para a colônia o pacto era um entrave, para a metrópole era a garantia de grandes lucros.
  • Balança Comercial Favorável: Consiste em exportar mais do que importar, ou seja, vender mais do que se compra. Tal recurso mantém o capital que circula no país sempre em maior número do que aquele que é gasto no exterior, permitindo a formação de uma reserva financeira que pode ser utilizada em casos de crise econômica.

Podemos dividir a economia da Idade Moderna em três partes:

  • Século XV ao começo do século XVII: Expansão Econômica – artesanato e agricultura. Com o fim do feudalismo, a economia irá superar as antigas estruturas feudais. Além do aumento da produção artesanal, existe o início do investimento em manufaturas. Com o fim da Idade Média, a agricultura não deixa de existir. Ela ganha impulso, mas não mais como uma agricultura de subsistência, voltada apenas para o sustento. Os gêneros agrícolas adquirem status de mercadoria e a agricultura será largamente praticada em toda a Europa.
  • Século XVII ao começo do século XVIII: Crise econômica. Alguns historiadores entendem que a tal crise é um período de ajuste natural, no qual um recuo da expansão ocorrida no século anterior seria vista como natural, e não como um sinal de desgaste do projeto mercantil. Segundo o historiador Roland Mousnier, é um momento em que a modernidade ainda traz muitos traços do medievo, provocando grandes contradições e que estão presentes em diversas escalas. Tais contradições reforçam que a ideia do Capitalismo existe a partir da Revolução Industrial no século XVIII o que vem entender a Idade Moderna.
  • Século XVIII: Expansão do modelo mercantil e consolidação das bases capitalistas. Neste período, já temos estados consolidados e que adotam essa política econômica como uma prática de Estado.

Podemos concluir que a economia moderna tem sua base no mercantilismo, que reunirá as condições para a Revolução Industrial que consolidará o capitalismo como sistema econômico.

 

Resumo da Aula 04 – O Estado

A crise do feudalismo e o renascimento comercial e urbano fez com que a organização política medieval entrasse em crise, e uma nova estrutura de governo começa a se organizar. Podemos dizer que a centralização do Estado Moderno foi baseada na aliança entre o rei e a burguesia. Entretanto, tal processo não acontece no mesmo momento e da mesma maneira em todos os países da Europa. Por razões específicas de cada região, cada Estado se centraliza e se organiza de maneira diferente.

A passagem do poder fragmentado medieval para o poder centralizado moderno foi alvo de grandes disputas, seja entre reinos ou entre classes. A burguesia foi contra a aristocracia para garantir o desenvolvimento comercial, reinos cristãos lutaram contra reinos muçulmanos para centralizar seu território, e assim por diante. Por essa razão, Portugal e Espanha deram o primeiro passo na expansão marítima. Esse pioneirismo é uma das razões porque a maioria dos territórios do continente americano foi colonizado por ibéricos. No caso de Portugal, sua centralização nos remete ao século XI, quando é fundado o Condado Portucalense devido as guerras de Reconquista.

Durante séculos, a Península Ibérica recebeu uma enorme quantidade de muçulmanos que imigravam de diversos lugares. Eles estabeleceram suas próprias cidades e, no caso da Península Ibérica, também um reino muçulmano, Granada. Então, durante séculos, houve conflitos entre muçulmanos e católicos, e os católicos acabaram que reconquistando o território. Portugal e Espanha só puderam realmente se unificar após a expulsão dos povos não católicos (muçulmanos e judeus). Podemos dizer que a centralização não foi algo somente político, mas também social devido ao conceito de identidade. Durante a Idade Média, não havia uma identidade nacional, mas sim o compartilhamento de uma mesma crença, a fé católica. Desta forma, podemos dizer que os reinos ibéricos foram unificados tendo como base o catolicismo.

No século XVI, quando o império português alcança o seu apogeu, o rei Dom Sebastião morre em batalha sem deixar herdeiros, e a dinastia de Avis cai por terra. O trono é reivindicado por vários nobres, mas Espanha acaba tomando o poder. Portanto, entre 1580 e 1640, Portugal e Espanha são unificados tornando-se União Ibérica. Devemos tomar cuidado para não confundirmos com o absolutismo. A unificação espanhola é firmada em 1469, através do casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Aragão e Castela eram reinos mais prósperos dando origem a um processo de centralização de poder ocasionando em um absolutismo espanhol.

Durante o século XVI, a Espanha foi o mais poderoso império da Europa, mas sua estrutura interna era ainda frágil, e sua base fortemente católica constituiu um entrave ao desenvolvimento do sistema absolutista. A Igreja, neste contexto, tem um papel político muito forte e é quem intermedeia a assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494, dividindo entre Portugal e Espanha as terras descobertas e a se descobrir. A Igreja era tão ligada ao Estado que Isabel e Fernando eram considerados reis católicos, e em nenhum país católico a Inquisição fez tantas vítimas como na Espanha. Seu apogeu ocorre durante a administração da dinastia Habsburgo, mas os reinos espanhóis unificados pelos reis católicos eram instáveis. A corrupção, os gastos desmedidos e o endividamento externo fazem com que a Espanha entre em ciclos de crise econômica. Em seguida, após a formação dos Estados francês e inglês, a Espanha perde terreno político na Europa, sendo sobrepujada pelos demais países.

Durante o século XIII, os reis ingleses assinaram a Magna Carta que concedia plenos poderes aos senhores feudais, aumentando a autonomia regional e enfraquecendo o poder central. Neste contexto, o rei Henrique III assinaria os Estatutos de Oxford, criando a mais poderosa das instituições inglesas que permanece até os dias de hoje: o Parlamento. O Parlamento é constituído pela Câmara dos Lordes e pela Câmara dos Comuns.

  • Parlamento: Ao longo de sua história, o Parlamento terá maior ou menor poder político, sendo que, no período absolutista, era submetido à vontade real;
  • Câmara dos Lordes: Era composta pelo clero e pela nobreza. Seus membros tinham o direito de hereditariedade, ou seja, o cargo passava de pai para filho;
  • Câmara dos Comuns: Era composta pelos burgueses e cavaleiros. Seus membros eram eleitos por meio do voto;

Um dos maiores problemas enfrentados pela Inglaterra era a rivalidade secular com a França. No século XIV, estoura a Guerra dos Cem Anos. Os motivos do conflito são diversos, mas duas razões se destacam: disputas territoriais e dinásticas. Para a França, a vitória na guerra significa o fortalecimento da monarquia e abre caminho para a unificação do Estado francês. Já para a Inglaterra, sua derrota significa uma enorme perda de prestígio, aumentando a crise que vivia a monarquia inglesa. A instabilidade política na Inglaterra leva a uma disputa interna pelo trono entre duas casas nobres inglesas, os York e os Lancaster. O conflito ficou conhecido como Guerra das Duas Rosas, pois os Lancaster eram representados por uma rosa vermelha, e os York, uma rosa branca. O conflito termina sem vitorioso, mas com casamento entre membros das duas casas. Com o enfraquecimento das duas casas (York e Lancaster), uma terceira dinastia ascende ao poder, os Tudor, que reinam do século XV ao XVII. Esta dinastia inicia o absolutismo inglês com o reinado de Henrique VIII.

O rei Henrique VIII casa-se com a princesa espanhola Catarina de Aragão, católica fervorosa. A escolha favoreceu a Inglaterra já que a Espanha era um poderoso império, e a aliança era algo muito desejado pelos ingleses. Entretanto, Catarina não teve filhos homens que pudessem continuar a linhagem real. Então, o rei Henrique VIII solicitou permissão à Igreja Católica para divorcia-se da rainha e casar-se novamente. A Igreja recusou o pedido pois, se aceitasse, entraria em choque com a Espanha, o que não era algo desejável, considerando o poderio espanhol da época. Ao romper com o papado, Henrique VIII concentra no trono todos os poderes que antes pertenciam à Igreja. O rei torna-se não só um chefe político, mas o líder espiritual da Inglaterra. Mesmo no ponto de vista religioso, há poucas diferenças entre católicos e anglicanos, exceto que os católicos são submetidos ao papa e os anglicanos, ao rei.

Com a morte de Henrique VIII, herda o trono sua filha, Maria I, já que, mesmo tendo se casado seis vezes, o rei teve um único filho homem, que morreu antes de poder assumir o trono. Maria I era filha de Catarina de Aragão e, como a mãe, uma fervorosa católica. Em seu governo, Maria I passa a perseguir os protestantes, dando início as sangrentas guerras religiosas inglesas. Somente após sua morte assume o trono Elizabeth I, filha de Ana Bolena, segunda esposa do rei, que restaura o Anglicanismo e consolida o absolutismo monárquico. O reinado da Elizabeth I foi um dos mais prósperos da história inglesa. Ela fortaleceu a burguesia e investiu na expansão marítima. A rainha teve na burguesia protestante uma forte fonte de apoio, com a qual ela combateu ferozmente a nobreza católica. A rainha nunca se casou e também não deixou herdeiros. Portanto, com a sua morte, chega ao fim a dinastia Tudor e assume o trono Jaime I, então rei da Escócia. Com a morte de Elizabeth I, chega ao fim o absolutismo inglês e, no século XVIII, a Inglaterra seria o primeiro país a vivenciar uma revolta inglesa, a Revolução Puritana.

Como vimos, com a vitória na Guerra dos Cem Anos, a monarquia francesa se fortalece e, progressivamente, consolida seu poder. Além das disputas com a Inglaterra, a França enfrenta sangrentas guerras religiosas entre católicos e protestantes, conhecidos como huguenotes. A doutrina protestante, em especial o calvinismo, faz muitos adeptos na Paris do século XVI. Quando a burguesia e parte da nobreza aderem ao calvinismo, o Estado francês se vê obrigado a conciliar interesses para evitar uma grande guerra. Então, a Regente Catarina de Médici concede aos huguenotes alguns privilégios, como o direito de celebrar cultos em alguns pontos específicos da França. Com a morte do último Valois, o trono é entregue a um protestante, Henrique IV, que, para assumi-lo, tem que se converter ao catolicismo. Então, Henrique IV inaugura a dinastia Bourbon sob forte influência da Igreja Católica. Com a morte de Henrique IV, seu filho Luís XIII assume o trono, mas quem exercia o poder era o seu ministro, o cardeal Richelieu. Após sua morte, assume o cardeal Mazzarino. Então, somente após a morte do cardeal Mazzarino que Luís XIV fica livre da influência da Igreja chegando ao auge de seu governo, tornando-se o principal rei absolutista da França. Luís XIV é a melhor tradução do absolutismo, pois concentra todas as decisões do Estado em sua figura, fazendo um governo personalista que ignora as necessidades da população e satisfaz os nobres e a alta burguesia. Tal Regime só cai no século XVIII com a Revolução Francesa, quando a situação de miséria da população chega a níveis espantosos. Então, com a liderança dos burgueses, o rei é deposto e um novo período se inaugura na França.

 

Resumo da Aula 05 – Renascimento

Quando falamos em universidade, nos vêm à mente instituições de ensino superior que cursamos após o fim do ensino médio, como forma de adquirirmos uma profissão e nos especializarmos em uma área de conhecimento. Não difere muito daquela época. Os muçulmanos ocuparam durante séculos uma parte da Europa e, mesmo tendo sido expulsos no processo de unificação dos estados nacionais, deixaram uma grande herança cultural como legado. No século XIII, há uma enorme transformação do pensamento Ocidental, pois as obras que haviam sido produzidas durante a antiguidade chegam, por intermédio do oriente, aos pensadores do medievo.

Através do renascimento urbano e comercial e, também, das cruzadas, muito do conhecimento muçulmano penetrou no medievo. Além disso, nas universidades, coexistiam tanto o ensino religioso como o laico. Podemos citar a obra de Aristóteles que chega ao Ocidente através de traduções feitas, inicialmente do árabe. Grande parte das obras escritas em árabe e grego, vinha das regiões hispânicas dominadas pelos mouros. Podemos perceber a noção da história não como uma estrutura linear, mas como fruto de vários processos ligados um ao outro.

Entendendo a questão como um processo histórico, temos um conjunto de fatores que permitiram a existência das unidades medievais. Como fruto do seu tempo, as universidades servem também para suprir a mão de obra qualificada, já que tinha como um de seus objetivos o ensino de ofícios. Mas ao lado desses ensinos, também havia uma forte formação cultural com o estudo de filósofos e escritos da antiguidade. Entretanto, é certo que as universidades existiram não só como uma necessidade de sua época, mas também como uma disputa entre o ensino laico e religioso. Podemos ver que mesmo com uma mentalidade dominada pela Igreja, há o florescimento e a expansão do ensino e da cultura, além da recuperação do conhecimento da antiguidade. Portanto, o lance da “Idade das Trevas” nem sempre foi “trevas”. Dizem que o autor desse termo foi o intelectual e poeta italiano Francesco Petrarca em referência ao declínio da literatura latina, o que o fez considerar o período como obscuro ou tenebroso.

Os iluministas também adotaram o termo “Idade das Trevas”, pois entendiam o medievo como uma época de misticismo e superstição, no qual a ciência ficou relegada a segundo plano e o mundo era regido das sagradas escrituras. A existência e o desenvolvimento das universidades mostram o quanto esse termo é errôneo, mas essa revisão foi feita somente no século XX. No século XV, as universidades difundiram o humanismo que é um conjunto de valores  e ideias que priorizam a visão de mundo do homem.

Durante séculos, a teoria teocêntrica predominou na Europa. Todos os fatos da vida humana eram determinados por princípios divinos e baseados na fé. Se tudo é determinado pela vontade divina, então faz parte do plano superior o homem ter nascido servo ou nobre e a imobilidade social é vista como algo natural, inato e que não pode ser transformado. Isso contribuiu para a manutenção da estrutura feudal enquanto esse pensamento vigorou. Então, a expansão do conhecimento permite ao homem questionar o seu papel no mundo e, é claro, o papel de Deus na ordem das coisas. Na Idade Moderna, o homem não é mais um mero espectador, mas um agente transformador da realidade e do mundo que o cerca, interferindo diretamente em seu meio. Esse é o principal sentido do humanismo, ou do antropocentrismo, na qual as necessidades humanas passam a ser valorizadas.

Progressivamente, a Igreja Católica passa a ser questionada. Além disso, a Igreja condena o lucro e a usura, que por sua vez não é a base do comércio que permitirá à burguesia enriquecer. Não é a toa que a burguesia será um dos principais agentes que apoiarão as reformas religiosas. A antiguidade trazia a filosofia e a arte dos traços humanistas como, por exemplo, a filosofia de Platão e Aristóteles sobre a organização social, ou na medicina de Hipócrates.

O Renascimento veio como um conjunto de valores que se manifesta não só na pintura e escultura, mas na medicina, na física, na astronomia e em vários campos do saber. Isso acontece porque são transformações no campo das ideias e por isso afetam o conhecimento humano como um todo. Entre os séculos XV e XVI, Leonardo da Vinci é considerado um homem do renascimento por excelência. Suas pinturas são conhecidas no mundo todo, mas Da Vinci também foi inventor e engenheiro, acumulando diversos saberes e atuando em diversas áreas. Isso mostra o espírito científico e artístico da época, que busca no homem e na natureza a explicação para vários fenômenos da vida cotidiana.

Entretanto, a produção do conhecimento não estava totalmente livre da interferência da Igreja. Cientistas como Galileu foram duramente perseguidos por defenderem suas ideias e teorias. Temos também o Nicolau Copérnico que, no século XV, mudaria por completo a astronomia através da teoria geocêntrica. Entretanto, tal teoria é condenada pela Igreja. Foi no ano de 1542, quando o papa Paulo III restabelece o tribunal da inquisição que passa a observar as descobertas científicas mais de perto. E, por fim, a invenção da imprensa por Guttemberg revoluciona definitivamente o mundo moderno. As obras científicas puderam chegar a um número muito maior de pessoas. Mesmo sendo proibidos pela Igreja Católica, alguns livros são impressos e distribuídos clandestinamente. Isso não se restringe as camadas mais altas da sociedade. Cada vez mais o homem comum buscará a educação como uma maneira de transitar no mundo das ideias, de fazer parte dessa nova realidade.

 

Resumo da Aula 06 – Novas e Velhas Mentalidades

Na Igreja Católica existiam alguns pensadores que procuravam conciliar as novas transformações e descobertas com a ideologia católica. Temos, como exemplo. S. Tomás de Aquino que conseguiu alinhar duas instâncias aparentemente incompatíveis, a fé e a razão. A escola de pensamento fundada por S. Tomás de Aquino se denominará tomismo e seus princípios foram fundamentais para a manutenção do ideal eclesiástico durante a Idade Moderna. Seus escritos serão uma das mais importantes bases do pensamento moderno. De fato, para elaborar suas teses, S. Tomás recupera um filósofo da antiguidade, Aristóteles.

Aristóteles dedicava-se à política, à poesia e à astronomia, tendo sido um dos primeiros a defender o modelo geocêntrico de universo que foi refutado posteriormente por Copérnico e Galileu. Podemos reconhecer aqui um exemplo de como o conhecimento é cumulativo. Apesar da teoria geocêntrica não ser a correta, ela serviu como ponto de partida para a elaboração de novas teorias. Ao retomar Aristóteles, S. Tomás destaca o método de observação de mundo desse filósofo. Dessa forma, a partir do pensamento tomista, a igreja adquire um fundamento teológico, baseado na Bíblia e um fundamento racional, baseado na filosofia. A fé se mantém como o fundamento da obra tomista, mas ao dedicar sua vida a racionalizar os princípios da fé, sendo reconhecido pela Igreja por sua contribuição ideológica, o filósofo buscou demonstrar que todas as coisas que existem provinham de Deus e não havia nenhuma contradição ou separação entre a fé e a ciência.

Por um outro lado, dogma não pode ser racionalizado. Dogma é um princípio irrefutável e a partir do qual uma crença é fundada. Por exemplo, Maria, mãe de Jesus, concebeu virgem. Esse é um princípio de fé: ou acreditamos ou não acreditamos. As ideias tomistas fazem com que a Igreja seja um dos principais representantes da filosofia escolástica. A escolástica é uma corrente filosófica muito disseminada na Idade Média, em especial a partir do século XI e que teria servido como ponto de partida para a filosofia moderna.

Por um outro lado, as classes baixas foram, durante muito tempo, uma classe silenciosa. Não haviam livros sobre ela, não narravam suas memórias, não eram imortalizadas na literatura ou nas artes plásticas, mas sempre estiveram ali mostrando suas forças nas grandes eclosões sociais como os motins de fome e as revoluções burguesas. Uma das mais preciosas ferramentas para transmitir o conhecimento entre as classes baixas era a oralidade. Assim, práticas cotidianas, artes de cura, senso comum, histórias, lendas passavam de pai para filho através da oralidade. Sendo que cada geração ouvia e transformava aquilo que escutava de acordo com suas próprias experiências e com o tempo em que vivia. Como contribuição para tais estudos, o historiador italiano Carlo Ginzburg analisou os arquivos inquisitoriais italianos e deparou-se com um processo de um moleiro chamado Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, e sobre ele traçou um dos mais importantes estudos de caso para a compreensão da mentalidade popular da época. Ginzburg defende a existência de uma influência recíproca entre as culturas das classes abastadas e das classes subalterna.

Em seguida temos Mikhail Bakthtin que foi um russo que se dedicou a estudar a literatura e a cultura popular na Idade Média. Bakthtin escreveu diversas obras, dentre elas, Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Nesta obra, Bakthtin estuda a obra de Rabelais a partir das trocas entre a cultura popular e a cultura erudita de seu tempo. Ao se utilizar de um conceito gestado originalmente na linguística e na filosofia da linguagem, Ginzburg faz o uso da interdisciplinaridade que propõe o uso de conceitos produzidos por diversas ciências humanas, ou seja, um livre trânsito de utilizações e usos dos conceitos.

Por mais que aparentemente exista uma cultura dominante e esta seja mais visível em monumentos, documentos e fontes, esta cultura jamais será “pura”. Ela sempre estará em contato e absorverá a característica da cultura popular e vice-versa. Temos como exemplo, as criações de Shakespeare que não eram movidas pela vontade divina, mas faziam suas escolhas, certas ou erradas, e sofriam as consequências de seus atos. Othelo mata sua amada por ciúmes, Hamlet enlouquece, Romeu e Julieta preferem morrer juntos a viver separados. Ou seja, o homem assume as rédeas de seu próprio destino, um dos princípios do humanismo.

Nas palavras de Ginzburg, são homens como nós, mas ainda assim, muito diferentes de nós. Devem, portanto, ser entendidos a partir da dimensão humana, como indivíduos inseridos em sua própria época e que dispõem de seu próprio conjunto de ideias e costumes, e não serem pensados como uma massa, uniforme e sem rosto, que atua como coadjuvante nos processos históricos.

 

Resumo da Aula 07 – Uma Disputa Secular: Gládio Espiritual e Gládio Temporal

Roma, a exemplo de outras civilizações da antiguidade, era politeísta, ou seja, acreditava em vários deuses. A mitologia romana é uma herança da mitologia grega e os romanos incorporam os deuses gregos, renomeando-os, mas mantendo as mesmas características. Zeus para os gregos é Júpiter para os Romanos, a deusa Hera em Roma assume o nome de Juno e assim por diante. Após a morte de Cristo, seus seguidores e os apóstolos são perseguidos e mortos. Sua crença no Deus único é vista como uma ameaça ao império romano. Entretanto, com a conversão do apóstolo Paulo, o Cristianismo passa a ser pregado e expandido para o Ocidente. Então, no início do século IV, os cristãos obtém de Roma a liberdade de culto e no fim desse mesmo século, o cristianismo se torna a religião oficial do império através da conversão do imperador Constantino.

Não podemos garantir a vida espiritual do imperador Constantino. O cristianismo expandia-se por todas as partes do império e a conversão de Constantino acabou por garantir-lhe o apoio dos numerosos fieis que aumentavam a cada dia. Após a crise e o fim do Império Romano, a Igreja Católica continua a existir e a aumentar seu poder, confundindo-se cada vez mais com o próprio estado. Quando ocorrem as invasões bárbaras que desagregam o império, os germanos adotam o Deus dos cristãos. Podemos perceber mais uma vez que mesmo com o fim de uma era, não significa seu completo desaparecimento e as culturas, sejam elas vencidas ou vencedoras, mantêm um diálogo e influenciam-se mutuamente. A igreja constituiu muito mais que um apoio espiritual, mas também a própria identidade política e cultural do continente.

Apesar dos feudos constituírem a estrutura medieval fragmentada, onde cada um tinha os seus costumes, a igreja surge como uma instituição única. O mesmo livro sagrado, missas em latim, a mesma hierarquia que são montadas em todos os lugares. Progressivamente, o seu poder econômico será igualmente importante ao lugar que ela já ocupa na mentalidade europeia. Através de compras e doações dos fieis, a igreja se torna a maior proprietária de terras do continente. Essa prosperidade era obtida e ampliada através de diversos mecanismos e estratégias. As famílias mais ricas pagavam pelo privilégio de serem enterradas no interior dos templos. Quanto mais próximo do altar, mais rica e nobre era a família.

Além disso, a ideologia católica condenava o lucro e a usura, ou seja, o acúmulo primitivo de riqueza. Muitos senhores pagavam uma enorme quantia para que seu nome fosse mencionado nas missas, mesmo após sua morte. Então, como propriedades de terras a igreja também era uma senhora feudal e possuía os privilégios dessa posição. Suas terras eram arfadas pelos servos e, da mesma maneira que ocorria com os demais senhores feudais, recebia uma parte dessas colheitas. Por um outro lado, a igreja era isenta a pagar impostos, podendo assim acumular riquezas e expandir sua influência.

Os templos católicos característicos da idade média possuem dois grandes estilos, o romântico e o gótico. As catedrais góticas transmitem o que se espera ser o sentimento do homem diante de Deus: humildade e adoração. Essas catedrais possuem um efeito tridimensional, com suas naves em arco, que dão a ideia de que o homem é pequeno diante de Deus. A mais famosa catedral europeia é a de Notre Dame, em Paris. Notre Dame foi consagrada à Maria, mãe de Cristo, e sua construção remonta ao século XII.

No momento da colonização da América, o papel da Igreja foi fundamental e nele podemos notar a disputa entre os poderes temporais e espirituais, colocando a igreja de um lado e o estado, de outro. A exemplo de Portugal, a ordem jesuíta se fez presente nos primeiros momentos de suas colônias. É certo que a igreja moderna não é a mesma igreja que vivenciou o período medieval, mas sua presença na configuração dos estados nacionais aponta para uma transformação e adaptação aos novos tempos. Não é possível estudar o período de transição sem levar em conta o papel da doutrina religiosa nos assuntos de estado. Se é aparentemente mais fácil perceber a religiosidade nos hábitos da população, que mantém seus costumes e crenças, é na esfera do estado que a igreja consolida seu poder.

 

Resumo da Aula 08 – As Grandes Navegações

Além do renascimento comercial e urbano, uma das maiores transformações na vida econômica moderna foram as chamadas grandes navegações. Devemos entender esse processo como fruto de um conjunto de fatores, em especial, o fortalecimento da burguesia e a centralização do Estado. Se o século XIV a peste negra marcou a Europa gerando um enorme período de fome e pelas rebeliões camponesas, o século XV foi um momento de relativa prosperidade. O comércio e o lucro gerado pelo poder monetário, se tornam as maiores fontes de riqueza do período permitindo que o chamemos de acumulação de capital.

Conseguimos visualizar o aspecto cultural quando falamos da chegada do europeu na América, do contato com os indígenas, da imposição cultural do branco, mas não temos essa mesma percepção quando falamos da cultura presente no próprio processo da expansão marítima. O mar era a própria definição de desconhecido para os europeus. E, é claro, tememos o que é desconhecido. Portanto, aventurar-se no Oceano era uma experiência repleta de muitos perigos. Pois durante a Idade Média, o comércio era quase inexistente, a vida se restringia aos domínios feudais e o mar caiu no esquecimento. Sobre ele se contavam várias lendas e esta visão era o lar de criaturas marinhas apavorantes.

Além da questão cultural, a sobrevivência de algumas estruturas econômicas feudais foi um empecilho para o início da exploração marítima. Pois, no século XV, ainda predominava o trabalho servil, mas este não se desenvolvia no mesmo ritmo que o comércio urbano. Isso acarreta uma crise agrícola que, por sua vez, gerou crises de abastecimento generalizadas. A produção agrícola não era suficiente para abastecer o campo e a cidade. A este problema, soma-se o comércio de luxo europeu, que produzia lucros extraordinários baseado nas especiarias vindas do Oriente. Primeiro, era necessário organizar uma caravana de mercadores e isso exigia transporte e muito dinheiro. Tais caravanas percorriam um caminho enorme até chegar ao Oriente. Algumas partes desse caminho estavam sob o domínio dos árabes que cobravam altas taxas para permitir a passagem das mercadorias. Quando chegava ao destino, o mercado europeu tinha preços exorbitantes para poder compensar todos os gastos realizados e, além disso, gerar lucro. A nobreza era uma das principais consumidoras de tais produtos, mas sua principal fonte de renda eram as terras que, por sua vez, não produziam tanto quanto deviam para suprir estes gastos.

A situação se tornou mais grave em 1453, com a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos. Constantinopla era a porta de entrada para o Oriente e o domínio muçulmano encareceu ainda mais as especiarias como cravo, canela, gengibre, sedas e perfumes. E, para agravar mais ainda a situação, parte dos metais preciosos eram utilizados para pagar as mercadorias do Oriente, o que provocava uma enorme escassez de moedas. Então, já que as caravanas eram um empreendimento muito caro, imaginem toda a estrutura necessária para navegar pelo Oceano. Só o Estado centralizado tinha poder e estrutura econômica suficiente para apoiar e organizar este empreendimento.

Cristóvão Colombo já havia proposto uma viagem marítima, muitos anos antes, aos reis Isabel e Fernando. Entretanto, a Espanha lutava para se unificar, sendo necessária a expulsão dos muçulmanos que ainda dominavam Granada. Os muçulmanos foram expulsos em 1492 e, nesse mesmo ano, os reis católicos concederam permissão a Colombo para realizar a viagem. Em outubro do mesmo ano, Colombo chegou às ilhas de caribe acreditando ter chegado às Índias. Acabou que chamando seus habitantes de índios. Colombo não acreditava que tinha chegado a um continente desconhecido. Coube a Américo Vespúcio a chegada ao continente, que por isso ficou conhecido como América.

Diferente dos portugueses que se fixaram no litoral, os espanhóis se dedicaram a explorar as novas terras, deparando-se com diversas sociedades indígenas, entre elas a asteca e a inca. A exploração dos metais preciosos das minas, em especial a prata do Peru, elevou a Espanha a um novo patamar e a tornou um dos grandes impérios europeus. Em 1494, foi assinado o Tratado de Tordesilhas que estabelecia os limites das possessões espanholas e portuguesas.

A dificuldade em administrar um território tão extenso logo se fez sentir. Impedir o desvio de metais preciosos, assegurar a chegada dos navios em segurança na Europa e montar uma rede administrativa eficiente foram alguns dos principais problemas que se apresentaram. Dessa forma, o ouro e a prata que chegavam na península Ibérica logo escoava para os bolsos da Inglaterra e Holanda. Vários tratados foram firmados beneficiando a Inglaterra, mas prejudicando Portugal.

O Tratado de Methuen, por exemplo, ficou conhecido como tratado de panos e vinhos entre Inglaterra e Portugal no século XVIII. Portugal teria privilégios para comprar os tecidos ingleses e, em troca, Inglaterra teria os mesmos privilégios na compra de vinhos portugueses. Como tinha um comprador garantido, muitos agricultores se dedicaram ao plantio da uva, causando uma crise no abastecimento. Além disso, a demanda por tecidos era muito maior que a demanda por vinhos, mantendo a balança comercial desfavorável. Portugal sempre comprava mais do que vendia. A Inglaterra aplicou a chamada negligência salutar, que permitia que os colonos se organizassem livremente minimizando os conflitos entre colônia e metrópole. E os colonos tinham uma referência política a própria Inglaterra e seu sistema parlamentar.

Podemos então entender que a expansão marítima foi um acontecimento global que emergiu o conhecimento de novas culturas, e o estabelecimento de novas estruturas sociopolíticas que se aperfeiçoaram durante toda a era moderna.

 

Resumo da Aula 09 – Ampliando o Olhar

Como de costume, grande parte dos estudos e pesquisas valorizam o olhar europeu. Mas a modernidade não ocorre somente na Europa, ela atinge também outros países fora do eixo Inglaterra-França e Península Ibérica. A dificuldade que temos em estudar a modernidade em países como a China, por exemplo, é que a China se manteve fechada ao Ocidente durante décadas, o que dificultou o acesso às fontes e, portanto, a elaboração de pesquisas. Em 1949, na revolução comunista, China se isola do resto do mundo, em uma postura que durou um longo tempo. Logo, só muito recentemente é que conseguimos nos dedicar com mais profundidade a história deste país.

Vamos analisar a modernidade ocorrida em três casos: Sacro Império Romano Germânico, Rússia e China.

O Império Romano, mesmo após a sua extinção, era o símbolo de civilização e traduzia a própria ideia do mundo ocidental. A trajetória do Sacro Império Romano Germânico começa com Carlos Magno e o Império Carolíngio. No século VIII, Carlos Magno, governante do reino franco, anexou os territórios da península itálica e expandiu seu território até tornar o Reino Franco um dos maiores e mais poderosos de sua época. As conquistas de Carlos Magno chamaram atenção da Igreja Católica, pois o desejo do papa era ampliar a fé e o poderio católico, amparado na expansão territorial dos francos. No natal do ano 800, o papa coroou Carlos Magno como sagrado imperador em Roma. Tal ato é simbólico e repleto de significado. O Natal é a festa máxima da cristandade e significa o nascimento de Cristo. A coroação nesta data mostra um outro nascimento, o de um imperador. Por ter sido em Roma, centro do Império Romano, remete ao apoio da Igreja e, portanto, de Deus. Podemos perceber que o Império Romano permanece vivo como herança imaterial das sociedades deste período.

Quando Carlos Magno morre, seu filho Luís, herda o trono. Como era filho único, não houve disputas pelo poder, mas Luís tinha três filhos e após sua morte, o enorme império construído nas gerações anteriores foi dividido em três reinos: França Oriental, França Ocidental e França Central. No século X, os duques germânicos fundam o Reino Germânico e elegem Henrique I, do reino da Saxônia, como seu rei. Mas foi Oto I, filho de Henrique I, quem o transformou em um grande império. Oto foi coroado imperador pelo papa João XII e, mais uma vez nascia um imperador e o império, o Sacro Império Romano Germânico.

A história do império russo se confunde com a história religiosa. A Rússia, muito antes de se organizar como uma estrutura imperial, foi invadida pelos povos bárbaros, os mongóis e, mais tarde, os tártaros. A Rússia estava dividida em principados e os príncipes russos pagavam tributos aos bárbaros. Esse período é conhecido como domínio tártaro-mongol. Os bárbaros foram extremamente tolerantes no que se relacionava à prática religiosa, neste caso, a Igreja Ortodoxa Cristã.

O principal centro da fé ortodoxa era Constantinopla, mas com sua queda e a tomada pelos turcos otomanos, a fé russa tornou-se um fator agregador. Se com a tomada de Constantinopla, a Europa Ocidental preponderou a questão econômica que levaria à expansão marítima, na Rússia preponderou o aspecto espiritual, a partir do momento em que esta se viu como guardiã da fé ortodoxa. Então, no século XIV, os russos se reúnem e procuram expulsar os invasores bárbaros, após séculos de dominação. A religião neste caso funciona como um motor, proporcionando uma identidade entre etnias muito diversas. A presença dos bárbaros deixou uma forte herança que se fez sentir também do ponto de vista administrativo. Os príncipes russos impunham o terror e praticavam uma extensa cobrança de impostos que enriquecia e favorecia o estado em expansão.

Na China, o século III a.C foi marcado na divisão de reinos, mas já no século seguinte foi unificada por Qin Shihuang. O imperador centralizou o poder e estabeleceu uma nova administração, padronizando a escrita e a moeda. Estabeleceu também uma espécie de censura, queimando todos os livros que não fossem considerados clássicos. Apesar da cobrança de impostos, o primeiro império passou por crises econômicas, mas estas não abalaram o desejo de grandeza e imortalidade do imperador. Na década de 70, foram descobertas aproximadamente oito mil estátuas na cidade de Xian. O exército de Terracota tinha como objetivo guardar o túmulo do imperador.

A chamada dinastia Qin iniciou a construção de um dos mais famosos monumentos do mundo, a muralha da China. O objetivo da Muralha era repelir invasores, mas este objetivo não foi plenamente alcançado. No século XIII, a China foi invadida pelos mongóis, sob o comando de Genghis Khan. Ao contrário da aliança ocorrida na Rússia, na China os mongóis ficaram conhecidos por sua violência e ferocidade, saqueando cidades e dizimando parte da população local. Entretanto, foi o impulso conquistador e expansionista de Genghis Khan que deu a China parte de sua dimensão continental, pois os mongóis dominaram grande parte da Ásia e do Leste Europeu. Após sua expulsão, tais territórios acabaram com os impérios russo e chinês, além de alguns outros estados independentes.

A modernidade chinesa ocorre após a expulsão dos mongóis e durante a dinastia Ming, no século XIV. Esta dinastia investiu na formação de um poderoso exército, contando com milhares de soldados. Ampliou o comércio marítimo, terminou a construção da grande muralha e iniciou a construção da Cidade Proibida, na capital, Pequim. Os governantes Ming criaram um eficiente sistema de produção agrícola que gerava um enorme excedente agrário. O comércio marítimo na Europa foi estimulado e uma enorme quantia de metal precioso fluía para os cofres chineses. Então, no século XVI, a Companhia das Índias Orientais passou a transportar da China para a Europa um novo tesouro: a porcelana. Neste mesmo século, os japoneses tentaram conquistar a China, e não foram bem-sucedidos. Porém os esforços da guerra consumiram fortunas, e a próspera dinastia secular Ming começa a entrar em decadência.

Juntando com a crise monetária chinesa, há um outro fator que nenhum governo consegue controlar: o clima. No século XVII, a China passa por longos períodos de frio, o que prejudica nas colheitas e provoca uma epidemia de fome generalizada. Além disso, o comércio com os ingleses e holandeses foi prejudicado devido o fortalecimento de vigilância levantado pelo rei espanhol, em combate contra a pirataria. Desde então, a entrada de metais preciosos na China também diminuiu. O conjunto desses fatores corroeu a outrora brilhante trajetória da dinastia Ming. As rebeliões camponesas veio com tudo e, no século XVII, os manchus (da Manchúria) invadem e tomam o poder inaugurando a dinastia Qing, a última dinastia chinesa, que perdurou até o fim da monarquia, no século XX.

 

Resumo da Aula 10 – As Reformas Religiosas

Durante os nossos estudos, podemos perceber que a Igreja não se mantém inerte ao conjunto de transformações sociopolíticas no mundo que a cerca, mas se adapta e cria novos mecanismos para sobreviver e manter seu poder. Então, se na Idade Média o catolicismo constituía um instrumento de unidade em uma realidade fragmentada, na idade moderna teria que dividi-lo frente a um novo processo que se ampliava e conquistava novos adeptos, mesmo entre os reis, a Reforma Protestante. A Reforma Protestante parte dos princípios católicos e, a partir deles, busca novas maneiras de aproximar o homem de Deus. Isso acontece porque a fé não diz respeito somente ao campo espiritual, mas, sobretudo, ao campo político.

No século XVI, a força da religião é inegável, seja ela cristã ou não. Países muçulmanos ainda possuem líderes políticos que são também líderes religiosos. O Dalai Lama é o líder espiritual do Tibet, mas desde que o país passou a ser dominada pela China, na década de 50, o Dalai Lama foi expulso, mas não perdeu, para os tibetanos, seu papel de líder político do país. Os Estados pontifícios desapareceram, mas o Vaticano sobreviveu, tendo o papa como líder de seu Estado. Cada vez mais a religião evangélica se expande, sobretudo na América, estando presente em órgãos importantes como as câmaras e senados ao longo de todo o continente.

As grandes transformações históricas são como correntes, com vários elos entre si. Para falar de reforma, temos que, antes de tudo, falar das transformações políticas e econômicas do Estado moderno. Com a ascensão da burguesia veio junto uma contradição: ao passo que obtinham poder econômico, viam o lucro e a usura, fontes de sua riqueza, serem veemente condenados pela religião que seguiam, o catolicismo. Lucro é o ganho oriundo de uma relação comercial. É a diferença entre o valor de produção da mercadoria e seu preço da venda. Já a usura é o lucro exagerado, no qual se paga mais do que o valor real do bem.

Nesse panorama, podemos inferir que a reforma ocorre não só devido a um contexto político econômico, mas também espiritual. É a ascensão da burguesia, o renascimento comercial e a centralização dos Estados que criam condições para que ela ocorra e se propague. No século XII, floresceu na França o movimento cátaro que acreditava na dualidade, no bem e no mal, e reivindicava uma vida de pureza, pobreza e celibato dos clérigos. A Igreja considerava o movimento herético, e no século XIII ocorreu as cruzadas albigenses, com o objetivo de reconduzir a população aos princípios da fé católica. Deve-se aos cátaros a criação da Inquisição. Então, é um equívoco dizer que a Inquisição passou a existir na contrarreforma.

Um dos precursores da reforma foi Jan Huss que se inspirou em um teólogo inglês, John Wyclif. Wyflcif traduziu a Bíblia para o inglês e fazia enormes críticas aos abusos do papado, ao luxo da Igreja e ao estilo de vida do clero que vivia de forma opulenta com o dinheiro dos pobres. Tais críticas chegaram na região da Boêmia onde Huss vivia. A Boêmia era parte do Sacro Império Romano Germânico que por sua vez tinha relações intrínsecas com a Igreja. Huss foi excomungado e queimado na fogueira.

Dois pontos chamam atenção em especial no comportamento da Igreja:

  1. Primeiro, no caso de Wycliff, ao traduzir a bíblia para o inglês, ele permitia que mais pessoas tivessem acesso a ela, já que grande parte da população não dominava o latim. Isso tornava possível novas interpretações do documento sagrado e, portanto, novas ideias sobre ela;
  2. A punição de Huss. Se considerarmos a noção de contrato social, que os iluministas se dedicaram a estudar com afinco, cabe ao Estado o uso da força e da violência. O que inclui o direito de julgar e punir crimes e transgressões. Quando a Igreja assume o papel que, por direito, pertence ao Estado, está demonstrando a fusão entre religião e política.

Interessante saber que os pensadores reformistas não eram pensadores laicos, e sim membros da Igreja, teólogos, professores das universidades, pensadores que estavam ligados ao catolicismo e conheciam seus dogmas. Martinho Lutero, por exemplo, vivia no Sacro Império Romano Germânico e, como teólogo, vivendo em um país onde Igreja e Estado se confundiam, passou a estudar profundamente a Bíblia. Além de perceber as contradições no seio da Igreja, Lutero se concentrou nos ensinamentos bíblicos de Paulo, no Novo Testamento e na obra de Santo Agostinho. Ele parte de um princípio que é parte integral do ensinamento bíblico, a salvação pela fé.

Lutero passou a incentivar não só a consolidação da fé individual, mas tira a ideia de que a Igreja é intermediária entre o homem e Deus. Em 1517, ele fixa na porta da catedral de Wittenberg suas 95 teses, na qual defende um contato mais próximo entre homem e Deus, o incentivo da fé e a leitura bíblica. O luteranismo então levantou um impasse. Quanto o imperador o condenava, diversos príncipes o estimulavam e incentivavam abertamente. Então, para solucionar o problema, em 1555, a Dieta de Augsburgo concedeu autonomia a cada príncipe para adotar sua própria religião em seus domínios.

As ideias luteranas se espalharam como um incêndio pela Europa. Aproximadamente em 1534, o francês João Calvino, a partir da reforma luterana, estabeleceu sua própria doutrina, o Calvinismo. Simplificando o culto e a arquitetura dos templos, Calvino criou uma doutrina acessível, baseado na chamada doutrina da predestinação. Por um outro lado, os burgueses estavam especialmente interessados nas novas doutrinas que se espalhavam pela Europa porque não condenavam o lucro, nem o comércio lícito. E, também, estimulavam o trabalho e a prosperidade de seus fiéis, o que vinha exatamente ao encontro dos anseios burgueses.

Então, vendo seus templos esvaziarem e suas ideologias em risco, a Igreja Católica inicia a contrarreforma. No século XVI é levantado o Concílio de Trento que estabelecia as estratégias de reação católicas. Neste concílio, reafirma-se a importância da missa e do celibato eclesiástico. Reafirma-se também a transubstanciação do pão e vinho no corpo e sangue da missa, no sacramento da comunhão, além de reforçar a hierarquia da Igreja e o culto aos santos. Também é fundada a Companhia de Jesus, conhecida também como Ordem Jesuíta. Tal ordem foi levantada com princípios militares, e seus membros eram chamados de Soldados de Cristo. Seu objetivo era levar a fé católica aos povos pagãos, especialmente na América. Se na Europa a Igreja perdia terreno, com o apoio dos reinos ibéricos, o mesmo não iria acontecer nas terras coloniais. A Igreja também levantou o Index Proibithorum, uma lista de livros proibidos e cuja posse e leitura constituíram uma heresia.

O que estamos presenciando é uma radicalização da Igreja. Entre escolher se adaptar e rever sua ideologia, ela optou por fortalecê-los e torná-los ainda mais inquisidores. As mudanças nas mentalidades costumam ser fenômenos de longa duração. Não foi este o caso da reforma. As mudanças provocadas foram tão intensas e profundas que ultrapassaram oceanos, chegaram à América e à Ásia e alteraram completamente o panorama do mundo moderno.

Mas, como todo processo histórico, deve ser entendida em seu contexto de produção e no conjunto de fatores que levaram não só ao movimento reformista, mas também a reação católica. Restringi-lo ao campo de uma mudança ideológica ou no plano das ideias seria simplificá-lo, assim como vê-lo como fruto da necessidade de uma nova classe social. Todos os fatores atuaram para que a reforma fosse definitiva e a fé na modernidade adquirisse novas práticas e novas representações.

 

Obrigado pela atenção, pessoal.

Bons estudos!