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Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar um resumo das aulas da disciplina História da África do Século XX do 5o Período do curso Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – O Tráfico e as Suas Transformações no Século XX

Em 1839, os escravos que saíram da atual Serra Leoa estavam sendo levados ilegalmente para Cuba, quando se revoltaram e tomaram o navio. Como estavam próximos da costa estadunidense, toda a tripulação foi levada para os EUA pelos ingleses que realizavam o policiamento, e lá começou uma implacável batalha jurídica para decidir qual seria o destino daqueles africanos escravizados.

A chegada dos europeus no continente americano redimensionou o tráfico de africanos no atlântico, fazendo desse comércio um dos mais lucrativos da época. Embora milhares de indígenas tenham sido dizimados ou escravizados pelos colonos europeus, tais populações, em tese, estavam protegidos pela Igreja Católica, que depois de calorosos debates durante as três primeiras décadas do século XVI, havia decidido que os índios da América possuíam alma. Consequentemente, não poderiam ser escravizadas. Já os negros africanos eram vistos como infiéis, e a única forma que eles tinham de salvar-se era passar pelo purgatório em vida. Esse purgatório era a escravidão.

As primeiras grandes levas de africanos escravizados saíram da região que hoje corresponde aos países de Congo e Angola. Logo em seguida, entre os séculos XVI e XVII, portugueses e outras nações europeias como os franceses, holandeses e ingleses começaram a comprar africanos escravizados da região que ficou conhecida como Costa do Ouro (atual Gana) onde habitava sociedades acans, fantis e mandingas. Por outro lado, o reino do Benin se transformou em um grande fornecedor de escravos para os europeus e brasileiros. E assim, o tráfico de escravos tornou-se uma das atividades mais rentáveis de todo o mundo.

Nas últimas décadas do século XVIII, os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, defendidos na Revolução Francesa, marcaram o fim do Absolutismo e viabilizaram a construção de um novo modelo de sociedade. A escravidão também foi tema de debates políticos em muitas nações europeias, chegando inclusive a ser combatida. A Revolução Norte-Americana (1776) foi o primeiro evento de grandes proporções baseado nos princípios do iluminismo que rompeu os paradigmas da colonização europeia, embora não tenha abolido a escravidão. Já na região caribenha, os ideais da Revolução Francesa foram levados ao extremo, viabilizando o que foi a maior revolução de escravos da história humana: a revolução do Haiti (1790).

As mudanças econômicas geradas pela Revolução Industrial criaram outras necessidades aos países europeus. Em primeiro lugar, era preciso ampliar o mercado consumidor dos produtos manufaturados produzidos na Europa. Em segundo, para que a produção fosse feita em larga escala era preciso um grande estoque de matéria-prima que, grosso modo, não era encontrado na Europa a custos baixos. Como a grande maioria das colônias americanas já havia declarado sua independência, os países europeus precisavam achar esses produtos primários em outro lugar. E esse lugar era a África.

A abolição do tráfico transatlântico de escravos, decretada pela Inglaterra em 1807, viabilizaria a primeira porta de entrada dos europeus na África. Embora algumas regiões africanas (como Angola e Moçambique) tenham mantido o comércio até meados do século XIX (Brasil e Cuba continuaram importando grande número de africanos escravizados até a década de 1850), após 1807, a maior parte das sociedades africanas envolvidas no tráfico se viu obrigada a reestruturar sua economia, para manter as redes internacionais de comércio que haviam construído com nações europeias anos atrás. A partir do século XIX, as elites político-econômicas de Achanti (Império da Costa Ocidental africana) que, ao longo do século XVIII estabeleceram sua rede de comércio por meio da venda de ouro e escravos, viram-se obrigadas a produzir gêneros tropicais para sustentar suas negociações com comerciantes europeus. Se em um primeiro momento, a substituição de escravos por gêneros tropicais parecia não causar danos imediatos, no médio prazo diversas sociedades africanas sofreram crises que as enfraqueceram politicamente.

Com o fim do tráfico, boa parte dos grupos africanos dominados viu-se livre não só das taxações, mas também da obrigatoriedade política de fazer parte desses Estados que os controlavam. Paralelamente, regiões islamizadas da África Ocidental atravessavam um processo de mudança, no qual as jihads passaram a ser chefiadas por líderes autóctones, criando novas dinastias e, consequentemente, novos reinos que não tinham uma forte unidade política estabelecida. Na parte sul da África, a instabilidade gerada pelos conflitos entre os zulus e os africânderes também facilitou a entrada de europeus, sobretudo dos ingleses.

 

Resumo da Aula 02 – Missionários e Expedicionários na África

Graças à vulnerabilidade econômica e à instabilidade política em diferentes regiões africanas, os europeus sentiram-se à vontade para iniciar o seu processo de roedura. Com interesses múltiplos, diversas nações europeias iniciaram uma exploração aparentemente pacífica do interior africano. Os comerciantes europeus já eram conhecidos entre as sociedades africanas envolvidas no comércio de africanos escravizados. A relação comercial foi o principal vínculo entre a Europa e a África entre o século XV e meados do século XIX. É importante ressaltar que as sociedades africanas vendiam gêneros básicos (óleo de palma e amendoim, por exemplo) em troca de produtos manufaturados (sobretudo os tecidos produzidos nas fábricas inglesas).

A entrada maciça de manufaturas serviu para abalar ainda mais as sociedades africanas que ainda se recuperavam das transformações econômicas causadas pelo fim do tráfico transatlântico. Muitos artesãos acabaram sendo obrigados a largar suas oficinas de produção para engrossar a massa de trabalhadores nas lavouras destinadas a abastecer o mercado externo. Ainda que muitos missionários tenham se preocupado em compreender as diferentes culturas africanas com as quais entraram em contato, o principal objetivo das missões era converter não apenas à fé cristã mas também à cultura da Europa ocidental.

Mesmo que as missões religiosas tivessem nobres intenções, a catequese foi um desastre. As chamadas sociedades tradicionais africanas reconheciam nos chefes religiosos uma importante autoridade política e tinham o culto aos deuses e antepassados como uma das formas de preservar sua memória. A imposição de um novo Deus e de novos valores morais acabou alterando padrões de vida milenarmente construídos, enfraquecendo, assim, muitos povos africanos.

Desde o início de sua relação com a África, os europeus tinham o objetivo de conhecer aquele continente que, para eles, era uma mistura de barbárie e exotismo. A soberania das sociedades africanas e as epidemias de malária e febre amarela, contudo, impediram que os europeus adentrassem o continente africano de forma sistemática até meados do século XIX. Mesmo assim, o continente africano passou a ser visto como o futuro celeiro da Europa devido a mão de obra barata, mercado consumidor e gêneros primários. As expedições tinham como objetivo principal conhecer o curso dos rios e das sociedades africanas que viviam no interior do continente. As grandes bacias hidrográficas eram as regiões mais visadas pelos expedicionários europeus, pois eram nesses locais que as principais trocas comerciais africanas se efetivavam.

Diversos jornais europeus narravam essas expedições como verdadeiras aventuras, nas quais bravos homens conviviam dia após dia com o perigo de uma terra repleta de tribos, animais ferozes e doenças desconhecidas. Tais narrativas ajudaram a criar, no continente europeu e nos EUA, a ideia de uma África que muito se assemelha com aquela descrita no romance de Tarzan. O reconhecimento do território africano empreendido pelas campanhas de exploração e pelas missões religiosas foram facilitadores de uma verdadeira invasão de mercadores europeus nas caravanas e rotas de comércio que ligavam diferentes pontos do continente. De início, não houve um perigo para os africanos, pois estavam acostumados com o comércio entre os árabes, indianos e com os próprios europeus. No entanto, no decorrer do século, os europeus se tornaram senhores das principais rotas comerciais do litoral africano, incluindo as que ligavam as cidades orientais ao continente asiático.

 

Resumo da Aula 03 – A Partilha do Continente Africano

Nos últimos anos do século XIX, depois de décadas realizando o mapeamento do continente africano, as nações europeias resolveram partilhar a possessão da África entre elas. Na época, o objetivo dessa partilha era não só iniciar a exploração desse continente como também levar a civilização para os africanos. De acordo com as principais nações capitalistas da época, cabia ao homem branco fazer com que os povos de outras raças, sobretudo os africanos e os asiáticos, atingissem o modelo europeu/branco de civilização. Através da doutrina darwinista sobre a evolução, os diferentes biótipos humanos existentes eram, na realidade, diferentes raças humanas, sendo a raça branca a mais desenvolvida entre elas. Embora se saiba que, atualmente, não existem raças humanas, pois a humanidade é uma só, do final do século XIX até meados do século XX, o uso das ciências para comprovar a falsa desigualdade existente entre os homens, promoveu o racismo científico, que não só justificou a colonização da África e da Ásia como também foi a justificativa utilizada pelos movimentos nazistas e fascistas.

Um dos maiores exemplos dos planos das nações da Europa que se julgavam detentoras da civilização e do progresso foi a construção do Canal de Suez. Esse canal foi a realização de um desejo antigo (desde o Egito faraônico) de ligar o Mar Vermelho ao Mediterrâneo. O canal ficou pronto em 1869, em uma inauguração repleta de reis e de chefes de Estado de diferentes nacionalidades. É a partir desse momento que a Inglaterra passa a mostrar interesse crescente pela região. Os ingleses conseguiram comprar Ações Financeiras da Companhia do Canal de Suez. Sendo assim, o grande empreendimento deixava de ser nacional e passava para o controle da Inglaterra. Era o alvorecer da perda de soberania dos estados africanos e da consequente submissão econômica dessas mesmas sociedades.

Um aspecto que acendeu ainda mais o interesse e a cobiça europeia pela África foi a descoberta casual de diamantes na atual África do Sul e, um pouco mais tarde, de ouro e de cobre ainda na parte meridional do continente. Com essas descobertas, os europeus também passaram a conhecer mais a geografia da África, e fez com que uma série de projetos de ocupação do território africano fosse desenvolvida pelas nações europeias. A Inglaterra chegou a elaborar um projeto de construção férrea que ligaria o Cairo à Cidade do Cabo, cortando, longitudinalmente, todo o continente africano.

Embora a presença europeia fosse constante, o estopim para a partilha da África foram os desejos expansionistas do rei belga Leopoldo II. Em 1876, o rei belga reuniu uma conferência internacional de geografia em seu palácio, em Bruxelas. Desse encontro criou-se a Associação Internacional Africana, cujo objetivo era levar a civilização para a única parte do globo ainda não penetrada. Em 1877, Leopoldo II constitui o Estado Livre do Congo. A criação deste Estado surpreendeu e acirrou os ânimos das demais nações europeias, mesmo porque ele representava o controle do acesso à Bacia do Congo, que pertencia ao rei belga. As aspirações coloniais de Leopoldo II foram rapidamente compartilhadas por outros países europeus que iniciaram uma verdadeira corrida para a África.

Alemanha, França e Inglaterra intensificaram o contato com lideranças autóctones dos territórios que pretendiam dominar. Em meio a esse processo, o chanceler alemão Otton Von Bismarck convocou os representantes das grandes potências da época para uma conferência em Berlim. O objetivo inicial deste encontro era controlar as pretensões expansionistas europeias na África Ocidental, sobretudo as de Leopoldo II. Empresas europeias aproveitaram o ímpeto imperialista de suas nações e passaram a exercer monopólios comerciais bem eficientes. Além dos interesses políticos e econômicos, os diferentes países da Europa ainda acreditavam estar fazendo um bem a todo o continente africano, pois o neocolonialismo era a única forma de levar a civilização aos africanos.

De maneira geral, a França ficou com a África Ocidental. A Inglaterra ficou com a África Oriental. A Itália pegou a região nordeste do continente, e Portugal abraçou a África Centro-Ocidental.

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Resumo da Aula 04 – Movimentos de Resistência

A partilha da África foi um ato que dividiu e defendeu os interesses dos países europeus e dos Estados Unidos, que, desde meados do século XIX, comungavam o “fardo do homem branco” e, justamente por isso, acreditavam que tinham a missão de civilizar todas as sociedades que não compartilhassem seus modelos de organização e governo. Embora algumas lideranças africanas tenham participado do processo que resultou na partilha do continente, a maior parte dos estados africanos esteve aquém das decisões que culminaram na colonização do continente.

Na realidade, a resistência africana foi anterior à partilha propriamente dita. Antes mesmo de 1885 e da redefinição do continente africano, muitas sociedades e lideranças não viam com bons olhos a crescente presença europeia em suas terras. Na África Ocidental, as elites do Império Ashanti resistiram à entrada inglesa durante setenta anos. Em 1823, foi declarada a primeira guerra Anglo-Ashanti. Em 1853, trinta anos depois, os ashantis tornaram a entrar em guerra contra os ingleses a fim de defender o controle do rio Pra. O conflito durou dez anos com a vitória dos ashantis graças às numerosas epidemias que assolaram as tropas inglesas. No ano de 1891, na tentativa de expulsar os franceses que tentavam controlar seu território ao mesmo tempo que buscavam as minas de ouro da região, os ashantis se tornaram um protetorado inglês. Somente em 1896, quando os ingleses introduziram a metralhadora nos combates, garantindo sua vitória sobre os ashantis, que foram de fato incorporados à Costa do Ouro.

Na parte sul da África, destacam-se os movimentos feitos pelos xonas e pelos zulus. Entre 1896 e 1897, o líder religioso Milmo teria sido responsável por fomentar o ódio contra os ingleses. Segundo o sacerdote, os britânicos eram os culpados pela seca e pelas pragas de gafanhoto que assolaram a região desde o início da década de 1890. Tanto os xonas quanto os ndebeles pegaram em armas e lutaram por dois anos contra os ingleses. Mas a supremacia bélica trouxe a vitória para os colonos. Depois da morte do líder Milmo, os xonas e os ndebeles foram unificados e ficaram sob o comando da empresa do britânico Cecil Rhodes. No extremo sul do continente, os ingleses tiveram que lidar com um exército zulu armado e determinado a impedir o avanço colonial. Por outro lado, o trono zulu foi usurpado por uma linhagem de Cetshwayo. E, por incrível que pareça, Cetshwayo e os zulus causaram a maior derrota da Inglaterra, matando cerca de 1600 soldados britânicos. Essa luta ficou conhecida como Batalha de Isandhlawana, ocorrida em 12 de Janeiro de 1879.

Os franceses também sentiram na pele o poder dos movimentos de resistência. Na primeira metade do século XIX, em 1830, a França tomou à força a cidade de Argel. Diante dos numerosos conflitos, em 1848, a Argélia se transformava em um dos departamentos da França. No atual Senegal, Omar Tall foi o líder de diversos conflitos contra os invasores. Como muçulmano ferrenho, Omar Tall lutou tanto contra o cristianismo que acompanhava a presença cada vez mais constante dos franceses em seu território quanto contra as sociedades, que considerava animista. Omar morreu em um ataque em 1868 e sua figura até hoje é lembrada nos atuais países do Mali e do Senegal.

No atual Sudão, um poderoso exército chefiado pelo líder muçulmano Samori Touré conseguiu resistir aos franceses entre 1882 e 1900 graças aos ferreiros da região terem copiado os fuzis utilizados pelos europeus, diminuindo assim a diferença na tecnologia bélica. Os berberes de Marrocos sucumbiram à Espanha apenas em 1926, e pequenas rebeliões marcaram as primeiras décadas da colonização portuguesa tanto na Guiné-Bissau quanto em Angola.

Libéria e a Etiópia foram os países que os europeus não conseguiram colonizar. A Libéria foi um país criado em 1847, após a declaração de Independência da Sociedade Americana de Colonização, criada pelo estadunidense Robert Finley, que pretendia levar todos os negros livres e libertos dos Estados Unidos para lá. A questão da Etiópia é diferente. A Itália tem empreendido diversas invasões ao território etíope, conseguindo até mesmo colonizar a atual Eritreia. O movimento comandado pelo imperador Menelik II conseguiu impedir tais invasões e, além disso, teve o apoio de grande parte da população islâmica, formando assim uma unidade política coesa e um exército forte.

 

Resumo da Aula 05 – A Efetivação da Estrutura Colonial

Segundo historiadores, o intervalo entre 1885 e 1919 é conhecido como período da pacificação, que foi o momento no qual os europeus conseguem desarticular grande parte da resistência imposta pelos africanos e efetivam a ocupação do continente por meio da construção de redes de infraestrutura, como rodovias, ferrovias e telégrafos. Duas figuras foram fundamentais para a efetivação do colonialismo: as empresas/empresários europeus e as missões religiosas.

As missões cristãs exerceram importante papel nesse período. Além de conviverem diariamente com os grupos colonizados, os missionários cuidavam tanto da educação quanto das questões religiosas da população e eram os intermediários na comunicação entre colônia e metrópole. As missões cristãs acabaram desestruturando diversos povos da África na medida em que impunham a eles uma nova forma de compreender o mundo.

O advento da Primeira Guerra Mundial foi um dos divisores de água da política colonialista. Em primeiro lugar, ocorre um reordenamento físico da partilha da África, tendo em vista as sanções impostas à Alemanha e à Itália. A partir de então, a colonização clássica foi empregada pelas metrópoles europeias, que ampliaram sua administração civil não só em termos quantitativos mas também qualitativos, permitindo, assim, que as colônias passassem a ser autossuficientes.

A expressiva oferta de trabalhadores aguçou ainda o interesse de empresários europeus, que passaram a ver a África como um grande investimento. O crescimento da população européia resultou na melhoria da infraestrutura urbana, como a construção de hospitais e de redes de esgoto, que, em sua maioria, era usufruída apenas pelos colonizadores. Muitos estados metropolitanos começaram a participar da educação criando escolas laicas nas diferentes colônias. Em um primeiro momento, essas escolas eram frequentadas pelos filhos dos colonos. Com o tempo, porém, os jovens das elites africanas, sobretudo das populações que viviam nos centros urbanos, começaram a estudar nelas.

Nas colônias pertencentes à França, à Bélgica, a Portugal e à Itália, a educação laica era pautada pela doutrina da assimilação, onde as crianças e os jovens africanos eram entendidos como integrantes dos impérios francês, belga, português e italiano. As aulas eram ministradas nas línguas dos colonizadores, e os conteúdos dos livros didáticos se remetiam quase exclusivamente ao universo europeu.

 

Resumo da Aula 06 – O Modelo Colonial Britânico na África

O colonialismo britânico na África se estende da segunda metade do século XIX até meados dos anos 1930 e ajuda a consolidar sua posição como potência mundial, acabando, neste sentido, por integrar a economia da África tropical à economia capitalista mundial. No período que vai de 1929 a 1935, os operários e camponeses africanos sofreram enormes dificuldades econômicas, assim como diversos outros países ocidentais. A administração colonial tentava, com muito esforço, estancar a rápida degradação dos solos, principalmente nas “reservas indígenas” onde a densidade demográfica era uma ameaça à fertilidade da terra. As leis eram diferentes, direitos fragilizados, e o quadro humano se degradava enquanto pequenos grupos brancos financiavam pequenas elites locais no objetivo de manter vivas a exploração e o seu enriquecimento.

Até a segunda década do século XX, a Inglaterra era um dos maiores senhores da África dominando: Nigéria, Costa do Ouro (atual Gana), Gâmbia, Serra Leoa, Quênia, Tanganica (atual Tanzânia), Agricultura ândia (atual Malawi), Uganda, Rodésia do Norte (atual Zâmbia), Rodésia do Sul (atual Zimbábue) e Africa do Sul. Surgiam novos mercados, novos ricos, os burgueses se alimentavam de uma dinâmica de consumo, que como sabemos hoje se mostraria duradoura. Ao domínio estratégico militar de uma colônia, o Reino Unido esperava que fornecessem matérias-primas necessárias para alimentar a máquina industrial da potência imperialista. Um africano que tinha uma posição superior via a sua possibilidade de ascensão aparecer, usando bens, apetrechos  que lhe dessem uma identidade diferente de seus pares. Enquanto as colônias viam-se obrigadas a exportar para o Reino Unido, que tinha prioridade sobre qualquer outro comprador, este não tinha a menor obrigação de abastecer-se com exclusividade em qualquer de suas possessões. De uma maneira geral, os africanos continuaram, na prática, senhores de suas terras nas colônias britânicas da África ocidental, mas foram no mais das vezes, desapossados delas na África ocidental e na África central.

A exportação era o principal centro de preocupação da Inglaterra com a África. O sucesso de suas produções agrícolas e minerais representava o sucesso de empreendimento colonial. Devemos destacar que isto não significa a implantação de um modelo estrangeiro, boa parte do que era obtido foi aproveitando a estrutura e os procedimentos agrícolas que já existiam como no caso do cacau e do café. A economia não era necessariamente em áreas de plantation, como nas Américas, mas sim compradas de milhões de agricultores não especializados, junto com as produções empresariais, estas sim direcionadas. O subsolo de algumas possessões britânicas da África tropical era rico em minerais. Os diamantes representavam importante produção industrial em Serra Leoa e na Costa do Ouro. Na maior parte dos territórios era possível explorar um ou dois tipos de minério, mas só a Rodésia do Sul e Serra Leoa apresentavam grande variedade de minerais.

Ainda na Idade Média o rei do Gana gerou uma enorme inflação no espaço muçulmano quando desembarcou com alguns dos seus carregamentos de ouro quando haviam se recusado a negociar com ele. Mas a chegada dos europeus e a dinâmica em busca desesperada pelos metais preciosos transformou a febre do ouro em outro cruel fator de desagregação da sociedade africana. Uma das formas mais violentas de assegurar o poder foi a afirmação de um aparelho que afastasse os sistemas de monetarização e organização das velhas elites africanas, trabalhasse o abandono de moedas locais e passasse a impor um sistema monetário de moedas europeias profundamente valorizadas na região, criando uma segregação quase intransponível entre a população local e o poderio dos africanos nas colônias britânicas. Juntando as demais degradações entendemos o intenso processo vinculado à dominação capitalista fundamental para o funcionamento do colonialismo africano.

 

Resumo da Aula 07 – O Modelo Colonial Português e Francês: Um Espaço em Transformação no Século XX

Os domínios de Portugal e da França começam a ser constituídos ainda no século XVI, mesmo que apenas consolidados os modelos de exploração para além do tráfico negreiro no século XIX. O domínio francês foi especialmente marcado em regiões de grande relação com o Mediterrâneo, em especial os espaços de dominação muçulmana. Portugal tinha suas duas maiores colônias em Angola, no Atlântico, fundamental com o comércio com o Brasil e Moçambique, um dos pontos importantes da dinâmica de Portugal com o Oriente, reunindo Goa, Timor e o papel de Moçambique. Não se trata de uma dinâmica marcada pelos domínios de empresas, como no caso inglês, mas pela forte atuação do governo.

Na Primeira Guerra Mundial, a redistribuição dos territórios na África, as colônias alemãs, o tempo de “ocupação” e os mandatos internacionais vinculados à Liga das Nações acabaram por denotar a busca de um reequilíbrio de forças. Enquanto franceses e portugueses conseguiram certa estabilidade no século XIX, o século XX prometia ser muito mais difícil. Velhos sacerdotes e prática que eram periféricas na sociedade, diante da luta contra o inimigo ganham força e permitem a formação de movimentos fazendo com que a França, após intensos combates na Argélia, tenha mudado sua posição sobre o domínio, passando a estabelecer uma série de acordos, permissivos, mas que garantia a manutenção da influência, embora com um forte trajeto. Comunidades colonizadoras brancas passaram a estabelecer, a garantir e a manter formas de poder, onde a dualidade não era tão importante. Essa é uma dicotomia construída fortemente na África francesa com os grupos educados no espaço da França e retornando para liderar os países, contudo, em um modelo do que foi aprendido.

Portugal não tem o mesmo modelo da França, mas também não deixa de constituir uma elite local, mestiça, de poucos números, mas que garante a ideia de ascensão social dentro do mundo português, explorando e fortalecendo o discurso de pertencimento à colônia. Ainda que a passagem dos angolanos para a Europa não fosse algo propriamente fácil, devido ao controle de grupo, a saída de portugueses para às colônias era, no entanto, estimulada e defendida, como forma ideal de constituir um novo mundo português.

A pressão americana contra o modelo colonialista tinha uma função marcadamente mercadológica, era a busca de uma nova zona de influência, produtora agrícola importante, e principalmente novas áreas de controle para as empresas americanas em crescimento. B. Davidson observa que os defensores da dominação colonial recusavam-se a considerar as rebeliões fenômenos organizados. Recusavam-se a admitir a única interpretação correta – que se tratava de guerras justas de libertação, motivo pelo qual recebiam o apoio da imensa maioria dos africanos. Para Jacob Ajayi, quando um povo perde sua soberania, ficando submetido à outra cultura, perde pelo menos um pouco de sua autoconfiança e dignidade; perde o direito de se autogovernar, a liberdade de escolher o que mudar em sua própria cultura ou o que adotar ou rejeitar da outra cultura. Já Walter Rodney dizia que o poder de agir com toda a independência é a garantia de uma participação ativa e consciente da História. Ser colonizado é ser excluído da história. De um dia para outro, os Estados políticos africanos perderam o poder, a independência e a razão de ser.

 

Resumo da Aula 08 – Pan-Africanismo e as Novas Identidades

As primeiras décadas do século XX foram marcadas pelas disputas das potências mundiais. Vivemos em um mundo que forjou uma identidade ocidentalizada, onde mesmo as manifestações do islamismo e do oriente distante são marcadas por reconhecimentos ocidentais, criando um modelo que só pode ser compreendido com esta reação. As guerras mundiais do século XX, transformaram o mundo em seu palco, sendo que África e Ásia em espaços importantes. As discussões decorrentes sobre o derramamento de sangue – na I Guerra Mundial – fizeram com que as lutas contra o domínio europeu começassem a ser constantemente questionados. Se não bastasse, o mundo enfrentou a crise de 1929 e o fim do suporte para reconstrução europeia financiada pelos americanos; e os movimentos como o nazismo e o fascismo apareceram como solução.

Durante os conflitos da II Guerra Mundial, mais uma vez a África era foco dentro desta sociedade. Entre 1939 e 1945 a África foi um palco de guerra, seja na tentativa de lutar contra seus dominadores, seja contra as fronteiras artificiais. Em 1900, cerca de 5,6% da Ásia e 90,4% da África estavam sob controle do colonialismo europeu resultante da Conferência de Berlim. As potências europeias haviam alcançado um estágio de penúria após a Segunda Guerra, precisavam se concentrar em recuperar o seu espaço e o seu predomínio, construído em 400 anos como centro do mundo, que se esvaiu. EUA e União Soviética eram as novas potências.

O mundo e a África viam a formação de novas elites que estudaram muitas vezes nos núcleos dos colonizadores e ao voltar denunciavam a realidade dos territórios africanos. Movimentos como os americanos liderados por Malcom X e Martim Luther King Jr. permitiram que o mundo conhecesse lutas como as de Nelson Mandela, Mahatma Gandhi e Mao Tse Tung, cada um a sua forma, mas contra o domínio europeu e contra o controle que lhes fora imposto.

De abril à junho de 1945, foi realizado a Conferência de São Francisco para discutir os caminhos do mundo no pós-guerra, seus objetivos eram estabelecer diálogos com a carta das Nações Unidas, que mostravam uma série de novas preocupações no novo equilíbrio de forças mundiais. No objetivo de estabelecer um mundo equilibrado a ONU, o Banco Mundial e o FMI, são criados para diminuir a competição entre aliados do mesmo bloco, articuladores e executores de objetivos centrais da política do capitalismo.

Antes mesmo de um pan-africanismo, a tradição pan-arabista já havia marcado o norte da África por uma série de lutas de independência. A França, quando concede por acordos a independência de suas colônias após as intensas lutas na Argélia são uma sinalização de que a sua unidade é vigorosa. Apesar da importância da conferência, o mundo estava diante de uma nova e cruel forma de imperialismo. Americanos e soviéticos por suas disputas foram chamados pela historiografia de Guerra Fria, certamente é uma frieza que não pode ser vista no Vietnã, Coreia, Angola, Camarões, Costa do Marfim, e muitos outros espaços que vão conviver com as tristes forças.

 

Resumo da Aula 09 – Independências e a Formação de uma Nova África

Muito se engana quem imagina que a exploração da África acaba com o colonialismo. Foi um passo importante, mas a Guerra Fria, a partilha desastrada, e o modelo de exploração por meio de empresas, indústrias que enriquecem pequenas elites e exploram o coletivo continua sendo uma realidade. Assim, a tensão entre o modelo capitalista e o modelo comunista representava à negação ou o acordo com esta dinâmica e se tornou um palco de guerras das mais difíceis. O livro do pesquisador Ronald Aronson mostra como a Guerra Fria colocou em campos opostos os amigos Camus e Sartre. Um era argelino e o outro era parisiense. Em comum, Albert Camus e Jean-Paul Sartre nada tinham, somente diferenças de “origem” e personalidade. Dois dos maiores pensadores do século XX, os escritores construíram uma das relações amistosas mais sinceras da Filosofia moderna. Tão intensa e fugaz quanto um fogo-fátuo. Com divergências políticas, romperam publicamente em 1952, tornando-se inimigos ferrenhos de trincheira até a morte. Mas, no fundo, sempre se mantiveram estritamente ligados de corpo, alma e intelecto. É o que conclui o pesquisador Ronald Aronson. Passada a euforia do fim da Segunda Guerra Mundial e a onda do existencialismo filosófico que ambos pregavam, a dicotomia da Guerra Fria os colocou em campos opostos: Camus do lado dos antimarxistas, e Sartre dos socialistas e da União Soviética. O tempo mostrou que nenhum dos dois estavam certos. Ficou a lembrança de uma amizade que, se não resistiu bravamente, arrumou um jeito de coexistir sob o caos, como um espelho fiel para quem deseja entender o breve sangrento século XX.

As regiões da África islâmica certamente foram os maiores focos de resistência enfrentados por europeus na África. Assim, quando os movimentos nacionalistas tiveram seus primeiros apontamentos, foram em torno de lideres religiosos que identificamos certo nível de cooperação entre os grupos. Islamismo de vertente sunita, direitos iguais dentro do sistema francês sem abrir mão de suas leis e moralidade x emancipação por meios legais. É desta disputa que em 1956 é conseguida a liberação definitiva destes conjuntos muçulmanos, mas mantendo uma forte relação com o domínio francês, uma vez entendido que não seria possível a manutenção, optou-se pelo diálogo e a aceitação da liberdade sem mais conflitos coloniais.

Em 1951, o político africano e intelectual Kwame N’krumah lutava por um processo de transição do domínio inglês, na Costa do Ouro, região que chamamos atualmente de Gana. O governo inglês, no entanto, queria limites e na região de fronteira atual do Quênia, destituía o primeiro ministro recém-escolhido e o prendia, Jomo Kenyatta, e investia em uma guerra étnica contra os Mau Mau (1952-1956). Os conflitos deixam 10 mil mortos, africanos, e os campos de concentração para “reeducação” de 50.000 homens.

Dizem que Portugal escolheu muito mal as estratégias de sua luta de independência. Em um país com uma economia combalida, perder as colônias seria um golpe duro, mas ao mesmo tempo a manutenção de uma guerra colonial longa contra a independência de Moçambique. Angola representaria um buraco ainda mais fundo nas contas portuguesas. Os sentimentos antiportugueses na África e antiafricanos geraram expulsão dos colonos, perda de contatos no exterior, de tecnologia e do desenvolvimento em Angola, em uma região que, uma vez dependente da economia portuguesa se vê em um quadro de desagregação, piorado pelas disputas internas entre as etnias diversas.

 

Resumo da Aula 10 – A Construção dos Estados-Nacionais: Novos Desafios

As terras africanas sofreram muito pelas práticas etnocentristas; sociedades ganharam funções em uma ordem mundial onde sua cultura já não importava, mas o seu desenvolvimento de ordem tecnológica. Vivemos no momento da Primavera Árabe com movimentos que não podemos deixar de observar vinculados à África. Egito e Líbia, entre outros, estão abrindo mão de seus governos ditatoriais, vivendo híbridos de poderes difíceis e uma massa nova com a velocidade da informação, buscam a democracia e as reformas políticas e sociais.

A cultura e a sociedade africana foram ocidentalizadas e não devem ser pensadas como na busca de um retorno, um purismo, as sociedades são dinâmicas e desta forma, hoje a África vive um paradoxo. As independências, como no caso do Congo são emblemáticas. Os EUA entendiam que a posição estratégica militar garantia sua prepotência na estrutura política. Já o modelo de governo de Mobutu foi conservado por essa nova forma de imperialismo e pode ser bem entendida se considerarmos que Mobutu tinha uma fortuna estimada em 700 milhões de dólares, em bancos europeus, em 1997. Mas Mobutu não foi o único imperador mantido pelas potências europeias que em seu modelo constituía um sistema no qual consolidava uma pequena elite local e pela relação simbiótica com esta elite, mandando-os estudar nos seus principais centros, conservando o suporte de empresas estrangeiras e o apoio do governo, garantindo proteção contra as massas mais pobres. No âmbito da Guerra Fria, então, estes quadros são exaltados.

O aniversário de 85 anos de Roberto Mugabe, segundo relatos dos jornais, foram consumidas 8 mil lagostas, 3 mil patos, 8 mil caixas de chocolate Ferrero Rocher, além de 5 mil garrafas de uísque. Enquanto seu país, Zimbábue, possui 94% da população sem emprego formal; surtos de epidemias, como AIDS e cólera têm matado constantemente; e a inflação diária é de 98%. Em 1980, Mugabe se aproxima dos interesses norte-americanos como Primeiro-Ministro e, posteriormente, como Presidente, o grande problema é o sistema de controle e a manutenção de pequenos grupos como representantes do centro de poder.

Omar al-Bashir é um dos mais conhecidos presentes na discussão da Primavera Árabe, sua carreira política esteve envolvida nas disputas do Norte da África, seja das lutas de Egito e Israel, até os golpes militares que se sucederam no Sudão. Em 1989, assume o poder ao lado dos militares e inicia um governo de perseguição e negação do Ocidente, valorizando elementos de um fundamentalismo, ainda que alguns defendam que de fato seu governo atuava nos dois sentidos, negociando e buscando constantemente se manter no poder.

Uma das lutas mais conhecidas na história da África se dá pela discussão sobre as etnias diversas presentes neste espaço, os hutus e os tutsis. Os dois grupos, apesar de conviverem, não têm clareza de identificações étnicas e culturais. São os tutsis que iniciam o processo de independência, estabelecendo um reino, controlando e mantendo a estrutura de dominação. Este processo gerou um movimento de revolta, iniciado em 1959 e acabando por separar o país. A vingança que levou a sucessivas disputas até que, em 1973, Juvenal Habyarimana, de etnia hutu, chegou ao poder, estabelecendo um período de paz. Mas a situação, quando parecia próxima ao seu fim, viu os líderes morrerem em um acidente aéreo e as disputas pelo poder retomaram.

Em meados de 1966, os ibos, por golpe militar, alcançam o poder, provocando o aumento das disputas contra os iorubás e os hauçás. Assim, as guerras começam, os ibos foram massacrados onde eram minoria no país, gerando uma migração no sentido Leste da Nigéria.

Em Angola, o movimento contra a colônia acaba por ser um dos principais palcos africanos da Guerra Fria. Os grupos locais buscaram aproximar-se do apoio de cubanos e angolanos, contra os grupos liberais, apoiados pelos americanos. O Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) foi realizado pelo movimento de esquerda com José Eduardo dos Santos. Entretanto, Jonas Savimbi, seu opositor de direita, não reconheceu o resultado, e a guerra civil começou. Com a morte de Jonas Savimbi durante o combate, em abril de 2002, seu grupo foi finalmente desarticulado, abrindo caminho para um processo de paz mais duradouro.

O caso de Moçambique, outra ex-colônia portuguesa, não difere muito do angolano. Em 1975, Moçambique conseguiu a independência, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), de orientação marxista, chegou ao poder com um sistema de partido único, e o seu líder, Samora Machel, tornou-se presidente do país. A FRELIMO, apoiada pelos socialistas, enfrentaria a Resistência Nacional Moçambicana, que tinha como principais aliados os EUA e a África do Sul. Em 1992, os dois lados assinaram um acordo de paz. Em 1994, foram realizadas eleições pluripartidárias e a FRELIMO saiu vitoriosa por meio da eleição de Joaquim Alberto Chissano. Em 1999, apesar das denúncias de fraudes, Chissano foi reeleito.

Na África do século XXI, o Brasil explora petróleo em Angola, detectando uma melhoria dos índices econômicos. A fome, a doença, a falta de estrutura ainda é uma leitura visível, no entanto áreas como Marrocos e África do Sul têm transformado o cotidiano em uma luta de integração social e valorização de modelos que dialoguem com a democracia. A África, que tradicionalmente foi chamada de Negra, apesar de entender a proposta, e apesar de ser a região mais pobre do mundo hoje, tem tido crescimento econômico superior a 4% nos últimos 5 anos.

 

Obrigado pela atenção, pessoal. Bons estudos!

Marcell

africanos

Ola pessoal!
Tudo bom?

Antes de começar, curtiram a imagem? Infelizmente quando ouvimos falar sobre Africa, com certeza a primeira impressão que nos vem em mente é pobreza, fome, retrocesso entre outros lances negativos. Então decidi por essa imagem de super heróis africanos para mostrar que a África não é assim. Não podemos levantar um conceito único sobre a Africa. Portanto, através desta postagem irei resumir tudo o que foi ensinado nas aulas da disciplina História da África Pré-Colonização do curso Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

Vamos lá?

 

Resumo da Aula 01 – História da África Pré-Colonização

tarzanAcredito eu que você, querido leitor, já deve ter lido ou assistido as histórias de Tarzan, o Rei da Selva, certo? Pois bem, uma das histórias mais famosas da literatura mundial ambientada no continente africano é a do Tarzan. Escrito pelo americano Edgar Rice, em 1912, a história conta sobre um menino branco, filho de ingleses, que ainda bebê acompanha seus pais a uma viagem para África. Devido a uma sequência de tragédias, os pais de Tarzan morrem e ele é criado por uma macaca em meio à selva africana. Tarzan se tornou um personagem tão cativante que outros atores passaram a narrar suas incríveis histórias. Porém, na realidade, tais referências ao continente africano ajudaram a formar uma determinada ideia da África. A história de Tarzan reforçou uma imagem já difundida da África, na qual o continente aparece como uma região homogênea, terra de leões, girafas, zebras e também de algumas tribos compostas por homens e mulheres negros que se vestiam como leopardos e possuíam pouco contato com o que se costuma chamar de “mundo civilizado”. Em outras palavras, a história de Tarzan coroou, no Ocidente, a imagem de uma “África Selvagem”.

Apesar das florestas densas com seus leões, macacos e elefantes, caracterizá-la unicamente como uma grande selva seria um erro geográfico e histórico. Do ponto de vista geográfico, a floresta é uma das diversas vegetações existentes na África. Além das florestas da zona equatorial, a África ainda possui as savanas, as estepes, mediterrânea, desértica e oásis. Cada uma dessas vegetações está relacionada a um clima diferente, que por sua vez estão ordenados de forma muito parecida a partir da linha do Equador tanto ao norte quanto ao sul, considerado como “continente espelho”.

africa

Embora não esteja explicitado nesse mapa, o continente ainda apresenta diferentes relevos e diversas paisagens litorâneas, além das estreitas relações com outros continentes, devido a sua proximidade com a Europa (via Mar Mediterrâneo) e com o Oriente Médio (via Mar Vermelho). Podemos ver através dessas informações que não podemos pensar em uma única África. Ou seja, tal como no continente europeu, asiático e americano, o hábitat natural teve grande influência nas diferentes formas de organização social dos povos africanos. Embora o continente africano seja muito extenso, a concentração de bacias hidrográficas em determinadas regiões e a falta delas em outras localidades, acabou criando condições às quais os grupos humanos tiveram que adaptar-se. Sendo assim, uma das principais estratégias de sobrevivência das sociedades africanas foi se organizar em pequenos grupos conhecidos como as famosas “tribos” da África.

Entretanto, um dos grandes problemas encontrados pelos historiadores ocidentais para estudar a história da África devia-se ao fato de a maior parte das sociedades africanas serem ágrafas, ou seja, elas não haviam desenvolvido a escrita, ou então não a usavam de uma forma sistemática. Então, os povos africanos, bem como os outros povos da Ásia, da América e Oceania, eram considerados desprovidos de história, porque não haviam feito registros escritos de seu passado. Sendo assim, os primeiros historiadores do continente foram os antropólogos, arqueólogos e linguistas. Ainda que a escrita seja a principal forma de acessar o passado, os historiadores do século XX ampliaram seu diálogo com outras disciplinas, sobretudo com a Arqueologia, Antropologia, Sociologia e Linguística.

Uma das maiorias contribuições desses historiadores foi apresentar para o Ocidente que a África era um continente complexo, que precisava ser analisado dentro de sua complexidade, mas que, em muitas vezes, sua história estava mais próxima da perspectiva eurocêntrica do que os próprios europeus imaginavam. Por um outro lado, como a imensa maioria das sociedades africanas era ágrafa, a principal forma que elas se desenvolveram para guardar e resgatar seu passado foi por meio da oralidade, ou seja, da palavra falada.

 

Resumo da Aula 02 – A África “Próxima”: O Continente Africano na Antiguidade Clássica

O Egito – A existência do Antigo Egito estava fortemente vinculada ao rio Nilo. Com todas essas vantagens naturais, as famílias que passaram a viver nessa região encontraram as condições ideais para a produção da agricultura. A vegetação rasteira facilitou a criação de gado, carneiros e porcos que junto com os grãos e frutos cultivados proporcionavam uma alimentação rica e variada. Por volta de 3200 a.C, as aldeias que tinham seus chefes e deuses próprios começaram a se unir e formaram dois reinos: o Alto e o Baixo Egito. Pouco tempo depois, o rei Menés do Alto Egito, querendo ampliar suas terras e controlar toda a produção agrícola da região, conquistou o Baixo Egito formando um só reino cuja capital era Mênfis. Durante mais de três mil anos, o soberano do Egito era o faraó, a principal figura desse reino. Tido como a reencarnação de Hórus (o Deus-Falcão) e como filho de Amon-Rá, o Deus Sol, o faraó era uma figura sagrada, um deus na terra, e por isso a vida de todo Egito girava em torno dele, o que lhe dava muitos poderes.

Apesar das diversas tarefas realizadas, o faraó tinha as melhores condições de vida de todo o Egito. E para governar todo o reino, o faraó recebia ajuda de nobres, pessoas que faziam parte da família real ou que tinham enriquecido ao longo da vida. Esses nobres cuidavam de assuntos administrativos menores, resolviam pequenos problemas jurídicos e vigiavam a cobrança de impostos.

Os soldados foram importantes personagens da história do Egito Antigo. Graças ao uso do cavalo e ao manejo de armas como arco e flecha, punhais, machados de guerra, espadas e cimitarra, o exército do Egito conseguiu conquistar a Núbia, ampliar suas redes comerciais e também expulsar o povo hicso (povo originário da atual Síria que dominou o Egito por volta do ano de 1600 a.C. Cerca de quarenta anos depois os hicsos foram expulsos pelos egípcios).

Contudo, a principal força do Egito eram seus trabalhadores:

Escribas – Únicas pessoas que sabiam ler e escrever em todo reino. Eles documentavam e controlavam a cobrança de impostos, a produção de alimentos, a escrita de leis e costumes e contando as histórias dos faraós. O alfabeto hieroglífico era composto por inúmeros símbolos, sendo que cada um deles poderia representar até cinco palavras. Por isso, ser escriba exigia muito estudo e dedicação;

Artesãos – Comandavam a construção de casas, túmulos e templos religiosos. Havia também artesãos que fabricavam móveis e, também, trabalhavam com minérios como cobre, o ferro e o ouro. Haviam outros artesãos que faziam objetos de arte, como pinturas e esculturas;

Comerciantes – Eles faziam o comércio do reino egípcio com outras regiões do norte da África e até mesmo com o sul da Europa e com o Oriente Médio. O comércio era realizado tanto por terra (no lombo dos burros), como nos rios, por meio das embarcações. O vinho e os artesanatos eram os principais produtos comercializados. Essas mercadorias eram trocadas com o ouro e o cobre da Núbia; o marfim, as peles de animal e as penas de avestruz vindas da África subsaariana; a cerâmica, os cavalos, a prata e os escravos do Líbano; e as cerâmicas produzidas em Creta;

Agricultores – A maior parte da população do Egito era formada por camponeses e a vida dessas pessoas era regrada de acordo com as fases do Nilo. Julho era o mês de chuva e as margens do rio inundavam. Nesse período, os camponeses não trabalham na terra e muitas vezes eram empregados nas construções do faraó. Em novembro, quando a chuva passava, os camponeses aravam o solo e jogavam as sementes. No fim de março se iniciava a colheita, principalmente do trigo, produto que era levado para o celeiro;

Os trabalhadores egípcios costumavam construir suas casas em regiões mais altas para que não fossem inundadas na época de cheia do Nilo. E, por fim, na condição social mais baixa estavam os escravos. Eles realizavam as atividades árduas e penosas como o trabalho nas minas; a construção de pirâmides e de templos religiosos; e até a preparação dos corpos que seriam mumificados. Tais escravos não eram egípcios e sim pessoas oriundas de regiões que haviam sido conquistadas pelo Egito.

Os egípcios eram politeístas e parte dos seus deuses estava ligada aos fenômenos da natureza, como o Sol, a Lua e a terra; outros misturavam a forma animal com a forma humana (deuses antropozoomórficos); e também haviam deuses que representavam ideias como honra e justiça. Os sacerdotes e sacerdotisas viviam para a religião e cuidavam para que os templos fossem respeitados e que os deuses fossem corretamente cultuados. Amon-Rá, o deus criador, teve uma cidade inteira em sua homenagem chamada Heliópolis.

A partir do ano 300 a.C, depois de inúmeras disputas com Núbia, e com povos do Oriente Médio e Sul da Europa, o Império dos faraós caiu nas mãos dos persas e, duzentos anos depois, após o suicídio de Cleópatra, se transformou em uma província de Roma.

A Núbia – Núbia era uma região que ficava ao sul do Antigo Egito e que abrangia o começo do rio Nilo e as áreas próximas que hoje fazem parte dos países do Egito, da Etiópia e do Sudão. Durante milhares de anos, a Núbia teve grande importância na história da África, pois foi por meio dessa região que ocorreu o primeiro contato entre a África subsaariana com o norte do continente. Graças a Núbia que persas, gregos, romanos e muçulmanos souberam da existência de uma África que ficava ao sul do deserto do Saara. O reino era formado por diferentes cidades que viviam da intensa atividade comercial. Por volta de 3200 a.C, iniciou-se a formação do mais importante reino núbio: Kush. Kush foi um reino governado pela mesma linhagem real, o que garantiu a manutenção de suas tradições. Embora tivesse grande poder, o rei cuxita deveria governar de acordo com os costumes do reino. Caso cometesse algum delito grave, como o desrespeito aos deuses, era possível que os sacerdotes o obrigassem a cometer suicídio como forma de pagar pelo seu erro. A rainha-mãe no reino Kush era responsável pelas principais cerimônias religiosas do reino e, em alguns casos chegou a exercer cargos de chefia sob o título de “Senhor das Duas Terras”.

Os sacerdotes cuidavam das cerimônias e dos templos religiosos do reino. Os deuses cultuados pelos cuxitas tinha correspondência com os deuses egípcios. Junto com os deuses egípcios (Ísis, Horus..), os cuxitas também acreditavam no deus-leão Apedemak, um deu guerreiro representado pela cabeça de um leão. E Sebiumeker era um deus criador.

Os marceneiros e carpinteiros construíam diferentes tipos de móveis que ornavam as casas mais ricas do império. Os ferreiros e as ceramistas fabricavam vasilhas e instrumentos cortantes que eram utilizados pelos cuxitas; Os joalheiros eram os artesãos que mais ganharam dinheiro com a venda de suas jóias. O ouro utilizado era retirado das minas localizadas próximas ao Mar Vermelho e que representavam a maior riqueza do reino de toda Núbia.

Cerca de seiscentos anos depois, os cuxitas conseguiram expulsar os egípcios e retomar o governo sobre sua terra. A capital do reino Kush foi transferida de Kerma para Napata, cidade na qual é possível observar a forte influência que os egípcios tiveram sobre os núbios. A escrita dos napatamos era muito parecida com o sistema de hieróglifos do Egito, e os reis passaram a ser enterrados em pirâmides.

A posição estratégica da Núbia e a abundância de ouro e cobre fizeram com que a região fosse constantemente invadida por povos vizinhos, como os egípcios (1500 a.C.). Por volta de 600 a.C., Napata foi invadida e Meroe se tornou a nova capital do reino, e passou a atrair as rotas comerciais que ligavam a África subsaariana com o Mediterrâneo. A soberania do reino de Kush chegou ao seu final com a invasão romana, contudo, os vestígios de sua história são um convite para estudar uma África pouco conhecida.

 

Resumo da Aula 03 – A África Tradicional: Uma Análise das Matrizes Africanas

Na história da África, podemos ver comunidades tradicionais africanas que sobreviviam da atividade pesqueira; outras dependiam da criação de gado e muitas que viviam da produção agrícola. Além disso, nem todas essas sociedades se organizavam da mesma forma: existiram aldeias, clãs de aldeias e até mesmo cidades-estados e reinos. O convívio entre essas comunidades também não era sempre pacífico e harmonioso. Por diferentes razões esses grupos travavam guerras entre si e muitas vezes escravizavam grupos vizinhos. Muitas das características em comum encontradas em diversas sociedades africanas, sobretudo na África subsaariana, são decorrentes de um movimento migratório ocorrido entre três e quatro mil anos atrás, denominado Expansão Bantu.

O bantu era uma das subdivisões da família linguística Niger-congo, que era falado por populações que habitavam as proximidades do rio Niger. Devido ao aumento populacional e ao desmatamento decorrentes da pesca e do cultivo de gêneros alimentícios, os grupos humanos que ocupavam essa região iniciaram dois grandes processos de migração em busca de novas terras. O primeiro processo partiu da região central de Camarões e rumou para o norte da atual República Democrática do Congo e para a África Oriental. Já o segundo movimento de migração das línguas bantu, saiu da região da floresta do sudeste da Nigéria e expandiu-se para a bacia do rio Congo e seus afluentes, chegando ao sul da África. Os grupos de caçadores coletores que entraram em contato com essa “onda de migração”, adotaram as línguas bantas para se aproximarem e negociarem com os grupos recém-chegados. Desse encontro surgiram inúmeras sociedades que, embora fossem diferentes e muitas vezes inimigas, guardava traços socioculturais semelhantes.

Uma das principais instituições das chamadas sociedades tradicionais africanas era a família, pois era a família que primeiro definia o pertencimento dos indivíduos no grupo. As famílias africanas eram extensas, formadas não só pela mãe, pai e seus filhos, mas também pelos avós, tios, sobrinhos, netos e primos que tinham um ancestral em comum. As condições naturais de muitas regiões africanas nem sempre eram das boas para a sobrevivência humana. Desse modo, por meio de uma rede de direitos e deveres que, estabelecidos hierarquicamente, as famílias extensas conseguiram garantir a vida da comunidade. Os adultos eram responsáveis pelo sustento da linhagem, os mais velhos ocupavam os cargos de chefia das comunidades, e eram responsáveis pelos rituais de iniciação dos mais jovens e cultos aos ancestrais familiares. Não por acaso, a poligamia era prática comum nessas sociedades, pois permitia o crescimento constante das linhagens e a manutenção da ampla rede de parentesco. De forma geral, todas as atividades que estivessem relacionadas com o espaço doméstico eram realizadas pelas mulheres adultas (entre 15 e 40 anos). Já os homens da mesma idade cabia a criação de animais, a atividade pesqueira, a caça, a segurança da comunidade.

Junto com a noção da família extensa, a religiosidade era uma das características definidoras das sociedades da África Subsaariana. Embora cada comunidade acreditasse em um ou em vários deuses próprios, as formas por meio das quais os membros desses grupos entravam em contato com o divino era muito semelhante. Praticamente todas as sociedades da África Subsaariana acreditavam na coexistência do mundo dos mortos e por isso realizavam o culto aos antepassados acreditando que eles eram uma espécie de semideuses que serviam como intermediários na comunicação com forças maiores. Os sacerdotes (homens ou mulheres) eram responsáveis por boa parte das cerimônias religiosas, comandavam os rituais de iniciação e eram as pessoas mais capazes para ler os possíveis sinais dos deuses, bem como os jogos de adivinhação. Os feiticeiros tinham atributos semelhantes ao dos sacerdotes, mas o fato de saberem alterar as características físicas de alguns elementos da natureza faziam com que fossem figuras ao mesmo tempo temidas e respeitadas pelo grupo. Muitos dos feiticeiros também eram ferreiros devido ao poderoso conhecimento de como alterar a natureza.

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De maneira geral, era por meio da palavra falada que o conhecimento era transmitido de geração para geração. Os domas eram homens treinados para guardar a memória de um povo. Esses homens eram capazes de memorizar a história de quase todos os antepassados da sua comunidade e se transformavam numa espécie de “documentos vivos” da sociedade. Os domas também nunca mentiam, pois mentir significava quebrar o elo que os ligava com a memória e a história daqueles que havia vivido antes deles. Era a maior ofensa que poderiam fazer. Os griots, diferente dos domas, falavam muito e contavam diversas histórias, muitas vezes acompanhadas de músicas e danças. Nas noites mais quentes, os jovens das aldeias sentavam-se em volta de uma pequena fogueira e ouviam histórias contadas e cantadas pelos griots e pelos homens mais velhos da comunidade.

 

Resumo da Aula 04 – A Chegada do Islã ao Continente Africano

O Islamismo chegou ao continente africano no século VIII e tal evento trouxe muitas mudanças para a África. É uma religião monoteísta que começou a ser pregada no século VII na região da atual Arábia Saudita. Seu principal profeta foi Maomé, um comerciante da região que um dia começou a receber visitas do anjo Gabriel. A partir de então, Maomé passou a transmitir os preceitos que lhe eram revelados e rapidamente ganhou diversos seguidores. Uma das principais atividades do muçulmano era difundir o islamismo por todo mundo. Essa difusão ocorreu de duas formas: por meio de negociações comerciais e por meio das jihads. As jihads eram guerras santas travadas pelos muçulmanos. Tais guerras tinham por objetivo converter outros povos aos islamismo e escravizar os “infiéis”, ou seja, aqueles que se recusavam a crer em Alá.

Rapidamente, o islamismo chegou ao norte da África. Porém, durante mais de cento e cinquenta anos, os muçulmanos não conseguiram converter os povos seminômades que viviam nos oásis do Saara e que controlavam boa parte das caravanas de camelos que atravessavam o deserto. No século X, o sacerdote muçulmano Abdallah Ibn Yacine foi designado para cuidar da conversão dos berberes. No entanto, o sacerdote foi muito mal recebido e expulso da região. Em seguida, o sacerdote Yacine partiu para um local desconhecido da costa Atlântica acompanhado por dois berberes: Yara ibn Omar e seu irmão Abu Bakr. Neste local, eles começaram a receber novos adeptos e criaram uma espécie de convento militar muçulmano, o ribat, cujos membros eram chamados de Al-Morabetin. Em pouco tempo, os almorávidas transformaram-se em um dos principais braços armados do islamismo, levando a palavra de Alá para regiões distantes como a Península Ibérica e a África Subsaariana.

O comércio foi a porta de entrada do islamismo nas cidades de Ifé e Benin. Já a realeza do Império do Mali se converteu às crenças do Islã sob o governo de Mansa Musa, inúmeras mesquitas e escolas muçulmanas foram construídas em todo o Império. Todavia, a primeira grande sociedade subsaariana a entrar em contato com os muçulmanos foi o reino de Gana que, até então, vivia de acordo com seus preceitos iniciais. Gana, também conhecido como o “país do ouro”, foi fundado no século IV pelo povo africano Soninquê e entrou em decadência no século XIII. Durante aproximadamente mil anos, Gana exerceu influência sobre outros povos da África Ocidental e ficou conhecido na Europa e no Oriente Médio por suas minas de ouro. Segundo os viajantes árabes, Gana era o nome dado aos reis desse estado. Além de ser chamado de Gana (chefe de guerra), o soberano poderia responder por Caia-manga (rei do ouro) e turca. Além do controle sobre o ouro, o caia-manga também exercia um forte poder político sobre o restante da população e era tido como uma figura quase sagrada. Quando sua chegada era anunciada, as pessoas que estavam presentes se ajoelhavam e jogavam pó sobre suas cabeças como forma de reverenciá-lo. Além de suas ricas vestimentas, o rei era acompanhado pelo seu exército particular, pelos filhos dos chefes de aldeias e pelos ministros que ajudavam a governar.

Kumbi Saleh, do Império Gana, era um complexo murado cujo interior tinha um palácio feito de pedras e madeiras. Ao redor da cidade havia cabanas e pequenos bosques onde viviam os feiticeiros. Esses bosques eram lugares guardados onde ninguém poderia entrar sem autorização, sobretudo os estrangeiros eram proibidos de entrar. Além de comportarem os santuários religiosos, eram nos bosques que os antigos ganas estavam enterrados e era para lá que muitos criminosos eram mandados. Além da capital, o reino de Gana abrangia diversas aldeias cuja maior parte dos moradores era composta por camponeses e criadores de animais. A mineração do ouro, responsável pela riqueza de Gana, era uma atividade sigilosa. Apenas os homens que trabalhavam na mineração e alguns traficantes sabiam a exata localização das minas. Isso permitia que o caia-manga pudesse controlar o ouro que era retirado de suas terras.

Embora Gana não tivesse convertido ao islamismo, durante muitos anos o reino teve boas relações com os muçulmanos que lá viviam. Foi no século XI que os almorávidas obrigaram Gana a se converter ao Islã. A chegada dos almorávidas mudou a estrutura econômica de Gana e a maior parte das zonas agrícolas foi transformada em pasto. Em 1204, o povo africano sosso invadiu e passou a controlar militarmente o reino. Muitos soninquês fugiram para outras regiões.

Se a chegada do Islamismo desarticulou o reino de Gana, a presença muçulmana na África representou a criação de uma intrincada rede de comércio. Cidades e reinos africanos tinham especial interesse no sal e nos produtos vindos da Europa e do norte da África que eram comercializados pelos muçulmanos. Os comerciantes muçulmanos compravam tantos escravos quanto escravas da África Subsaariana. As escravas africanas muitas vezes se tornavam esposas ou concubinas. Já os homens escravizados seriam transportados para outras regiões, inclusive China, Arábia Saudita e para a Europa e estavam sujeitos a executar os mais variados tipos de trabalho. Os transportes de escravos que precisavam atravessar o deserto do Saara, ocorriam junto com as caravanas de camelos. Tal travessia era extremamente difícil, pois o escravo a fazia a pé e muitas vezes carregando diversos produtos. Quase um terço dos escravos não aguentavam a jornada e morriam no caminho. Estima-se que dez milhões de africanos foram comercializados nesse período. Até mesmo cristãos europeus já foram condenados ao trabalho escravo nas galés de senhores árabes.

 

Resumo da Aula 05 – Povos da Curva do Niger: O Caso do Mali e de Songhai

O Mali foi um dos maiores e mais conhecidos impérios africanos. Localizado no alto do rio Níger, região que atualmente abriga partes dos países Senegal, Gâmbia, Guiné Bissau e Mali, esse império foi fundado pelo povo africano Malinquê  no século XIII e ficou mundialmente conhecido por suas minas e pelas proezas realizadas por seus imperadores. Assim como o governante de Gana recebia o título de gana ou caia-manga, o soberano de Mali recebia o título de mansa. Ao mansa cabia chefiar o exército e controlar a arrecadação de impostos pagos pelo restante da população. Era do soberano a palavra final nos assuntos administrativos e nas disputas jurídicas. Para governar uma área tão extensa, o mansa contava com o auxílio de dois importantes grupos sociais. De um lado, cuidando das questões administrativas do império, estava a linhagem real, uma espécie de nobreza do Mali, que controlava o pagamento de impostos feito pelas aldeias que deviam obediência ao mansa. Do outro, estava o poderoso exército do Mali, principal responsável pelas conquistas do império. Além da nobreza e do exército, o Mali adotou uma tática de dominação parecida com a que o Império Romano empregou durante suas conquistas. Ao invés de obrigar os povos dominados a viverem de acordo com seus costumes, o mansa preferiu respeitar as diferenças culturais que compunham seu império, desde que essas pessoas pagassem os impostos devidos. Assim como ocorreu em outras partes da África, o Mali também tinha homens livres que formavam castas de profissionais como os ferreiros, os carpinteiros e os artistas que trabalhavam com barro e metais. Esses homens e mulheres costumavam morar em bairros isolados nas aldeias e cidades do Mali e casavam apenas entre si.

Junto com os camponeses, havia um número significativo de escravos que trabalhava na produção agrícola do Mali. A maior parte desses escravos era empregada nas fazendas que pertenciam ao mansa. Outra parte trabalhava nas minas de ouro do império e um pequeno número deles era usado nas casas dos nobres e no palácio do mansa. Em geral, as aldeias camponesas do Mali preferiam realizar suas negociações com povos africanos que viviam mais a oeste e com quem trocavam milhete e arroz por peixe seco produzido na região litorânea. Embora as mercadorias do comércio transaariano não fossem consumidas por toda a população do Império, as rotas comerciais que ligavam o Mali com o norte da África deram riqueza e notoriedade ao império.

Além do incremento das transações comerciais, a chegada do Islamismo trouxe mudanças significativas para Mali. Mansa Musa foi o principal imperador islamizado do Mali. Em 1324, este imperador realizou uma peregrinação à Meca que tornou o Mali mundialmente conhecido. Para mostrar prosperidade de seu império, Mansa Musa distribuiu seu ouro pelo Egito ficando sem recursos para prosseguir a viagem. Graças ao empréstimo concedido por um rico comerciante de Alexandria, Mansa Musa pode terminar sua peregrinação. Embora o Islamismo tenha ganhado muito espaço no Império do Mali a partir do governo de Mansa Musa, é importante lembrar que a grande parte da população continuava a fazer o culto a seus antepassados e as cerimônias religiosas para seus deuses e entidades divinas.

No final do século XIV, diversos povos começaram a realizar saques em Tombuctu e outras importantes cidades do Mali. No século XV, os antigos territórios controlados pelo Mali, já enfraquecidos, foram passando para o comando do povo de Gao.

Songhai –  A história de Songhai começou cerca de mil anos antes da invasão ao império do Mali. Segundo a tradição (oral), a população Songhai habitava as margens de um dos afluentes do rio Níger e estava dividida em dois grandes grupos, os pescadores (sorkos) e os caçadores (gous), que viviam sob o controle de um sacerdote tirânico chamado Faran Makan Bote. No ano 500 d.C., um berbere de nome Za Aliamen matou o sacerdote e fundou a dinastia Diá, que passou a governar os Songhais. Quinhentos anos depois, a dinastia foi islamizada e transferiu a capital do reino de Cuquia para Gao. Contudo, a grande virada histórica de Songhai se deu quando Soni Ali subiu ao poder em 1464. Graças à forte cavalaria que compunha o exército e o controle de trechos estratégicos do rio Níger, durante o reinado de Soni Ali, Songhai conheceu sua maior expansão territorial. Ainda sob o comando de Soni Ali, diversas cidades que ficavam próximas ao rio Níger acabaram se tornando importantes entrepostos comerciais das rotas muçulmanas que faziam a travessia do Saara. Todavia, a figura do imperador Soni Ali era controversa devido às suas escolhas e práticas religiosas. Ele não tinha abandonado as crenças tradicionais e recorria sempre que necessário aos cultos, cerimônias e deuses dos antigos antepassados songhais.

Os grupos islâmicos que compunham a nobreza do Império Songhai fizeram com que a dinastia de Soni Ali fosse substituída por uma genuinamente muçulmana. Após a morte de Soni Ali, Muhamed Turê da dinastia áskia subiu ao poder. Embora um dos maiores e mais respeitados impérios da África Ocidental, as disputas internas pelo poder fizeram com que Songhai entrasse em decadência após a morte de Muhamed Turê e, em 1591, o território Songhai foi conquistado por Marrocos.

 

Resumo da Aula 06 – “Os Herdeiros de Ododua”: Sociedades da África Ocidental

Ifé, o Umbigo do Mundo – Construída por volta do século VI d.C., numa região de floresta tropical próxima aos rios Níger e Bernué, durante mil anos Ifé foi “o umbigo do mundo”, segundo os iorubas. O oni de Ifé, tido como rei divino, junto com a responsabilidade de legitimar todos os líderes das cidades-estados descendentes de Odudua, também deveria administrar assuntos “terrenos”, como a cobrança de impostos, o controle da agricultura e o intenso comércio que era realizado na cidade. Por ocupar uma posição estratégica na Costa Ocidental africana, a cidade de Ifé não só tinha uma agricultura e atividade pesqueira fértil, como também se tornou um importante polo comercial. Além dos habitantes da cidade, esse forte comércio atraia povos vizinhos como os nupês e os vangaras.

Junto com a religião e o comércio, a produção artística também era uma característica marcante da cidade de Ifé. As esculturas de cabeças, tanto em terracota como em bronze encontradas em escavações colocaram as esculturas de Ifé na mesma tradição artística encontrada no Egito Antigo, na Grécia e Roma Clássica e na Itália Renascentista, na qual os artistas procuravam alcançar a beleza perfeita por meio do retrato fiel do ser humano.

A Cidade de Benin e Seus Obás – Localizada ao sudeste de Ifé, a cidade Benin (atual Nigéria/não confundir com Benin) também acreditava ser descendente de Odudua e, embora fosse composta pelo povo edo, pagava tributos religiosos à Ifé. Benin era uma cidade-estado murada que se formou a partir da conurbação de diversos vilarejos próximos. Segundo a tradição oral, a unidade política de Benin só foi alcançada quando Eueca passou a governar a cidade como obá, o chefe soberano e divino. Eueca era filho de Erinuide, uma mulher edo, com Oraniá, filho de Odudua, e por isso herdeiro do trono de Ifé. Mesmo sendo um rei soberano e divino, os antigos chefes das aldeias que compunham a cidade de Benin, os uzamas, continuaram exercendo grande poder sobre sua comunidade.

A baixa fertilidade do solo fez com que Benin tivesse uma produção agrícola pobre. Em contrapartida, a sua localização geográfica permitiu que a cidade rapidamente se transformasse em um importante entreposto comercial. Foi justamente com o intuito de ampliar suas redes de comércio que Benin iniciou sua expansão militar. Sob o comando do obá, a cidade formou um poderoso exército que passou a dominar grandes mercados e controlar rotas fluviais de comércio. A ascensão de Ogun, que adotou o nome de Euare, representou o ponto de virada na administração da cidade. Durante o seu reinado, foi formado um conselho de estado do qual faziam parte tanto a nobreza do palácio de Benin quanto os chefes de pequenas cidades que haviam sido nomeados pelo próprio Euare e recebiam escarificações que os distinguiam dos demais habitantes e dos escravos. Euare também foi responsável pela reconstrução da cidade de Benin. Além de fortificar as muralhes, ele mandou construir grandes avenidas que separavam o palácio da cidade, onde dispôs as corporações de ofício em bairros específicos, cujas casas eram feitas de barro socado e cobertas de palha.

Como ocorreu com muitas sociedades da África Ocidental, a história de Benin sofreu muitas mudanças a partir da chegada dos europeus e do esclarecimento de relações comerciais.

 

Aula 07 – O Reino do Congo

O reino do Congo talvez seja uma das sociedades mais conhecidas da África, sobretudo depois da conversão de sua realeza ao Cristianismo no século XV. Fundado no final do século XIII e localizado no sudoeste do continente, chegou a abranger parte dos atuais países de Angola, Cabinda, República Democrática do Congo e o Gabão. O território do Kongo era banhado pelas bacias hidrográficas do Zaire, do Kwanza, do Cunene e do Zambeze. A vegetação dessa região era a savana, ao sul da floresta tropical. Antes do século XIII, o Congo era habitado por povos de origem bantu, que se organizavam em aldeias agrícolas. Tais sociedades eram governadas pelos candas, famílias de linhagem que primeiro haviam ocupado o local. Sob a liderança de Nimi e Lukeni, os muchicongos formaram fortes alianças, criando assim o que os europeus intitularam de reino do Congo.

Apesar das diferentes narrativas sobre o reino do Congo, a fundação do reino aparece sempre vinculada à imagem de um herói fundador, que teria se colocado acima das chefias locais. Deste modo, a figura mais importante do reino era o manicongo, ou seja, o rei do Congo. Os registros deixados pelos portugueses reforçavam o poder político e religioso exercido pelo manicongo, que parece sempre representado como uma figura austera. Como exerciam o controle direto sobre as províncias, os governadores do reino do Congo tinham muito poder junto com o manicongo. E para não correr o risco de perder o trono, era comum que o manicongo possuísse uma esposa em cada uma das doze candas tradicionais do reino, o que garantia que o rei tivesse vínculos pessoais e familiares com os governadores do seu reino. Mas para evitar possíveis disputas políticas, era comum que o manicongo distribuísse a riqueza adquirida pela cobrança de impostos entre os seus pares.

Enquanto as cidades serviam como moradia para os grupos privilegiados, as comunidades de aldeias, conhecidas como lubatas, eram habitadas principalmente por agricultores e artesãos. As lubatas desfrutavam de menor poder político e seus chefes não tinham controle sobre a produção dessas regiões. Já nas cidades, a aristocracia não só era detentora daquilo que produzia, como era proprietária de escravos. Os habitantes das aldeias plantavam para o seu sustento e criavam animais para o pagamento dos tributos, além de aproveitarem o rio da região para a atividade pesqueira. Os artesãos podiam manejar o ferro e, também, produziam os tecidos de ráfia. Tais tecidos chegaram a ser utilizados como símbolos de poder e riqueza, e também como moeda nos principais mercados do reino.

A atividade mercantil também tinha grande importância no reino. Os diversos rios na região permitiram que produtos de outras partes do continente, como o sal e o cobre, chegassem até os principais mercados do Congo. Na questão da religiosidade, o manicongo e os governantes de província não eram as únicas pessoas com poder no reino do Congo. Os gangas, como eram conhecidos os feiticeiros, também tinham poderes sobrenaturais. Muitos cangas também eram exímios ferreiros, atividade considerada mágica na maior parte da África Subsaariana. Por causa desse grande poder, os gangas eram temidos e excluídos da sociedade, só sendo visitados em momentos especiais, como as crises econômicas e políticas.

No entanto, nem mesmo o poder dos feiticeiros ou dos manicongos impediu que o reino entrasse em decadência no século XVII. Existem diversas razões para o fim desse reino, mas a conversão do manicongo ao Cristianismo, ainda no século XV, e a criação do comércio de africanos escravizados para as Américas acabaram enfraquecendo as redes de poder dessa sociedade, fenômeno que atingiu outros povos da África Subsaariana.

 

Resumo da Aula 08 – As Sociedades da África Oriental

Na costa Índica do continente africano outras sociedades desenvolveram-se e, graças às articulações estabelecidas entre elas, via transações comerciais, estabeleceram interessante intercâmbio não só na parcela do continente africano banhado pelo oceano Índico, como também com outros continentes, principalmente o Asiático.

O Império Monomotapa – Foi fundado pelo povo xona por volta do século XIII, ao sul do rio Zambeze, ocupando parte do planalto do Zimbábue e chegando até o rio Limpopo. O planalto do Zimbábue possuía terras férteis e não era afetado pela mosca tsé-tsé (mosca do sono, mortal para animais como bois e carneiros), o que permitiu que os xonas ocupassem aquela terra. Graças à boa qualidade do solo e dos rios, os xonas conseguiram desenvolver a agricultura e a criação de gado, tornando-se os grandes senhores da região. Os xonas acreditavam em um deus supremo chamado Muári. Contudo, os homens só podiam entrar em contato com esse deus através dos espíritos dos mortos (vadzimu e umondoros), que eram cultuados do alto da colina.

O Grande Zimbábue – O tamanho de cada zimbábue estava relacionada com as pessoas que o habitavam. O Grande Zimbábue, por exemplo, era habitado pelo chefe dos xonas e por sua corte. Os vilarejos eram murados com grandes blocos de pedras que serviam como proteção para as casas construídas de dagas (mistura de argila com cascalho e esterco) e sapés. Tais muralhas ficaram conhecidas como zimbábues (significa casa de pedra ou casa do chefe).

O Ouro e o Comércio do Índico – A criação do gado já havia dado origem às principais redes de troca, todavia, a descoberta do ouro incrementou ainda mais as negociações nessa região. O ouro do Grande Zimbábue passou a ser negociado com as grandes cidades-Estados do litoral Índico do continente, como Quiloa e Sofala, permitindo que o Grande Zimbábue comprasse porcelana chinesa, vidros feitos pelos sírios e contas dos mais diversos lugares. Embora a população total do Zimbábue tenha chegado a aproximadamente 18 mil pessoas, essa sociedade entrou em decadência durante o século XV. O crescimento não controlado da população, a seca de alguns rios e o aparecimento da mosca tsé-tsé foram algumas das razões dessa decadência. Por isso, o chefe Niatsimba Mutota resolveu migrar para o norte em busca de novas terras, tendo sido acompanhado por parte da população. Essa nova sociedade do Grande Zimbábue ficou conhecida como Império Monomotapa, pois era governada pelo monomotapa, que significava “senhor dos cativos” ou “senhor de tudo”. A figura central do reino Monomotapa era o rei que tinha poderes divinos, pois ele fazia contato direto com os ancestrais. O monomotapa era assessorado por um conselho, formado por nove esposas, que controlava a cobrança de impostos e cuidava das terras. Mas, ao que tudo indica, o ouro que havia conferido prestígio e poder para o Império Monomotapa também foi seu algoz. No século XV, a escassez da mina causou uma grave crise econômica que acabou fragmentando-se em unidades políticas menores. Essa crise foi agravada com a chegada dos europeus, causando assim a decadência total do império.

As cidades-Estado do litoral Índico eram formadas por grupos sualis (significa costa). Os sualis dominavam técnicas agrícolas, a atividade pesqueira, o manejo do ferro e a construção de embarcações, atividade muito lucrativa. Entre os séculos XIII e XIV, as cidades Índicas mais conhecidas foram Sofala, Quiloa, Mogadíscio e Socotorá. Com a chegada dos muçulmanos no século XIII, essas cidades se transformaram em verdadeiros empórios do comércio que era feito com outras localidades do Índico. As monções do Oceano Índico muitas vezes obrigavam os comerciantes muçulmanos a passarem meses nessas cidades esperando o momento certo para retornar para a Ásia com seus navios repletos de mercadoria africana. Embora a atividade mercantil fosse a mais lucrativa, grande parte dessas cidades sendo a maior parte de origem banta (não islamizados), era formado por agricultores, pescadores, criadores de gado e ferreiros. A manutenção da agricultura e do pastoreio permitiu que tais cidades sobrevivessem aos períodos de crise que atacou praticamente todas as grandes cidades-Estado do Índico, até início do século XV. Como ocorreu com outras sociedades africanas, o contato com os europeus trouxe mudanças significativas na dinâmica sociopolítica dessas cidades do Índico. Mas foi no século XVII, quando um número significativo dos habitantes dessas localidades passou a ser escravizado e vendido para a América, por meio do tráfico transatlântico.

 

Resumo da Aula 09 – O Contato com os Europeus a Partir do Século XV

Os portugueses foram os primeiros europeus a explorar a África Ocidental a partir do século XV, época conhecida como período das Grandes Navegações. Os portugueses queriam ter acesso direto ao ouro africano que chegava à Europa pelas mãos dos muçulmanos e, também, estavam interessados em participar do comércio feito no Oceano Índico que, na época, era controlado pelos italianos e também pelos muçulmanos. Os tecidos luxuosos como a seda e veludo, especiarias como a canela e a pimenta, e o ouro e a prata são exemplos dos produtos que eram comercializados no Índico. Como o Mediterrâneo (caminho mais fácil para chegar às Índias) estava sob o controle dos muçulmanos, os portugueses resolveram contornar todo o continente africano para chegar à Ásia. O rei de Portugal e os principais comerciantes do país estavam investindo muita grana nas navegações. A conquista do Celta, em 1415, foi um grande feito que encorajou ainda mais os portugueses.

A partir de então, as viagens para as regiões africanas que ficavam abaixo do Saara tornaram-se frequentes. Em 1434, as expedições portuguesas aportaram na região da Guiné que, conforme visto anteriormente, era habitada por diferentes povos africanos como os iorubas, edos e acans. A partir dos contatos com o reino do Congo, os portugueses e os demais europeus começaram a estabelecer importantes redes comerciais com diferentes sociedades africanas. As primeiras tentativas portuguesas de ultrapassar a região litorânea da costa ocidental africana foram impedidas tanto pelas doenças que assolaram sua tripulação, como pelas batalhas travadas pelos africanos que, munidos com arco e flechas, pequenas espadas e ágeis pirogas, venceram as armas de fogo europeias. A soberania africana também impediu que os portugueses tivessem acesso às minas de ouro que haviam sido descritas pelos viajantes árabes. Por isso, rapidamente transferiram seus interesses comerciais para outra mercadoria: o escravo africano.

Por falar em escravidão, em primeiro lugar, os africanos não se reconheciam como iguais, ou seja: edos, acans, congos, fulas, iorubas, etc. não compartilhavam nenhuma identidade nacional. Foi o olhar eurocentrista dos europeus que fez com que essa massa heterogênea chamada de africanos fosse tratada no singular. Em segundo lugar, antes mesmo da chegada dos europeus, diferentes povos africanos já praticavam a escravidão. Contudo, a escravidão era tida como doméstica, que precisa ser compreendida dentro dos parâmetros da África Tradicional. Assim como ocorreu entre os povos europeus e sociedades ameríndias, o africano também já foi escravizado por um outro africano por ser visto como diferente e inferior. Os malinquês, por exemplo, nunca escravizaram pessoas de seu povo, mas sim outros grupos africanos que consideravam seus inimigos, os soninquês. A principal razão para a existência da escravidão na África se devia à falta de trabalhadores em determinadas regiões. No entanto, o número de escravos era pequeno nas aldeias africanas que praticavam a escravidão. Nessas sociedades havia uma preferência pela escravidão feminina, pois a mulher escrava produzia e reproduzia para a família de seu proprietário. Embora as escravas não tivessem o mesmo prestígio que as mulheres livres, elas também se tornavam concubinas ou esposas de seus senhores, ajudando assim a reproduzir o número de membros de uma determinada família.

Por um outro lado, o escravo da África Subsaariana não era uma mercadoria: ele não poderia ser comprado, só obtido por meio de guerras, sequestro e nascimento. Isso mudou com os europeus. Ainda no século XV, os portugueses compraram um grande número de escravos que seriam vendidos para outras sociedades europeias, ou utilizados como mão-de-obra na produção da cana-de-açúcar na Ilha da Madeira. A colonização da América fez aumentar ainda mais o interesse dos portugueses pelos escravos africanos. O tráfico transatlântico de escravos foi responsável pela retirada de mais de 12 milhões de africanos no curto período de 300 anos e, na época, foi uma das empresas mais lucrativas do mundo.

 

Resumo da Aula 10 – A Expansão Europeia e a Formação do Tráfico de Escravos até o Século XVIII

O tráfico transatlântico foi responsável não só por grandes mudanças no interior da África, mas também teve impacto mundial na medida em que os africanos comercializados acabaram tornando-se atores sociais fundamentais nas sociedades em que foram incorporados. Apesar do grande número de africanos escravizados, é importante lembrar que a escravidão é um fenômeno histórico que não se limitou a nenhum continente específico, e muito menos atingiu apenas um determinado biótipo humano. Os africanos não tinham nenhuma característica biológica que justificasse a sua escravização. O escravo era sempre o outro ou o estrangeiro, esteve ele próximo ou distante. Os atenienses, por exemplo, escravizaram os espartanos; os romanos escravizaram os gregos, espanhóis e eslavos; os egípcios escravizaram os núbios, etc. No caso africano, a escravidão sofreu fortes alterações a partir da chegada dos europeus. Ainda que os portugueses e outros europeus não tenham empreendido nenhuma invasão à África, a permissão concedida pela Igreja livrava-os de qualquer comprometimento moral com o fato de comercializarem africanos escravizados.

Congo e Angola – As primeiras grandes levas de africanos escravizados saíram dessas regiões. A compra massiva de escravos nessa região estava intimamente ligada com a conversão do rei do Congo ao catolicismo e a íntima relação que este reino passou a ter com os portugueses;

Gana – Entre os séculos XVI e XVII, portugueses e outros europeus começaram a comprar africanos escravizados da região que ficou conhecida como Costa do Ouro habitada pelas sociedades acans, fantis e mandingas.

Benin – Nos séculos XVII e XVIII, o tráfico atlântico ampliou sua área de atuação para a região do Golfo do Benin que ficou conhecida como a Costa dos escravos devido ao grande número de africanos que de lá saíram.

Moçambique – Durante o final do século XIII e início do século XIX, o comércio com a região Congo-Angola foi reaquecido. A constante busca de cativos fez com que portugueses e brasileiros iniciassem o tráfico com a África Oriental, principalmente com a região do atual país Moçambique.

De modo geral, essa grande rede que permitiu a compra de milhares de africanos escravizados, era formada por quatro personagens principais. O primeiro personagem representa os africanos escravizados: homens e mulheres que habitavam aldeias e pequenas cidades africanas, situadas próximas ao litoral, e que não conseguiam resistir as guerras. O segundo personagem representa os mercadores ou os corretores que são os responsáveis pelo transporte dos escravos até os portes de embarque. Esses mercadores muitas vezes precisavam viajar para o interior do continente para conseguir comprar os cativos que seriam vendidos para as elites africanas e depois revendidos para os europeus. O terceiro personagem representa a elite das diversas sociedades africanas que via os escravos como mais uma das mercadorias comercializáveis. As elites africanas compravam os escravos trazidos pelos mercadores e os revendiam para os negociantes europeus. E, por fim, o quarto e o último personagem representa os próprios europeus que ficavam aportados nas feitorias construídas no litoral africano, esperando a chegada dos mercadores com a “carga” de escravos.

Ao chegar às cidades costeiras, os escravos eram colocados em barracões próximos às feitorias europeias e lá eram comprados por negociantes europeus e brasileiros. Como a travessia do atlântico não era barata, os traficantes esperavam ter o número suficiente de escravos para lotar os navios e só então realizar a viagem. Durante o período de espera nas cidades costeiras, esses escravos viviam presos e eram constantemente vigiados. Desejando o maior lucro possível, os traficantes empilhavam cerca de quinhentos escravos nos porões de cada navio. Nesses porões, os escravos passavam a maior parte da travessia amontoados uns nos outros e presos pelos pés ou pelos braços. Em pequenos grupos, os escravos subiam até a proa da embarcação para tomar sol, uma tentativa de diminuir o número de doenças tanto física quanto mentais dos escravos. Porém, conforme apontado, mais de 12 milhões de escravos africanos chegaram ao Novo Mundo, isso sem contar os outros milhares que morreram na travessia atlântica e os outros tantos que não conseguiram chegar à Costa litorânea da África. Muitos africanos escravizados preferiam a morte às intempéries do cativeiro na América. Por isso, o suicídio era uma prática relativamente comum ainda no continente africano. Aqueles que conseguiam fugir da rede do tráfico, embrenhavam-se nas matas e savanas da África formando organizações conhecidas como Quilombos.

Apesar de todo o horror, muitos africanos conseguiram construir laços de solidariedade durante a viagem. E, por fim, houve o caso daqueles que ficaram conhecidos como Retornados. Alguns africanos escravizados conseguiram comprar sua liberdade na América e juntar dinheiro suficiente para retornarem ao seu continente de origem. Juntos, esses retornados (conhecidos como Agudás e Tabons) reconstruíram suas identidades na África, apresentando assim outro lado da complexidade do Tráfico Transatlântico.

 

Bem pessoal, finalizo por aqui o resumo.

Bons estudos!