Arquivo da categoria ‘Idade Média’

simpsonOla pessoal!

As provas estão chegando e estou que nem o Homer Simpson aí do lado. Se bem que para uma postagem falando sobre a intelectualidade na Idade Média… aí vem você, leitor, e se depara com a imagem esse Simpson sonso… Que bela representação… Acho que bebi e não estou lembrado.

Mas, vamos lá! Entrando no assunto da intelectualidade na Idade Média, segundo o historiador Le Goff, na monarquia dos tempos carolíngios, a natureza e a função das escolas e dos pensadores e produtores de ideias eram muito diferentes do que foram no tempo da predominância da cultura urbana e que sua difusão não ultrapassa círculos aristocráticos – eclesiásticos e leigos. Por um outro lado, houve uma crise universitária no período referente à chamada crise dos séculos XIV e XV, anterior à Peste Negra em 1348, desde 1270-77 com as condenações doutrinais levadas pelo bispo Étienne Tempier em Paris. Nesse período, um novo intelectual humanista acaba que substituindo o universitário medieval.

Primeiro, vamos marcar as etapas de como nasce o intelectual medieval:

  1. Etapa: Professor; A Escolástica; A valorização da literatura;
  2. Etapa: A organização da Igreja – Hereges x Bispos; Judeus x Cristãos; Herético x Intelectualidade;
  3. Etapa: A nova concepção eclesiástica – Tomás de Aquino; Razão – Deus e Filosofia;
  4. Etapa: A universidade e o humanista – A busca dos burgueses; Aristocracia política e hereditária; O divórcio entre a fé e a razão; Século XIII-XIV, a negação humanística; A Igreja intelectual; A universidade e a disputa entre o poder político x episcopado;

Nesse contexto, as pessoas vêem a hegemonia da Igreja durante séculos sendo rompido no século XVI através do monge Martinho Lutero e o Protestantismo. Porém, o processo não foi bem assim. Haviam contestações que sempre existiram no seio da Igreja como as ordens monacais mais tradicionais, e também como beneditinos e dominicanos com ordens nacionais que propunham releituras, como franciscanos e cistercienses. Nessa época, a Igreja estava disseminada devido aos avanços urbanos. As pregações não poderiam mais ser em latim como era antes. O pregador beneditino não via vantagem pregar em latim para as prostitutas, judeus, mendigos, entre outras classes. A pregação passou a ser na língua local.

A partir do século XIII/XIV surge os esforços de reunificação, por exemplo, tanto os aliados da França quanto o governo lutam para alcançar legitimidade para que seus monarcas sejam conhecidos como reis. Portanto, uns defendem a ideia da república, outros a ideia de microrreinos – a organização de governo dentro de cada cidade. A Península Ibérica, por exemplo, é marcada por um novo modelo de reino, unificado no princípio de organização militar. Além disso, os portugueses se organizaram com os senhores feudais de Castela. No espaço da Península Ibérica, os reinos cristãos combatem ao sul levantando um reino paralelo e, em seguida, vários reinos são formados nesse espaço, chamado de Espanha.

Os árabes se fortalecem evitando que os cristãos continuem com o seu avanço na África. Portanto, eles começam a buscar outras alternativas, sem passar pelos árabes, recuperando o caminho das rotas saarianas e começando a negociar com alguns grupos. No século XV, os turcos otomanos fazem acordos com Roma, Gênova e Veneza, e o comércio fica restrito somente a esses grupos, tornando um problema para os franceses e para a Península Ibérica recém-conquistada.

Ricardo Coração de Leão retorna das Cruzadas com legitimidade. Ele é apresentado como um salvador por ter vencido todas as adversidades, mas apesar de não ter vencido Jerusalém, conquistou todos os outros reinos cristãos. No caminho de volta para a Inglaterra, o cara é capturado e salvo por um árabe Avicena. Logo em seguida, funda uma escola de tradução e, quando morre, seu primo, o sucessor, João Sem-Terra, foi considerado o pior monarca da Inglaterra. Ele confiscou os territórios da Igreja e de nobres, e entrou em disputa com os franceses iniciando uma série de batalhas para conquistar territórios do outro lado do Canal da Mancha. Como consequência perde o apoio da Igreja, dos nobres e começa a gastar demais deixando seu povo insatisfeito. João teve que enfrentar uma revolta dos nobres apoiados pela Igreja. Sua assinatura no documento “Magna Santoro” é uma prova de que João está abaixo da lei, e que nada pode ser feito para que seja um monarca.

No século XIII, a França vive seu século de ouro. O monarca São Luis, além de ser chefe militar, também levanta a ideia de que todo rei tem dois corpos: um político e um divino. E, como divino, as suas atuações estão apenas submetidas a Deus. Ele ainda se diz escolhido e representante de Deus na terra e que, como a Igreja deve seguir a Cristo, ela é submissa ao rei. Além disso, São Luis era taumaturgo, pois curava as escrófulas e as doenças. E, seu poder é tão forte que entra em disputa com o papa a ponto de escolher o anti-papa. Ou seja, foram duas figuras eclesiásticas se autodenominando papas e monarca francês, garantindo a um deles a própria existência como papa. O papado é tirado de Roma e levado a uma cidade francesa, muitos defendem que é o novo cativeiro da Babilônia. É o lance do poder político atuando de uma maneira direta originando a Guerra dos Cem Anos. Foi quando Henrique III e Luís X entram em disputas territoriais. Jaime de Castela, filho de Afonso X (aquele que organizou o reino de Castela), inicia uma batalha sobre os domínios dos territórios de Narbona.

Portugal era apenas uma região chamada Portocale no século XII, em meio as disputas da Reconquista. Os poderes locais eram militares com a Igreja estando envolta das batalhas, mas sem funções intelectuais. Afonso Henrique entrou em acordo de fidelidade com o rei de Castela com a função de vencer os mouros, e ter o direito sobre as terras, mas reconhecendo a soberania de Castela. Quando dominou as margens do Tejo, ele funda Portugal devido a crônica de seus guerreiros exaltados e aclamados com sua bravura, que o dominaram e os colocaram dentro da Igreja, elevado a uma fila de escudos, e lá o clérigo o reconhece como o Rei. Alfonso Henrique se torna o primeiro Rei de Portugal. Neste momento, a Igreja além de reconhecer o reino de Portugal, passa a auxiliá-lo em sua organização política formando os novos nobres e participando do crescimento das cidades portuguesas. Logo é fundado uma universidade em Portugal participando nas decisões políticas. Por um outro lado, o bispo de Roma precisa equilibrar os poderes laicos, fundando universidades próprias como o Rei Francês fez, por exemplo, em mandar expulsar os clérigos da universidade de Paris e contratar professores para estruturar uma universidade laica local.

A Guerra dos Cem Anos: A ocupação dos normandos na Inglaterra levantou um quadro de disputas entre os senhores locais. Nesse quadro, a disputa tem influência dos franceses que consideravam os senhores Guilherme (o conquistador), Normando, que dominou a região fruto de acordos com a dinastia dos Capetos, senhores do Norte Europeu. Quando esses grupos entram em conflito, só alcançam uma reunificação no século XVI, quando a França passa a exigir o aumento dos impostos nessa região. O Reino Inglês, no primeiro momento, se declara herdeiro legítimo de um trono vago no norte da França organizando seus homens para incursões, e fazer cumprir seu direito como senhor dos ingleses. Essas batalhas são marcadas por anos de rivalidades fundamentais para a especialização da força militar e para as forças do papado. Além de marcarem nomes na História, como o de Joana d’Arc. O Sacro Império carrega disputas com novos reinos como a Polônia, Romênia e o separatismo exaltado pelos seus príncipes que esvaziam o poder político da monarquia germânica. As regiões ligadas ao Mediterrâneo como a Itália, Portugal, Espanha e a França, passaram por transformações econômicas e sociais devido a expansão do comércio dos séculos XII-XIV junto com o crescimento de suas cidades.

Por um outro lado, temos Agostinho como uma das principais referências na Idade Média. Ele pregava a edificação moral para formação de novos clérigos. Houveram outros como Bernardo de Clavaral que ensinava sobre o alcanço do homem à Deus pelo amor e não pelo conhecimento. Também tinha Bernardo de Chartres, Isidoro de Sevilha, dentre outros. Há também o movimento escolástico de Tomás de Aquino, que defendia a razão como forma de alcançar a Deus. Através de uma filosofia neoaristotélica, Tomás dizia que Deus é a essência do homem e que está em cada um de nós.

Carregando as visões agostinianas e tomasianas para o lado econômico, enquanto Agostinho tinha uma fórmula tradicional reconhecida por boa parte dos clérigos, sobre um mundo dualista em que a salvação estava na verdade. Tomás de Aquino nos traz um mundo que circula, vende, compra, viaja, compra livros, lê e tudo mais o que seja necessário. Os novos senhores utilizam suas riquezas para acumular riquezas, e conseguir reconhecimento muito além do financeiro. É um novo mundo e seus elementos se misturam. A Igreja faz o comércio e os bispos são responsáveis pelo direito da casa de fundição. É como se não existisse uma separação completa de funções. O mosteiro também é um lugar de pouso para grandes viagens.

Na cidade, os nobres possuem dinheiro enquanto a Igreja e os judeus se ligaram às estruturas comerciais. Neste momento também, a Igreja ficou proibida de cobrar juros e o templo é divino e não se pode cobrar por ele. Os judeus crescem como grandes financiadores desse grupo, segundo modelos eclesiásticos que já tinham sido estruturados pelos templários no período das Cruzadas. Nas universidades só irão estudar a nobreza e aqueles escolhidos pelos clérigos.

Os Cinco Sacramentos: No século XIV/XV, a Igreja passa por umas reformas através dos quatro Concílios de Latrão, nos quais ficou determinado a Igreja Romana como sede principal e os cinco sacramentos, que antes não estavam configurados – o batismo, casamento, comunhão e extrema unção. A confissão, nesse momento, torna-se obrigatório. O lance da confissão é o espaço mais íntimo, onde a pessoa expõe todos os seus erros sem risco de ser condenado e, em seguida, se arrepende de seus pecados.

No começo do século XII, surgem vários atores que passam a ter respeito pela sociedade e um deles é o professor. O professor era aquele que foi, provavelmente, educado na Igreja e, aos 18 anos, teve o direito de escolher se segue a Igreja ou vai para o século (cotidiano). Também começa a circular a burguesia, os artesãos, todos que buscam valorizar a sua forma de poder. E todos eles também serão educados por esse professor. Daí surge, no século XII e XIII, o lance da escolástica. No primeiro momento, a escolástica não é um movimento intelectual, mas uma escola que acaba trazendo para dentro da Igreja uma série de movimentos de transformações no mundo da leitura. É notório a organização da Igreja com uma nova concepção filosófica de pensar a própria Igreja, e de entender o mundo que estava sendo organizado. Nesse campo escolástico, Tomas de Aquino carrega os pensamentos de Aristóteles. Logo temos o neoplatonismo mostrando o mundo de sombras vivida pelo homem, ou seja, tudo o que vemos é o arremedo de uma verdade. Agostinho é o grande organizador nessas idéias platônicas ao criar uma ideia de que existe uma Jerusalém Celestial. Quando todos os impérios caírem, significa que é chegado o momento em que os reinos se unirão para o juízo final. E assim, o homem alcançará a verdade.

Aristóteles, ao contrário de Platão, dizia que não podemos imaginar um mundo de sombras e uma realidade além delas. Ele defende que cada elemento possui verdade na essência. A ideia de Aristóteles era através do questionar que alcançamos a essência das coisas. Essa concepção permite em entender que Deus existe.

As universidades surgiram através da sofisticação de um sistema que já existia, que é a educação eclesiástica. A diferença é a educação e o seu crescimento que se relaciona com as grandes cidades, mas busca por conhecer e pela posição que o aluno formado alcança. As primeiras universidades eram de direito, medicina, teologia, gramática (letras), cirurgião, matemática e filosofia. Os mestres eram aqueles que valorizam cada vez mais os movimentos intelectuais durante a Idade Média, são membros de Igreja, bispos, intelectuais e beneditinos. O lance do livro proibido não existia até o século XII. Os livros proibidos existiam, mas foram passados pra frente, porque não eram copiados e acabavam por si só. Logo mais, os burgueses passam a buscar essas universidades para favorecer a sua estrutura e organização.

Por um outro lado, a universidade laica não perde força em relação à eclesiástica. São professores reconhecidos onde os burgueses irão buscar apoio. Há vários grupos como a própria burguesia, a nobreza estruturada, e, enquanto a universidade cresce, novos grupos vão surgindo e entrando nelas. Houve um outro lance também onde alguns clérigos passam a defender que a razão enfraqueceu a Igreja, é a ideia do anti-intelectualismo. Abelardo, seguidor de Tomás de Aquino, escreveu uma obra no século XIII, sobre um conceito que vai no velho testamento e pega passagens onde aquele mesmo conceito se contradiz com o velho testamento. Isso é quebrar a ideia de inspiração divina da Bíblia. Ele também dizia que toda retórica afastava o homem de Deus, e que a razão não é capaz de buscar o divino, pois o divino deve ser sentido a partir do momento em que se prega. Além disso, o movimento renascentista não é uma estrutura prática, mas fruto de um processo de uma série de reflexões medievais. Esse movimento é de dentro da Igreja, mas a laicização é defendida por alguns grupos.

 

IDADE MÉDIA EM CRISE

Os movimentos iluminista do século XVIII e o Racionalista do século XIX são os que construíram a posição didática nas quais são: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e a Contemporânea. O objetivo de montar essas Idades era para afirmar que o homem, entre a criação da escrita e todo o período da antiguidade cresceu, evoluiu e transformou. Mas, durante a Idade Média, o homem se estabilizou e não progrediu.

Huizinga, em sua obra “Outono da Idade Média”, nos mostra que nos séculos XIV e XV foram períodos que caracterizaram a grande crise da Idade Média. Já Philip Wolf, em sua obra “Outono da Idade Média ou Primavera dos Tempos Modernos”, nos mostra que os séculos XIV e XV podem ser observados elementos que fundamentam um período posterior. Le Goff alega que a Idade Média vai até a Revolução Francesa e, anos depois, muda de ideia dizendo que vai até a Revolução Russa, devido aos elementos analisados que foram rompidos na Europa Ocidental. De um jeito ou de outro, vivemos em uma sociedade com continuidades e rupturas que podem ser muito mais longas do que pensamos.

Os séculos XIV e XV são normalmente observados com a presença da peste, da guerra e da fome. Entretanto, a peste, a guerra e a fome não são problemas exclusivas da Idade Média. Mudam-se as organizações sociais e essas desventuras continuam existindo. Normalmente, o surgimento da burguesia e o estado moderno é o marco para o fim da Idade Média. Apesar da burguesia surgir ainda na Idade Média, ela deu forças na transição de um período para o outro.

No século XVIII, a Revolução Francesa marcou uma mudança climática ocasionando em muitas revoltas camponesas. E, em uma ilha da Islândia teve um vulcão em erupção, e a população ficou sem produção e sem comida. Portanto, busca-se uma alternativa complexa do quadro social. Se há dinheiro, o cara compra comida. Sem dinheiro, ocorrem saques. Nos anos de 1315 e 1322, acreditam-se que ocorreu um fenômeno climático conhecido como El Nino, ocasionando numa queda de 60% na produção de alimentos nesse período. Muitas pessoas migraram para as cidades e a produção foi diminuindo e a Igreja passou a ter mais apoio, e ocorre o fenômeno chamado de Carestia – elevação de preços chegando ao ponto de não poder comprá-los. Há grupos dependendo de assistência da Igreja e, com isso, alguns grupos tornam-se mais ricos e outros, em sua grande maioria, mais pobres.

O senhor que garante boas produções com servos bem organizados, não enfrenta revoltas camponesas. Mas um senhor sem condições e que cobra mais dos camponeses, e se apossa mais dos produtos para tentar lucrar no período da fome e da crise, esse sim irá sofrer uma revolta camponesa. O quadro de pobreza nas cidades é estabelecido, e grupos heréticos começam a pregar um novo governo facilitando revoltas urbanas.

Quando as guerras vão se sofisticando e os cavaleiros aumentam suas disputas, começam a ter o aumento de um sentimento nacional. Ainda temos o monarca e que passa a ser o convocador dessas guerras utilizando a legitimidade de juramento. A afirmação medieval permanece, mas ganha uma nova roupagem – é uma fidelidade àquele que representa a centralidade do governo. No século XIV, as guerras não passam mais a ser locais, mas sim entre reinos, e entre países. São nessas disputas de alianças que vão começar a marcar de forma clara o século XIV. A aliança de vários grupos começa a vender a ideia de unidade, porque a identificação que marca cada um é comum, como o discurso da Igreja legitimando. Perder um território é diferente de perder uma cidade, porque a monarquia se sustenta cobrando impostos e dos dividendos que conseguem.

As epidemias não são novidades e faz com que uma série de obras incentivam à entrega ao prazer, ou grupos criam espaços fechados de oração esperando a morte, porque tais epidemias junto com guerras eram como o juízo final. Há relatos de suicídios coletivos e as imagens da época começam a ser construídas pelo medo. Esse medo associado à guerra da estrutura nacional, acaba matando muito mais e aprimora as heresias que alimentam mais ainda o medo. A cidade, por ser a mais populosa, se torna bem mais vulnerável ao contágio de doenças. A peste se dá na troca de comércio que vem dos navios e se torna mais forte nas regiões litorâneas.

A representação da Igreja começa a ser uma grande disputa. No século XIV, ocorre um pequeno Cisma. Há dois papas, um em Roma que é protegido pela Inglaterra, pelas cidades italianas e pelo Sacro Império. A Inglaterra apoia Roma, porque ela não apoia a França. Já a Escócia apoia a França para não apoiar a Inglaterra. E, em 1417, quando Gregório reassume um concílio e acaba com a briga, estabelece um papado em Roma, mas as disputas ainda não cessaram.

Quando Urbano IV e Clemente VII se proclamam papas, o primeiro em Roma e o segundo em Avingon, marcam-se o quadro de transformação no século XIV e termina no século XV. A partir disso, várias mudanças são estabelecidas. Surgem novos intelectuais que defendem que não devemos seguir nenhuma igreja. Também temos a presença da prensa mecânica para a difusão de certos materiais. Temos uma transformação econômica, as trocas mundiais se ampliam e novos caminhos são buscados, a economia se sofistica. A Europa passa a negociar da Rússia até a África e Ásia….

 

Bem pessoal, termino por aqui. Realizei esta postagem tendo como base os capítulos 9 e 10 da disciplina História da Idade Média Ocidental, 2º Período, curso Licenciatura em História. Faculdade Estácio de Sá.

 

Valeu!

Marcell

cidade_medieval

Ola pessoal!

A gente sempre imagina a Idade Média como um mundo de campos e camponeses, mas agora iremos fazer um pequeno êxodo rural para analisarmos o desenvolvimento da cidade medieval. O historiador Le Goff chama os séculos XI e XII como os séculos do Renascimento Urbano. Por um outro lado, esses séculos também ficaram marcados com um famoso movimento: As Cruzadas. Esse movimento é constituído por um exército de cristãos que lutam contra os infiéis para recuperar a Terra Santa. O Imperador Bizantino, Aleixo Comneno, enviou uma carta para Urbano II alegando estar em apuros devido as invasões dos turcos ocupando o braço de São Jorge (atual Turquia Ocidental ou Anatólia). E, apesar do grande Cisma de 1054 que fez o Ocidente romper com o Oriente, tendo como sede Constantinopla (Oriental) e outra em Roma (Ocidental), o Cristianismo não perdia a linha do seu reconhecimento. Portanto, eles deixaram o Cisma de lado porque eles faziam parte da essência do Cristianismo, os turcos não. Então, Urbano II fez do seu discurso um motivacional para salvar a Cristandade convocando os cruzados em um concílio no sul da França – Concílio de Clermont.

Por um outro lado, Urbano II não era só um clérigo. Pois, para ser Papa, ele era um senhor, alguém com família de representação social e que garantiu seu poder também dentro da instituição religiosa. E, por questões de marketing, Urbano II já tinha se associado a grupos normandos para serem novos defensores da Igreja na Península Itálica. A história das Cruzadas é construída após as conquistas e organizações cristãs, mas o que temos de fato é um contexto conturbado europeu com uma série de combates, disputas de terras, além de inúmeros cavaleiros sem terra buscando se fortalecer.

Os primeiros grupos que se direcionam são peregrinos e maltrapilhos, e mercenários normandos que haviam vencido lombardos recentemente. São vitórias que criam um fluxo e enriquecimento abrindo os olhos dos nobres e reis. As cruzadas acabam que transformando o quadro social e econômico europeu. Da-se a entender uma guerra justa, pois o inimigo está perdendo devido ao apoio de Deus e, melhor ainda, os filhos de Deus estão se enriquecendo, já que os primeiros cinquenta anos de cruzadas permitem o estabelecimento de espaços cristãos no Oriente. Muitos senhores começam a encher seus bolsos e, com isso, acabam adquirindo seus próprios territórios.

Durante esses cinquenta anos, o comércio passaria por uma enorme transformação, pois as cidades crescem e novas rotas são estabelecidas. O ouro e a prata presentes na rota saariana aumentam sua chegada na Europa. Os cavaleiros se enriquecem nas guerras com o botim e as terras, e nos torneios que alegravam as cidades. Sem contar os pedágios cobrados pelos senhores e a tecnologia desenvolvida nos mosteiros, além do clima favorável que permitia a Europa dos séculos XII e XIII incrementar sua produção. Há mais alimentos. Os castelos crescem, as muralhas se espalham e a Igreja reforça o seu poder, seja por ordens militares (templários), seja pelas doações e terras que obtêm no Oriente.

Há mais comércio, mais sistemas de trocas, a educação é valorizada, há mais artesãos, e também, crescem os romances de cavalaria. O comércio de relíquias também cresce devido a busca do Graal, os pedaços da cruz de Cristo, entre outros. A peregrinação para Jerusalém e espaços de santos se tornam parte integrante da mobilidade européia, aliás, o caminho de Santiago de Compostela surge neste contexto. Por um outro lado, os monges acabam que negando a cidade, pois insistiram em dizer que é o lugar do pecado, da dor. É o espaço onde o homem fica perdido devido aos jogos, as tabernas, as danças, as prostitutas, os judeus, os mendigos, os leprosos, entre outros. A cidade é considerada a mais suja, mas também a mais rica. Os debates também se tornam mais desenvolvidos e novas ideias surgem. A cidade é um lugar de heresia.

Por falar em heresia, a heresia albigense foi a que reuniu mais adeptos na Baixa Idade Média e foi a que teve maior repercussão naquela época. Os cátaros distinguiam-se das seitas desse período devido o caráter dualista da doutrina que eles carregavam. Portanto, se de um lado as cidades eram a concentração dos ouvintes da Igreja, do outro temos o clero mal formado, fragilizado nos espaços seculares e incapaz de combater os pensadores heréticos.

Dominicanos: Os primeiros discursos da Igreja nos séculos XII e XIII sobre o crescimento das cidades afirmam que a cidade é o lugar que o bom cristão deve fugir, pois a cidade era o local da discussão – onde os preceitos religiosos poderiam ser relidos e contestados. E, nesse contexto, surge a noção de Ecclesia Universalis. Um lance de fundar uma nova Roma e reestruturar o herdeiro do Império se torna cada vez mais: Nós, Igreja, somos Deus vivo, somos descendentes de Cristo na terra. Reforça a ideia de que Roma é a maior de todas as sedes episcopais, rompendo assim com o Oriente. Os reformadores organizados em uma nova Ordem Cistersienses e ordens que buscavam reestruturar a origem da Igreja Clunyassenses concordavam em um termo – o Papado deveria ser o centro do poder. Portanto, surge o colégio de cardeais para organizar a igreja e os bispos em cada sede passariam a obedecer a um bispo local. Os reis chegavam a não aceitar no primeiro momento e ocorreram alguns conflitos e ameças contra a Igreja como, a tomada de palácios episcopais, desterro de bispos e do próprio Papa. Em meio a esse pequeno caos, as cidades permaneciam sendo um enorme desafio e os Dominicanos, chamados frades pregadores, foram os primeiros reformistas a disputar as linhas sociais heréticas e discursivas. Com as suas pregações em praças públicas, alguns foram reconhecidos para canonização. Esses frades não temiam a cidade, pois era como foco de sua luta contra o mal.

Franciscanos: É o movimento que nasce dentro do Centro Urbano, na Itália, em meio às cidades comerciais. Eles pregavam o amor e a caridade, e principalmente a necessidade de imitar a Cristo. Foi aceito pela Igreja em um momento onde as heresias cresciam e, inclusive, foi uma surpresa quando a Igreja os aceitaram. A ordem dos frades menores, assim como sua correspondente feminina fundada por Clara de Assis, tinha na caridade e atuação junto aos marginais dar ressignificação à missão evangelizadora presente nas cidades medievais.

 

CONHECENDO A CIDADE MEDIEVAL

Os primeiros homens que voltavam das cruzadas vieram enriquecidos e com possibilidades que antes eram muito difíceis. Buscavam reproduzir grandes castelos e organizações sociais vistas no mundo Oriental. As cidades medievais estão relacionadas a um processo da civilização material, fruto da produção agrícola e da evolução demográfica assistida na Europa Ocidental a partir do século X. Após o ano 1000, a economia se eleva e incrementa a expansão urbana. Essa expansão (1150-1330) pode ser acompanhada através da superfície de algumas cidades como Bordéus, que passa de 30 a 170 hectares, a construção de muralhas e cidades novas, tais como Villeneuve e Neuville. Por um outro lado, era comum as pessoas reunirem em torno de um castelo e estabelecerem seus comércios formando um núcleo urbano que iria dar início à futura cidade.

Por volta de 1250, a rede urbana da Europa pré-industrial já estava traçada: Paris era uma das maiores cidades, com cerca de 200.000 habitantes, as metrópoles italianas contavam com aproximadamente 60.000 habitantes. Centenas de pequenas cidades cobriam o mapa da Europa com uma população que variava de 1000 a 10.000.

Além da importância das feiras e dos comércios, merece destaque também a função religiosa exercida pelas ordens medicantes. Eles administravam o lado cultural das escolas e universidades e a função política, onde ocorre a luta pelo domínio do poder nas cidades. O crescimento urbano também está relacionado as cortes dos grandes senhores. Portanto, a cidade se define como um domínio que pertence a um ou vários senhores. Esses senhores concedem parte de seus direitos às comunidades urbanas ascendentes. Porém, essa concessão nem sempre foi acompanhada pela aceitação geral dos citadinos, de forma que grande parcela dos direitos tiveram que ser arrancada à força. Essa reação contra os poderes arbitrários ganhou força com um movimento comunal. A comuna era uma associação que residia no juramento mútuo que seus membros prestavam. Desde o século IX, na época carolíngia, as comunas tiveram um papel marcante na formação das cidades e na emancipação de mercadores, sempre voltado para questões econômicas.

Junto com o desenvolvimento da cidade, temos também o lance da prostituição. A prostituição não era condenada na Idade Média, pois os posicionamentos da Igreja vão e vem em relação à necessidade de sua existência. Muitos alegam que a prostituição é como um esgoto, pois apesar de ser algo feio e asqueroso, as prostitutas eram necessárias para manter o bom funcionamento da cidade. Além disso, muitos clérigos eram donos de prostíbulos e era comum prostíbulos ficarem no andar de câmara do comércio. Nem todas as igrejas apoiavam ou se utilizavam da prostituição, muitos pregavam que é a nova Sodoma e Gomorra. Por um outro lado, há cidades em que as prostitutas eram exiladas e lançadas para fora, e a Igreja dava ênfase na regeneração delas. O Papa Inocêncio III oferecia a remissão dos pecados a quem se casasse com elas. Foram até criadas casas religiosas para prostitutas regeneradas. Havia diversas santas cujos cultos eram promovidos como exemplos de vida para as prostitutas regeneradas, como por exemplo, Santa Maria Madalena.

Historicamente há três mulheres chamada “Maria” – uma adúltera, uma rica e uma intelectual de Magdala, e uma outra que era chamada diretamente de Madalena. Não há nenhum fundamento bíblico para afirmar que as Marias eram uma só pessoa. Os períodos e as relações eram diferentes. Não havia sobrenome e a apresentação da pessoa era pelo nome do pai (João filho de José), ou pela cidade. O sobrenome é uma estrutura posterior, um reconhecimento familiar. Muitas vezes usa-se o mesmo nome por questão de legitimidade pelo reconhecimento do outro. A ideia do sobrenome se torna forte através do batismo, que vai construir uma noção de linha familiar. Se não havia uma única Maria Madalena, ela é criada no século XII/XIII, na forma de prostituta. Por um outro lado, se uma adúltera ou prostituta se arrepender e virar santa, qualquer mulher também pode. A Igreja prega salvação e oferece formas de salvação independentemente para quem. Pelos ensinamentos da Igreja, a mulher é um invólucro e o filho é do homem, a mulher é como o jarro e não havia noção de óvulo. Nesse momento, se o filho é do homem, quando se desperdiça o sêmen, está se desperdiçando algo divino. Então, a masturbação e o homossexualismo não eram aceitos.

Para uma sociedade crescente, nota-se que as mulheres começam a ser um dos elementos primordiais. Na Idade Média, a mulher não tinha um papel tão submisso, elas não eram frágeis, sem força, sem papel social e político e isso incomodava. – Me fez lembrar da Xena – Essa mulher submissa aparecia nos documentos e sabemos que documentos medievais eram extremamente masculinos e, boa parte dos seus escritos são da Igreja à sua reprodução masculina. Portanto, surgia a misoginia que seria o ódio à resistência, repulsa às mulheres. E, uma sociedade misógina era considerada uma sociedade mais civilizada.

No século XIII, as mulheres liam e escreviam. Tanto que no mosteiro feminino, isso era obrigatório. Temos vários registros que constam sobre a leitura das mulheres na corte. Chamam atenção uma série de materiais e muitas vezes são uma espécie de novelas. Estes materiais estão relacionados às damas das cortes que eram as que mais liam e as que mais reproduziam – Tristão, Isolda, Rei Arthur, As Brumas de Avalon, entre outros. Os clérigos relatavam que as mulheres da corte eram chatas, pois mandavam, subvertiam a ordem e provocavam guerras. Por um outro lado, já teve um período onde a mulher representava o paganismo. E muitos imaginavam que durante a Idade Média, o Cristianismo se estabeleceu de uma tal forma que não existiam outras manifestações religiosas. Além disso, no final da Idade Média surgiu uma avalanche de trabalhos e livros voltados para o paganismo. A Igreja buscava abraçar a mulher urbana, mas ela não conseguia se desfazer dos seus discursos formadores. Pois ela discutia práticas das mais complexas sobre o que as mulheres faziam, percebendo que tipos de críticas e de elementos podem ser discutidos. Nesses discursos notamos as práticas que denotam como a mulher, apesar de ser envolvida e trazida para dentro da Igreja, tinha que passar por controles de maneiras mais fortes e vigorosas do que o homem.

Uma outra questão que podemos destacar é a arte gótica. Durante os séculos XII e XIII, vemos o crescimento do Gótico. O nome refere-se a ideia de escuridão e de tenebrosidade, mas não é bem assim. O Gótico vem para ser a resposta da Igreja às grandes cidades, buscando marcar seu papel como um espaço especial e, nesse sentido, os prédios crescem e a arquitetura e a engenharia conseguem grandes progressos. Um dos fenômenos marcantes são os chamados arcos de Ogiva. O Gótico é caracterizado pela luz como elemento vital de suas construções, e seus vitrais eram colocados para que fossem iluminados no nascer do sol, dando efeitos diferenciados nos momentos de alvorada, valorizados no Natal, Páscoa e dias santos. As imagens ganham tom tridimensional, se aproximando do Renascimento.

 

Obrigado pela atenção, pessoal. Realizei esta postagem tendo como base os capítulos 7 e 8 da disciplina História da Idade Média Ocidental, 2º Período, curso Licenciatura em História. Faculdade Estácio de Sá.

 

Valeu!

Marcell

mundo_feudal

Ola pessoal!

Podemos observar que a literatura feudal enfatiza muito o cavaleiro errante, a bela donzela e alguns outros elementos míticos que podem até representar uma crítica na estrutura social daquela época. Essas histórias surgem através de uma ampliação de leitura nos palácios, nas cortes, onde principalmente as mulheres passam a ler constantemente. Por um outro lado, os escritos eclesiásticos junto com essas literaturas da corte nos ajudam a entender como era a sociedade feudal.

O Império Carolíngio não é uma continuação do Império Romano, mas uma construção por meio de ideias dos intelectuais da Igreja que buscavam em marcar uma continuidade da era anterior naquele momento. Eram ideias muito mais voltadas para a Igreja do que para o próprio monarca, mais inserido em suas disputas locais, no momento da organização do reino. É a luta do bispo de Roma para se afirmar como o mais importante da Cristandade, pois naquela época não havia o Papa que conhecemos hoje. Havia uma disputa entre os Patriarcas de Constantinopla, de Jerusalém, de Antioquia, de Alexandria e, por fim, de Roma para ser o supremo, o cabeça da Cristandade.

Os Francos, politicamente falando, não tinham os mesmos interesses do Império Romano. Eles tinham uma concepção mais patrimonial, valorizando as relações pessoais e se preocupando mais com o local do que com uma busca de retorno do Império Romano. A Igreja era a única que falava de unidade, lembrando que boa parte dos documentos feudais eram produzidos por ela. Portanto, no momento em que o Império Carolíngio perde a sua legitimidade, a Igreja passa a buscar por outras alternativas.

No século IX, o poder não era centralizado, mas era específico em cada um dos espaços europeus medievais. Por um outro lado, nesses espaços há o crescimento dos mosteiros. O mosteiro era estabelecido em terras cedidas ou herdadas pela Igreja local. Por terem uma organização própria, também passam a obter uma hierarquia interna. Percebemos nesse modelo que nem toda igreja possui guarda ou propõem lógicas às sociedades, mas são os mosteiros que acabam tendo esse papel. Em suas escolas locais saem os membros da hierarquia secular, os bispos e até mesmo os nobres.

Carlos Magno levantou uma poderosa máquina de guerra e conquistou territórios da Germânia à Península Ibérica, dos limites com a Inglaterra até a Península Itálica. Entretanto, a manutenção desses territórios se torna complicado devido a presença de proprietários de terras e nobres que administravam em nome do Império. Por um outro lado, as demais forças continuavam se fazendo presente, e outras novas irão se juntar mediante aos conflitos que surgem durante os séculos IX e X. Com a morte de Carlos Magno, sua política se misturou com a visão de uma poderosa unidade que, aliás, nunca existiu com o próprio monarca ativo. Luís, o piedoso, traz a noção de que o poder ficaria unido pela honra e glória na Igreja. No século X, com a morte do monarca Carlos, o Gordo, ocorre uma acefalia na disputa da continuidade do Império devido a uma solidificação de um poder diferenciado e local.

O modelo feudal é entendido através dos senhores de terra que, no processo de ruralização, valorizavam o juramento de características militares. Os poderes locais acabam que se equilibrando por meio de disputas. Um exemplo é a questão da lei que, em meio ao espaço franco, vai assumindo características próprias, locais e não gerais. Quando os Lombardos recuperam territórios do Norte da Itália, nos leva a entender que o mundo feudal se caracteriza também por meio tradições diferentes. Esses caras se estabelecem no território abandonando a vida de saques e começando a se organizarem.

No norte da Europa, ainda nos séculos X e IX, os grupos escandinavos intensificam suas ações de saquear regiões. Esses escandinavos ficaram conhecidos como vikings. Os vikings normalmente são apresentados como um grupo único que remavam com seus barcos gigantes, bebiam rum e destruíam tudo o que enxergavam. Mas, na verdade, esse grupo possui três troncos: normandos, suecos e noruegueses. A política desses caras ficou afastada do modelo europeu por conta de sua posição geográfica. Pois não era uma área atrativa para nenhum grupo, sendo que o foco comercial do Império Romano era o Mar Mediterrâneo. É na organização carolíngia que o norte da Europa passa a ter suas principais rotas comerciais. Sua estrutura clânica era por meio de familiares menores e organizações de conselhos em que o mais velho era o responsável por definir os saques e a forma de distribuição. Nessas regiões a religiosidade era uma série de deuses que colocavam limites no convívio do homem, e que os deuses combatiam as poderosas criaturas defendendo o homem. Lembramos os caprichos da Mitologia Grega com suas histórias de disputa entre os deuses.

Ainda no século IX, a cristianização no Norte da Europa estava a todo vapor para realizar uma dialogação e se ligar ao poder carolíngio e, também, para obter favores da instituição eclesiástica. Sendo assim, os primeiros contatos do Cristianismo com as tradições locais começam a se estabelecer. As missões cristãs e os mosteiros são organizados e construídos, e passam a oferecer munições diferentes para as disputas internas por poder entre os grupos se cristianizando, e aqueles outros grupos radicais indo contra a presença cristã. Por um outro lado, os nórdicos passam por alguns problemas – os períodos de colheita são muito curtos e, para que haja uma continuidade e manutenção da organização nórdica, os homens em idade de combate saem de suas casas em busca de guerras, de botim e de saques para que, quando retornarem, não tenham afetado parte do estoque local, além de aumentarem seus víveres, também traziam mulheres para, digamos, aumentar a população. Esses grupos atacam constantemente e retornam em um movimento que muitos registros demonstram como o horror. O alvo desses grupos passam a ser a costa inglesa e a costa francesa.

Magna Germania: A Germânia é um espaço que tinha a presença carolíngia e uma organização tradicional de alamanos, frísios, eslavos e outros grupos migrantes. No entanto, a Cristianização nessas regiões transforma a história no século X, pois um grupo é convocado pelo bispo de Roma João XIII para salvar a cristandade e receber a honra de ser reconhecido como sucessor legítimo do fragmentado Império Carolíngio. Por um outro lado, Germania é o limite do espaço do Ocidente com o Oriente (mundo bizantino), então será sempre um espaço híbrido com influências ocidentais e orientais. E, através de Oto I, é levantado o Sacro Império Romano Germânico e, aquele que assumisse a posição de bispo de Roma, precisaria de um forte braço armado, daí a escolha da Germânia no século X. Esse lance era a garantia da Germânia como uma sobra do Império Romano.

Hispania (Península Ibérica): A Península Ibérica nos séculos X e XI estava sob o domínio islâmico, porém ao norte era um espaço marcado pelos cristãos e um reino vai ser estabelecido dentro das antigas aristocracias locais, buscando uma aproximação com o restante da Europa. O que temos é uma redução das cidades em larga escala e a manutenção das praças de comércios originando os burgos. O governo cristão permitia essa organização para buscar o apoio da Igreja e de outros vizinhos cristãos. Neste sentido, passa a ser uma questão de honra para quem conseguisse conquistar algo que esteja sobre o domínio islâmico. Em Castela, ao norte, haviam os mercenários que vinham da Europa conquistando o direito de porções de terra e, neste movimento, surgia o processo ocorrido a séculos chamado de Reconquista (séculos XI e XII). Os monarcas como Alfonsos de Castela, Pelágio e El Cid praticavam saques e dominavam regiões, sempre como uma ação pontual incentivando a vinda de muitos cavaleiros e senhores que possuíam um pequeno grupo de soldados aos seus serviços, além de cavalos para disputa. Tais organizações formavam a feudalização Ibérica relacionando-se com os militares e o direito de exploração da terra.

Britania: Na região norte há uma organização própria de bárbaros formados por populações de tradições locais, como escoceses e irlandeses. A presença do Cristianismo era forte em todas essas regiões e, apesar de certas acusações da forma de como era praticado por um grupo seja incoerente com a prática correta para tentar afirmar a legitimidade, a Igreja não lutava contra isso. E a chegada dos normandos nos séculos IX e X geram disputas sociopolíticas. Os reinos fragmentados sofrem um processo de centralização com Alfredo X que busca instituir uma valorização na educação, organização das leis e as formas de resistência.

Galia e Itália: O espaço das Gálias é onde está o feudalismo tradicional com os seus senhores feudais que exerciam o seu poder. Haviam dois centros de poder: Aquitânia que é um ducado específico com vários senhores feudais, e um domínio mais ao norte, futura França, que é liderado por Hugo Capeto e sua dinastia Capetíngios. Já no espaço italiano há uma forte tendência dos centros comerciais, mesmo durante o auge do feudalismo. Suas regiões são influenciadas pelos Estados Pontifícios que se relacionam com o Sacro Império Romano Germânico de Oto I. Também são influenciadas pela Lombardia ao norte e, ao sul, pelos Islão e Bizâncio. No século XI, os normandos tendo uma ligação com a Igreja, passam a dominar parte dos territórios italianos.

 

A SOCIEDADE FEUDAL

No fim do século IX, as estruturas feudais já estavam montadas. A economia feudal era na base da produção do setor primário (agricultura), hegemônico em relação ao secundário (indústria) e ao terciário (comércio e serviços). Era praticamente uma sociedade agrícola onde quase toda a população vivia direta ou indiretamente por meio dessa função. Os senhorios estavam divididos em três partes, todas trabalhadas e exploradas pelos servos. E todo o trabalho produzido cabia ao senhor, sem qualquer tipo de pagamento ao produtor. Cada família cultivava do seu lote e tirava o suficiente para sobreviver, enquanto o restante pagava ao senhor pelo usufruto da terra, uma taxa conhecida como censo. O servo devia uma parte do que produzia (talha), um pequeno valor anual para marcar sua condição de dependência (chevage), uma taxa para se casar com pessoa de outra condição social a um outro senhor (formariage), um presente ao senhor para transmitir o lote a seu filho (mão-morta).

Portanto, o Feudalismo é a conjunção de uma série de práticas sociais como o juramento de fidelidade, o militarismo, a cristianização e o colonato. A terras feudais também podem ser compreendidas como um sistema dúbio – agrário de um lado e político do outro. O senhor é aquele que tem direito sobre as terras como uma autoridade central dentro daquele espaço. O sistema tinha uma divisão de terras e a corveia, e também de comércios, além de terras comuns que, com o seu uso, reverteria em renda ao seu senhor. Os feudos possuíam um número de vilãos que eram senhores que não tem uma relação com a terra, mas estão dentro do feudo. Ou seja, para moerem seus grãos, por exemplo, os feudos precisam do moinho e, para utilizá-los, precisam negociar com um vilão, alguém que possui um juramento com o senhor feudal e administra o moinho para ele.

Na cidade, são negociados os excedentes dos colonos e do senhor, além de negociarem com comerciantes a compra de barris de vinho, vendidos por outro senhor jurado com o senhor feudal e lhe passando parte dos lucros. Os senhores também cobravam pedágios para a saída dos materiais em áreas de edificações, como estradas e pontes. Na Igreja, o feudo não tinha o direito de pagar corveia ou banalidade ao senhor, mas suas trocas que eram feitas nas praças das cidades em que estavam as tabernas, prostituas, artesãos, soldados dentre outros. Além disso, muitos senhores também eram obrigados a contratar soldados para caso de uma contestação de direitos, determinação de divisas e saques que poderiam vir do Norte da França, ou da Península Ibérica. Os tribunais eram uma das principais formas de enriquecimento, muitas vezes auxiliados por clérigos. Dali julgavam brigas, roubos, paternidade, entre outros.

A moeda era pobre e de bronze, e seu peso valia em si. O ouro e a prata eram utilizados em grandes trocas e, com o dinheiro arrecadado, os senhores faziam festas, seja em homenagem a um santo protetor, ou casamento, batizado, entre outros. Nesse caso, o maior momento era quando o senhor convocava o barão ou o próprio rei em suas festas. Havia muita comida em que seus restos eram distribuídos aos pobres como forma de demonstrar poder.

Politicamente, o feudalismo representava um conjunto de laços pessoais que se manifestavam por um longo processo de consolidação de ordem militar e aristocrática. É a ideia de suserania e vassalagem que fazem a referência a um senhor e seu dominado. Enquanto isso, a Igreja Ocidental vive em um processo de reconstituição dentro de uma política fragmentada. Bonifácio VIII, em 1296, explica as bases discutidas e afirma que o Cristianismo sustenta as duas etapas – a espiritual e a temporal.

Por um outro lado, havia três ordens medievais – os oratores, os bellatores e os laboratores – nos mostrando uma imagem de que o clérigo apenas orava, o senhor apenas lutava e os mais pobres apenas trabalhavam, o que é um ledo engano. Baseado nos poemas medievais sobre a reconquista da Ibérica, um clérigo francês chamado D. Jerônimo, recebeu uma ordem de Deus pedindo pra matar os mouros. Então, D. Jerônimo saiu de sua Paróquia e foi de encontro com o bando liderado por El Cid pedindo o direito para lutar com os seus homens. A proposta do clérigo era que a sua reza levaria os homens de El Cid ao êxtase e também queria em troca o direito de ser o primeiro a entrar no campo de batalha. E, mesmo vendo seus homens incrédulos, El Cid aceitou. No dia seguinte, uma oração foi realizada e motivou os homens a estarem preparados para a guerra. E, no momento em que iam para o campo, o clérigo apareceu diante de El Cid e afirmou que cumpriu a promessa e pediu para El Cid cumprisse a dele. Então, D. Jerônimo foi o primeiro a entrar em campo e matou os mouros. Não parece com nada com a função daquele que só deve orar. Agora, por um outro lado, será que os bellatores eram tão específicos (grupos que tinha a função da honra do cavaleiro)? O cavaleiro, muitas vezes, era alguém com nascimento, mas sem terras, que reunia em torno de si pequenos bandos em busca de se tornarem senhores ou entrarem no séquito de algum palácio. Assim como a divisão que se refere aos laboratores, que eram grupos que passou desapercebidos durante anos, enquanto estudávamos os cavaleiros e os padres. De fato havia os produtores, comerciantes, senhores do sal, casas de fundição, vilãos enriquecidos, artesãos e, logo em seguida, surgem os pedreiros, arquitetos e engenheiros, entre outros.

 

Obrigado pela atenção, pessoal! Realizei esta postagem tendo como base os capítulos 5 e 6 da disciplina História da Idade Média Ocidental, 2º Período, curso Licenciatura em História. Faculdade Estácio de Sá.

 

Valeu!

Marcell

carolingio

Ola pessoal!

Vamos continuar com a Idade Média Ocidental mostrando os lances ocorridos com os Merovíngios e o poderoso Carlos Magno com o seu Império Carolíngio.

As regiões Gálias são os últimos espaços conquistados pelos romanos. Seus limites são os Pirineus (Península Ibérica), os Alpes (Norte da Itália) e o rio Elba (a leste). No século V, Francos e Visigodos contiveram a migração dos Hunos no território das Gálias. Devido a essa vitória sobre os Hunos, houve diversos acordos entre esse grupos e os romanos. Tais acordos fizeram desses bárbaros (Francos e Visigodos) os mais importantes do Império Romano. A batalha que ocorre em Vouillé, os visigodos ocupam a Península Ibérica e os Francos dominam o norte das Gálias até o litoral do mar do norte. É neste domínio que essa galera irá dialogar com os novos povos, entre eles, os Alamanos, os Saxões, os Turíngios, os Normandos e Lombardos.

Os Francos não são um grupo único, mas um conjunto de grupos que se aproximam em torno de conselhos de Anciãos, muitas vezes por negociações, uma vez que tais negócios são com o próprio Império Romano. No século IV, esses grupos formam uma estrutura de batalha em torno de uma figura escolhida. E, quando os Francos combatem e vencem Átila, eles estavam representando o exército romano. Por um outro lado, os Francos possuem uma aproximação com os poderes romanos estabelecidos na Gália, não em Roma.

Childerico, primeiro monarca da dinastia Merovíngia, é um bispo de origem hispana e decreta o estabelecimento do domínio de uma tradição Franca. Devido as negociações com o Império Romano, os Francos que são bárbaros, passam a ser civitas, ou seja, são reconhecidos como civilizados. Neste contexto, obtém-se uma organização Franca, mas ainda não é um reino. Childerico é caracterizado como um magisters-milito do próprio Império Romano. Em seguida, seu filho Clóvis assume o poder e estabelece uma união político e militar dessa estruturação Franca.

A partir de Clóvis, surge a ideia de estabelecer uma série de leis de origem romana para regular a sociedade e, também, uma aproximação para com a Igreja. Clóvis não era cristão, mas decidiu ir até a cidade mais povoada junto com os chefes militares para realizar uma conversão pública. Não era um ato de fé, mas uma forma política para fortalecer a estrutura social local e, também para que a Igreja queira legitimar a figura do rei Franco. Clóvis torna-se o primeiro grande rei medieval de origem divina. Com um rei no trono, os Francos estabelecem um novo Império Romano, menor, mas bem estruturado. O maior problema é que a Igreja achou que Clóvis tinha re-institucionalizado o Império Romano, pois as principais rainhas organizaram grandes mosteiros onde o senhor é o próprio bispo de Roma.

Após a morte de Clóvis, o reino é dividido entre seus filhos surgindo três grandes reinos: Nêustria, Austrásia e Burgúndia. Apesar de se conhecerem como Francos, esses reinos viveram em conflitos um com os outros. As principais casas aristocratas francas eram grandes proprietários de terras e de muitos homens com capacidade militar. Há vários desses centros no reino Franco, mas quem trabalhava para uma aproximação desses grupos era o bispo. O bispo era alguém da alta hierarquia e ele não era ouvido por ser bispo, mas por ser senhor de terras. O bispo era um representante da autoridade regional. A partir da aristocracia local, surge novo modelo chamado de Franco-Galo ou Franco-Romano. A Igreja se apoia no poder local para aumentar sua legitimidade com a população local e acaba recebendo uma série de bispos francos. A Igreja torna-se um conjunto homogêneo (uma tradição de uma mistura de tradições) bem próxima do Império Romano.

Após as terras romanas como o Norte da África, sul da Itália e parte da Península Ibérica serem dominadas pelos islâmicos, os Francos se retiraram da cidade de Arlés e Tolouse, e se concentraram em Paris. Quando os árabes-islâmicos dominaram a Península Ibérica em 723, um emirado é organizado. O emir de Córdoba reúne as tropas do Magreb (atual Marrocos), e se laçam para as terras além dos Pirineus (limite entre a Península e o restante do continente). Neste contexto, uma família de mordomos da Nêustria teve uma série de desventura devido as acusações de traição sobre Pepino I e Carlos Matel, por não cumprirem o papel como senhores do castelo. Durante esse período, na região da Aquitânia, ocorriam novos ataques islâmicos liderados pelo califa de Córdoba. Este combate fez com que Carlos Matel fosse absolvido tornando-se líder dos mordomos da região. Esta batalha, a batalha de Tours (ou Poitiers), foi considerada como uma das batalhas mais decisivas da história mundial. Ela decidiu que os cristãos, e não os muçulmanos, seriam o poder dominante na Europa. Carlos Matel, que antes era um condenado, passa a ser celebrado como o herói desta batalha. Posteriormente seu neto, Carlos Magno, com o seu militarismo, acaba de vez com os últimos domínios islâmicos na França. O território francês foi uma fonte de cruzadas e monges que cooperaram com os reis da Espanha e Portugal para banir o Crescente da península Ibérica. O Papa Gregório III fez de Carlos Matel, o Herói da Cristandade.

O filho de Carlos Matel, Pepino III, assume o poder e acusa os merovíngios como os verdadeiros traidores, porque não apoiaram na batalha contra o inimigo mais temido. Nesse momento, abre-se o questionamento do juramento de fidelidade. Pepino planejou para que seu poder seja reconhecido e chega a ser considerado legítimo pelo bispo de Roma. Ele se torna rei e defensor da Cristandade, e já indica seu filho Carlomano, ou mais conhecido no Ocidente, Carlos Magno, como sucessor.

Carlos Magno era o cara responsável pelo último suspiro do Império Romano. As glórias de Carlos Magno se inicia por conta do domínio mediterrânico, pois possibilitou o crescimento de regiões que economicamente eram pouco representativas, mudando o eixo comercial marítimas para os centros de escoamento pluviais. Este crescimento da aristocracia no noroeste francês associado com a vitória sobre os árabes, teriam possibilitado uma poderosa expansão dos Carolíngios. Carlos Magno busca por direito de terras estabelecidos por seu pai. No entanto, chega com discurso de que a Aquitânia teria um território mais amplo do que o representado, utilizando negações ao juramento de fidelidade aos merovíngios. Carlos também busca estabelecer novos sistemas de proteção e organização social, se aproximar da Igreja local e se tornar protetor legítimo junto aos nobres. Sua ideia de distribuição de terras conquistadas a seus aliados cria um movimento de guerra intenso.

O comércio se tornava cada vez mais especializado com produtos especiais e lucrativos. No entanto, o maior problema era a falta do ouro. O dinheiro tinha o seu valor em si, uma moeda valia o seu peso em ouro. Carlos Matel decidiu criar o padrão da moeda de prata nas casas de fundição, e uma métrica entre as moedas de ouro e prata. Uma vez que a primeira ainda era trocada em grandes transações, a prata passa a ser referência e facilita as transações menores ligadas às cabeças de gado, vinho e outros produtos que circulavam entre os rios Reno e Danúbio. Por um outro lado, a representação de poder do Carlos Magno está escancarado nas imagens dessas moedas: ora com a imagem do seu rosto romanizado, ora com símbolos cristãos.

Com os carolíngios, também nos aproximamos das figuras que entendemos como corte, não mais como alguém de segmento social, mas uma figura que terá uma vocação como os antigos romanos, sendo definido pelas características militares. A educação passou a ser diferenciada e utiliza e ostenta produtos diferenciados. Não é a toa que cresce o comércio de pedras africanas, sedas chinesas e peles do norte da Europa.

Os Militus ou Milites são senhores de guerra conhecidos como cavaleiros e são responsáveis por grandes contingentes que garantem o funcionamento do reino. Os barões são os funcionários de corte, senhores de terras menores e responsáveis por funções administrativas. O duque é o senhor das fronteiras, das terras que precisam ser constantemente vigiadas. Todo esse sistema valoriza o juramento de fidelidade como elemento de coesão. Quando Carlos Magno pretende realizar uma nova batalha como, por exemplo, revidar o ataque dos Lombardos em territórios sul, chama-se alguém de outra região, também jurado com Carlos Magno, prometendo vantagens e terras maiores em caso de vitória no novo território. Com o território sendo conquistado, o sistema de governo passará pela relação dos novos territórios e o domínio carolíngio. Os grupos que se rendem e juram fidelidade a Carlos Magno passam a ser Missi-Dominici de outra região conquistada.

Para o mundo dos Carolíngios se tornar um Império, seria necessário uma relação entre Carlos Magno e o Papado Romano. Com a expansão do islão para o sul da Península Itálica desde o século VIII, o fim deste século reserva uma outra ameça à igreja romana: Lombardos. Este grupo dinamarquês (antes não era ainda Dinamarca) domina completamente a região dos Alpes na segunda metade do século VIII, vencendo o que restava dos Ostrogodos. Neste momento, uma série de cartas chegam ao domínio carolíngio, nomeando Carlos Magno como protetor da Cristandade e exigindo ações. Em meados de 798, ocorrem os conflitos entre Carolíngios e Lombardos garantindo a conquista de parte do território da Península Ibérica. Neste momento, a Igreja saca uma poderosa falsificação: A Doação de Constantino. Este documento dizia que Constantino havia deixado um testamento que garantia a Igreja como seu principal beneficiário, herdando terras no entorno de Roma, e foi o que levou o Papa Leão III o direito de coroar o seu escolhido: Carlos Magno.

 

Agradeço pela atenção, pessoal! Fiz esta postagem tendo como base o capítulo 4 da disciplina História da Idade Média Ocidental, 2º Período, Licenciatura em História. Faculdade Estácio de Sá.

 

Valeu!

Marcell

idade_media2Ola pessoal!

Neste post irei passar um resumão sobre a Idade Média. Nas postagens anteriores sobre a Idade Média, foi mostrado mais o lado Oriental – Império Bizantino, Islamismo, Mongóis, Búlgaros, etc.. Agora iremos focar o nosso lado, o lado Ocidental, mostrando o Império Romano, o desenvolvimento do Cristianismo, o Reino Suevo, os vândalos, entre outros.

Enfim, vamos nos aventurar começando com algumas definições importantes:

Primeira Idade Média: Período de desestruturação do Império Romano e a organização dos reinos germânicos;

Alta Idade Média: Período que entendemos como a solidificação de um novo governo, uma organização européia mais organizada através da ascensão política de Carlos Magno (Império Carolíngio);

Baixa Idade Média: É o período das liberdades, das Universidades;

Idade Média Tardia: É o período entre a baixa Idade Média e a Modernidade;

Idade Média Plena ou Idade Média Central: Seria o auge do período feudal (O nome plena pode confundir com outros status);

O historiador francês Jacques Le Goff nos ensina que, para entendermos a Idade Média, é necessário analisar as três grandes tradições que marcaram a época: Romanismo, Germanismo e Cristianismo. Quando analisamos o Germanismo, lembramos da formação cultural do Império Romano. Cícero, filósofo do séc. I a.C, defendia que ser romano era dominar as leis romanas, era viver como súdito da força, do conjunto da lei romana. O Cristianismo, entre os séculos I e o IV, se expandiu pelo Império por uma onda de processos. A Igreja esteve presente dentro de muitas propostas filosóficas de intelectuais locais e de propostas helenísticas, e acaba sendo organizada de acordo com o modelo do Império. A Igreja cresce nos séculos IV e V tornando-se tão bem organizada a ponto de que quando o Imperador Constantino buscava uma nova coalizão, ele encontra a Igreja. Haviam outras religiões que, pela visão cristã, eram chamadas de pagãs, e que já foram buscadas pelos romanos. Mas foi no Cristianismo onde as coisas se encaixavam e passou a se tornar uma instituição romana, e passou a ser também a base do próprio Império.

Por um outro lado, temos o bárbaro. O bárbaro, na visão romana, não queria dizer destruidor. Quando se está fora do socioculturalismo presente no mundo romano, também não se reconhece o padrão chamado pelos romanos de Civita, que depois dá origem a ideia de civilização. Ou seja, o bárbaro não é aquele cara selvagem como muitos pensam, o cara é um bárbaro por não ser civilizado de acordo com os preceitos romanos. O que torna hilário é o pai do Imperador Rômulo Augusto, Flávio Orestes. Orestes era um general de origem Franca, ou seja, ele era um bárbaro. Por um outro lado, desde o século II, o Império não ia pra guerra com aquele exército profissional e de experiência. Mas sim encaminhava um grupo com quem Roma fez um acordo, pagando e concedendo permissões. Foi dessa forma que se estabeleceram os visigodos e os ostrogodos. Esses dois povos considerados bárbaros irão ocupar posições da Nécia (atual Sérvia e regiões norte do Mar Negro). Tais ocupações não são ocupações militares e sim de grupos rurais, mas não entram no comércio romano e nem na sua produção escravista.

As coisas começaram a ficar desagradáveis quando a expansão romana passou dos limites, fazendo com que algumas de suas terras ficassem fora do seu controle. E, como não havia mais para onde se expandir, também não havia mais como adquirir novos recursos que antes eram ganhados nessas conquistas. Ou seja, sem novos recursos, a escassez vem à tona. A fome começa a dominar e as cidades começam a empobrecer. O grandioso comércio romano passa a ficar mais fragilizado. Alguns produtores conseguem se manter, mas outros não conseguem se organizar para manter o seu latifúndio. Começa a surgir o processo de cessão de terras, mais conhecido como, sistema do colonato. O colonato está presente na sociedade romana desde o século II ou III. Foi uma forma de ceder parte das terras em troca do trabalho, nas suas próprias terras, em determinados momentos específicos. A vantagem em relação ao sistema escravista, é que não há uma necessidade de se manter o colono. O escravismo era um ótimo negócio naquela época, mas com a redução dos recursos e produção, o romano também precisou diminuir o número de escravos. Esta diminuição de escravos não foi por bondade, mas por política de descentralização, de ruralização, para que se possa ter uma reacomodação do sistema que já estava enfraquecida por conta da sua própria estrutura.

Sobre a relação do Império com os seus cidadãos romanos, temos que observar que esta relação é bem longa…

Os reinos germanos que são sucessores do Império em termos de política na Primeira e Alta Idade Média são: Reino dos Suevos e o Reino dos Visigodos.

idade_media3O Reino dos Suevos: O historiador e arqueólogo Pablo Martinez ressalta o escasso de número de fontes para compreendermos as origens monárquicas dos suevos, seus costumes e organização antes da travessia do rio Reno, bem como a presença de contradições encontradas entre os autores. Mas, quando se fala do quinto século, a Crônica do bispo Idácio de Chaves (395-468) é a mais destacada. Preocupa-se com o que chama de “problemas terminológicos”, devido a possibilidade de encontrar significações pouco claras ou diversas para os termos utilizados nas fontes romanas sobre quem são, de fato, os suevos.

Em primeiro lugar, os povos germânicos possuíam um caráter tribal para definir suas lideranças baseadas nos atributos bélicos, considerando ser o “estado de guerra” o elemento de coesão dessas sociedades. Porém, esta forma de governo mudou após o contato com a cultura romana, gerando transformações socioeconômicas que demandavam alterações nas organizações políticas. Nessas transformações, podemos apontar a sedentarização dessas populações, que antes eram nômades ou seminômades. Dessa forma, os poderes que se formavam em torno de uma nobreza guerreira, tornam-se pautadas em um poder localizado, associado à noção de propriedade. Através destas características, percebe-se a formação de um tipo de “monarquia centralizada”. O auge desse processo teria sido a formação das dinastias: Hermerico, Réquila e Requiário.

Com o fim da dinastia Hermerico, notam-se duas dificuldades: manter a monarquia centralizada e conciliar as diferenças tribais sob uma só liderança. Também nesse sentido, há “elementos primitivos” que se desenvolveram no período de interrupção da monarquia – os visigodos. Foi no reino pós-Requiário onde os visigodos marcaram presença, assim como os reis “débeis” que sucedem o ano de 456. Não é fácil entender essa história por completo, dependemos dos relatos sobre sua chegada. Alguns autores como do bispo Idácio, Jordanes e Isidoro são essenciais para o desenvolvimento desta história. Ao analisar a formação, o desenvolvimento e o fim do reino suevo, Pablo Martinez lança mão dessas fontes históricas para questionar e comparar os elementos presentes nessa sociedade com outros grupos germânicos. Sua chegada a Península Ibérica após a pressão dos Hunos, foi um sinal apocalíptico de que o mundo terminaria de acordo com o bispo Idácio. Seria tão violento e ignóbil devido aos saques e acabam que sendo introduzidos as organizações hispano-romanas, iniciando uma organização monárquica.

O surgimento das facções do reino suevo foi um momento onde a qualidade de liderança não tinha caráter de monarquia. Tais facções obedeciam a vários líderes como Frantano, Maldras, Remismundo e Frumário. Entre os anos 460 e 465, a monarquia desaparece e reaparece apenas com Remismundo (465), e estará atrelada à atuação visigoda. Lembrando que os visigodos são convertidos ao arianismo, uma heresia que a Igreja enfrentará. No ano de 467, com a morte de Teodorico II, ocorre uma mudança radical na relação dos suevos com os visigodos. Após a expansão, os suevos entram em conflito com os visigodos liderados por Eurico. Pois bem, os historiadores passam dificuldades para entender esse período, pois ficamos quase um século sem informações sobre esse povo. Mas, logo após a conversão ao catolicismo, voltamos a ter fontes onde os suevos figuram ficando confirmada a sustentação da monarquia, mesmo submetida aos visigodos, pós-Remismundo.

O fim do reino suevo chega com a ascensão de Leovigildo e suas campanhas contra o território suevo e o rei Miro, morto na Béltica, em 583. Os reis que sucederam não conseguiram dar continuidade ao reino suevo que foi combatido pelos visigodos.

Vândalos: A organização Ocidental tem dois momentos com os vândalos no Império Romano:

  1. Refere-se ao percurso que esse povo germano realizou desde a Europa Central até a Península Ibérica;
  2. Enfoca a travessia de Gibraltar e a fundação do reino Vândalo no Norte da África;

No primeiro momento, a designação de “vândalo” abarcaria em um vasto conjunto de formação heterogênea devido as duas facções vândalas (Hasdingos e Silingos), Alanos e diversos outros grupos aos quais se juntaram em suas andanças. Neste caso, conclui-se que não havia uma unidade étnica e sim militar entre os vândalos.

No segundo momento, Pampliega afirma a importância dos laços contratuais estabelecidos entre o rei e os seus guerreiros como elemento que garantem o controle das tropas. Também destaca o papel preponderante da aristocracia no interior da camada nobiliárquica, pois as migrações ou fixações em determinado território são estipulados pelos líderes da soberania doméstica, seguidas pelas camadas populares por obediência àqueles. A trajetória do rei vândalo Gunderico possui registros simbolicamente positivos para uma ação real, sendo assim, destacamos: a competência exclusiva de aglutinar ramos nobiliárquicos beligerantes, o reconhecimento de um acampamento provisório dos vândalos na Gallaecia como marco de primeiro Estado vândalo constituído, e a soberania doméstica exercida por Gunderico entre os Hasdingos.

Os vândalos são destacados como um dos grupos que resistem a aceitar a Igreja Católica e mantém arianos como forma de se opor as populações locais cristãs muito fortes no norte da África, lugar em que se estabeleceram a partir do século VI. Os Vândalos permaneceram com seu domínio na região até a expansão dos bizantinos liderados por Justiniano.

Ilhas Britânicas: Em meados do século V, os povos germânicos se lançaram à conquista das terras mais ao norte. Os povos bretões, celtas, eram pouco densos e sua romanização era bem superficial. As lutas entre os chefes locais facilitou uma influência germânica muito maior que a da Europa. Redutos de resistência celta (Cornualha, até o século IX) e o País de Gales (até o século XIII); Yutos e suevos da Dinamarca e noroeste da Alemanha fixaram no território dos Cantwara; os anglos se situaram no noroeste e os saxões estabeleceram-se na zona intermediária.

Os saxões foram os que criaram mais reinos na Grã-Bretanha e tratava-se de sete reinos, mas alguns estudos apontam que outros reinos já existiriam; A invasões escandinavas do século IX favoreceram a unificação da Inglaterra anglo-saxã pelos reis de Wessex; A Irlanda continuou celta entre os séculos VI e VII, enquanto parte dos bretões refugiados na Cornualha e no País de Gales emigrou para o continente em meados do século VI, e se assentaram no noroeste do que seria a França, a Armórica; O estabelecimento dos anglo-saxões na Inglaterra significou um novo elemento demográfico. Em geral, a ilha se encontrava pouco povoada e boa parte dela encontrava-se também sem ser cultivada e com grandes extensões de bosques;

Apesar das matanças de indígenas e as migrações internas dos grupos bretões no Oeste, nos reinos anglo-saxões formaram importantes núcleos celtas. Os nobres que rodeavam cada rei constituíam a Corte e o Conselho, e seus membros eram divididos em: Jovens e Velhos. Tais classificações estavam voltadas para funções administrativas e judiciais, e militares e políticas. A economia dos reinos anglo-saxões foi rural e cada grupo de famílias formavam uma aldeia, que possuía zonas e bosques comunais. Com a cristianização, a literatura das cortes em línguas vernáculas se uniu a literatura latina nas escolas. Após as missões de São Patrício na Irlanda, estabeleceram-se escolas nas quais floresciam a cópia de manuscritos e a arte da miniatura. Nessas escolas faziam cópias da Bíblia e da literatura religiosa;

visigodosO Reino dos Visigodos: Os godos possuem uma longa relação com o Império Romano, ora como algozes como na vitória sobre Valente e no saque de Roma, ora como defensores frente aos “invasores” da Península Ibérica e os Hunos. Os sinais da romanização desse grupo são percebidas através do arianismo, uma vertente cristã, porém considerada heresia para a Igreja. Os caras foram romanizados através de laços de uma estrutura de intensa valorização das relações pessoais e a aproximação de clãs familiares em torno de uma liderança, que entre as principais funções, estava uma liderança militar. O centro do poder Visigodo era a cidade de Tolosa (região entre os Alpes e os Pirineus). E as novas lideranças se intensificavam com Ostrogodos e Teodorico na Península Itálica, e com as lideranças Francas pelos Merovíngios. A batalha de Vouillé envolvendo Francos e Visigodos, foi a mais emblemática. Com a morte do rei godo, os visigodos foram derrotados e ficaram sem uma liderança politica. Como consequência, os magnatas visigodos saíram em busca de novos territórios – Narbona e regiões da Península Ibérica.

O monarca ostrogodo, Amalarico, ainda era uma criança. Portanto tinha o apoio do seu avô, Teodorico. O seu poder garante apoio para o assentamento sociopolítico dos visigodos na Hispânia. Esta ocupação visigótica na península são senhores que ocupam regiões diferentes, buscando ora obter residências, ora garantir o funcionamento socioeconômico local. Com os monarcas seguintes, ocorre as disputas à liderança político-militar. Nesse momento é destacado o episcopado, os líderes militares da região, Breviário de Alarico e a religião ariana. Além disso, as disputas ocorridas em Agila e o rei Atanagildo são emblemáticas: enquanto o primeiro possui o apoio de uma das regiões mais ricas da península – Sevilha, Atanagildo parte de Narbona para assumir o governo buscando uma série de apoios. Para isso, o cara se casa com uma nobre Franca e busca uma relação com o Império Romano Oriental. A liderança de Atanagildo é recheada de disputas suevas, francas e com a maior derrota militar no domínio sul peninsular para as forças de Justiniano.

A linha estabelecida pela família de Leovigildo apresenta uma ocupação diferente de assumir o trono visigodo. Suas medidas militares buscam oferecer a legitimidade à monarquia visigótica. Sua legitimidade dependia das interlocuções com os diversos poderes locais. Portanto, Leovigildo lança mão de uma reorganização jurídica, permitindo, por exemplo, casamentos mistos e o direito de terras de grupos hispano-romanos. E, também, buscar um diálogo com o episcopado católico que também eram senhores de terras locais. Entretanto, as aristocracias da região bética, em especial Sevilha, não estavam alinhadas à política do monarca. Para estabilizar a política, Leovigildo divide o trono entre os seus filhos: Recaredo em Terraconensis e parte norte da Península; e Hermenegildo, filho mais velho, assumiu o comando da Bética. E, apesar dos esforços, os poderes locais se levantam contra Leovigildo. Portanto, um grande concílio foi convocado para amenizar o conflito entre Arianismo e Cristianismo, mas infelizmente os documentos foram perdidos. O que sabemos é que a proposta de conversão ao arianismo foi refutada. As disputas se iniciam pelos nobres da Bética liderados por Hermenegildo dividindo o reino visigodo. Tais disputas eram arianos contra os católicos do bispo Leandro de Sevilha e Hermenegildo que era recém-convertido.

Após a revolta, Leovigildo não consegue continuar com o seu projeto político em aproximar as elites locais e as visigodas. E, apesar de conseguir vitórias importantes, Leovigildo também não tentou nenhum projeto de unificação religiosa. De acordo com Isidoro de Sevilha, Leovigildo era um bom rei traído pela heresia ariana. Outros dizem que Leovigildo se arrependeu e converteu-se ao Cristianismo niceno em seu leito de morte. Após a Era de Leovigildo, segunda metade do Século VI, os visigodos buscam não mais uma separação entre hispanos e godos, mas sim uma união de diversos grupos aristocráticos. Seu filho e sucessor, Recaredo, continua com o projeto do pai pela via católica. Neste contexto, a Igreja Católica assume o papel de representante religiosa frente a todo reino. A união entre o clero e a nobreza confere aos membros do episcopado, a possibilidade da participação política de forma direta nas questões do reino – o clero passa a interferir na eleição do monarca e os cânones possuem peso de lei a ser respeitada por toda a sociedade.

Sendo assim, o século VII é marcado com o papel da Igreja como um elo importante para a organização social visigótica. A história também revela que o filho de Recaredo, Liuva II, sofre um golpe militar do nobre Witerico da Lusitânia, golpe que é retratado por disputas militares. Esse golpe também representava a importância do domínio toledano na região. A aliança estabelecida entre episcopado e nobres para legitimar a sede de Toledo, pela ação isidoriana e os golpes que se sucedem na primeira metade do século VII é inegável. Gundemaro, representante da aristocracia cartaginense, vence Viterico e concentra suas ações nessa região. Ele enfrenta os bizantinos da região e garante a posição da diocese de Toledo. Gundemaro representava o retorno ao poder do grupo eclesiástico de Leovigildo. O monarca também tinha pretensões “imperializantes” e, para marcar seu governo como a continuidade legítima de Recaredo, eleva seu filho Recaredo II ao trono, evitando disputas por sucessão. Após o governo de Sisebuto, há um “espaço de tempo silencioso” nos documentos históricos. Mas uma fonte registra que Suintila, um nobre vindo do Vale do Ebro ao nordeste da Península, assume o poder. Ele possui importantes vitórias em Caesaraugusta e, apesar de ter sido tratado como usurpador, é aclamado pelo povo após vencer os bizantinos no sul da península. Seu governo, no entanto, enfrentará resistências lideradas por Sisenando. E, quando Sisenando assume o poder, a legitimidade não é garantida. Em busca da tal legitimidade, é convocado um grande concílio, o IV do Toledo. Isidoro é reconhecido como o primeiro dentre os bispos do reino, alcançando o poderio para organizar e difundir suas obras por todo o espaço peninsular. É o fortalecimento do episcopado do século VII.

Chintila foi o sucessor de Sisenando, e convocou os concílios de Toledo V e VI para buscar manutenções das obras de Sisenando. Ele queria garantir a posição de domínio do seu grupo nobiliárquico ao poder. As maiores transformações se dão a partir de mais uma usurpação ao trono, desta vez um antigo chefe militar e senhor de terras de Caesaraugusta, chamado Chindasvinto. As medidas de Chindasvinto foram relatadas por um grupo de opositores que o consideravam como um tirano, mas é certo que o monarca fortaleceu laços militares no governo visigodo. Ele também confiscou terras e igrejas toledanas e as dividiu entre seus homens. Recesvinto, filho de Chindasvinto, continuou com a obra de seu pai e estabeleceu uma série de práticas de coalizão. Ele reformou o código jurídico Lex Visigothorum, e reuniu com abares, clérigos e nobres, para transformar seu caráter de governo. Portanto, com o fim do governo de Recesvinto, há uma centralização episcopal e a constituição de um centro de governo, que estabelece as relações externas do governo visigodo, e também dos poderes locais tornam-se cada vez mais organizados.

Wamba, sucessor de Recesvinto, é o primeiro monarca ungido no reino visigodo. Este ato foi marcado como momento de sacralização do monarca e, também, uma vitória do clero toledano em se afirmar como o principal centro de poder de toda a península.

 

Erros e Fracassos do Poder Real de Witerico a Tulga (603-642)

Witerico: Conservou o favorável status quo alcançado por Recaredo e a sua política contra Bizâncio. Ele é assassinado por sua antiga facção;

Gundemaro: Manteve a política de Witerico, mas mudando alguns pontos. O Império Bizantino estava em crise e as oportunidades visigodas contra eles eram excelentes. Gundemaro continuou a amizade com Teudeberto e Clotario II, e também com Brunequilda e Teodorico II;

Sisebuto: Sucessor de Gundemaro em 612. O rei manteve uma estreita relação de amizade e colaboração. Ele era como um rei-pastor do Novo Testamento o que levaria a caminhar novamente para uma “imperialização”. Sisebuto planejou uma operação ofensiva contra os bizantinos, e conquistou boa parte da província de Spania. Sua política antijudaica tinha o objetivo de impressionar os católicos, mostrando os visigodos como os mais zelosos guardiões do Cristianismo. No ano 616, Sisebuto tenta uma conversão em massa da população judia em solo toledano, com isso muitas famílias migraram-se para a Gália merovíngia ou fizeram uma falsa conversão;

Suintila: Alguns historiadores encontraram muita dificuldade em estudar sua política interna. No Concílio IV de Toledo (ano 633), os bispos tratavam de justificar a rebelião contra Suintila, que levou ao trono Sisenando. Após uma vitória militar em 625, Suintila dá um passo decisivo e associou o seu filho Ricimiro ao trono – uma ação mal vista pela nobreza. Suintila é deposto em 631 e sucedido pelo chefe da rebelião;

Sisenando: Procura legitimar seu poder mediante a aprovação da nobreza laica e a eclesiástica. Apesar de ter recebido apoio do norte, encontrou alguma resistência no sul, onde o seu antecessor tinha apoios após as vitórias sobre os bizantinos. O Concílio Geral de 633, convocado pelo monarca, para as relações monárquica-nobreza, fez com que um dos cânones propôr que no caso de morte do soberano, seu sucessor teria que ser nomeado de comum acordo com todos os bispos e da alta nobreza laica. Uma vez eleito, todos os súditos deveriam prestar juramento de fidelidade ao monarca. Sisenando morreu pacificamente em 636.

Chintila: Não sabemos se foi eleito de acordo com os parâmetros do IV Concílio de Toledo. Pouco antes de subir no poder, convocou um concílio geral para renovar a aliança com a poderosa nobreza. Por conta das dívidas geradas ao enriquecer sua família, deixando o próximo monarca com dívidas, ficou decidido que os herdeiros de Chintila deveriam sucedê-lo no trono.

Tulga: Filho e sucessor de Chintila, mas sua pouca idade fez com que em 642, rebeldes conseguissem entronizar Chindasvinto na capital toledana.

 

A Reforma de Chindasvinto e Recesvinto (642-672)

Documentação: Ambos os reinados indicaram reforços para fortalecer a instituição monárquica e a ideia estatal centralizada herdadas do Baixo Império;

Chindasvinto: Conhecedor das insurreições nobiliárquicas e exerceu maior controle sobre os intentos latentes de rebeldia de certos elementos nobiliárquicos; Criou uma “nobreza de serviço” e incrementou a base econômica, fundiária, sua e de sua família; E, por último, aumentou as instâncias teocráticas da instituição régia.

Recesvinto: Filho de Chindasvinto. Foi obrigado a juntar forças militares para conter uma revolta. Sofre grandes pressões nobiliárquicos para moderar as represálias e acusar os culpados de alta traição. Entretanto, seu governo recebeu pesadas críticas devido as riquezas de seu patrimônio pessoal e familiar e, também, devido a sua eleição não ter sido feita pela nobreza. Portanto, os bens adquiridos de Chindasvinto antes do trono, permaneceriam em poder de Recesvinto, mas não no conceito de patrimônio pessoal. E, as propriedades de Chindasvinto adquiridas também antes do trono, tornariam propriedades de seus descendentes.

 

Protofeudalização do Estado de Wamba à Agila II (642-714)

Wamba: É eleito após a morte de Recesvinto. O monarca alongaria sua coroação até a chegada a Toledo para conseguir o maior consenso entre as forças vivas do reino;

Ervígio: Eleito em 680 e constituiu a mais clara prova de fracasso da política centralista, e em certeza medida antinobiliárquica de Wamba. Em um primeiro momento, Ervígio tenta fortalecer sua situação se aprofundando nos elementos religiosos da realeza e buscando ao mesmo tempo, estreitar as colaborações com a hierarquia eclesiástica;

Egica: Marcado pela tentativa de desespero em fortalecer sua posição pessoal e de sua família, aceitando por completo a estrutura protofeudal do Estado. Convocou um Concílio Geral em Toledo no ano de 688, que acarretaria em um choque entre Egica e a alta nobreza;

Witica: Filho de Egica. Sobe ao trono após seu pai morrer em 702. Muitos nobres castigados por Egica foram repostos em seus lugares e tiveram suas posses. Há uma escassez de fonte sobre o seu reinado. Ele morre mais ou menos em 710;

Rodrigo: Rei eleito por um setor majoritário. Mas alguns grupos ligados à Egica e Witica queriam que algum familiar os sucedesse. O monarca morreu em combate contra as tropas muçulmanas;

 

No ano de 711, os visigodos foram derrotados pelos Bérberes do Norte da África. O Islão chega para dominar os territórios europeus.

 

Obrigado pela atenção, pessoal! Realizei esta postagem tendo como base os capítulos 2 e 3 da disciplina História da Idade Média Ocidental, 2º Período, curso Licenciatura em História. Faculdade Estácio de Sá.

 

Valeu!

Marcell

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Ola pessoal!

Neste post irei falar sobre o verdadeiro conceito que a Idade Média carregou. Hoje em dia, quando falamos em Idade Média, um cara já começa a imaginar castelos, dragões, orc’s, cavaleiros, arqueiros, etc. Sem contar das batalhas surreais de humanos contra diferentes tipos de criaturas monstruosas e bestiais. Já aquela mocinha imagina um mundo de conto de fadas, a princesa presa na torre de um castelo esperando pelo seu cavaleiro, as donzelas andando felizes da vida em um bosque, o poder mágico do primeiro beijo, o príncipe encantado, entre outras coisas. Por um outro lado, temos aquele sujeito que só enxerga o feudalismo e o outro que só enxerga o domínio da Igreja Católica, a Santa Inquisição, a Caça às Bruxas.

Enfim, o que realmente foi a Idade Média?

Muitos anos antes do glorioso Império Romano decretar a sua falência, os romanos já estavam passando por profundas transformações. A tentativa de Diocleciano em estabelecer uma tetrarquia no ano de 293, tornou-se um processo de fragmentação do Império Romano. Os poderes locais resistiam às práticas de dominação do Império e suas disputas internas tornavam-se cada vez mais intensas. Neste momento, o Império possuía dois grandes centros: Ravena (cidade próxima a Roma) e Constantinopla (atual Istambul na Turquia). E é a partir daí que a história dos romanos se divide em Império Romano Ocidental (Roma) e Império Romano Oriental (Constantinopla). As cidades começaram a serem desvalorizadas e o Império passou por um processo de ruralização. Nesse mesmo período, a Idade Média se inicia com a perda da coroa de Rômulo Augusto no ano de 476, considerado o último Imperador Romano.

Edward Gibbon, um historiador do século XIX, buscava os motivos da queda do Império Romano, elegendo alguns culpados, dentre eles, o Cristianismo. Ele dizia que o poder da igreja contribuiu para a queda do Império, pois fragilizou o posicionamento do imperador levando a uma quebra cultural que garantia a sua integridade. Ao analisar o Cristianismo, de fato, há uma relação direta com a divisão proposta por Deocleciano, pois além de questões administrativas, ele também buscou a lógica de criar uma nova identidade para o Império pela religião, mas com o viés voltado para os deuses militares romanos. Após uma geração, um dos Césares da Tetrarquia, apoiado pelo ocidente, entra em Roma e é aclamado como novo Imperador, mas nega as festas pagãs e se dedica a contemplação como um cristão dando a continuidade da política de Diocleciano, mas dialogando com outros grupos, as classes médias romanas (muito cristianizadas), e com os bispos orientais, senhores poderosos naquele momento. Portanto, Edward Gibbon cometeu um erro ao apontar o Cristianismo como um dos motivos da queda do Império Romano. Podemos dizer que o Cristianismo não foi um dos motivos, mas consequência dos modelos de organização presentes no Império Romano.

Muitos têm a ideia de que o Império Romano carregava uma cultura greco-romana, mas não é verdade. O Império em si possui várias línguas, vários governos e várias formas ao longo de sua história de criar a ideia de ser romano. Quando o Império buscou o helenismo no Séc. I, trouxe também muito mais do que uma influência grega. Há figuras judaicas que ganharam importante notoriedade dentro do mundo romano, e isso dá a entender que a estrutura romana tende à absorção, e não a negação de privilegiar alguns aspectos de outras culturas.

Portanto, não há sentido entender a Idade Média como um tropeço ou uma queda do mundo, ou as trevas se abatendo sobre o mundo. Apesar das invasões bárbaras terem quebrado o Império Romano, Roma não morre. Apenas se torna uma sociedade que vem tendendo a manifestar a fragmentação que faz parte da sua estrutura a bastante tempo. O marco da chegada da Idade Média foi apenas uma escolha didática para explicar essa transformação.

Na Idade Média nem sempre teve castelos e também quem fosse contra o Cristianismo não morria na fogueira. Primeiramente os castelos surgiram por volta do século XIII/XI, quando as cidades voltaram a crescer. E a fogueira só foi estabelecida no seu período tardio, quando a Igreja se fortaleceu. Pois durante toda a Idade Média, a Igreja não foi a única dominadora e cruel. A Igreja estava em formação e, no século XIII, passou a ser Igreja Católica Apostólica Romana. A Inquisição tornou-se mais forte nos séculos XV, XVII e XVIII, ou seja, na modernidade.

Por que pensamos uma Igreja dominadora na Idade Média? Devido ao período em que a preocupação com registros de oficialidade governamental, muito presente em Roma, perdeu prestígio. A Igreja não só guardava documentos, mas também os copiava. Na maior parte desse período, é o episcopado que interessava na educação greco-romana e, por conta disso, foi seu guardião e reprodutor.

Porque esse lance de “Idade das Trevas”? Foi através da historiografia inglesa entre o século V e o XII, quando surgiram as universidades e o crescimento das cidades. A ideia iluminista inglesa enfatizava o intelectual europeu ocidental ao longo desse período. A Idade Média ensinava que o intelectual não era aquele que inova, mas que dominava os conhecimentos já produzidos. Daí que surgia a ideia de que o intelecto humano não progredia e que era incapaz de realizar novas produções do conhecimento. O mundo iluminista que tinha sede da razão, ridicularizava os conhecimentos medievais, pois eram como os passos Moonwalker do Michel Jackson, só andava para trás. Portanto, para os iluministas, os conhecimentos medievais precisavam serem combatidos. Foi a era da razão que cunhou a ideia de que o homem devia buscar o que ficou na Antiguidade, e esquecer aquele período de trevas e estagnação que teria sido vivido.

A Idade Média não é de damas e cavalheiros, mas também não é a Idade das Trevas. Não podemos compreender um mundo de mil anos com apenas um corte temporal. É necessário analisar todo o contexto. A Idade Média é o próprio tempo daquele período. É a ideia do que a população naquela época pensava, interpretava e como interagiam. Hoje, nós vivemos na Idade Contemporânea. Mas quem sabe nos próximos 50 ou 100 anos, o nome não muda? Quem sabe, os futuros historiadores, marcarão a nossa Idade de “Idade da Informação“, ou “Era da Informatização“, devido aos avanços tecnológicos, a Internet, os smartphones, etc.? Eu gostaria de complementar com a palavra “Ignorância” nessa Era da Informatização, porque, com certeza, se você discordar de algo que eu postei, vai me xingar. Hoje em dia não há mais uma crítica saudável, as pessoas não sabem discordar sem cuspir em você. É difícil de identificar o sujeito que está do outro lado da tela, então ele aproveita o anonimato para te maltratar. Se postar um “concerteza” surge um tsunami de comentários do tipo “vai aprender português, seu burro!!“, ou “maldita inclusão digital“, entre outras palavras desrespeitosas. Quem de vocês, queridos leitores, nunca discutiu nas redes sociais?

“Eu temo o dia em que a tecnologia vai ultrapassar a interatividade humana. O mundo terá uma geração de idiotas” – Albert Einstein (1879-1955)

Enfim, pra finalizar!

A Idade Média para os Medievais: Mesmo por meio de tantas metodologias avançadas hoje em dia, ainda é complicado de analisar essa questão. Será necessário analisar duas grandes vertentes: o clero com suas doutrinas teológicas, e os leigos com suas concepções antigas, pré-cristãs. O paganismo era enraizado na psicologia coletiva, isto é, aceitava a existência de um tempo cíclico, daquilo que se chamou de “mito do eterno retorno”. As primeiras sociedades registravam apenas o tempo biológico ao invés de utilizarem a História, porque para elas, viver no real era viver segundo modelos extra-humanos. Portanto, tanto tempo sagrado quanto o profano só existiam por reproduzir atos ocorridos na origem dos tempos. Pelo menos até o século XII, os medievos não sentiam a necessidade de maior precisão no cômputo do tempo, o que expressava e acentuava a falta de um conceito claro sobre sua própria época. De maneira em geral, prevalecia o sentimento de viverem em “tempos modernos”, devido à consciência que tinham no passado, dos “tempos antigos”, pré-cristãos. Tinha também a ideia de que o fim dos tempos estava próximo. É inegável que a psicologia coletava medieval esteve constantemente preocupada com o mundo apocalíptico – Catástrofes naturais ou políticas eram interpretadas como indícios da chegada do Anticristo. Havia um sentimento pessimista em relação ao presente, porém carregada de esperança do retorno do Deus justo e misericordioso triunfante.

 

Por hoje é só, pessoal. Realizei esta postagem tendo como base o primeiro capítulo da disciplina História da Idade Média Ocidental, 2º Período, curso Licenciatura em História. Faculdade Estácio de Sá.

 

Valeu!

Marcell

imperio_bizantino

Ola pessoal!

Nesta postagem irei dar a continuidade sobre o Império Bizantino, além das Cruzadas e as invasões dos Turcos Otomanos. Destacarei aqui também sobre a emblemática Quarta Cruzada que demonstrou uma Cristandade interessada não somente em questões religiosas.

Após a separação do lado Ocidental, o Império Bizantino, sob o governo de Justiniano, passou por um grande desenvolvimento recuperando áreas conquistadas pelos povos germânicos. A partir do século VIII as coisas começaram a regredir. O Império não conseguia mais manter suas fronteiras fazendo com que outros povos crescessem o olho no local. No século VII reinava a dinastia Heráclida que tentou aumentar o tributo da aristocracia local, ocasionando em uma insatisfação. Justiniano II caiu fora no ano de 711 e formou-se uma nova dinastia: Isáurica. Mas também acarretou em um período de grandes problemas externos vindo dos árabes e búlgaros. Muitas coisas eram conquistadas e outras perdidas, mas o Império Bizantino nunca mais voltou a ser como era na época de Justiniano.

A Questão Iconoclasta: A palavra ícone vem do grego eikon, e significa “imagem”. As imagens adquiriram uma expressividade na representação religiosa para projetar alguma situação ou alguém. Os primeiros cristãos tinham o costume de adornar com símbolos as catacumbas onde se reuniam durante as perseguições. Um dos símbolos mais utilizados era o peixe, que significava o reconhecimento dos seguidores de Jesus Cristo. No símbolo, a palavra “peixe” possui um significado em grego ICHTHYS – as iniciais são traduzidas como IESUS CHRISTUS THEOS YIOS SOTER (“Jesus Cristo, Filho do Deus Salvador“).

iconoclastia

Há relatos da existência de esculturas retratando santos e anjos ainda nos séculos II e III. Em termos de História da Arte, o azul mostrava um transcendental; o verde representava a natureza, criação de Deus; o branco era a paz, a harmonia; o vermelho representava o martírio; e, também, o dourado para destacar roupas e coroas. Por um outro lado, a iconoclastia foi muito mais intensa em regiões próximas as comunidades islâmicas.

As Primeiras Basílicas: Não houve um consenso de utilizar essas representações nas primeiras basílicas, os cristãos se preocupavam mais na decoração.

“Num ponto quase todos os primeiros cristãos estavam de acordo: não devia haver estátuas na Casa do Senhor. As estátuas pareciam-se demais com as imagens esculpidas de ídolos pagãos que a Bíblia condenava. Colocar uma figura de Deus, ou de um dos seus santos, no altar parecia estar inteiramente fora de questão. Pois, como iriam os míseros pagãos recém-convertidos à nova fé aprender a distinguir entre suas antigas crenças e a nova mensagem, se vissem tais estátuas nas igrejas?” – GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro:LTC, 2008, p. 135

O Papa Gregório Magno, no final do século VI, decidiu pelo menos prestar uma tolerância as pinturas. Pois as pinturas, para o Papa, serviria como um método de evangelismo para os analfabetos. “A pintura pode fazer pelos analfabetos o que a escrita faz pelos que sabem ler“. Entretanto, Severo de Antioquia, um dos principais líderes do Monofisismo, era avesso a qualquer representação de Cristo, de Maria ou dos santos. Enquanto a questão iconoclasta contraria à criação e adoração de imagens, a iconofilia era favorável à criação e adoração de imagens. Portanto, essas duas questões se arrastavam a séculos.

O cesaropapismo fazia do Imperador um representante de Deus na terra. Portanto, no ano 730, o Imperador Leão III proibiu qualquer tipo de adoração às imagens icônicas nas terras do Império. A partir de então, surgiu uma onda de perseguição contra os iconófilos e seus símbolos, levando a destruição de inúmeros ícones, pinturas, enfeites, considerando uma perda cultural. Todos os que mantinham imagens foram punidos. E, mais uma vez, a Igreja Ocidental e Oriental se separavam devido a essas questões de imagens. Pois os bispos ocidentais eram contra a iconoclastia. Após 23 anos, finalmente, a Imperatriz Irene aprovou o dogma da Iconofilia. Por um outro lado, aderindo a iconofilia, o Império poderia se beneficiar com o comércio dos ícones. E, também, se tivesse continuado com a iconoclastia, poderia ser um caminho plausível de convivência com o Islamismo e Judaísmo que não adoram imagens, abrindo o espaço para uma futura invasão.

Embora a Igreja Oriental respeitasse à autoridade de Roma como centro religioso, a política de seus imperadores acabava sendo paradoxal. Como harmonizar o respeito de Roma e o Cesaropapismo? Sem contar da Iconoclastia que jamais fora digerida pelos ocidentais.

Um Show de Excomungações: Em 1043, uma nova questão dogmática surge que é a respeito da natureza teológica do divino Espírito Santo. O Patriarca Bizantino, Miguel Cerulário, e todos os membros bizantinos, foi excomungado pelo Papa Leão IX. E, como resposta, o Patriarca excomungou o Papa Leão IX e os seus membros ocidentais. Foi só no ano de 1966, século passado, que ambos os lados decidiram revogar tais excomunhões. Podemos dizer que toda a Igreja Católica (Romana e Ortodoxa) estava excomungada por aproximadamente 920 anos??? #OHMYGOD!!!!

Como se é de esperar, antigos e novos opositores estão de olho nas fronteiras bizantinas: Os Normandos tomaram conta da Península Itálica e, ao mesmo tempo, os Turcos Seldjúcidas invadiram a Ásia Menor. Antes, o Império Bizantino não se preocupava com defesa. Mas com o passar do tempo, a defesa foi prejudicada devido aos custos que não podiam arcar. Os imperadores eram investidos, mas não solucionavam os problemas externos e internos. No ano de 1081, os Turcos Seldjúcidas bateram as portas de Constantinopla e estabeleceram seu poder a menos de 100km da capital bizantina. No final do século XI, Aleixo I (1081-1118) levanta a Dinastia Comnena contendo os Normandos e os Seldjúcidas. A morte do líder normando enfraqueceu os normandos. E, no caso dos Seldjúcidas, a morte do sultão ocasionou em uma disputa interna de poder caotizando o poder militar. Após a vitória, Aleixo I passou a se preocupar com o Império enviando uma comitiva para o Concílio de Piacenza (1095). O Papa Urbano II recebeu o recado das perdas de seus irmãos orientais e convocou o Concílio de Clermont, conclamando os cristãos para lutar na recuperação de Jerusalém. A Primeira Cruzada estava aberta.

As primeiras frentes europeias que se dirigiram para o Oriente, foram constituídas por peregrinos, fanáticos e mendigos, e atacaram judeus e bizantinos, pois eram considerados traidores da fé cristã. Na ação política, Papa Urbano II invoca os normandos recém-convertidos ao Cristianismo com força de ataque para as cruzadas. Com a chegada dessa galera, Alexis Comneno, imperador bizantino, viu uma grande oportunidade de recuperar seus territórios perdidos para os turcos seldjúcidas. Um acordo é firmado entre Boemondo, primeiro líder cruzado, e os bizantinos. Territórios na atual Turquia seriam bizantinos e o restante das conquistas divididas. Em pouco tempo, todo o sultanato do príncipe turco Kalij Arslan, havia sido vencido. Mesmo assim, rolaram muitas batalhas sangrentas e os cruzados não eram misericordiosos com os infiéis. Com isso, judeus e muçulmanos eram alvos de constantes massacres. Portanto, a Primeira Cruzada foi constituída pelas conquistas do Oriente e o enriquecimento com as novas terras e, nesse momento, inicia-se um intenso movimento em direção a essa região. Em menos de quatro anos, os cruzados já haviam vencidos algumas batalhas no oriente mediterrâneo e conquistado a cidade sagrada de Jerusalém.

Desde então, os reinos islâmicos estavam fragilizados e uma onda de reinos cristãos surgiram no Oriente. Nesses avanços orientais, a Igreja criou os Templários. No século XI, João II (1118-1143) assume o poder e decidi não renovar um acordo comercial que existia com os venezianos – Os cruzados saíam do porto de Veneza. A atitude de João gerou retaliação dos mercadores venezianos, fazendo com que o acordo comercial seja renovado. E foi nessa ocasião que podemos desconfiar dos interesses de muitos participantes das Cruzadas. Cristãos atacando cristãos quando suas economias estavam em jogo? Eu hein!

Após o ataque do cavaleiro cristão Renaud de Chatillôn na Ilha de Chipre, os Cruzados acabaram que perdendo o apoio dos bizantinos. A partir daí que começa uma série de resistências orientais. O líder militar Zinki Atabeg toma a cidade Edessa e uma nova Cruzada é convocada. Apesar de sair vitoriosa no primeiro empreendimento, as forças do Oriente se desequilibraram, rompendo acordos de paz. Logo em seguida, Saladino chegou pra por a ordem na casa. Ele reúne grupos islâmicos como Fatímidas e Seldjúcidas e conquista Cairo e Trípoli, assumindo também a liderança de Alepo e Damasco. Os cristãos acabam perdendo Jerusalém no ano de 1187 e, por fim, condenados no Oriente.

Nessa ocasião, os Reis da Europa levantam a bandeira e partem para as Cruzadas dos Reis. Liderados pelo rei inglês Ricardo Coração de Leão vencem as batalhas e o imperador do Sacro-Império, Frederico Barba Ruiva, é morto. Mas o maior prêmio não é alcançado – a Jerusalém permanece com o Islão.

 

AS CRUZADAS SOB A ÓTICA DO ISLÃO

Nos séculos X e XI, o mundo islâmico esteve no seu auge cultural difundindo conhecimento na área de medicina, astronomia e cartografia. Suas literaturas eram admiradas pelos próprios bizantinos. Sua cultura era formada por uma mistura de elementos islâmicos, gregos, romanos, persas, hindus e até chineses. Na Casa da Ciência, em Bagdá, foram traduzidos inúmeros documentos importantes da tradição grega. Ou seja, se nós possuímos muitos desses registros, devemos a esse momento do mundo islâmico. No entanto, havia uma fragmentação política. O califado xiita, ou Fatímida, desafiava os sunitas. E os turcos, originários das estepes russas, se estabeleceram no Islamismo no fim do século X. Após uma série de batalhas, se converteram e tornaram-se a guarda pessoal do sultão de Bagdá. O Sultanato Rum (Romano) foi criado quando os turcos venceram os bizantinos na batalha de Manzikert. Os bizantinos e, também, os Fatímidas se encolheram mediante a força dos turcos. Os cronistas árabes relatam que nesse momento os bizantinos e Fatímidas firmaram um acordo para conter os turcos seldjúcidas.

O Islão não viu o ataque dos cristãos contra os turcos como um ataque contra a sua religião e a sua comunidade, mas como mais um episódio de disputa pelo território da Anatólia (braço de São Jorge, atual Turquia Oriental). Nesse momento, não existia a lógica de Cruzadas para os muçulmanos e muito menos um movimento de defesa do Islão. Nas vitórias em Jerusalém, ao longo da Primeira Cruzada, havia o apoio dos Fatímidas, a dinastia xiita que comandava o Egito. Portanto, se os muçulmanos enxergassem as Cruzadas na visão dos cristãos, como uma guerra ao Islão, certamente não teriam essa atitude. Enquanto os cristãos viam “as Cruzadas”, os muçulmanos viam como “invasão Franj”.

A invasão Franj só começa a ser considerada como um movimento que precisava ser combatido com o princípio islâmico, a Jihad, no início do século XI, quando os bizantinos abandonaram o apoio às ações militares e os Fatímidas tornaram-se alvos. Os atabegs (governador entre os turcos) foram os primeiros a revidar através de Zinki, onde, na cidade de Damasco, assume a liderança política após os assassinatos dos emires de direito. Durante quase quarenta anos, Zinki venceu os cristãos em uma frente de ataque conquistando a sua legitimidade. E a cidade de Edessa abria a chance de homens de Bagdá e da Mesopotâmia enviarem soldados para aprimorarem suas tropas. Zink e as Seitas dos Assassinos fazem acordos políticos com os reinos cristãos. A Seita dos Assassinos foi fundada no século XI por um grupo de homens que defendiam uma nova interpretação do Islão, além de discordarem da sucessão do califado Fatímida. A palavra “assass” significava fundamentos ou raízes da fé.

Nuredin assume a posição após a morte de Zink, e se torna o senhor de Damasco devido a sua fama intelectual. O cara fortaleceu a união de forças contra os cristãos e o discurso da Jihad passa a ser difundido. Nessa ocasião, Saladino era o atabeg que passa a unir o mundo islâmico e Nuredin amplifica o seu poder. A cidade de Cairo estava cercada e pediu socorro para Nuredin e ele convocou homens sob a liderança de Saladino, e se tornou um mito.

Saladino torna-se um mito na história por conseguir vencer todas as adversidades no Egito, e lá oferecem-lhe o título de califado, mas ele próprio recusou. Aqui, Saladino tem que ser um exemplo de humildade porque são trechos contados na visão dos árabes. Nuredin, no entanto, se sentiu traído e se preparou para atacar Saladino, mas o cara morre acidentalmente. Daí, Saladino cerca o Alepo e é aclamado. Cerca Damasco e novamente é enaltecido. Ele consegue realizar algo que parecia impossível: o Islão estava unido enquanto os reinos cristãos estavam em crise. E, por fim, Saladino sitia e retoma a cidade de Jerusalém.

Reconquista: É o movimento de recuperação das terras cristãs que foram perdidas para os muçulmanos da Península Ibérica. Também conhecida como Cruzada Ocidental por ser como uma predecessora das Cruzadas. Ela traz a justificativa de uma Guerra Santa – mundo cristão contra os infiéis.

Expansionismo Muçulmano: No século VIII, os muçulmanos atingiram a Península Ibérica. Os visigodos que ali estavam chegaram a facilitar o acesso devido a morte do rei Vitiza. Os caras não tinham mais herdeiros, então ficaram prejudicados já levantando a bandeira branca para os islâmicos. No ano de 716, os muçulmanos dominaram as grandes extensões da Península: noroeste da África e o Mediterrâneo. Por um outro lado, eles adotaram uma política de tolerância – Ninguém é obrigado a se converter ao Islamismo, mas que paguem tributos. E aqueles que convertessem seria tratados como um autêntico muçulmano. Depois de séculos de estabilidade e com poucas incursões cristãs, no século XI, os problemas internos tornaram-se evidentes. Certas rivalidades levaram a uma fragmentação geográfica formando vários reinos independentes. Os cristãos aproveitam esse momento e, no ano de 1146, o Papa Eugênio III conclama a Segunda Cruzada para acabar com os muçulmanos no Oriente e na Península Ibérica e, aos poucos a Península Ibéria é retomada. Após as primeiras campanhas, surgem os reinos cristãos: as Astúrias, Leão e Navarra. O capítulo final da Reconquista foi no século XV, quando em 1492, os cristãos expulsaram os muçulmanos de Granada, seu último reduto na Europa.

Mapas mostrando as etapas de recuperação das terras cristãs perdidas para os muçulmanos na Península Ibérica.

Etapa 1

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Com o movimento das Cruzadas, a Europa teve a sua economia incrementada. Os saques realizados nas cidades permitiram um grande fluxo de moedas alimentando o comércio com produtos orientais. Com o desenvolvimento comercial, algumas cidades tornaram-se entroncamentos importantes. As cidades cresceram beneficiando também o âmbito cultural. Por um outro lado, as cruzadas tornaram evidentes a tamanha intolerância religiosa, pois inúmeros judeus e muçulmanos foram perseguidos na Europa.

 

O QUE ACONTECEU COM A QUARTA CRUZADA?

Como já vimos, o Império Bizantino, por séculos, foi a joia do entroncamento da Europa, Ásia e África devido a sua posição geográfica. E, por causa disso, teve que resistir as muitas invasões ocorridas durante esse tempo. Apesar de todos os conflitos políticos e religiosos que levaram ao grande Cisma, sem contar da força da expansão islâmica que nos trouxe as Cruzadas, precisamos aqui analisar com mais detalhe a Quarta Cruzada.

Como vimos também, a Igreja Católica Romana passou a receber apoio dos Patriarcas Ortodoxos para recuperar os territórios santos que estavam sob o domínio dos muçulmanos. Ao todo foram realizadas nove cruzadas, sendo que a última é desconsiderada por alguns historiadores. Apesar dos sucessos e fracassos das Cruzadas, a Quarta Cruzada tornou-se emblemática. A Quarta Cruzada teve seu início no ano de 1202 através do Papa Inocêncio III e durou 2 anos. O objetivo não era novo – retomar a cidade de Jerusalém. Pelos planos papais, a empreitada deveria partir para um ataque ao Egito e seu poderio muçulmano, para só então alcançar a Terra Santa. Mas esses cruzados devem ter sido possuídos pois decidiram tomar Constantinopla, a capital do Império Bizantino. E, com a deposição do imperador de Bizâncio, foi criado o Império Latino. Isso demonstrou que a guerra que seria uma luta contra os infiéis, estava se tornando cada vez mais ambiciosa. Por um outro lado, Veneza era um local estratégico dos cruzados devido ao seu deslocamento para o Mediterrâneo e chegada à costa oriental. Os comerciantes venezianos deram muita grana e embarcações para os cruzados devido ao interesse dos produtos orientais, e na fixação de um entreposto que facilitasse o acesso a essas mercadorias. O ponto crucial foi quando o Imperador João (1118-1143) acabou com um acordo comercial feito pelo seu pai com os venezianos. O clima ficou muito tenso, pois muitos cruzados e venezianos invadiram áreas pertencentes a Bizâncio nesse período. Uma outra questão é a defesa do Papa na posse do Egito e o olho gordo dos venezianos sobre Constantinopla. Balduíno de Flandres e Bonifácio II, líderes da Quarta Cruzada, estavam com problemas para manter seu deslocamento. Pois os venezianos passaram a cobrar muito caro para permitir sua passagem nas águas mediterrâneas. Enrico Dandolo, duque veneziano, negociou com os cruzados para fazerem incursões contra a cidade de Zara, onde o governante era um rei cristão. Os venezianos estavam de olho nesse local também.

A cidade de Zara foi invadida pelos cruzados e o Papa Inocêncio III ficou indignado condenando firmemente tal ação. Os líderes venezianos foram excomungados. Em seguida, os caras invadiram Constantinopla e o imperador Aleixo III tentou resistir, mas acabou dando no pé. Os cruzados nomeou seu próprio imperador formalizando o Império Latino. Somente em 1261 que Constantinopla voltou a ser grega, mas centenas de estátuas, mosaicos, ícones foram saqueadas. E a Quarta Cruzada parou nesse local e nem se quer se dirigiu para Jerusalém.

 

E OS TURCOS OTOMANOS?

A Quarta Cruzada desgraçou com o Império Bizantino, mas já tem tempo que os bizantinos iam perdendo áreas para os muçulmanos, persas e mongóis. No século XI, uma comunidade seminômade chamada seldjúcida, iniciou suas incursões na Anatólia. E, devido a parceria com os turcos e o comandante se chamar Osman I (ou Othman), os caras passaram a se chamar de Turcos Otomanos Seljúcidas. Após seguidas e desastrosas batalhas, Bizâncio, no século XIV, continuava existindo, mas como um Estado nominal regido pelos turcos otomanos. A política era pagar impostos e manter os turcos fora da capital.

Em 1453, os turcos otomanos liderados pelo sultão Maomé II cercaram Constantinopla vetando as entradas de suprimento, bloqueando o Mar de Mármara e o Estreito de Bósforo. O cerco oficial começou com o tiro de um canhão em direção as muralhas da cidade e, vários dias depois do cerco, Constantinopla cai por terra. Nesse momento, Maomé II consagra o maior símbolo da Igreja Ortodoxa, a Catedral de Santa Sofia, como mesquita. Eles saquearam produtos e eliminaram muitas pessoas. E os que estavam lutando pela sobrevivência, tentavam escapar pelo mar.

Com a perda de Constantinopla, foi necessário buscar por novas rotas comerciais. Muitas nações europeias, em seu processo de unificação interna, deram de frente com mais um desafio: como adquirir produtos orientais? Antes mesmo desses eventos, os portugueses já navegavam, em 1415, no litoral africano em busca da dita rota para chegar às Índias e adquirir os produtos orientais. Os demais irão também buscar por alternativas. A partir daí, o mundo europeu entra no processo das Grandes Navegações… que venha a América! \o/

 

Obrigado pela atenção, pessoal. Fiz esta postagem tendo como base os capítulos 7, 8, 9 e 10 da disciplina História da Idade Média Oriental, 2º Período, curso Licenciatura em História. Faculdade Estácio de Sá.

 

Valeu!

Marcell