E o Fim Chegou…

Publicado: 30 de novembro de 2017 em E o Tio Patinhas?
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Ola pessoal!

Depois de 3 longos anos, finalizei o curso de Licenciatura em História pela Faculdade Estácio de Sá. Vou encerrando por aqui os meus trabalhos, e se você curtiu todos esses resumos aqui publicados, então você vai gostar deste curso que a Estácio fornece. Estudar História é sempre uma aventura. É entender como a sociedade foi se transformando no decorrer das Eras até chegar ao que nós somos nos dias de hoje – nosso modo de vestir, nosso modo de comer, nosso modo de falar, de pensar, de interagir… tudo isso faz parte da História! Não precisamos da máquina do tempo de Alexander, nem do DeLorean de Marty e Doc Brown, e muito menos da cabine telefônica de Bill e Ted. Basta apenas abrir um bom livro e explorar inúmeros registros presentes em nossa volta. Sabe aquela curiosidade que surge em você ao ver aquela foto bem antiga do seu tataravô no álbum de fotografias? Já é uma sementinha de um conhecimento histórico. Aquele desejo que te impulsiona a analisar, a pesquisar, a buscar por informações de um passado importante…. HISTÓRIA!

Enfim, vou ficando por aqui. Você tem autorização para imprimir todas as postagens deste blog, encadernar e deixar guardadinho na sua estante para futuras consultas (Até recomendo fazer isso! Vai saber até quando este blog continuará no ar). Mas não tem autorização para comercializar. Entendeu? Rum!

Para mais informações a respeito do curso de Licenciatura em História, Clique Aqui.

Também escrevi um romance intitulado Asmith, A Arqueira Destemida. Caso queira me ajudar adquirindo o livro, clique aqui.

Estou encerrando este blog, mas continuo realizando outros trabalhos aqui.

 

Desejo a todos vocês um excelente estudo, uma excelente aventura e sucessos! Sempre!

 

Deus os abençoe.

 

Marcell de Oliveira

Ola pessoal!

Nesta postagem, irei apresentar o resumo das aulas da disciplina Prática de Pesquisa em História do 6o período do curso de Licenciatura em História da Faculdade Estácio de Sá. Esta disciplina nos auxilia no desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso.

 

Resumo da Aula 01 – O Conhecimento Histórico Como Uma Ciência Especializada

O historiador Leopold von Ranke é considerado o pai da historiografia científica devido aos seus estudos que foram fundamentais para a transformação da História como uma disciplina autônoma. Os historiadores contemporâneos são herdeiros da proposta metodológica desenvolvida pela primeira geração do historicismo germânico em pelo menos um aspecto: a centralidade da análise da documentação, aquilo que Ranke chamou de “fontes”, para o estudo do passado. Os historicistas levam muito além a crítica documental e, ainda hoje, passado mais de 150 anos da primeira geração do historicismo germânico, a crítica documental continua a ser o elemento fundamental para a identidade científica histórica. Para o filósofo Paul Ricoeur, a documentação é uma espécie de “presença fictícia” do passado, o que faz com que a imaginação do historiador encontre limites. Por isso que todo trabalho de História precisa apresentar uma discussão específica a respeito do trato metodológico com a documentação.

A História como ciência especializada trata-se de uma possibilidade que não estava dada no conhecimento ocidental antes do século XVIII. É claro que a História já se constitui como prática intelectual desde a Antiguidade. Mas, até o século XIX, os estudos históricos não tinham uma identidade disciplinar específica. Mas o que mudou na experiência cultural da modernidade que permitiu a História como um campo disciplinar e autônomo? Podemos apontar a aceleração da temporalidade moderna, que fundou uma nova relação entre presente e passado. E a proposta de conhecimento moderno, que através do tratamento cartesiano (O Discurso do Método) é baseado no primado da especialização. Uma das principais características da modernidade é a aceleração do ritmo das mudanças sociais. Se na experiência histórica pré-moderna, na sociedade tradicional onde as instituições sociais se modificam mais lentamente, a relação entre passado e presente é caracterizada pela continuidade, pelas semelhanças. Nas sociedades modernas isso se transforma radicalmente, o que foi fundamental para a fundação da Ciência Histórica. Nesse sentido, são as demandas do tempo presente que condiciam e formatam o interesse pelo estudo do passado. No tipo da experiência cultural, a História é definida como um conhecimento pragmático e voltado a um exercício pedagógico moral e cívica.

Foi exatamente no século XVIII, quando as revoluções modernas, em particular a francesa, transformaram intensamente as instituições sociais e políticas vigentes que se inaugurou uma nova relação entre passado e presente. O passado não poderia ser mais utilizado como fonte de exemplos e de lições morais, já que passa a ser mais diferente do que semelhante quando comparado ao presente. O passado passa a ser pensado como um objeto de estudos que precisa ser conhecido em suas particularidades. Surge, então, a possibilidade de fundação de uma ciência especializada no estudo desse passado, o que aconteceu no século XIX nos quadros do historicismo germânico.

Os escritos filosóficos de René Descartes traduzem a concepção moderna de racionalidade científica. Descartes utiliza quase sempre a primeira pessoa do singular, o que se configura como uma espécie de reivindicação de sua autoridade sobre aquele estudo. Esta individualização é uma das grandes marcas da concepção moderna de ciência, na qual o cientista é um especialista em um determinado conjunto de saberes. Com o tempo, a concepção especializada de conhecimento foi ganhando força no século XIX, no momento do nascimento da maior parte dos campos científicos que hoje são fundamentais para a nossa cultura acadêmica. No século XIX havia duas tradições científicas: “Ciências Humanas” ou “Ciências do Espírito”, e “Ciências Duras” ou “Ciências Exatas”.

Wilhelm von Humboldt foi um dos principais historiadores envolvidos nos debates teórico-metodológicos da Ciência Histórica. Ele dialogou com a tradição filosófica representada por grandes autoridades como Aristóteles e Kant, e tentou definir o conhecimento histórico como uma ciência interpretativa baseada no princípio da subjetividade autoral. Por outro lado, Leopold Ranke defendeu a apropriação do conhecimento histórico a partir da proposta das “ciências duras” e, segundo ele, as fontes históricas são a única via de acesso do historiador à experiência utilizada; por isso, o pesquisador precisa se esforçar ao máximo para narrar da forma mais imparcial possível os eventos estudados.

 

Resumo da Aula 02 – O Projeto de Uma Ciência Histórica de Inspiração Sociológica

No século XX, o movimento historiográfico francês chamado “Escola dos Annales”, afirmou que a “História problema”, de cariz sociológico, era a melhor forma de produzir o conhecimento histórico. Segundo o professor Peter Burker, os historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre se conheceram na Universidade de Estrasburgo, e ali conviveram durante treze anos (1920 à 1933). Estes dois historiadores fundariam, em 1929, a Revue des Annales. A ideia inicial de criar um periódico de estudos históricos foi de Lucien Febvre, onde teve a ideia de fundar uma revista dedicada à História Econômica, que seria dirigida pelo historiador Henri Pirenne. Henri Pirenne foi cotado para assumir o cargo de editor chefe da revista, mas, por algum motivo, recusou. Marc Bloch e Lucien Febvre, então, tornaram-se os editores.

O primeiro título da revista, lançada em 1929, foi Annales d`histoire économique et sociale e tinha como modelo o periódico Annales de Géographie, de Vidal de la Blache. A revista pretendia exercer uma liderança intelectual nos campos da História Social e Econômica. Segundo o historiador François Dosse, o projeto de Marc Bloch e Lucien não deve ser reduzido a uma simples resposta dos historiadores à crise que explodiu de Walt Street em outubro de 1929, mas que já vinha se desenhando desde o término da Primeira Guerra Mundial. Esta crise está relacionada às novas questões que valorizam os aspectos econômicos e sociais, por sua vez mergulhados na deflação, na recessão e no desemprego. Todo o processo de cientifização da História envolveu, entre outras questões, uma ampla discussão teórico-metodológica na qual o movimento dos Annales foi buscar os elementos fundamentais do seu projeto historiográfico. Em um primeiro momento, as análises políticas e biografias de grandes líderes tinham a predileção da maioria dos historiadores. Mas, Michelet e Burckhardt tinham uma visão mais ampla da História do que os seguidores de Ranke. Burckhardt interpretava a história em que interagiam três forças – Estado, Religião e Cultura. Já Michelet defendia a história daqueles que sofreram, trabalharam, definharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofrimentos.

As críticas à historiografia política e biográfica também vieram da historiografia econômica, do Marxismo e da Sociologia. O paradigma historiográfico dos Annales teve grande capacidade de influenciar as pesquisas desenvolvidas em vários países. Os Reis taumaturgos, de 1924, foi um dos principais estudos de Marc Bloch. Seu tema é a crença compartilhada pelas sociedades inglesa e francesa da Idade Média, onde o toque dos reis era milagroso e capaz de curar doenças. Esta obra abriu caminho para os “historiadores das mentalidades”. O livro contribuía para a “psicologia religiosa”. Esta discussão sobre a psicologia da crença não era desenvolvida pelos historiadores ao longo da década de 1920, sendo mais comum entre antropólogos, psicólogos e sociólogos. A abordagem de Marc Bloch fundamentou a ênfase nas estruturas, nas coletividades e na longa duração, o que traduziu certo otimismo epistemológico característico para os modelos interpretativos modernos. Já Lucien Febvre elegeu o Renascimento e as reformas religiosas como seus principais temas de pesquisa. A biografia do reformador Martinho Lutero, por exemplo, não se trata de uma mera biografia, mas sim de uma tentativa de resolver um problema da relação entre o indivíduo e o grupo, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social.

No ano de 1956, quando Lucien Febvre morreu, marcou a ascensão definitiva de Fernand Braudel, administrador da Maison de Sciences de l`Homme, ao comando dos Annales. Para isso, houve uma disputa com Robert Mandrou, que também reivindicava a herança intelectual de Febvre. A relação dos dois herdeiros tornou-se harmoniosa e, em 1962, Mandrou se demitiu do cargo de secretário executivo da Revista. O principal trabalho de Braudel foi O Mediterrâneo. O Mediterrâneo é um livro de grandes dimensões para os padrões editoriais da época e é dividido em três partes, cada uma abordando o passado de uma forma diferente: a longa temporalidade da natureza; a média temporalidade das estruturas; e a curta temporalidade dos eventos. Braudel não abre mão da narrativa factual, e a sua preocupação é situar indivíduos e eventos em um contexto, em seu meio, mas ele os torna inteligíveis ao preço de revelar sua fundamental insignificância.

Claude Lévi-Strauss ganhou fama internacional em 1955, com o seu livro Tristes Trópicos, no qual o autor analisa a relação entre a América e a Europa, a partir das experiências de sua viagem ao Brasil. Segundo Lévi-Strauss, o historiador permanece no plano empírico e do observável, incapaz, portanto, de modelar e de ter acesso às estruturas profundas da sociedade. A diferença essencial entre a História e a Etnologia, ainda segundo Lévi-Strauss, não é nem o objeto, nem o objetivo. Ambas têm o mesmo objeto: a vida social, e o mesmo objetivo: uma melhor compreensão do homem. A História trata de expressões conscientes, e a Etnologia, das condições inconscientes da vida social.

O estruturalismo historiográfico foi, durante décadas, hegemônico no campo disciplinar da História. Porém, este cenário está se transformando nos últimos anos, quando os modelos estruturalistas vêm sendo esvaziados, enquanto outras propostas de análise, pós-estruturalistas, ganham cada vez mais força. Cada vez mais os objetos de pesquisa precisam ser recortados com precisão a partir de critérios de delimitação cronológica e geográfica. Por exemplo:

  1. Uma pesquisa sobre as forças armadas: Não é adequado uma pesquisa sobre a “História do Exército” ou sobre a “História do Exército Brasileiro”. O mais adequado poderia ser “História das relações entre o Exército e a política no Brasil ao longo da década de 1980”.
  2. Escravidão Africana no Brasil: Um bom exemplo seria propor uma “História das relações de parentesco no plantel de escravos no Vale de Paraíba na década de 1780”.

 

Resumo da Aula 03 – Os Marxismos e a Análise Histórica

O século XIX foi caracterizado pelo surgimento de alguns sistemas filosóficos e o marxismo foi um deles. Com a sua ênfase nas estruturas econômicas e produtivas, a historiografia marxista não se preocupa com a ação dos sujeitos ou com eventos isolados, que fez com que o materialismo histórico tivesse uma recepção relativamente boa por parte da história social francesa. Foi ao longo de 1840 que Karl Marx travou contato com leituras e pensadores que seriam fundamentais para o seu sistema filosófico; em Berlim, Marx conviveu com os discípulos de Hegel, que eram chamados de “jovens hegelianos” ou “hegelianos de esquerda”. Em Paris, ele conheceu os socialistas utópicos Proudhon e Fourier, e começou a amizade com Friedrich Engels. No ano de 1847, Marx e Engels, através dos diálogos sobre o Capitalismo, fundaram o Partido, ou a Liga (Bund), Comunista. Em 1852, Marx publicou o 18 Brumário de Napoleão Bonaparte, que foi um dos seus principais trabalhos enquadrados no gênero histórico. Na área da Economia, os trabalhos mais importantes foram: Manuscritos econômicos-filosóficos (1844), Crítica da economia política (1859) e O Capital (1876). Na área da Filosofia, destacam-se: Sagrada Família (1845), Ideologia Alemã (1846) e Miséria da Filosofia (1847).

O sistema filosófico de Karl Marx dialogou diretamente com o racionalismo. O racionalismo se fundamenta em dois princípios:

  1. a definição da razão como uma capacidade elementar do homem e
  2. o compromisso dessa capacidade racional com o conhecimento da verdade.

O marxismo pressupõe um fim ideal para o sistema capitalista de produção, que seria, de acordo com os prognósticos de Karl Marx, o momento da revolução do proletariado, quando os trabalhadores, agindo como um sujeito coletivo da história e impulsionados por uma identidade de classe, colocariam fim à opressão burguesa. O momento da revolução era o desenlace óbvio do capitalismo por conta da contradição que é inerente ao sistema, ou seja, a luta entre as classes. Para Marx, os trabalhadores somente serão capazes de colocar fim ao capitalismo e salvar a modernidade se, e somente se, tiverem consciência da sua situação. Por isso, é a razão que funciona como uma espécie de “messias laico” na teoria marxista. O marxismo se desdobrou em várias correntes de análise, tornando essa tradição bastante complexa e diversificada.

Lenin, o principal representante do Partido Comunista da URSS, interpretou as obras de Karl Marx priorizando a dimensão político-revolucionário do materialismo histórico, e é original em diversos aspectos; ao contrário da defesa do proletariado como o sujeito coletivo responsável pela destruição do capitalismo, Lenin enfatizou o papel do indivíduo, do intelectual revolucionário e do partido como a vanguarda do proletariado. Já a interpretação desenvolvida por Georg Lukács, conhecida como “marxismo ocidental”, pois não teve muita influência do leninismo da URSS, alega que a identidade de classe não precisa traduzir a origem de classe no sujeito. Nesse sentido, o intelectual burguês pode se identificar com a causa do proletariado. Louis Althusser, um dos marxistas mais influentes do século XX, priorizou o lado científico do materialismo histórico, buscando o diálogo dessa corrente de pensamento com os estruturalismos então em voga nas ciências humanas. Ele se afastou dos primeiros escritos de Marx para visar a capacidade científica dessa corrente de pensamento. E, por último, temos a Escola de Frankfurt que é um grupo de intelectuais que se reuniu em torno do Instituto de Pesquisas Sociais fundado, em Frankfurt, em 1924. Theodor Adorno e Max Horkheimer, principais líderes do movimento, escreveram o tratado A Dialética do Conhecimento, em 1947. Os pensadores desta Escola procuraram desenvolver uma teoria crítica do conhecimento e da sociedade inspirados na obra de Marx e em suas raízes hegelianas, relacionando o marxismo com a tradição crítica moderna. Tais intelectuais formularam uma crítica a racionalidade técnica e propuseram uma racionalidade emancipatória. A indústria cultural torna-se a principal manifestação dessa racionalidade técnica que transforma tudo em objeto de consumo.

A historiografia brasileira também oferece exemplos de interpretação marxista, como os estudos de Caio Prado Jr., Jacob Gorender e Nelson Werneck Sodré. Examinar tais estudos é fundamental para qualquer historiador brasileiro que tenha o interesse de se aproximar do materialismo histórico.

 

Resumo da Aula 04 – A Derrocada dos Macromodelos e a Proposta do Giro Linguístico

A partir da década de 1960, ganhou fôlego, dentro das ciências humanas, o interesse pela análise da linguagem científica. Diante da crise do otimismo científico, alguns pesquisadores dialogaram diretamente com a tradição dos estudos retóricos, e passaram a manifestar interesse pela construção das interpretações científicas, sem estarem propriamente preocupados com o problema da verdade e da objetividade científica. No campo da ciência história, esta questão foi proposta pelo livro Meta História de Hayden White, e publicado em 1962. White não reivindica um estatuto científico para História, mas sim destaca a dimensão narrativa desse conhecimento. O livro A Escrita da História, de Michel de Certeau, publicado em 1982, mostrou que o problema da linguagem estava na agenda dos historiadores profissionais. Tanto White como Certeau apontam para o clima de desconfiança que caracterizou o campo científico da História ao longo do século XX. Os historiadores passaram a se preocupar com a construção da sua linguagem científica, ampliando, portanto, sua abordagem para além da pretensão de escrever sobre eventos passados.

Se o século XIX foi o momento da euforia científica e da crença de que todos os problemas da humanidade seriam resolvidos pela capacidade racional, o século XX, com as experiências das guerras mundiais e da mobilização da tecnologia científica para a destruição, frustrou os prognósticos otimistas do século XIX, o que possibilitou o desenvolvimento de perspectivas céticas em relação à atividade científica. O campo de produção do conhecimento histórico não ficou indiferente à crise do racionalismo científico moderno. Surgiram outras propostas investigativas de modelos pós-estruturalistas. Jürgen Habernas, herdeiro da Escola de Frankfurt, levou em conta os interesses da humanidade no processo do conhecimento científico. Neste sentido, Habernas levantou a seguinte tipologização dos interesses: interesses técnicos; interesses produtivos; e interesses emancipatórios ou libertadores. E apresentou a possibilidade de examinar as suas condições de produção, inspirando importantes historiadores como Hayden White, Michel de Certeau, Fançois Hartog e Frank Ankersmith.

Um dos aspectos mais importantes do giro linguístico, na historiografia, foi a instrumentalização da retórica para o exame de textos historiográficos. Aristóteles é a principal referência da retórica clássica para os debates linguísticos caros à historiografia contemporânea. Para Aristóteles, a retórica é composta de três partes fundamentais:

  1. A invenção, marcada pelo uso de silogismos e entimemas;
  2. A disposição, comprometida com a organização dos argumentos em um plano narrativo;
  3. A elocução, relacionada ao estilo no qual o discurso é falado ou narrado;

O silogismo refere-se às verdades necessárias e inquestionáveis que dispensam os maiores reforços retóricos já que a sua constatação é óbvia. Já a entimema refere-se às verdades que são prováveis, mas que não são óbvias e, por isso, a sua validade depende do esforço retórico. Ao produzir um texto, o historiador põe em prática uma série de procedimentos científicos que têm o objetivo de construir uma trama discursiva e apresentar uma determinada representação de um evento passado como verdadeira. A proposta do giro linguístico é justamente examinar a construção dessa representação e analisar os exercícios persuasivos mobilizados pelos historiadores para conferir sensação de verdade aos textos, sem com isso negar a validade heurística da historiografia.

A proposta dos estudos historiográficos chegou ao Brasil no final dos anos 1980, tendo Manoel Luiz Salgado Guimarães como um dos seus principais fundadores. Em 1988, o autor publicou o artigo Nação e civilização nos trópicos, na Revista de Estudos Históricos da Fundação Getúlio Vargas. Ao longo dos últimos anos, a pesquisa historiográfica se fortaleceu bastante no Brasil, formando, inclusive, uma associação de historiadores especializados nessa temática. Autores como Rebeca Gontijo, Valdei Lopes Araújo, Maria da Glória Oliveira, Temístocles César Jr. e Durval Muniz de Albuquerque Jr. estão entre os mais importantes representantes dos estudos historiográficos brasileiros.

 

Resumo da Aula 05 – A Derrocada dos Macromodelos e a Proposta da Micro-História

Clifford Geertz, antropólogo norte-americano, desenvolveu uma discussão relacionada à redução do conceito de cultura e aos consequentes ajustes no exercício da análise antropológica. Geertz critica as grandes abstrações estruturalistas e defende uma análise mais próxima da materialidade dos fenômenos, um estudo antropológico mais circunscrito e delimitado geográfico e cronologicamente. Ainda ele, a cultura não é uma estrutura que serve como objeto de conhecimento científico, mas sim um entremeado de valores mobilizados circunstancialmente. Pode-se dizer que Geertz propôs o redimensionamento das pretensões da análise antropológica; não mais a estrutura, a coletividade e aquilo que é comum, mas sim o evento, o particular e aquilo que é único. O princípio da análise científica não é descartado por Geertz, mas sim redimensionado.

Na década de 1970, um grupo de historiadores italianos desenvolveu um programa de pesquisa que em muitos aspectos se opôs ao estruturalismo da História Social francesa desenvolvida pelos Annales. Ao rejeitar as abordagens estruturalistas, os micro-historiadores italianos não questionaram o estatuto científico da História, mas sim tentaram desenvolver uma proposta de análise baseada em outro critério de cientificidade. Esse esforço teórico foi desenvolvido no livro Mitos, Emblemas, Sinais, escrito por Carlos Guinzburg e publicado em 1986. Trata-se do “paradigma indiciário” que Carlos Guinzburg afirma ser o mais adequado para o atual estágio da historiografia pós-estruturalista. Guinzburg também apresenta um outro modelo científico chamado “galileana”. A ciência galileana tinha uma natureza totalmente diversa, que poderia adotar o lema escolástico do individum est ineffabile, do que é individual não se pode falar. O argumento do autor é que ambos os modelos, o galileano e o indiciário, fazem parte do repertório científico ocidental. Porém, o modelo galileano era inadequado, pois era uma disciplina qualitativa, que tem por objeto casos, situações e documentos individuais, enquanto individuais, e justamente por isso alcançam resultados que têm uma margem ineliminável de causalidade.

Diante dessa crise dos macromodelos, Ginzburg propõe uma saída semelhante com aquela desenvolvida por Geetz: o ceticismo controlado dentro dos valores científicos ocidentais e a proposição de uma abordagem científica mais empírica e menos pretensiosa. O autor defende a ideia de que a crise que o campo científico dos historiadores estava vivenciando naquele momento não colocava em risco a identidade científica da História, mas sim sua definição como uma ciência estruturalista. Ginzburg afirma ser possível encontrar nas discussões artísticas e científicas do século XIX, elementos que nos permitem visualizar a importância do modelo científico indiciário, que ele alega ser uma alternativa ao modelo galileano. O autor destaca três elementos:

  1. o método morelliano de identificação de falsificação em obras de arte;
  2. os romances de Conan Doyle, especialmente a ação do personagem Sherlock Holmes;
  3. os primeiros estudos de Freud;

Ginzburg defende a adoção de uma identidade epistemológica para a história, que não seria aquela que caracterizava o estruturalismo da história social francesa, nem tampouco a dimensão retórica, considerada exagerada, proposta por Hayden White. É como se o autor estivesse dizendo que a história é uma ciência, mas não uma ciência das totalidades, e sim dos indícios, das experiências e das ações individuais. Dessa forma, sem se afastar da tradição científica, mas buscando se afastar no estruturalismo da história social francesa, os micro-historiadores italianos desenvolveram uma perspectiva historiográfica de cariz monográfico que hoje funciona como uma espécie de cânone metodológico para os historiadores profissionais. No atual estágio dessa história, o estruturalismo da História Social desenvolvida por autores como Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel não é mais o fundamento do modelo defendido pelo grupo.

Os anos de crise mundial foram um momento de revisão brutal, que anunciava inclusive as revisões suaves das quais em 1968 havia sido o sintoma generalizado nas sociedades ocidentais. O progresso deixava de ser uma certeza ao mesmo tempo em que se começava a duvidar da capacidade indefinida dessas sociedades para resolver seus problemas latentes (Revel; 2000,p. 14).

Revel informa que a Micro-História nasceu dos debates desenvolvidos por um pequeno grupo de historiadores reunidos em torno da revista Quaderni Storici, que questionaram o rendimento das macroanálises historiográficas. As obras O Queijo e os Vermes, de Carlos Ginzburg, e Herança Imaterial, de Giovanni Levi, são considerados dois clássicos da Micro-História.

 

Resumo da Aula 06 – A Derrocada dos Macromodelos e a Proposta da “Nova” História Cultural

As discussões teóricas que passaram a ser cada vez mais frequentes no campo disciplinar da História após a década de 1970 chegaram também aos estados culturais. Após o final de 1980, quando surgiram os primeiros textos da historiadora norte-americana Lynn Hunt, os estudos sobre História Cultural passaram a ser menos abrangentes e mais atentos às práticas sociais. A “Nova” História Cultural, que também ficou conhecido como “História das Mentalidades”, foi apontada por Jacques Le Goff no texto As mentalidades: uma história ambígua. O projeto da História das Mentalidades era apagar ao máximo as diferenças e buscar categorias compartilhadas pelos membros de uma determinada sociedade. Em seguida, Philippe Ariès, um outro representante do projeto historiográfico das mentalidades, afirma que essas particularidades são diluídas e quase imperceptíveis da longa duração, que é por definição o recorte cronológico privilegiado pela História das Mentalidades. Outros representantes da História das Mentalidades como Robert Mandrou, afirmaram que o essencial desse modelo analítico estava no “nó que liga as distâncias entre as maneiras de pensar e de sentir e as diferenças sociais” (1961, p. 46). É justamente a dimensão ampla dessa abordagem o alvo das críticas dos autores que começaram a formular o programa da “nova” História Cultural no final dos anos 1990.

A partir de então, cada vez mais historiadores interessados nesse tipo de temática passaram a se distanciar da proposta analítica das mentalidades e a se aproximar dos estudos mais atentos às práticas e representações específicas. Para Roger Chartier, essa nova História Cultural levou os historiadores a refletir sobre as suas próprias práticas e, em particular, sobre as escolhas conscientes ou as determinações ignoradas que comandavam o seu modo de construir as narrativas e as análises históricas. Para Lynn Hunt, a “nova” História Cultural possui uma característica fundamental de centrar sua atenção sobre as linguagens, as representações e as práticas. A nova História Cultural propõe um modo inédito de compreender as relações entre as formas simbólicas e o mundo social.

A “nova” História Cultural parte o princípio de que toda prática produz uma representação, que pode ser letrada, artística, religiosa, etc. Ao distinguir as práticas das representações, a “nova” História Cultural, de alguma forma, traduz o ceticismo característico do cenário intelectual desse período. A historiografia seria então um estudo das representações sociais, buscando sempre entender o que essas representações têm de conflitivas e como isso traduz a dinâmica imprevisível das experiências. Redimensionada para o plano do indivíduo ou da comunidade, o conceito de representação foi pensando como o conjunto de mecanismos através do qual os indivíduos ou grupos atribuem sentido aos seus atos e aos atos dos outros.

Os bons livros tidos como exemplos para a “nova” História Cultural são: Em Busca da Oralidade Perdida de Andrea Daher, O Espelho de Heródoto de François Hartog, e As Armas e as Letras de Rodrigo Perez de Oliveira.

 

Resumo da Aula 07 – A Derrocada dos Macromodelos e a Proposta da “Nova” História Politica

Durante as décadas em que a proposta da História Social foi hegemônica, as investigações interessadas nos fatos políticos e nas biografias foram consideradas menos importantes pelas universidades francesas. Esse quadro vem se transformando desde a década de 1980, quando, na esteira da crise dos paradigmas estruturalistas, as perspectivas política e biográfica foram retomadas pelos historiadores profissionais. Após a década de 1980, um grupo de estudiosos como René Remond, Beatriz Sarlo, Serge Berstein e Michel Winock, começou a trazer para a pauta dos estudos históricos, os eventos políticos e as trajetórias biográficas. Por outro lado, tais temas não faziam parte do cânone historiográfico da História Social francesa proposta pela ‘Escola’ dos Annales. De acordo com René Remond, a história política de hoje não pode negar que buscou no passado da ciência histórica alguns exemplos daquilo que precisava ser retomado. Ao formular a reflexão nesses termos, Remond chama atenção para o fato de que a Ciência Histórica é marcada pela presença dos estudos sobre os fenômenos políticos.

O nome Charles Seignobos tem destaque nos estudos a respeito da História Política desenvolvida no século XIX. Para Remond, Seignobos foi o primeiro a se dar conta de dois fatos importantes que foram determinantes nos primórdios da sociologia eleitoral: a diversidade dos “temperamentos” políticos regionais e a profundidade do seu enraizamento. Remond apresenta mais uma advertência: o cuidado com o risco de supor que a interpretação que os Annales propuseram a respeito da Ciência Histórica é a única possível.

André Siegfried é considerado por muitos o pai da geografia eleitoral. Para Siegfried, é no comportamento politico dos eleitores e dos candidatos que é possível compreender os valores que condicionam o funcionamento do poder, o que para o autor significava também o funcionamento do Estado. Essa perspectiva priorizava o exame das disputas pelas posições de poder na estrutura do Estado, que no século XIX havia se consolidado como o fundamento dos nacionalismos. Para Remond, a historiografia precisa ser pensada a partir do diálogo entre as interrogações internas à comunidade dos historiadores profissionais e as inquietações que caracterizam a realidade na qual o conhecimento histórico é produzido. Remond também afirma que as duas Grandes Guerras provocaram o aumento da necessidade de intervenção do Estado no cotidiano das sociedades e que isso também provocou a valorização do elemento político. Já os estudos de Michel Foucault a respeito do poder e das suas diversas formas de atuação e manifestação, foram fundamentais para o desenvolvimento da “nova” História Política. A principal contribuição de Foucault para a formulação teórica da “nova” História Política foi:

a complexificação do conceito de poder, que se tornou plural e diversificado o suficiente para não mais se enquadrar apenas na esfera de atuação do Estado, como afirmavam os historiadores do século XIX.

No século XIX, segundo François Dosse, a escrita biográfica e a História Política eram abordagens historiográficas tão próximas que chegavam a se confundir uma com a outra. O tempo passou e esse tipo de pesquisa foi se enfraquecendo na medida em que se fortalecia o estruturalismo da História Social francesa, sendo revitalizado a partir da década de 1980. Mas é importante que você saiba que as pesquisas biográficas vivem em um momento de intenso fortalecimento, podendo servir, inclusive, como um possível tema para o seu TCC. O sociólogo Pierre Bourdieu tinha uma certa tendência a negar a perspectiva biográfica, criticando especialmente a biografia que Jean Paul Sartre escreveu sobre a vida de Gustav Flaubert. Para Bourdieu, os biógrafos incorrem no erro de supor que a trajetória individual pode ser analisada de forma isolada das outras instâncias da vida social, como se fosse possível ao sujeito viver só e sem nenhum tipo de interação com o mundo.

Para bons exemplos de práticas de pesquisa que dialogaram com a perspectiva da História Política, são os livros: Capítulos de História do Império de Sérgio Buarque de Holanda, e Duque de Caxias de Adriana Barreto de Souza. O bom exercício historiográfico, que se materializará na produção do seu TCC, demanda um grande esforço de leitura, para que os procedimentos da pesquisa se tornem claros para o autor.

 

Resumo da Aula 08 – A Historiografia Pós-Moderna em Perspectiva

O pós-modernismo é um daqueles conceitos que padecem de um mal-estar quase ontológico, o que torna a sua definição uma tarefa árdua que alguns afirmam ser impossível. Diante disso, o passado, pensado como uma experiência concreta, parece perder espaço, o que possibilitou o fortalecimento da dimensão interpretativa da representação historiográfica. Assim, a historiografia especializada tornou-se uma grande arena de conflitos entre interpretações diferentes e por vezes rivais. Segundo François Lyotard, o aspecto mais fundamental da condição pós-moderna é a morte dos centros, o colapso das propostas racionalistas que se ancoravam no princípio de que de fato era possível conhecer a realidade e que a realidade era um dado objetivo, com existência própria e independente da cognição humano, sendo, por isso, passível de ser conhecida. A condição pós-moderna se fundamenta na incredulidade diante das metanarrativas modernas. Segundo Keith Jenkins, a definição do “pós-modernismo” é particularmente difícil devido a um dos princípios fundamentais que caracterizam essa experiência cultural: a definição da experiência como algo líquido, incerto e, no limite, impossível de ser objetivada. Já Durval Muniz, diz que o simbolismo do século XIX se condensa todo o fracasso da modernidade, a falência do humanismo e o fim do sonho iluminista. E, por fim, Franklin Rudolf Ankersmit acredita em dois aspectos desta superprodução não intencional. Em primeiro lugar, a discussão sobre a obra de Hobbes torna-se uma discussão sobre a interpretação da obra de Hobbes, em vez de ser uma discussão sobre a obra em si. E, em segundo lugar, por evidentemente prestar-se a múltiplas interpretações, o texto original de Hobbes perdeu sua capacidade de funcionar como árbitro no debate dentro da História.

O historiador Pierre Nora alega que nunca antes na História os homens demonstraram tanto interesse pelo passado, o que traduz a combinação da curiosidade com o medo da perda. Diante do grande interesse pelo passado, como manter a identidade epistemológica da história quando existe uma multiplicidade de vozes interessadas em falar algo sobre o passado? Quais recursos precisam ser mobilizados pelos historiadores visando qualificar o resultado do seu trabalho como o produto de uma ação especializada? Para Durval Muniz, por mais que o historiador também utilize da imaginação no trato com a documentação e com a bibliografia secundária, ele jamais pode ter a mesma liberdade de especulação que o literato. Para Jorn Rusen, por mais que existam hoje diferentes formas de tratar o passado e que essa multiplicidade seja legítima, é importante que a comunidade profissional dos historiadores continue tentando apresentar ao público uma apropriação técnica e especializada das experiências pretéritas.

Quando o historiador apresenta seu trabalho, ele se coloca em diálogo com uma comunidade científica. Por isso, é necessário o intenso exercício de leitura da produção bibliográfica, que se torna cada vez mais extensa em todos os ramos da pesquisa histórica. Não existe um “ponto zero” do conhecimento; no limite, todo trabalho historiográfico é coletivo em alguma medida, já que o tempo todo precisamos nos remeter a outros trabalhos, sempre com o esforço de conversar com eles.

 

Resumo da Aula 09 – O Cariz Monográfico das Pesquisas Históricas na Pós-Modernidade

Toda pesquisa precisa ser prefigurada por um projeto, que é onde o historiador organiza seu trabalho, escolhe seu tema de estudos, delimita o problema que será abordado, dialoga com a bibliografia especializada e define um tratamento metodológico para a documentação disponível. O século XVIII pode ser pensado como a matriz dos estruturalismos que dominaram as ciências humanas do final do século XIX até a segunda metade do século XX. “A História é considerada a construção e realização da subjetividade universal, um processo racional, inteligível. Seu desfecho é previsível: a vitória da razão, que governa o mundo” (Reis, 2006, p. 68). Neste sentido, a ambição estruturalista em conhecer a totalidade da realidade somente tem sentido na modernidade científica, que foi caracterizada pela definição do homem como um ser naturalmente racional e capaz de conhecer o mundo que o cerca.

A expressão teria dois sentidos: “História de Tudo” e “História de Todo”. No primeiro sentido, seria a consideração de que tudo é História, não havendo mais regiões interditadas ao historiador. No segundo sentido, seria a ambição de apreender o todo de uma época, uma abordagem holística de uma sociedade, o que levaria, talvez, a uma contradição com a História-problema. Portanto, no atual estágio do campo histórico, as abordagens totalizantes não são consideradas apropriadas pela maioria dos historiadores. É ponto pacífico entre os historiadores que nos últimos anos a pesquisa histórica passou por um processo de especialização temática. O historiador brasileiro José D’Assunção escreveu o livro O Campo da História, em que analisa essa fragmentação e seus desdobramentos na prática profissional do historiador. Para François Dosse, o instante da fragmentação pode ser situado em algum momento da década de 1980, quando a fragmentação do campo histórico tornou-se notório para todos os seus integrantes. Já Michel Vovelle, defendeu uma historiografia comprometida com as grandes sínteses. Pois, ainda ele, subordinar o conhecimento histórico às historietas e curiosidades é o maior perigo que hoje se coloca àqueles que praticam profissionalmente esse tipo de atividade. Vovelle também dizia que o fundamento da especialização profissional está justamente na síntese, na capacidade do historiador em conseguir dizer algo com o seu trabalho; de dizer algo sobre a sociedade, sobre as pessoas e sobre o tempo (1989, p. 143).

O historiador brasileiro Ciro Cardoso ataca as propostas historiográficas que ele chama, pejorativamente, de “pós-modernos”, acusando-as de serem frágeis do ponto de vista epistemológico e de enfraquecerem a identidade científica da História. Já o historiador norte-americano Jack Hexter, um crítico da História Total, acusa de ser impreciso e vago. Para ele, uma história global jamais atingiu a articulação do real que pretendia. Era mais uma reunião colossal de dados e informações, uma superposição de temas incontáveis do que uma integração do real. Já Michel Foucault, analisou a História Total e afirmou que o seu projeto é de restituir o conjunto da civilização, do princípio de uma sociedade, da lei que dá conta de suas coesões, do “rosto de uma época”. Uma proposta que traduz com perfeição os ânimos epistemológicos dos homens modernos. Para Jean Louis Flandrin, a História Total corre o risco de ficar limitado às abstrações que têm mais a ver com as especulações teóricas dos historiadores do que com as práticas sociais dos atores históricos.

Todo texto historiográfico precisa ser pensado como o produto final de um intenso trabalho de pesquisa, que é sempre motivado pelo interesse em conhecer certo aspecto da realidade passada. Como o alcance da pesquisa é sempre limitado, o historiador precisa se esforçar para delimitar um conjunto de experiências e propor uma interrogação sobre elas. Esta interrogação é o problema, e o problema é a pergunta que motiva o historiador ao esforço da pesquisa. Uma das principais transformações da transição da História Total para a História Fragmentada foi justamente a maior delimitação na formulação dos problemas.

 

Resumo da Aula 10 – O Projeto de Pesquisa Como o Primeiro Passo da Operação Historiográfica

Todo trabalho historiográfico é produto de um intenso exercício de pesquisa, o que envolve, entre outras coisas, a delimitação de um tema e de um problema, a análise da bibliografia especializada e a redação do texto. Para que tais etapas sejam concluídas, é necessário o planejamento, que se materializa em um projeto de pesquisa. O projeto nada mais é do que um horizonte que precisa ser maleável o suficiente para se acomodar aos imprevistos da caminhada do pesquisador, que podem se manifestar na indisponibilidade de alguma documentação ou na insuficiência do tempo previsto para a conclusão do trabalho. Os projetos de pesquisa podem ter vários formatos e serem compostos por diversas nomenclaturas.

É importante que o projeto seja constituído por cinco partes:

  • Introdução: É o momento onde o pesquisador apresenta o problema da sua pesquisa, ou seja, o objeto de estudos que será desenvolvido;
  • Objetivos e Hipóteses: Para que fazer? Onde quero chegar?;
  • Quadro Teórico: É o lugar onde o pesquisador analisa algumas abordagens que o ajudam a pensar de forma mais abstrata sobre o seu objeto de estudo;
  • Metodologia e Fontes: É onde o pesquisador define seu trabalho como pertencente ao gênero histórico. É necessário de uma sensibilidade para desenvolver uma metodologia adequada ao seu problema e aos documentos disponíveis. O termo correto é exatamente este: desenvolver;
  • Bibliografias: É a parte mais simples do projeto. Informar as fontes consultadas: livros, revistas, sites, etc. Logicamente seguindo as normas da ABNT;

 

Tenha um ótimo TCC, pessoal.

 

Marcell

Ola pessoal!

Nesta postagem, irei apresentar o resumo das aulas da disciplina Museologia do 6o período do curso de Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – A Museologia e o Seu Campo de Estudo

A palavra Museologia é formada por duas expressões gregas: museon (lugar das musas) e logos (estudo ou reflexão através da sensibilidade e razão). A origem da palavra museu – o “lugar das musas” -, é onde os objetos eleitos como sendo os melhores representantes da sua espécie ficam guardados para serem apresentados para as pessoas apreciarem as suas qualidades e refletir sobre o seu significado. O objetivo maior da Museologia é o estudo do “fato museológico”, isso é, o estudo das relações sensíveis que se estabeleceram entre as pessoas e os objetos apresentados em um cenário expositivo. Entretanto, a Museologia por muito tempo foi considerada como uma disciplina que estudava exclusivamente as práticas desenvolvidas no interior dessas instituições. Mas, a partir da década de 1970, tal modelo passou a ser questionado passando a defini-la como uma ciência social que estuda os objetos de museu como fontes de conhecimento. Esta percepção do objeto como fonte de saber e de reflexão produz uma importante diferença no momento de selecioná-lo para integrar um acervo de museu, pois existem vários tipos de conhecimento conforme o valor que lhes é atribuído, e também por “quem” lhes atribui este valor. Para “quem” estes objetos podem ter significado? Que tipo de conhecimento o estudo desses objetos pode produzir? E que tipo de reflexão poderá ser feita?

Atualmente, quando a ciência museológica seleciona objetos para integrar um acervo, o faz pelo seu valor enquanto fontes de conhecimento e questionamento, isso é, “percebendo” a sua capacidade de fazer as pessoas refletirem sobre as suas realidades anteriores e atuais quando elas se deparam com eles. Assim, a Museologia é uma ciência da informação, na medida em que seleciona, conserva, ordena e investiga as informações contidas nos objetos e acervos museológicos. E, também, uma ciência social aplicada por realizar pesquisas sobre tais informações e divulga-las para o público na forma de conhecimento através de exposições. Os museus só passam a existir quando o homem adquire a consciência de seus patrimônios natural e cultural. Assim que a consciência dessas práticas tem início, começa a se definir a identidade dos grupos humanos em todos os tempos e lugares. E a partir daí que a humanidade passa a construir esses espaços chamados de museus e os utiliza para preservar esse patrimônio, isto é, para preservar seu legado histórico, ecológico, artístico e cultural. Então, a função primordial dos museus é: selecionar, guardar, conservar, pesquisar e divulgar tudo aquilo que seja eleito patrimônio.

O patrimônio natural se constitui no espaço físico onde um grupo humano se instala e vive. O patrimônio cultural nos objetos materiais (tangíveis) que produz para viver e também nas suas criações imateriais (intangíveis). Essas criações imateriais se baseiam nas práticas que o ser humano constrói para compreender o mundo em que vive e se reconhecer como um grupo unido, como, por exemplo, o folclore, a gastronomia, a língua, a mitologia, entre outros. A natureza onde nascem as águas, mares, rios e florestas, onde produzem alimentos, são espaços importantes para a vida das pessoas. Do mesmo modo são as cidades, os bairros, as praças e os prédios construídos para as pessoas viverem e se utilizarem deles. São criações materiais.

O campo de estudo da Museologia é a investigação da instituição “museu”, dos acervos nela contidos e das interações desses acervos com as realidades dos vários grupos humanos. Em um amplo universal, podemos destacar: a pintura, a escultura, a arquitetura, a numismática (moedas), os meios de transporte, a armaria, a indumentária (vestuário e joalheria), a heráldica (brasões), o mobiliário, as condecorações, a tapeçaria, os utensílios domésticos, prataria e ourivesaria, os acervos religiosos, as danças, a literatura, o teatro, o folclore, a culinária típica e várias outras formas de expressão que o homem cria para identificar-se e organizar-se em sociedade. Todos esses conhecimentos são investigados em uma perspectiva sócio-histórica e aplicados pela ciência museológica através da museografia, da expografia, da conservação e restauração, dos estudos de público e da pedagoga museal. Existem vários tipos de museus conforme os acervos que possuem. Para isso, a Museologia interage com várias outras disciplinas. A pesquisa museológica abrange o amplo universo das expressões artísticas e, também, se relaciona intimamente com o campo das ciências humanas, a Antropologia, a Arqueologia, a Ciência Politica, entre outros. Há ainda uma relação próxima com as ciências exatas – a Física e a Matemática – e com as ciências biológicas e da terra, como a Medicina, a Astronomia e a Química. A Museologia engloba vários campos do saber criando elos para produzir conhecimento a partir de uma diversidade de informações contidas nos seus acervos.

 

Resumo da Aula 02 – Histórico da Museologia no Mundo e no Brasil

A palavra museu teve origem na antiga Grécia. Museion era o nome dado aos templos das musas, que representavam os ramos das artes e das ciências. Eram locais reservados para debates filosóficos e estudos artísticos, científicos e literários. Mas, com o passar do tempo, a ideia de museu foi adquirindo novos significados, até que, no século XV, colecionar objetos virou uma mania em toda a Europa. As pessoas importantes tinham um costume em ter um “gabinete de curiosidades” em suas casas, para exibir objetos raros e exóticos como prova de sua riqueza e poder. Com a expansão das navegações para o oriente e para o novo mundo, essas coleções passaram a ser enriquecidas com obras de arte, artefatos científicos e outros objetos provenientes das Américas e da Ásia, adquiridos pela nobreza e pela burguesia ascendente. Além de objetos, tais coleções também passaram a abrigar espécimes da natureza (animais, plantas e minerais raros e exóticos), formando as primeiras coleções científicas criadas por estudiosos que buscavam reproduzir o ambiente natural de espécies vindas de terras distantes. Por outro lado, os gabinetes de curiosidades eram adquiridos mais pelo prazer de colecionar e demonstrar poder do que para servir como elementos de pesquisas. Não havia um critério científico na formação dessas coleções. Foi entre os séculos XV e XVI que surgiram as primeiras coleções organizadas para formar acervos de instituições parecidas com as que hoje conhecemos como museus. Mas foi somente no final do século XIX que surgiu, na Inglaterra, uma instituição criada para essa finalidade: o Museu de História Natural de Londres. E o primeiro a classificar os objetos por classes foi Carlos Lineu, criador do método de classificação científica. A partir de então, as coleções passaram a ser usadas também para a pesquisa, e os antigos gabinetes transformaram-se em museus, tal como hoje são conhecidos. Contudo, tais instituições não eram abertas para o público, apenas para estudiosos e membros de sociedades científicas.

Em 1753, surgiu o Museu Britânico em Londres (Inglaterra). Entre 1750 e 1773 o Museu do Louvre, em Paris (França) e, em 1783, o Museu Belvedere em Viena (Áustria). Mas somente no final do século XVIII, na França, foi permitido ao público ter acesso a essas instituições, marcando o surgimento dos primeiros museus nacionais. Em 1808 surgiu o Museu Real dos Países Baixos (Amsterdã, Holanda). Em 1810, o Altes Museum (Berlim, Alemanha). Em 1819, o Museu do Prado (Madri, Espanha). E em 1852, o Museu Hermitage (São Petersburgo, Rússia). Criados dentro do espírito nacionalista da época, tais museus tinham como função formar cidadãos através do conhecimento do seu passado, e participarem de maneira decisiva na construção dos Estados nacionais emergentes e das nacionalidades. Durante o século XIX, várias expedições coloniais recolhiam espécimes da flora e da fauna, e assim foram se formando as coleções de Mineralogia, Botânica, Zoologia, Etnografia e Arqueologia. Ainda em 1870, surge o Museu Metropolitano de Nova Iorque (EUA) com um perfil mais pedagógico, e serviu de modelo para outros museus norte-americanos e, também, influenciando a ação de museus latino-americanos, como MASP (Museu de Arte de São Paulo) e o Museu de Antropologia da Cidade do México.

No Brasil, a primeira instituição museológica surgiu no início do século XIX. O Museu Real, criado por D. João VI, no Rio de Janeiro, em 1818, veio a ser o atual Museu Nacional. De início, seu acervo era composto por uma coleção de história natural doada pelo próprio príncipe. Em seguida, seu acervo foi enriquecido por uma importante coleção de Egiptologia adquirida por D. Pedro I. Contudo, o Museu Real manteve um perfil colecionista e, somente no final do século XIX, adquiriu um caráter científico. Ainda no Brasil, em 1884 foi criado o Museu do Exército e, em 1868, o Museu da Marinha. Depois foram criados o Museu Paranaense (1876) e o Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (1894). Em seguida vieram os museus etnográficos: o Paraense Emílio Goeldi (1866) e o Museu Paulista (1894), atualmente Museu do Ipiranga. As pesquisas desenvolvidas por estes museus apoiavam-se nas teorias darwinistas, a partir da qual eram interpretadas as origens e a evolução das espécies e da sociedade, que mais tarde foi a base da Antropologia. Tanto no Brasil quanto no mundo, os museus se constituíram baseado na história e na cultura do seu país e, por outro lado, na Pré-História, na Arqueologia e Etnologia.

No Brasil, assim como nos outros países, os museus de modelo enciclopédico predominaram até 1930, quando entraram em declínio junto com as teorias evolucionistas. Os museus brasileiros mantiveram suas ações a favor do nacionalismo, celebrando a exuberância da nossa natureza e a cultura do nosso povo. Esta temática nacionalista teve força no Museu Histórico Nacional (MHN), no Rio de Janeiro, em 1922, junto com o Movimento Modernista. O objetivo das ações realizadas pelo MHN era educar o nosso povo através dos valores nacionais. As exposições apresentavam fatos e personagens da nossa história, incentivando o culto à tradição e à formação cívica como fatores de união e progresso. A partir de então, o MHN tornou-se referência para outros museus brasileiros, e contribuiu para a criação do curso de graduação em Museologia, em 1932, que funcionou no próprio museu até 1979.

A partir da década de 1980, outros tipos de instituições passaram a ser criadas principalmente nas capitais e grandes cidades do Brasil e do mundo. Além de reunirem acervos de diversos tipos para realizarem suas exposições, alguns centros culturais se especializaram em adquirir e conservar acervos específicos, tornando-se referência no tratamento desses acervos.

 

Resumo da Aula 03 – Museus, Centros Culturais e Centros de Memória

Os museus são instituições sócio-históricas de pesquisa: históricas, de ciências, comunitárias, de artes, universitárias ou específicas de uma expressão cultural. Em geral, os museus se diferenciam pelo tipo de acervos e estudos que levantam. As exposições, os eventos, os programas educativos e outras atrações que acontecem nos museus também podem diferenciá-los. Os museus podem ser públicos ou privados. Também podem ser mantidos por uma comunidade, uma escola, um clube, uma empresa ou por qualquer grupo de pessoas que têm um interesse em um determinado assunto. Os ecomuseus  (museus comunitários) englobam todo o patrimônio cultural e natural de uma comunidade. Esses espaços geralmente são geridos pela própria comunidade, pois eles são os verdadeiros herdeiros do seu patrimônio e têm interesse em reproduzir essas tradições no tempo presente. Suas tradições podem ser conservadas através de comemorações de datas importantes ou reverenciadas em personagens da própria comunidade.

Muitos museus também possuem bibliotecas e espaços interativos como cinemas, teatros, restaurantes entre outros. Nesses espaços acontecem diferentes eventos e programações desenvolvidas para vários tipos de público. Muitos desses espaços deixaram de ser apenas museus na sua forma tradicional e tornaram-se referências de lazer e cultura em suas cidades, passando a ser chamados de Centros Culturais, ainda que muitos mantenham o nome de museu. Em diversas cidades do Brasil e do mundo, existem e continuam sendo criados museus no formato de centro culturais. Para alguns museólogos, os centros culturais são a evolução do museu tradicional. Mantendo os princípios da museologia, os centros culturais geralmente são criados por empresas, para utilizá-los como instrumentos de visibilidade institucional. Com recursos próprios, os centros culturais produzem exposições, eventos e programas educativos diferenciados daqueles que normalmente são oferecidos pelos museus tradicionais. Através deles, é possível envolver-se com estímulos variados e simultâneos a partir de acervos múltiplos, onde cada espaço assume um sentido próprio, e onde tudo é informação. A informação não está disposta convencionalmente, mas de modo que o visitante não tenha dificuldades para encontrá-la.

Temos também os Centros de Memória. Mantendo os critérios da prática museológica, essas instituições também coletam, conservam, pesquisam e divulgam acervos que podem se referir a determinados períodos históricos. Em geral, esses espaços realizam exposições permanentes sobre um tema específico com diversos formatos. Também produzem periodicamente eventos para comemorar datas e acontecimentos importantes, e manter vivas essas lembranças na memória das suas comunidades ou de um país.

 

Resumo da Aula 04 – A Comunicação Museológica

A comunicação museológica é a denominação genérica dada às diversas formas que os museus usam para transmitir conhecimentos: exposições, artigos científicos, estudos de acervos, catálogos de coleções, filmes, teatros, palestras, oficinas, etc. É o cenário expositivo que se potencializa a relação entre o homem e o objeto, e é nessa relação que o público tem acesso à poesia das coisas, das pessoas, dos fatos históricos e dos lugares de memória. Aos profissionais de museus, cabe a tarefa de construir esse encontro, pesquisando os acervos, abordando temas socialmente relevantes, elaborando mostras e estudando as formas como os diversos tipos de público se relacionam com os objetos organizados em um cenário expositivo. O objetivo maior da comunicação museológica é de produzir emoções e reflexões que possam transformar a atitude das pessoas quando elas são confrontadas com suas realidades.

Nos primórdios da Museologia, as exposições tinham um caráter puramente contemplativo. Eram organizados de modo enciclopédico e somente pesquisadores eram capazes de perceber e entender essas estruturas e seus significados. Para o visitante comum, eram apreciadas passivamente, apenas para satisfazer curiosidades. Com o tempo, as exposições passaram a ser concebidas por equipes de especialistas, para serem compreendidas e provocarem uma atitude ativa e crítica no público. Assim surgiram as equipes interdisciplinares formada por pesquisadores, educadores, historiadores, designers, museólogos e outros especialistas da área da expografia. Atualmente se oferece ao público a oportunidade de aprender através de um comportamento ativo-cognitivo (intelectual, emotivo e crítico), interagindo com a exposição. É na interação ativa e crítica entre a mensagem apresentada e o visitante que a exposição permite que as pessoas vivenciem uma experiência de apropriação do conhecimento. A pesquisa de recepção de público estuda os modos e consequências do encontro entre a mensagem que se quer transmitir e o seu destinatário. O público, de fato, recria criticamente a mensagem (cada um do seu jeito), a partir do seu próprio universo referencial, fazendo uma síntese subjetiva do conteúdo. É nessa relação profunda entre objeto-sentido, tema-sentido e exposição-sentido que ocorre a reflexão, a aquisição do conhecimento e a mudança de atitude.

Os estudos de transmissão de mensagens através de exposições estão intimamente relacionados com a área da Comunicação Social. Por outro lado, pensar que existe um predomínio do emissor sobre o receptor sugere uma relação de poder, como se houvesse uma relação sempre direta, linear, de um polo (emissor) sobre o outro (receptor). Por isso, o processo comunicacional museológico não está na mensagem, e sim na interação. Museu é diálogo, e não um monólogo. Por isso, a avaliação de uma exposição se dá sobre os efeitos da interação com o público, e não sobre um processo linear entre emissor e receptor. A exposição é o local de encontro entre o que o museu quer apresentar, buscando provocar um comportamento ativo e crítico do público à sua síntese subjetiva. Uma exposição interativa é aquela que permite ao visitante caminhar livremente pelo seu espaço, observar os objetos, relacioná-los ao tema abordado, aprender o seu conteúdo temático, entre outros. Nela é possível observar, comentar, analisar, julgar, criticar, comparar, relacionar, lembrar, rejeitar, etc. É nessa relação que o público recria o discurso expositivo e dá a ele um novo sentido. As vezes acontecem ao mesmo tempo eventos sobre assuntos totalmente diferentes. São as chamadas “estruturas de acolhimento”, onde pode acontecer algo surpreendente. Isto também faz parte de uma experiência de qualidade.

 

Resumo da Aula 05 – Acervos Museológicos

A seleção de objetos é um critério fundamental, porque tem a ver diretamente com a proposta do museu de confrontar o homem com a sua realidade. Imagina uma caneta simples, como tantas outras canetas. Agora pense na caneta que a Princesa Isabel usou para assinar a Lei Áurea, que formalizou o fim da escravidão no Brasil. Esta não é uma caneta qualquer. É um objeto ligado a um fato histórico, e é isso que a torna diferente de todos os outros objetos, isto é, de todas as outras canetas. Quando você o vê em uma exposição, imediatamente pensa naquele episódio da História brasileira e no processo histórico que envolveu o fim da escravidão. Geralmente, tais objetos não são apresentados isoladamente. E sim são contextualizados em um tema e apresentados junto com outros objetos também significativos, para potencializar as reflexões sobre o tema que o museu quer abordar. Portanto, o elemento estruturador de uma exposição é o objeto museológico, e o cenário expositivo deve ser pensado para dar destaque a este objeto e ao seu significado. O objeto é a “musa” da exposição, seu elemento-chave. E o acervo museológico é o conjunto desses objetos institucionalizados em um museu. Portanto, um objeto institucionalizado é aquele que passa a fazer parte do acervo de um museu. Primeiramente ele é selecionado pelo seu valor intrínseco para integrar o acervo e, em seguida, é formalmente integrado a esse acervo pela institucionalização.

Não apenas objetos podem ser musealizados. Pode-se também musealizar monumentos, praças, prédios, cidades ou outras expressões da cultura consideradas significativas para um grupo social. Nesses casos, a institucionalização vai além dos museus e atingem outras instâncias institucionais, como, por exemplo, um município, um país ou até mesmo toda a humanidade. É assim que são constituídos os patrimônios culturais da humanidade. Um bem “tombado” é um bem patrimonial institucionalizado. Isso significa que ele foi “registrado” por uma instância governamental pela sua importância e, portanto, é protegido. Tombamento significa registro. O objeto musealizado é aquele que é selecionado para ser conservado em um museu, e o objeto tombado é aquele que não pode ser guardado em um museu. Assim são os bens culturais materiais e imateriais. Não é possível guardá-los em um museu, mas eles devem ser conservados, e por isso são registrados como patrimônio cultural, isto é, tombados. Por outro lado, o valor intrínseco de um objeto conservado em um museu, ou de um acervo museológico, só existe quando lhe é atribuído um sentido, isto é, quando possui um significado sócio-histórico. Para que isso aconteça, o objeto precisa que seja usado para transmitir conteúdo desse significado ou dessa cultura. Assim, o museu se torna o repositório desses sentidos e conhecimentos contidos nos objetos e acervos, e as exposições são os meios usados para transmitir esses saberes e significados.

Os recursos expográficos podem ser diversos: ambientes, trajetos, textos, legendas, desenhos, fotografias, etc., podendo formar um grande conjunto de efeitos especiais usados para explicar um conteúdo e enriquecer a experiência dos visitantes. É na interação do público com os objetos, acervos e com os recursos expográficos que os museus dialogam com as pessoas a respeito do tema em questão. Do mesmo modo, as pesquisas que se realizam sobre os objetos musealizados obedecem a critérios semelhantes à pesquisa histórica acadêmica. E o conhecimento produzido é o resultado da análise histórica de fontes documentais, onde o objeto é o próprio documento. Como o objeto é o próprio documento, é necessário de condições especiais para serem selecionados, guardados, pesquisados e seus conteúdos apresentados em um contexto temático para serem questionados pelo público. Como já vimos, existem vários tipos de acervos. Madeira, couro, metal e outros materiais têm tratamentos diferentes para que durem mais tempo e preservem suas características físicas.

Os acervos também podem ser vivos como, por exemplo, o jardim botânico ou zoológico, as plantas e os animais são conservados vivos, e assim são expostos. Há também os não-vivos que também podem ser conservados através da taxidermia (empalhamento). Tais acervos são conservados conforme as suas naturezas, e recebem um tratamento especial para aumentar sua durabilidade. As condições de higiene, temperatura, luz e outras variáveis climáticas são permanentemente controladas. Então, o objetivo da pesquisa museológica é de promover o uso social dos seus acervos, aproximando a sociedade dos significados que eles exprimem e os conhecimentos que neles existem.

 

Resumo da Aula 06 – Como os Museus, Centro Culturais e de Memória podem Apoiar a Pesquisa Histórica

No final da década de 1980, iniciou-se em várias cidades brasileiras e de outros países a criação de centros culturais que deram uma nova feição aos museus tradicionais. Também foram criados os museus comunitários, os centros de memória, os ecomuseus e os centros de referência. Os museus que aqui podemos citar são: Museu da Língua Portuguesa (SP), Museu de Astronomia e Ciências Afins (RJ), Museu Emílio Goeldi (PA) e Instituto Butantã (SP). Estas são instituições museológicas tradicionais que se especializaram no tratamento e pesquisa de acervos e temas específicos. Ao longo do tempo, os novos tipos de museus ajustaram suas programações a partir das demandas recebidas dos diversos públicos, adaptando-se aos seus acervos, recursos e aproveitando suas características físicas, espaciais e simbólicas. Por exemplo: estar localizado junto a uma natureza exuberante ou em uma área histórica da cidade, possuir uma bela arquitetura, entre outros aspectos. Sendo assim, programas educativos multidisciplinares passaram a ser criados para o aprendizado da História, usando novas linguagens e tecnologias para desvendar novas áreas do conhecimento histórico. Nesses programas, períodos e fatos históricos são revistos e analisados por vários ângulos da pesquisa histórica contemporânea, tornando-os atraentes para os diversos tipos de público.

Além de espaços expositivos e de lazer, muitos museus e centros culturais possuem ricas bibliotecas e núcleos de pesquisa histórica e de outras disciplinas. Tais pesquisas são geralmente atualizados a cada evento para serem divulgadas em site, livros, revistas e outros veículos publicados pela própria instituição. As apresentações musicais, de poesia, de contadores de estórias, visitas guiadas e outras atividades são direcionadas para um tema histórico escolhido e apresentadas em diferentes linguagens. Há também museus diretamente ligados a instituições de pesquisa. Muitas universidades possuem coleções nos seus centros acadêmicos para usá-las nas aulas práticas. Por exemplo: as faculdades de Medicina, Biologia, Odontologia, Geologia e outras áreas ligadas às ciências da terra possuem acervos que vão desde esqueletos humanos até espécimes de animais, plantas e minerais. O Museu da Energia Nuclear (Recife) é mantido pela Universidade Federal de Pernambuco. A Estação Ciência é ligada à Universidade de São Paulo.

Também existem os centros de referência, que são instituições especializadas na pesquisa de assuntos ou áreas específicas do conhecimento. Por exemplo: o Museu da Vida é ligado ao Instituto Oswaldo Cruz (RJ), que é um centro de referência na pesquisa biomédica. Há também os centros culturais privados que se especializaram em reunir, conservar e disponibilizar coleções específicas, geralmente ligada a artes plásticas e outras expressões culturais. O Instituto Moreira Salles (RJ, MG e SP) especializou-se em conservar e pesquisar acervos ligados à fotografia e à música popular brasileira. Todas essas instituições possuem sites, bibliotecas e laboratórios que podem ser visitados e usados para pesquisa. Por outro lado, muitos museus são localizados nos próprios prédios e lugares onde os acontecimentos ocorreram. As cidades históricas e os ambientes naturais também são uma boa forma de se ter contato com o espaço real e com as realidades. Visitar tais espaços permite trocar experiências e adquirir conhecimentos para a formação de pessoas capazes de interferir no presente. Além de promover a interação social, ampliam a observação, a percepção e a crítica, enriquecendo todo o processo de aprendizado. Portanto, visitar cidades históricas é uma forma de estabelecer contato direto com os ambientes onde os fatos ocorreram, favorecendo a observação, a percepção, a reflexão e a crítica.

 

Resumo da Aula 07 – Equipe Técnica de Museus

A ciência museológica atua sobre os métodos de seleção, conservação e pesquisa de objetos que possuam significados considerados importantes para os grupos sociais. Então, pode-se dizer que a museologia é um campo para profissionais que desejam trabalhar com a comunicação através dos objetos e acervos. Ou seja, trabalhar na seleção, restauração e conservação de objetos, pesquisa de acervos, elaboração de publicações, entre outros. O profissional de museu, seja de qualquer área, mas que atue no campo museológico, é legalmente regulamentado desde 1984. Seus direitos são preservados através dos Conselhos Regionais (COREM) e do Conselho Federal de Museologia (COFEM). As equipes que trabalham em museus são constituídas por profissionais de diversas formações, que atuam em áreas distintas: áreas de administração e documentação, historiadores, museólogos, educadores, arqueólogos, antropólogos, restauradores, designers, comunicadores e arquitetos. Dependendo do tipo de projeto, há profissionais de muitas outras áreas, formando uma equipe multidisciplinar.

Inicialmente, para se conceber uma exposição ou um evento e decidir sobre o seu tema e como abordá-lo, a direção do museu se reúne com o grupo de especialistas “da casa” para analisar a sua viabilidade. Nessa fase, são analisados: os recursos disponíveis (financeiros, materiais, etc), a importância do tema, a maneira para abordá-lo aos públicos que se quer atingir, se está de acordo com a ética, os objetivos e resultados que se quer alcançar. Além de riscos, condições de segurança, patrocinadores, entre outros. Depois vem as pesquisas.

Produzir um evento exige o envolvimento de toda a equipe do museu. As pesquisas iniciais normalmente são realizadas por museólogos, arqueólogos, etnólogos, biólogos, geógrafos e historiadores. Em seguida vem os educadores, museólogos, conservadores, programadores virtuais, comunicadores, arquitetos, designers, cenógrafos, cenotécnicos, aderecistas, artistas e outros. Tais profissionais serão precisos dependendo do tema a ser abordado. Durante o evento, atuam os seguranças, os monitores e assessores de imprensa. No final, é feita uma avaliação da atuação de cada uma das áreas envolvidas, além dos resultados produzidos sobre o público.

Diferentemente dos outros profissionais, as atenções do museólogo estão voltadas para a comunicação museológica. Por isso, ele se torna uma figura central como coordenador dessa grande equipe. Ele coordena os interesses de todos os profissionais em relação às expectativas do público e da própria instituição e seus parceiros. Ou seja, o museólogo atua simultaneamente como coordenador e comunicador. É ele quem seleciona os objetos do acervo do museu e atua em equipe. A relação que o público estabelece com os objetos, com os acervos e com a forma como eles são apresentados estimula a reflexão sobre o seu papel na sociedade. O museu torna-se um canal de comunicação e espaço de debate de temas importantes selecionados por diversos profissionais a partir de pesquisas realizadas sobre as demandas da sociedade.

O designer, o arquiteto e o próprio museólogo são os profissionais que dão destaque aos objetos e os inserem na cena expositiva, associando-os ao enunciado central até o seu desenvolvimento conceitual. Tais profissionais devem saber explorar criativamente o lado sensorial do visitante. Para isso, usam diversos recursos: cores, sons, luzes, temperaturas, aromas, etc., construindo um ambiente ao mesmo tempo agradável e harmonioso entre a forma e o conteúdo.

O papel do educador define os objetivos educacionais de uma mostra e as estratégias didático-pedagógicas a serem aplicadas. Para isso, ele pesquisa as reações dos visitantes diante de determinadas situações expográficas. Por trabalhar com estudantes, o educador entende o espaço expositivo como uma grande sala de aulas interativas. Atualmente, os programas educativos de museus, centro culturais e de memória são desenvolvidos por empresas especializadas, contratadas periodicamente através de editais.

Geralmente a instituição define quais tipos de público quer atingir. É um trabalho de inclusão social que requer uma pesquisa prévia de público. Por exemplo: uma amostra que quer receber deficientes visuais, crianças ou pessoas da terceira idade que necessitam de recursos especiais. Desse modo, os objetos devem ser escolhidos e dispostos de maneira conveniente, e o tema explicado de modo a favorecer os sentidos que faltam nesses públicos, para que a experiência seja a mais interativa possível. No caso dos deficientes visuais, devem explorar o tato, a textura, os aromas e os sons, e os textos em braile ou narrados por um monitor/gravação. Para os deficientes auditivos, é necessário o uso de Libras. Para as crianças, um tema deve ser apresentado através de jogos e brincadeiras. Para as pessoas de terceira idade, os textos devem ser em letras maiores, bem visíveis, entre outros. A qualidade de uma amostra é medida pela sua capacidade de acolhimento. O educador, o designer e o museólogo são profissionais fundamentais na construção da experiência criativa do público. Portanto, os profissionais que atuam em museus devem possuir conhecimento multidisciplinar.

Ao conservador cabe a tarefa de verificar as características do meio físico e as condições em que os objetos ficarão expostos, e realizar as ações de controle ambiental. A segurança é um aspecto fundamental para os museus e os acervos, seja pela responsabilidade de guardar e conservar objetos valiosos e frágeis, seja pelo risco de manipular, transportar e expor esses objetos em locais para públicos diferenciados. Para transportar e expor objetos raros e de valor é exigido um seguro contra danos de diversas naturezas, desde incêndio e furto até catástrofes naturais. Os valores desses seguros são expressivos. Já o historiador atua desde a concepção até as pesquisas de vários tipos que são necessárias para se realizar uma ação museológica. Em todos os segmentos do museu, o historiador estará presente para documentar todas as fases do projeto e comentar os seus resultados na perspectiva sócio-histórica daquele momento, ou seja, vai criticar a importância daquela ação sobre a sociedade na atualidade e as transformações que produziu o momento histórico presente. Para o historiador, o museu é o mundo.

 

Resumo da Aula 08 – Principais Conceitos Usados na Museologia

O objeto museológico é o objeto institucionalizado, isto é, musealizado. É aquele que é selecionado para integrar o acervo de um museu. Tais objetos não são neutros, e possuem um significado, um sentido simbólico, afetivo e informacional. Essa definição de objeto museológico remete ao conceito de musealização, ou seja, são valorizados como documentos e selecionados para provocar o confronto do homem com a sua realidade. Este confronto é fabricado no cenário museológico para ser pensado, discutido e entendido pelas pessoas. Por outro lado, é necessário que os museus não sejam usados como instrumentos de manipulação, pois o exercício da cidadania e do livre pensamento crítico é a finalidade almejada pela disciplina museológica. Os objetos museológicos devem ser preservados e usados pela sociedade como referências para refletir e agir sobre a realidade, pois a (re)construção da identidade cultural de um povo é baseada nas reflexões que esse povo faz sobre suas realidades, a partir do contato com o seu patrimônio cultural.

O fato museológico (ou museal) estabelece a relação entre o homem e o objeto em um cenário expositivo ou natural. A exposição também procede de uma seleção prévia de determinados objetos, tanto pelos valores que eles representam como pelo que se quer questionar sobre esses valores. O objeto não significa apenas o objeto físico, mas o conjunto das expressões que formam o patrimônio cultural, ou seja, as danças, a gastronomia, a literatura, a natureza, entre outros. São todas essas linguagens faladas, escritas, representadas que amplificam o sentido da palavra objeto, e que no seu conjunto constituem um acervo patrimonial. Então, o patrimônio cultural é formado pelo conjunto de objetos físicos (materiais), simbólicos (imateriais) e naturais (ambientes e lugares), e o fato museológico é o resultado do encontro do homem com esse patrimônio. Nos museus são mostrados em um cenário expositivo para provocar esse encontro do homem com a sua realidade. Nos ecomuseus, o patrimônio é a própria natureza, e o cenário expositivo é a própria paisagem. Nos museus comunitários, o patrimônio pode ser uma pessoa viva a quem foi atribuído um sentido, porque ela exprime a cultura daquele grupo.

A musealização é um dos conceitos-chave da ciência museológica, e é através dessa noção que se entende o valor dado aos objetos, isto é, pela sua capacidade de exprimir, significar, dar sentido. É um processo que se inicia com a seleção de um objeto pelo olhar museológico sobre as coisas materiais, naturais ou simbólicas, e a capacidade de perceber os sentidos que esse objeto pode possuir para a sociedade como um todo. O ato de musealizar considera a importância da informação trazida por eles em termos de documentalidade, testemunhalidade e fidelidade, além do seu poder de “questionar” para incitar as pessoas a refletirem e agirem sobre as suas realidades atuais. Resumindo, a musealização é um processo que integra a seleção, a preservação e a comunicação. Entretanto, o ato de musealizar um determinado objeto também pode conter uma intenção ideológica, pois é um processo seletivo impregnado de informações vinculadas a valores socioculturais que se quer transmitir para perpetuá-los. Em síntese, a musealização é um processo que realiza uma série de ações sobre os objetos: aquisição, conservação, catalogação, pesquisa e comunicação. Desse modo, pode-se musealizar os objetos por suas qualidades históricas, antropológicas, sociológicas, técnicas, artísticas, econômicas, etc. É daí que o conceito de musealização se imbrica com a noção de acervo e surgem novos conceitos, como os de “patrimônio comunitário”, “patrimônio integral” e “referência patrimonial”.

O patrimônio comunitário é o conjunto de bens partilhados por um grupo de pessoas instaladas em um espaço físico delimitado, e que ao longo do tempo criam hábitos próprios cuja preservação é importante para a identidade cultural daquele grupo. O patrimônio integral é o conjunto de bens naturais, materiais e imateriais que deve ser preservado para a integridade dos seres vivos. A natureza, o ar, a água e os valores universais como a ética, a justiça e a paz são bens patrimoniais integrais. Já a referência patrimonial é um elemento que pode ser um objeto ou uma expressão da cultura, ligado a um conjunto patrimonial maior e que pode representá-lo. Tais conceitos levaram à criação de vários tipos de museus: ecomuseus, museus de cidade, museus comunitários, museus de bairro, etc. Cada um com seus objetivos de desafios metodológicos de construir a relação entre o homem e o objeto.

 

Resumo da Aula 09 – Museologia: Principais Marcos Teóricos

Século XV: objetos raros e exóticos eram selecionados por critérios puramente pessoais e guardados em locais chamados de “gabinetes de curiosidades”.

Século XVI: a partir do Renascimento foram agregados aos objetos, além dos valores estéticos, monetários e, também, o valor histórico. Era o período da Revolução Comercial.

Séculos XVII e XVIII: com o advento da Revolução Científica, os objetos passaram a ser selecionados também pelo seu caráter científico, em geral ligados à História natural e cultural do Novo Mundo. Porém, foi durante a expansão imperialista europeia que os primeiros museus criados no século XVIII integraram às suas coleções, objetos que interessavam mais à pesquisa científica. Daí em diante, os museus passaram a ser abertos ao público e tornaram-se centros de produção de conhecimento, principalmente para a História Natural e para a Antropologia. Desde então, os objetos deixaram de ser coletados somente pelo seu caráter científico e passaram a ser também selecionados e exibidos para ilustrar aquele período histórico, como símbolos de riqueza e domínio europeu sobre o mundo.

Século XIX: as exposições foram marcadas por uma forma enciclopédica de apresentar as coleções.

Século XX: ainda que os museus tenham passado a estar abertos ao público e voltados para a divulgação de conhecimento, somente no início do século XX esse propósito foi ampliado e organizado como uma ação efetiva, especialmente na França, para depois ser copiado por outros países. Portanto, o resultado prático desse primeiro pensar museológico foi a criação de uma pedagogia museal. É dessa época em diante que a Museologia passa a ser epistemologicamente pensada, isto é, pensada de uma forma organizada, ordenada. A Museologia passa a existir de fato como ciência. Mas ainda nessa fase, persistia um problema: como e o que exibir nas exposições ainda era decidido por um pequeno número de especialistas que não consideravam o olhar público. Não havia diálogo na comunicação museológica. O público não interagia com a mostra. E os museus brasileiros seguiram esse mesmo modelo.

No Brasil, os museus de ciência foram os primeiros a receber regularmente grupos de estudantes e escolas. Por isso, foram os pioneiros na criação de serviços de difusão educativa para a divulgação dos resultados das suas pesquisas para os jovens e os leigos através da linguagem mais acessíveis. O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi o primeiro a criar uma área de difusão educativa para transmitir seus estudos de Antropologia e História Natural. Em seguida foi o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Museu Paulista, o primeiro estudava a natureza amazônica e o segundo, também estudava a História Natural do Brasil e outros países da América do Sul. O Butantã em São Paulo e Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, também seguiram os mesmos passos.

Sendo assim, as primeiras questões pensadas pela ciência museológica foram a recepção de público e a transmissão de conhecimento para públicos constituídos por não especialistas. Foi somente na década de 1970 que começaram a surgir os chamados “museus vivos” ou “interativos”. No início, eram grandes aquários e zoológicos onde os animais ficavam soltos em seu habitat natural, e as visitas eram guiadas por biólogos e oceanógrafos que explicavam ao público os conhecimentos sobre a fauna e a flora. Como exemplo temos o Simba Safari e Estação Ciência em São Paulo, o Museu da Vida no Rio de Janeiro, e o Projeto Tamar na Bahia. Tais iniciativas trouxeram para os museus a interatividade, e mudaram o conceito de musealização.

A história da Museologia também teve declarações importantes. São eles:

  • Declaração do Rio de Janeiro (Brasil – 1958): destacou a importância dos museus como recursos educativos, trazendo um novo entendimento ao objeto museológico mais valorizado no seu conjunto com outros objetos do que pelo seu valor isolado;
  • A Carta de Veneza (Itália – 1964): ampliaram a noção do patrimônio, incorporando os bens naturais e a arquitetura das cidades como referências patrimoniais. Também trouxe a pesquisa sobre o relacionamento das pessoas com a natureza e com as cidades. O objetivo foi ampliar e democratizar o conhecimento sobre o patrimônio. Os parques naturais, as praças e prédios passaram a ser considerados referências patrimoniais, e com o tempo tornaram-se mais acessíveis à população;
  • 9a Conferência do Conselho Internacional de Museus – ICOM (França – 1971): mostrou a necessidade de dar aos museus uma dinâmica mais adequada. Nessa época, a sociedade pressionava por mais liberdade de expressão. Foi pela primeira vez apresentado a ideia de uma Museologia comprometida com as questões políticas da época, a “Nova Museologia”;
  • Mesa Redonda de Santiago (Chile – 1972): esse encontro, com influência da UNESCO, produziu um documento considerado dos mais importantes para a Museologia, que apela para uma ação museológica comprometida com a sociedade, com a economia, com a educação e política. A noção de patrimônio foi ampliada para objetos e monumentos a serem preservados em seu próprio local de origem. Também surgiu a ideia de patrimônio cultural da humanidade, aplicado para cidades, monumentos e bens naturais;
  • Declaração de Quebec (Canadá – 1984): a “Nova Museologia” é reconhecida e, como consequência, é criado no ano seguinte o Movimento Internacional para uma Nova Museologia (MINOM). É também lançado o conceito de ecomuseu, dando origem aos museus comunitários e centros de referência;
  • Declaração de Oaxtepec (México – 1984): é lançado o conceito de ecodesenvolvimento, que consiste em promover a emancipação cultural, econômica, social e ambiental de populações instaladas em locais específicos e delimitados;
  • Declaração de Caracas (Venezuela – 1992): a partir de 1990, diversas instâncias governamentais e não governamentais passaram a fazer parte das discussões museológicas. A Declaração de Caracas, junto com a Eco-92 (RJ), atualizou os conceitos de patrimônio integral e museu integral propostos na Mesa de Santiago (1972). A ideia de patrimônio mundial da humanidade se fortaleceu, e as ações dos profissionais passaram a ser reconhecidas pelos governos. E, também, surge a noção de Pedagogia do Patrimônio e de Tesouros Humanos Vivos;

A Pedagogia do Patrimônio abrange todas as ações pedagógicas fundamentadas sobre o patrimônio cultural. Ou seja, o patrimônio cultural pode ser ensinado através de qualquer método, programa ou disciplina, e esse ensino pode ser destinado a alunos de qualquer nível escolar ou social. Os Tesouros Humanos Vivos (ou Patrimônio Cultural Vivo) mantém fortes ligações com o passado, e reconhece a fragilidade de várias expressões culturais que estavam em vias de extinção. Assim, para proteger essas referências culturais, a Declaração de Caracas propôs o reconhecimento dos Tesouros Humanos Vivos.

A Política Nacional de Museus (PNM) é um documento emitido pelo Ministério da Cultura em 2003, e o seu objetivo é democratizar os museus. Tal postura defrontou os museus brasileiros com os seguintes desafios: Promover e incentivar a criação das disciplinas para debater o patrimônio cultural e proteger a memória coletiva; Criar e implantar sistemas para identificar e classificar Tesouros Humanos Vivos; Estudar, refletir discutir e apresentar modos e estratégias para que os museus possam se aproximar das comunidades e suas expressões culturais.

 

Resumo da Aula 10 – Curadoria em Museus

A palavra “curador” vem da expressão latina tutor, e significa “aquele que cuida”. Nos museus, os curadores são responsáveis pela administração de uma exposição em todas as suas fases e níveis. Geralmente são profundos conhecedores do tema abordado ou, conforme o tipo da mostra, especialistas em História, Filosofia ou Estética. Os objetos musealizados são escolhidos pelo curador, ou por uma equipe de curadores, a partir dos seus significados e capacidades expressivas. As demais responsabilidades e tarefas administrativas são distribuídas, as vezes, pelo próprio curador. Este foco na interpretação explica por que a curadoria é sempre considerada o coração de uma exposição museológica. Mesmo naquelas exposições em que não existe uma coleção a ser mostrada – centros de ciências ou de museus para crianças -, é necessário interpretar a pesquisa feita pela curadoria, pois é através dela que será elaborada a narrativa do conteúdo que a exposição irá apresentar ao público. Quando não há um curador, normalmente são os museólogos ligados à própria instituição que se incubem dessa responsabilidade. Há também os “curadores convidados” como artistas, educadores, especialistas, colecionadores, entre outros. Esta característica não altera o caráter fundamental da curadoria. Seja individual ou em equipe, é uma função estratégica que exige esforço de pesquisa e deve ser bem executada.

No planejamento de uma exposição museológica, a curadoria necessita fazer: idealizar e formular o conceito da exposição; pesquisar o tema; analisar e selecionar os objetos; documentar os objetos selecionados; preparar e ordenar as legendas, os textos, os gráficos e demais instrumentos; avaliar o resultado. Pois a ideia central de uma exposição é a estratégia criada pela curadoria para abordar uma questão e propor uma reflexão. Os objetos são os principais ingredientes de uma exposição, e o modo de distribuí-los no espaço físico é a primeira preocupação dos organizadores de uma mostra. Em uma mostra que apela para o sentido estético, a reação mais comum é a simples contemplação. Este tipo de mostra propõe uma experiência mais orientada às emoções e sentimentos. Nas exposições de tipo histórico, os objetos são organizados dentro de vitrines ou inseridos em dioramas (representação de uma cena), ou ainda dispostos em galerias usadas para auxiliar a compreensão de tema ou relacioná-los entre si dentro do contexto. As exposições do tipo exploração apresentam temas arqueológicos ou de história natural. A disposição do acervo segue uma ordem cronológica, onde toda a superfície do piso e da parede é utilizada para exibi-lo. Já as exposições interativas incluem experimentos, simulações e demonstrações ao vivo. Geralmente são apresentadas em museus de ciência e tecnologia, salas multimídia, aquários, planetários e parques temáticos.

 

Bons estudos! 🙂

Marcell

Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar o resumo das aulas da disciplina História do Brasil Contemporâneo do 6o período do curso de Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – Período Getulista

Em quase todas as capitais brasileiras há ruas, avenidas ou praças em homenagem a Getúlio Vargas. No Rio de Janeiro, por exemplo, existe a Avenida Getúlio Vargas, inaugurada pelo próprio Getúlio em 1942. Já São Paulo, a maior cidade da América Latina, é a grande exceção. Afinal, não apresenta nenhuma homenagem ao estadista brasileiro. Por outro lado, o centro da cidade é cortado pela Av. Nove de Julho, que é a data onde se comemora a Revolução Constitucionalista, sendo também um dos feriados paulistas.

Em 1930, tropas gaúchas que apoiaram um Golpe de Estado liderado por Getúlio Vargas chegaram na Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro, que ainda era a capital da República. Os caras tiveram a proeza de amarrar seus cavalos em um obelisco da região. Devido a importância que o lugar tinha – os símbolos nacionais espalhados por todos os cantos, o prédio do Senado e da Câmara, Teatro Municipal, Biblioteca e Museu Nacional, entre outros -, o gesto das tropas de Getúlio foi considerado um escândalo por uns e uma demonstração de coragem por outros. A presença dos cavalos amarrados naquele obelisco indicava que os gaúchos chegaram para dominar. Mas para que o Golpe se concretizasse, Getúlio precisava conseguir a deposição do presidente Washington Luís.

Vale ressaltar que São Paulo e Minas Gerais eram os maiores produtores de café do momento; daí a importância de garantir que a Presidência fosse sempre ocupada por políticos desses estados. Para as eleições de 1930, Washington Luís quebrou o protocolo ao apoiar o candidato paulistano Júlio Prestes, em vez de apoiar um candidato mineiro. Antônio Carlos de Andrada, governador de Minas, contrariado, juntou-se a outros políticos descontentes como João Pessoa, da Paraíba, e Getúlio Vargas, do Rio Grande do Sul. Juntos, formaram a Aliança Liberal, que escolheu Vargas para concorrer às eleições. Mesmo com a derrota, a Aliança Liberal organizou um movimento revolucionário com o objetivo de seguir até a capital para tomar o poder. De fato, o candidato eleito por meios fraudulentos, Júlio Prestes, sequer tomaria a posse. E assim, os gaúchos amarraram seus cavalos no obelisco desrespeitando todos os símbolos de poder que se encontravam à sua volta.

Antes disso, na década de 1920, o Brasil passava por uma insatisfação devido ao movimento chamado Tenentismo, onde os jovens do Exército (os tenentes) se destacavam procurando meios em moralizar a política e mudar os rumos do Brasil. Ao mesmo tempo, a Coluna Prestes, movimento liderado por Luís Carlos Prestes, saiu do Rio Grande do Sul em 1922, percorrendo o interior do país, apontando as misérias e acusando a exploração dos mais pobres pelos governantes. Outros insatisfeitos eram os socialistas e os comunistas que, animados com a Revolução Russa de 1917, buscavam também tomar o poder no Brasil. Entre os trabalhadores, a atuação dos socialistas e comunistas foram destacadas pela greve, manifestações públicas e conflitos com a polícia. Os anarquistas também estavam juntos pela causa.

No plano cultural, criadores de diversas áreas (pintores, escultores, músicos, etc) buscaram refletir sobre uma nova identidade para a arte brasileira e para o próprio Brasil. Tais movimentos, conhecidos como modernismos, procuravam livrar a arte dos parâmetros acadêmicos, considerados ultrapassados. Porém, as propostas modernistas foram várias e ocorreram em diversos lugares no Brasil.

Além da política e da cultura, a economia também deu sua contribuição para o Golpe de 1930. Nessa época, a economia brasileira era baseada no café. Com a quebra da Bolsa de Nova York em 1929, o principal produto de exportação brasileiro sofreu bastante. As oligarquias locais, sustentadas pelo café, entraram em crise. Portanto, haviam duas opções: solucionar o problema ou abrir mão do poder. Então… Getúlio Vargas chegou e amarrou seu cavalo no obelisco.

Os primeiros anos do Governo Provisório (1930-34) de Vargas foram marcadas por intensas negociações com os grupos que desejavam uma parte do poder. As oligarquias, apesar de afastadas do controle direto, ainda tinham algum poder de decisão. O Integralismo de Plínio Salgado, assemelha-se, nas ideias e nos rituais, às ideologias italianas e alemãs. Por outro lado, os industriais lutavam para que o setor tivesse mais investimentos do que a agropecuária. Outro grupo de pressão era da classe média, que vinha se manifestando ao longo da década de 1920, o Tenentismo. Enquanto os setores da Esquerda, como os socialistas, comunistas e anarquistas, atuavam no controle da organização dos trabalhadores. O pessoal da direita se organizava nos moldes nazifascistas (presentes na Europa desde a década de 1920).

O trabalhismo foi uma das características mais fortes da Era Vargas devido a atuação dos grupos que estremeciam o Brasil na década de 1920. Socialistas e comunistas conjugavam a atuação política institucional (partidos e eleições), por exemplo, ao movimento de mobilização e organização sindical. O PCB (Partido Comunista Brasileiro) é hoje o partido mais antigo do Brasil, tendo sido fundado em 1922. Os anarquistas eram contra qualquer forma de organização política associada ao poder. Preferiam privilegiar a organização sindical e suas atividades. Também contrários à organização partidária, estavam os cooperativistas. Porém, este grupo não conseguia dialogar com os anarquistas, pois propunham uma união de forças entre trabalhadores, empregadores e Estado. Logo mais pra frente, os cooperativistas se aliaram aos socialistas. Deste modo, no fim dos anos 1920, a disputa pela preferência dos trabalhadores tendeu a oscilar: de um lado os cooperativistas e os comunistas; do outro, os comunistas.

Com a chegada de Getúlio Vargas, os cooperativistas ganharam força. A criação do Ministério do Trabalho foi fundamental, garantindo a criação de leis de proteção ao trabalhador, ao mesmo tempo em que zelava pela fiscalização dos patrões. A sindicalização não era obrigatória, mas compulsória. Somente os trabalhadores sindicalizados teriam acesso aos direitos que o governo concedia e, também, só os sindicatos legalizados davam acesso a tais direitos. Por outro lado, era necessário abrir mão da liberdade de expressão política e de livre associação, aceitando o sindicalismo nos termos impostos pelo governo. Em troca de alguns direitos, os trabalhadores tiveram sua capacidade de luta e contestações enfraquecidas.

Em 1932, dois anos depois de ter tomado o poder, Getúlio ainda não havia cumprido o prometido, e permanecia no poder sem uma nova Constituição. Isso não agradava em nada aos setores que haviam sido afastados, os cafeicultores que passaram a se manifestarem na Revolução Constitucionalista. Por um lado, a ausência de uma Constituição impedia que os cafeicultores pudessem retomar o poder legalmente. Por outro, esta ausência da Constituição era uma forma de Getúlio continuar ocupando o poder por um tempo indeterminado. Então, São Paulo, um dos maiores produtores de café da época, deu origem a uma revolta contra essa situação, que foi a Revolução Constitucionalista – iniciada em 9 de julho e se estendendo até outubro daquele ano. Também haviam outros grupos que lutavam pela separação de São Paulo em uma República independente, e haviam outros que desejavam a organização do país em forma de Confederação, com maior autonomia para os estados. Tais eventos se constituem, na memória paulista, como um ponto marcante de sua identidade. Para todos aqueles que participaram dos eventos, a Revolução representou uma defesa corajosa da democracia contra o abuso de poder de Getúlio Vargas. Não é à toa que São Paulo se configura a única capital brasileira a não cultuar a memória de Vargas.

A Constituição prometida por Vargas em 1930 só seria promulgada, por conta das pressões da Revolução Constitucionalista, em 15 de julho de 1934. Foi uma vitória para a democracia, pois garantiu muitos direitos que a de 1891 (Primeira Constituição) ignorava. Além disso, a Carta de 1934 garantiu o voto secreto, estendeu o direito de votos à mulheres e criou a Justiça do Trabalho. Celina Guimarães Viana foi considerada a primeira eleitora do Brasil. Por outro lado, nos extremos deste contexto, haviam forças de esquerda e de direita disputando. Luis Carlos Prestes, ex-líder tenentista convertido ao comunismo, organizou a Aliança Nacional Libertadora ao lado dos socialistas. Do outro lado, estão os setores mais conservadores, aglutinados em torno de Plínio Salgado que fundou a Ação Integralista Brasileira, e havia se constituído nos moldes dos partidos nazifascistas europeus.

No ano de 1937, os Integralistas criaram um falso plano comunista, que teria como objetivo tomar o poder: o Plano Cohen. Apesar de falso, foi o que justificou Getúlio a dar um novo Golpe, instituindo o Estado Novo. A Constituição de 1934 e as eleições para 1938 foram suspensas, o Congresso foi fechado e Vargas assumiu o caráter ditatorial de seu governo. O Estado Novo, como a própria expressão indica, foi uma tentativa de criar um país renovado, como se tudo estivesse começando do zero.

 

Resumo da Aula 02 – Estado Novo

Como o próprio nome diz, o Estado Novo (1937-1945) foi um momento de renovação. O país passou por um período de revisão, modernizando diversos setores da sociedade. Contudo, nem todos os aspectos relacionados ao Estado Novo podem ser associados a valores positivos, como modernidade e renovação. Existe outro lado deste período, bem mais sombrio, e que muitos prefeririam esquecer.

Nos setores arquitetônicos, a sede do Ministério da Educação e Saúde representa um aspecto renovador e ousado do Estado Novo. Entre os criadores estavam Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, que, mais tarde, idealizariam Brasília, a nova capital do país em 1960. Além disso, o Palácio detém o título de primeiro edifício modernista da América Latina. Por outro lado, testemunha um aspecto mais sombrio do Estado Novo: sua arquitetura foi inspirada nos novos edifícios mandados construir por Hitler, em Berlim.

Getúlio, na fase inicial do Estado Novo, se identificava com o nazifascismo. O termo “Estado Novo” foi copiado do regime instaurado pelo líder autoritário Salazar, que governou Portugal entre 1933 e 1968. O Estado Novo português só terminaria em 1975. Além disso, na época que antecede a Segunda Guerra Mundial, os governos neofascistas ainda não eram mal vistos. Ao contrário, também representavam certa modernidade. A construção do Estado Novo resultou na criação da Constituição de 1937, no momento de renovação, de imensa modernidade, mas também, foi um período de conservadorismo, autoritarismo e violência. Apesar da Constituição ter sido criada, o fato é que Getúlio não faria muito uso dela durante o período ditatorial de seu governo, preferindo administrar através de decretos-lei. A polícia política, criada para detectar, prender e torturar os opositores do governo, foi logo posta em ação. Luís Carlos Prestes, líder da Aliança Nacional Libertadora, ficou encarcerado durante todo o Estado Novo. Sua companheira, Olga Benário, uma judia alemã, foi exilada para seu país de origem, em um momento em que Hitler estava no poder. Como milhões de judeus, Olga foi morta em campos de extermínio durante a II Guerra Mundial. O escritor Graciliano Ramos, também preso, escreveu o livro Memórias do Cárcere durante o período.

Além disso, a própria Ação Integralista Brasileira, a principal opositora dos comunistas, também passou a ser perseguida por Vargas. Aliás, os radicais da extrema-direita foram os únicos a tentar um contragolpe, que ficou conhecido como Levante Integralista, em 1938, reagindo ao fechamento de sua organização. Desse modo, mais adequado do que imaginar que o Estado Novo tenha sido uma vitória da direita sobre a esquerda, é pensar que foi a busca de uma terceira via. Os objetivos de Vargas em suas primeiras ações, além do aumento de seu poder, era neutralizar as ideologias. Ou seja, nem tanto à esquerda e nem tanto à direita, mas adotando o que cada um teria de bom para oferecer. De um lado, o apoio aos trabalhadores. De outro, a centralização. Assim que instituiu o Estado Novo, Vargas fechou o Congresso e substituiu os governadores dos estados por interventores de sua confiança, que receberam bastante autonomia para agir.

Na questão cultural, em uma época anterior à TV e Internet, jornais e revistas ainda eram meios de divulgação centrais. O rádio, que chegara no Brasil nos anos 1920, era uma febre. Durante o governo Vargas, ele se desenvolveu em todos os lugares do Brasil. Em cidades pequenas, a transmissão era feita através de alto-falantes, em praça pública. Outro meio de comunicação era o cinema, principalmente por conta dos cinejornais apresentados antes da atração principal. As salas de exibição eram muito mais numerosas do que hoje em dia. E o Estado Novo utilizou e controlou todos esses meios, sendo por isso considerado um Estado moderno, que fazia uso da tecnologia mais avançada em seu tempo. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em 1939, teve como objetivo em investir propaganda governamental, além de controlar, através da Censura, o que se dizia sobre Vargas e o Estado Novo. O DIP também tinha ligações com o Ministério da Educação e Saúde, que se responsabilizava pelas funções educativas nos meios de comunicação. A atuação da DIP levou a Radio Nacional a ser considerada como a primeira emissora com transmissão unificada para todo o território brasileiro. Nesta época, os cantores de rádio eram como atores de cinema e telenovela: estrelas idolatradas pelo público, com fã-clubes entre outros. Um outro bom exemplo da atuação do DIP é o programa de rádio A Hora do Brasil, que existe ainda hoje, mas com o nome de A Voz do Brasil.

Na área da educação, Capanema discordava de Anísio Teixeira, um teórico da Escola Nova. Anísio teve a oportunidade de reformular a rede educacional dos estados da Bahia e do Rio de Janeiro. Após o Estado Novo, Anísio passou a ser perseguido pelo governo, acusado de ser comunista, tendo que deixar o Rio de Janeiro, onde atuava. Por outro lado, Capanema recorreu a um equilíbrio entre suas ideias e a de Anísio. O Estado passou a bancar a educação que levou a criação da Universidade do Brasil, hoje UFRJ. No ensino secundário, foi privilegiada a educação técnica, voltada à formação de profissionais para a indústria e o comércio. Já na área da economia, o Estado Novo foi através da proteção do produto nacional, criando condições para o desenvolvimento industrial e agrícola. O café seguia sendo o principal produto de exportação, mas a crise de 1929 ainda mostrava seus efeitos. A solução foi buscar novos meios na área da agricultura, como o açúcar (que se desdobrava também no álcool). Mas o grande destaque foi a indústria. O Estado Novo passou a investir em indústrias de base, criando condições para o investimento de particulares. Foi criada a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Companhia Vale do Rio Doce (1942), Campanha Nacional de Álcalis (1943) e a Hidrelétrica de São Francisco (1945).

Por outro lado, a II Guerra Mundial colaborou bastante por dois motivos: 1 – As indústrias europeias se voltaram para os produtos de guerra, deixando o mercado interno brasileiro livre. / 2 – Os EUA decidiu estreitar laços concedendo empréstimos e facilitando o pagamento da dívida externa. Além disso, quando a II Guerra Mundial foi declarada, em 1939, Vargas tendia para o lado do Eixo, apoiando a Alemanha de Hitler. Tal escolha seria um grande golpe para os EUA que tendiam apoiar os Aliados. Por esse motivo, houve muitos esforços diplomáticos para que Vargas mudasse de ideia, incluindo a facilitação de pagar as dívidas externas e um empréstimo para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional. Então, Vargas escolheu apoiar EUA mandando tropas para a Europa, sobretudo para a Itália. Com o fim da guerra, Getúlio ficou em uma posição política delicada. Aqueles que haviam aceitado o Estado autoritário em nome da paz e da segurança já não percebiam mais a utilidade dessa forma de governo, acreditando que o país poderia continuar a se desenvolver de forma democrática. Diante das pressões, Getúlio convocou eleições e concedeu anistia aos presos políticos, permitindo a organização de partidos. O PCB, com Luís Carlos Prestes livre, voltou a atuar. Foram criados: a União Democrática Nacional (UDN), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Democrático (PSB). As massas se agitaram em prol da continuidade de Getúlio Vargas no poder, o que ficou conhecido como “Queremismo”, movimento apoiado pelo PTB e pelo PCB.

Antes que Getúlio desse um Golpe novamente, as forças da oposição se uniram, exigindo sua deposição, o que foi alcançado em 29 de outubro de 1945.

 

Resumo da Aula 03 – Populismo

Um dos conceitos mais utilizados para se referir ao Período Democrático (1946-64) é o de populismo. Devido a posição de Getúlio Vargas, alguns autores consideram que o Estado brasileiro pós-1930 é o núcleo inicial do populismo, que teria atingido o auge na década de 1950. O uso do conceito populismo tem sido criticado a partir da década de 1980. O principal foco das críticas é a ideia de que as massas de trabalhadores teria se deixado iludir, sendo manipuladas por seus líderes. O termo populismo deriva de população, tendo também ligações com popular (conhecido, famoso). Logo, o líder populista é aquele que se identifica com a população e, por isso, é reverenciado, causando comoções públicas. No Período Democrático, quase todos os presidentes podem ser considerados líderes populistas: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart (Jango).

O Período Democrático coincide com o início da Guerra Fria. A Guerra Fria envolveu praticamente dodos os países do mundo, embora alguns tenham tentado manter a neutralidade. As duas lideranças eram os EUA (capitalista) e a URSS (socialista), protagonistas na derrota da Alemanha na II Guerra Mundial. Um dos canais utilizados para a disputa era a ameaça mútua através das armas nucleares que, se utilizadas, poderiam gerar uma terceira guerra mundial. Mas como as armas não eram colocadas em ação – e, por isso, não “esquentaram” – a guerra foi assim batizada.

O término do Estado Novo representou o retorno das instituições democráticas ao país. Com a volta do pluripartidarismo, a população brasileira novamente poderia escolher seus representantes. Eurico Gaspar Dutra se candidatou pelo Partido Social Democrático (PSD), associado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Dutra não era carismático como Vargas. Porém, foi beneficiado pelas relações que os partidos tinham com o ex-Presidente. Apesar da promessa de um grande desenvolvimento para o país, no plano econômico o governo foi marcado pela abertura do mercado nacional aos produtos estrangeiros. Tal postura contrariava as propostas de seu partido, e foi responsável pela atração de empresas internacionais que se instalaram aqui. Entre os fatos principais de seu mandato estão:

  • A construção de duas rodovias, uma ligando São Paulo e Rio (Via Dutra), e a outra, o Rio à Bahia;
  • A proibição dos jogos de azar no Brasil, acabando com a tradição dos cassinos. Entre os mais famosos estava a Urca, no Rio de Janeiro, que tinha sido palco de grandes estrelas de 1940, como a Carmem Miranda;
  • A promulgação de nova Constituição, em 1946. A Carta não trazia novidades em relação à de 1934. Mas, entre as garantias institucionais da nova Carta, estava a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, a liberdade de associação, o abrandamento da Censura e a liberdade de manifestação religiosa;

Na eleição de 1950, Vargas chegou mais uma vez. Uma vez eleito, Getúlio procurou realizar uma aliança entre nacionalistas e liberais. Os primeiros, representados pelo PTB e PSD, acreditavam no fechamento da economia e no incentivo da indústria local, sob a tutela do Estado. Os outros, representados pela UDN, acreditavam no oposto: na abertura ao capital estrangeiro e na livre iniciativa, exatamente como Dutra havia feito. A criação da Petrobrás e da Eletrobras representaram a vitória da campanha e da visão do governo. Além disso, o ministro do Trabalho, João Goulart (Jango), propôs um aumento de 100% do salário mínimo, o que desagradou os empregadores e os liberais. Por outro lado, Carlos Lacerda, jornalista e político ligado à UDN, começou uma campanha aguerrida pela deposição de Vargas, tornando-se seu principal adversário político. Em agosto de 1954, houve um atentado frustrado à vida de Lacerda, e o major Vaz, que o acompanhava, acabou morrendo. Diante do incidente, o jornalista passou a acusar o governo pela tentativa de assassinato. A comoção foi imensa, sendo exatamente o que Lacerda precisava para aumentar a pressão contra o governo de Getúlio. No dia 24 de agosto, devido as tamanhas pressões, Vargas se suicidou em seu quarto, no Palácio do Catete. Ele deixou uma Carta Testamento alegando que uma campanha internacional estava armada contra o povo brasileiro, de quem ele era o defensor.

Os anos de 1940 e 1950 também foram marcados pela atuação dos modernistas em diversas áreas. Na pintura e na poesia, surgiu o Movimento Concreto. Em pintura, isto se manifestou pela utilização de figuras geométricas e cores básicas. Na poesia, pela repetição de palavras, com vistas a criar sentidos tanto através dos significados quanto das imagens. Também podemos destacar a fundação dos estúdios de cinema Vera Cruz e do Teatro Brasileiro de Comédia, o Museu de Artes de São Paulo e a primeira emissora de televisão do país – a TV Tupi. Enquanto São Paulo investia em uma arte refinada, o Rio de Janeiro ficava no entretenimento popular, como o teatro revista. Os estúdios Vera Cruz, de São Paulo, procuravam imitar a infraestrutura de Hollywood, produzindo dramas sofisticados. Por isso, foram bastante elogiados e incentivados na década de 1950. Por outro lado, a Atlântida, localizada no Rio e especializada em comédias populares, era muito criticada devido a aparência “boba” e pérolas de humor irônico.

O suicídio de Vargas causou uma comoção nacional. O jornal de Lacerda, Tribuna da Imprensa, foi depredado. O próprio Lacerda teve que se esconder, para não sofrer represálias. As agitações não cessaram logo, havendo muitos rumores de tentativas de golpe por parte da UDN. Por fim, pouco mais de um ano depois, Juscelino Kubitschek (JK) venceu as eleições presidenciais, tendo se candidatado pela coligação PSD-PTB (apoiada por uma frente esquerda). Porém, Carlos Lacerda ataca novamente para impedir a posse de JK, pois este não havia vencido por ampla maioria, o que não era exigido pela Constituição. A intenção golpista de Lacerda, sustentada por parte das Forças Armadas, foi sufocada por um contragolpe do ministro da Guerra, Marechal Lott, em novembro de 1955. Os eventos envolveram bombardeios, navios de guerra e o impeachment de Café Filho. Um estado de sítio se instaurou até a posse de JK, em 31 de janeiro de 1956. Além disso, o filme Rio, 40 Graus (1955), considerado o inaugurador do cinema moderno brasileiro, foi proibido pelo Chefe de Segurança Pública da capital, devido ao envolvimento do cineasta com o PCB, além de filmar favelas cariocas que eram consideradas ofensivas.

Com JK no governo, o slogan de sua campanha era “Cinquenta anos em cinco”, ou seja, 50 anos de progresso em cinco de governo, para tanto, foi elaborado um plano de metas de desenvolvimento, incluindo as áreas de transporte, energia, alimentação, indústria de base e educação. Além disso, JK prometeu construir uma nova capital para o país, a mesma que já constava na Constituição de 1891: Brasília. Então, JK decidiu abrir o país para a entrada de indústrias de produção de bens de consumo, de capital estrangeiro ou misto. O governo de JK facilitou o crédito financiado, incentivando o consumo, para aumentar as nossas reservas de dólar. Foi adotado o famoso “american way of life“, facilitando a compra de eletrodomésticos e de carros. Outra marca de JK é a opção pelo transporte rodoviário. Enquanto outros países contam com uma malha ferroviária bem desenvolvida, incluindo metrôs, o nosso país é atravessado por rodovias. Assim sendo, em 1950, a indústria automobilística lucrou bastante.

Brasília é considerada o grande feito de JK, pois, levando a capital para o interior do país, muitas pessoas passariam a ter que frequentar essa região. Logo, dois objetivos eram atingidos ao mesmo tempo: a ocupação do interior do Brasil e a construção de mais rodovias. Com a construção de Brasília, JK adotou o Modernismo como marca registrada de sua atuação. Por outro lado, sua construção atraiu milhares de trabalhadores pobres, vindos da região nordeste. Esses homens e suas famílias, fugindo da seca e da fome, permaneceram no entorno da capital, com a esperança de conseguir bons empregos. As cidades-satélites em que eles se instalaram logo se tornariam áreas de pobreza extrema. Enfim, poucos itens do Plano de Metas foram atingidos. A inflação e a dívida externa tinham subido. Mas, em 1960, quando a nova capital foi inaugurada, os brasileiros não queriam pensar nisso. JK foi batizado de “Presidente Bossa Nova”, uma referência ao novo ritmo surgido no fim dos anos 1950. Ser “Bossa Nova” significava ser moderno e sofisticado, mas também superficial.

Em 1960, Jânio Quadros foi eleito para a presidência. Embora conservador em termos políticos, Jânio mostrava-se aberto a uma renovação na forma de governar, prometendo “varrer” a corrupção do Brasil. O emblema da campanha era, justamente, uma vassoura de palha. Jânio foi o primeiro a governar em Brasília, embora boa parte da administração nacional ainda continuasse no Rio. Além disso, Jânio tomou decisões um pouco controversas como, por exemplo, a proibição do uso de biquíni nos concursos de Miss. Por outro lado, em plena Guerra Fria, Jânio se aproximou da URSS e de Cuba, recém-convertida ao socialismo. O revolucionário Che Guevara veio a o Brasil receber a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, distinção de honra concedida pelo governo do Brasil a estrangeiros. Este lance desagradou a muitos. E, novamente, Lacerda entra em cena discursando em cadeia nacional, pelo rádio e pela TV, acusando Jânio de golpista no dia 24 de agosto de 1961. Por coincidência, era o mesmo dia em que Getúlio tinha se suicidado. No dia seguinte, Jânio se renunciou.

Devido a renúncia de Jânio, deveria assumir o vice, João Goulart. Mas João Goulart não era visto com bons olhos pelos conservadores da UDN, que o viam como uma ameaça por suas convicções trabalhistas ligadas a linhagem da esquerda. Isso ocorreu desde o governo Vargas, quando era ministro do Trabalho, passando para vice-Presidência durante o governo JK. Para piorar a situação, como parte estratégica diplomática de Jânio, João Goulart estava em visita diplomática à China, um país comunista. Sendo assim, os ministros militares queriam vetar a posse do Presidente. Leonel Brizola, cunhado de Jango, lançou a “Campanha da Legalidade”, convocando a população a lutar pela manutenção das instituições democráticas que garantiam a posse. O Congresso passou a adotar o Parlamentarismo, onde o Presidente não governa, mas, sim, o Primeiro-Ministro. Jango permaneceu no poder, mas não o exerceu de fato até 1963, quando um plebiscito decidiu pela volta ao Presidencialismo. Em seguida, Jango anunciou as Reformas de Base, que englobavam reforma agrária, bancária, tributária e educacional. Em resumo, mostrava-se descaradamente que era um governo de esquerda. O anúncio das reformas veio ao encontro dos jovens intelectuais e artistas que acreditavam em uma revolução socialista no país, e que somente ela poderia corrigir as injustiças sociais. Ao longo do ano de 1963, surgiram algumas rebeliões das Forças Armadas, criando uma situação tensa para o governo. Havia rumores de que Jango preparava um Golpe de esquerda, junto com os baixos escalões das Forças Armadas. Em 13 de março de 1964, ocorreu o Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Cerca de 150 mil pessoas compareceram em apoio ao Presidente.

O Comício da Central foi considerado a gota d’água pelos conservadores, que se articulavam para tirar o Presidente do cargo. Era um conjunto vasto de pessoas e instituições, que se uniram aos militares para arquitetar o Golpe, que chegaria em 1 de abril de 1964. Jango não resistiu. Os brasileiros ainda não sabiam, mas o Período Democrático havia acabado.

 

Resumo da Aula 04 – Imprensa, Democracia e Conflitos Sociais

Certamente, a história da Imprensa no Brasil é bastante diversificada. O Período Democrático (1946-64) foi marcado pela liberdade de associação e direito ao pluripartidarismo mas, por trás disso, estava a perseguição ao comunismo. A imprensa é justamente uma das áreas que nos permitem entender bem esse processo histórico. Estando livres da Censura, jornais e revistas ousaram mais na defesa de opiniões. Por conta disso, o combate político se tratava intensa e explicitamente através desses veículos, que ajudavam a identificar a posição social e o corte ideológico de quem os lia. Já na segunda metade da década, coincidindo com o governo JK, a impressa passou por uma modernização radical. A identidade visual dos veículos foi repensada, havendo maior investimento nas fotografias e na cor. A revista O Cruzeiro foi um marco nessa área, sendo reconhecida pelo design sofisticado. Outro ponto de mutação do período foi a busca da objetividade, quando os jornais passaram a perseguir uma apresentação “neutra” dos fatos, deixando as disputas políticas de lado. Por outro lado, mesmo que os ataques e defesas de cunho político fossem evitados, os jornais não deixaram de ter preferências.

O jornal Última Hora apoiava o Presidente Vargas constantemente, mesmo nos momentos mais difíceis que antecederam o seu suicídio. Contudo, pouco depois de seu lançamento, um escândalo atrapalharia a vida do jornal. Samuel Wainer, dono do Última Hora, foi acusado de receber favores do governo, sobretudo na compra de papel-jornal. Em resumo, o jornal era acusado de ser um órgão oficial do governo Vargas, disfarçado de empresa privada. Logo, uma campanha difamatória foi lançada. A ideia da campanha era expor a má qualidade do jornal. Afinal, ao se evidenciar que o apoiador de Vargas era de baixo nível, o próprio Presidente seria indiretamente atacado.

Desde que lançaram o jornal Tribuna da Imprensa, seu líder, Carlos Lacerda, reforçava, como jornalista, o perfil conservador que tinha como político. E os leitores da Tribuna da Imprensa, em sua grande maioria de classe média e alta, seguiam tal perfil. Ou seja, o conservadorismo era de cunho moral e, também, ideológico. Como exemplo desse posicionamento, vale dizer que a campanha “O petróleo é nosso”, lançado por Vargas, sofreu muitas críticas nas páginas desse jornal. Nesse embate, Getúlio só teve apoio do Ultima Hora. Afinal, quase todos os outros jornais receberam incentivos em dinheiro de empresas norte-americanas para defender o liberalismo e a livre-iniciativa. Por certo, a maior batalha foi o atentado onde Lacerda saiu ferido e o major Vaz, morto. Foi através da Tribuna que Lacerda acusou o Presidente pelo evento, exigindo sua renúncia. Sendo assim, após o suicídio de Vargas, a Tribuna foi atacada por nacionalistas, que chegaram a invadir e depredar sua sede.

Dentre os detentores de grandes redes de comunicação, Assis Chateaurbriand era o mais poderoso do Período Democrático. Conhecido como Chatô, começou sua trajetória como empresário das comunicações na década de 1920, crescendo bastante ao longo da Era Vargas. Contudo, somente nos anos 1950 os Diários Associados alcançariam maior sucesso, com dezenas de jornais, revistas, emissoras de rádio e TV em todo o Brasil. Com a morte de Chatô, em 1968, o  “império” começaria a desmoronar. Recuperado da crise, existe ainda hoje, mas não com as mesmas características. Como exemplo deste desmoronamento, é a extinção da TV Tupi e a revista O Cruzeiro. A modernidade de O Cruzeiro foi um marco do jornalismo brasileiro. Foi nos anos 1950 que se deu o auge de sua modernização. Já no fim da década, a revista adotou o termo “Bossa Nova”, aplicando-o a diversos produtos, chegando mesmo a associá-lo com sua própria imagem. Por outro lado, a TV Tupi, a primeira da América Latina, havia sido inaugurado em 1950 e, ao longo da década, ainda buscaria seu espaço entre os brasileiros. A TV Tupi também fazia parte dos Diários Associados de Chatô. Os poucos aparelhos existentes no país pertenciam às pessoas de posses, já que eram muito caros. Isso dificultava a popularização dos programas, acessíveis a poucos espectadores. Juscelino Kubitschek chegou a inserir uma cláusula na concessão de emissoras de radio e TV: aquelas que autorizassem insultos a figuras públicas ficariam suspensas por um mês. Essa cláusula é devido aos discursos de Lacerda nas emissoras com sua base de maestria em matéria de oratória. Na segunda metade da década, os jornais brasileiros passaram por um intenso processo de modernização, encabeçado pelo Diário Carioca, logo seguido pelo Jornal do Brasil. Até o fim da década, todos os jornais de grande circulação no país os haviam acompanhado.

Enfim, a era dos grandes embates entre jornais, como o que ocupou a Tribuna da Imprensa e o Última Hora, havia ficado para trás. Contudo, a defesa de ideias e de posicionamentos políticos nunca deixaria de compor as páginas dos periódicos nacionais.

 

Resumo da Aula 05 – O Golpe de 1964 e a Ditadura Civil-Militar (1964-1974)

O conceito “Civil-Militar” é de acordo com interpretações recentes sobre a ditadura que vigorou no país entre 1964 e 1985. Os agentes que participaram do Golpe de 1964 e que contribuíram para que a ditadura sobrevivesse por 21 anos, a maioria eram civis e não militares. Logo, para que a ditadura acontecesse e fosse sustentada, foi necessário que parte da sociedade concordasse com ela, conferindo-lhe “consentimento”. O caso da palavra “Civil-Militar” de maneira alguma absolve os militares. Trata-se apenas do reconhecimento de que eles não estavam sós.

Desde 1955, as forças democráticas estavam abaladas no Brasil. A UDN, principal partido conservador do período, apoiada pelas Forças Armadas, tentou impedir a posse de JK, sobretudo devido ao vice, Jango. O parlamentarismo serviu como paliativo por algum tempo, até que um plebiscito retomou o presidencialismo, recolocando Jango no lugar. Foi então que ocorreu o Golpe de 1964, levado adiante pelos militares. A UDN foi apoiada por outros partidos como o PSP e o PSD. Além disso, houve suporte intelectual por parte de órgãos privados, como o IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática); setores da Igreja Católica (como a CNBB) e diversos agentes, atuando principalmente através da mídia. O governo norte-americano de John Kennedy, preocupado com a falta de participação do Brasil na política de bloqueio a Cuba, também participou do Golpe, através de seu serviço diplomático e oferecendo apoio militar. Após o Golpe, os militares no poder se justificavam através da ideia de “salvação” da democracia e do cristianismo, contra o comunismo ateu. Como Jango não resistiu ao Golpe, a Presidência foi declarada vaga pelo congresso. Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu o cargo até a eleição, pelo Congresso, de Castelo Branco, ainda no mês de Abril, mês do Golpe. Também foi redigido um Ato Institucional (AI) como forma de emenda à Constituição de 1946. O AI deu amplo poderes aos militares para intervirem na organização política do país.

As ligas camponesas estavam organizadas na luta pela reforma agrária. Os sindicatos e a UNE estavam comprometidos como trabalhismo e com ideias políticas de esquerda. Logo, eram associações identificadas com o governo Jango, e por isso, precisavam ser punidas e neutralizadas. Tais atitudes eram apresentadas pelos militares como uma “limpeza” na política nacional. Para convencer a população, propagavam a ideia de que as Forças Armadas eram uma espécie de “poder moderador”, que precisava entrar em ação todas as vezes que a situação política do país beirava o caos. Assim que “limpassem” tudo, diziam, haveria novamente eleições no Brasil. Por outro lado, o pessoal da Linha Dura temia as eleições, acreditando que o Brasil poderia dar um “passo atrás”, com o retorno das antigas lideranças de esquerda. No fim do ano seguinte, a oposição venceu em cinco estados. Diante disto, a Linha Dura passou a liderar o governo decretando o AI-2, que suspendeu as eleições presidenciais de 1966, decretando eleições indiretas para Presidente. Além disso, o pluripartidarismo foi substituído pelo bipartidarismo. Agora, os políticos poderiam se aliar à Arena (Aliança Renovadora Nacional) ou ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro), de oposição. Em seguida, vieram o AI-3, que decretou eleições indiretas para as prefeituras das capitais e para os governadores, e o AI-4, que transformou o Congresso em Assembleia Constituinte. Diante de tantas mudanças, alguns líderes civis que haviam apoiado o Golpe se voltaram contra os militantes, como os antigos governadores Carlos Lacerda e Adhemar de Barros. Muitas outras pessoas e instituições que apoiaram o Golpe também mudaram de ideia.

Seguindo o AI-2, o general Costa e Silva foi eleito indiretamente para a Presidência da República. Assim que assumiu, foi outorgado a Constituição de 1967, que agregava os AI, aumentando os poderes nas mãos do Executivo, ou seja, do Presidente. No Plano Econômico, de cunho liberal, tratava-se do Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), conseguindo conter a inflação, que vinha crescendo no Período Democrático, mas não foi acompanhada por benefícios sociais.

No ano de 1968, muitos eventos importantes aconteceram no mundo como a Primavera de Praga, o Movimento Hippie (Woodstock), as barricadas nas ruas de Paris, entre outros. Na América Latina, este ano também foi muito significativo, especialmente no México e no Brasil. Em nosso país, tivemos uma explosão de protestos estudantis contra o estabelecimento da ditadura. Em dezembro de 1968, o general Costa e Silva decretou o AI-5, fechando o Congresso, suspendendo direitos políticos e civis. Em 1969, como o general Costa e Silva estava doente, deveria assumir o vice, Pedro Aleixo. Este era um dos políticos aliado à UDN e que havia apoiado o Golpe. Contudo, após o aumento da repressão, Aleixo também passou à oposição. Por conta disso, os militares impediram a sua posse colocando Emílio Garrastazu Médici. Evidentemente, Médici era um general de “linha dura”, o que tenderia a aumentar ainda mais o nível de violência cometida pelo Estado no Brasil.

Entre 1969 e 1974, o país viveu o período de maior repressão por parte da ditadura. Centenas de pessoas foram presas e torturadas. O AI-5 havia anulado o direito de habeas corpus de presos políticos, o que permitia ao Estado torturar e matar, sem que tais crimes fossem averiguados. Foram tempos que conhecemos como “Anos de Chumbo”. O ufanismo no Brasil reunia aspectos positivos em um conjunto para investir em altas doses de propaganda política. A vitória do Brasil na Copa de 1970, por exemplo, foi usada como uma prova irrefutável de que o país estava no caminho certo. Para ajudar no clima ufanista, o Brasil entrou em uma fase de crescimento das finanças, conhecido como “Milagre Econômico”, resultado do PAEG. Contudo, o fenômeno também foi auxiliado pelo investimento do Estado na economia, voltando à era das empresas estatais, embora mantendo parcerias com empresas privadas. Este era o objetivo do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), lançado em 1972. Lembrando que a economia estatal era defendida por Jango e fortemente criticada no período do Golpe. Outros aspectos dessa economia foram os altos investimentos em obras públicas de grande porte, como a rodovia Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói.

Do outro lado do ufanismo, estava a resistência. Houve uma opção radical escolhida por jovens que militavam no PCB, ainda na ilegalidade: a luta armada. O PCB se dividiu, surgindo o Partido Comunista do Brasil (PC do B), que passou a investir em guerrilhas rurais. O número de movimentos de guerrilha rural e urbana cresceu bastante a partir de 1968, justamente nos Anos de Chumbo. Entre os movimentos, estavam a Aliança Libertadora Nacional (ALN), a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR-Palmares), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e a Ação Popular, única de inspiração católica. A Igreja Católica que apoiava o golpe se dividiu. De um lado, os conservadores, que continuaram a dar o apoio. De outro, a Teologia da Libertação, que não separava a luta política da vivência religiosa, passando à oposição. Outra oposição (menos radical) foram as artes. Através da música, do cinema, do teatro, da literatura e das artes plásticas, tanto os artistas quanto seu público se comprazia em protestar contra a ditadura. A ideia de que os moradores das áreas mais pobres, nas cidades e nos campos, estavam mais próximos da “essência da nacionalidade”, por não terem sido contaminados pela modernidade. A estas manifestações artísticas chamamos “nacional-populismo”. Tais ideias eram propagadas, desde a década de 1950, pelo Instituto de Estudos Brasileiros (ISEB). Um dos lugares que sofreu influência do ISEB foi a UNE. Através do Centro Popular de Cultura (CPC), foram produzidos filmes, peças, exposições e livros, todos procurando apresentar os brasileiros a eles mesmos. Também surgiram o Tropicalismo, liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, e a Jovem Guarda, com Roberto e Erasmo Carlos à Frente. O Tropicalismo era marcado pela experimentação, com letras que também eram politizadas, mas de conteúdos mais cifrados, às vezes difíceis de entender. Já a Jovem Guarda era considerada alienada, despolitizada, na época, mas hoje se percebe o quanto de rebeldia juvenil, marcada pela revolução dos costumes, ela ajudou a moldar e divulgar.

 

Resumo da Aula 06 – Redemocratização (1974-1988)

Em 1973, o Brasil ainda estava sob a ditadura civil-militar. Neste ano, foi eleito para a Presidência (indiretamente) o general Ernesto Geisel, que daria início ao processo de abertura política – ou seja, a ditadura teria fim. Devido a uma crise internacional causada pela alta do preço do petróleo, a economia brasileira sofreu um grande baque. O “Milagre Econômico” na Ditadura Militar dependia de um contexto internacional favorável, e que não se sustentaria. O II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) procurou dar continuidade ao primeiro PND, tentando, em vão, contornar a crise. Em paralelo ao insucesso financeiro, estava o vazamento de informações sobre as prisões, torturas e assassinatos ocorridos ao longo da ditadura, sobretudo durante os Anos de Chumbo. Um caso exemplar foi a morte do jornalista Vladimir Herzog. Em 1975, foi anunciado oficialmente seu suicídio, mas uma investigação apontava incongruências da versão oficial. Como a polícia política não teve como refutar a denúncia, o caso virou notícia nacional, causando muita comoção. Levantamentos recentes apontam mais de 400 casos de “desaparecimentos”, um número que ainda pode aumentar.

Então, com a crise do “Milagre Econômico” e constantes denúncias de tortura e assassinato, a maioria dos brasileiros passa a desejar que a ditadura acabe. Daí a explicação para o processo de Abertura. Ainda no governo Geisel, o AI-5 seria revogado. Isto significava que muitos dos direitos civis e políticos que os brasileiros haviam perdido em 1968 eram agora recobrados. Os brasileiros saíram às ruas exigindo mudanças, e isto depois de dez anos reprimidos. A campanha pela Anistia exigia o perdão dos crimes políticos, mas também o fim da repressão e, sobretudo, da impunidade. Com a chegada do general João Figueiredo à Presidência, em 1979, a lei de Anistia foi imediatamente votada e aprovada. Figueiredo daria continuidade à política de Abertura iniciada no governo Geisel. Enfim, o Brasil poderia vivenciar a emoção com a volta dos exilados e a libertação de alguns presos. Contudo, os condenados por envolvimento com a luta armada ainda não teriam a anistia. Além disso, os torturadores recebiam anistia junto com aqueles que haviam torturado.

Em relação as artes e a mídia, as pretensões dos artistas eram se comprometer com o nacional-populismo já que a Censura ainda não estava sistematizada. Depois de 1968, a repressão sobre a arte aumentou bastante. Compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil tiveram muitas canções proibidas ou foram obrigados a mudar alguns versos. Os três – entre muitos outros artistas – foram para o exílio, mas voltaram ainda no início dos anos 1970. Cálice é uma canção de Chico Buarque, uma canção escrita em 1973, mas só foi exibida ao público em 1978. O Cálice era uma canção censurada e a sua exibição é fruto da política de Abertura. Por outro lado, já menos comprometida com as ideias nacional-populistas, se destacam os grupos Oficina e Arena em São Paulo, onde preferiam focar na crítica velada à ditadura. Com peças altamente politizadas, procuravam chamar o público à interação, com fins de conscientizá-lo da realidade política brasileira, em um método de encenação conhecido como “brechtiano (por seguir ideias de Bertolt Brecht). A marginalidade foi uma das ideias mais fortes em determinada vertente artística dos anos 1970. Alguns movimentos adotaram o termo como Cinema Marginal e Poesia Marginal. Também temos o rádio e a TV que sempre agiram a partir de posicionamentos políticos. Durante a ditadura, houve canais que sempre apoiavam o governo, recebendo benefícios por conta disso, e haviam aqueles que ousavam burlar a Censura. Por outro lado, a mídia era uma arma perigosa se fosse utilizada para educar, em vez de apenas entreter. O ano de 1976 foi o primeiro em que o Brasil parou por conta de um final de novela. Todos queriam saber o destino de Carlão, o protagonista interpretado por Francisco Cuoco. Para o regime militar, uma novela como esta era bem mais interessante, pois enquanto o povo esperava pelo último capítulo, ninguém pensava na política. Também tivemos a onda dos “discos”, produzida nos EUA, que suplantou a música brasileira, não apenas nas boates, mas também nas paradas de sucesso das rádios. As discotecas foram um dos lugares que favoreceram a popularização do uso das drogas sintéticas e da cocaína, outra válvula de escape para o clima repressivo da ditadura. No início dos anos 1960, era comum o uso da maconha, como forma de contestação da “moral e dos bons costumes”. Ela entrava no pacote junto com o uso da minissaia, o abandono do sutiã e o sexo antes do casamento.

O movimento parcialmente vitorioso em prol da Anistia animou os brasileiros, que começaram a se mobilizar para exigir a volta das eleições diretas para Presidente. Por isso o nome do movimento que ganhou força em 1984 se chamava “Diretas Já”. A ideia era que as eleições presidenciais, em 1985, já se realizassem com voto popular. Um processo fundamental para entendermos as pressões pela Abertura são as greves do ABC paulista, iniciadas no fim dos anos 1970 e ganhando força nos anos 1980. Os operários da região do ABC, liderados por Luís Inácio Lula da Silva, mais conhecido como Lula, mobilizaram o apoio nacional da população. Os conservadores da Arena foram para o Partido Democrático Social (PDS), liderado por José Sarney, ex-UDN e fiel ao regime. O MDB, a única oposição, transformou-se em Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). O PMDB, contudo, não abarcou todas as ideias de esquerda. Os políticos liberais de centro fundaram o Partido Popular (PP), enquanto a bancada trabalhista se dividiu em PTB, PDT e PT. O PTB ressurgiu com força concentrada em São Paulo. O PDT, sob a liderança de Leonel Brizola, plantou bases no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. E o PT, sob a liderança do Lula, se articula em torno dos sindicais, atraindo também socialistas e grupos de esquerda não reformista. Muitas figuras levantaram a bandeira da Redemocratização, ganhando destaque nos anos 1980: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Teotônio Vilela e Lula. Como todos os Presidentes durante a Ditadura Militar eram militares filiados à Arena, logo, o candidato do PMDB se tornaria o favorito. Tancredo Neves foi escolhido por sua moderação política, e a escolha do vice foi José Sarney, que fora líder da Arena e agora é presidente do PDS (partido que substituiu a Arena). Tancredo Neves foi eleito acenando para uma definitiva transição entre a ditadura e a democracia. Mas, para a decepção dos brasileiros, Tancredo adoeceu, vindo a falecer antes de assumir o cargo. Desse modo, José Sarney, mais identificado pela ditadura, se tornaria o primeiro Presidente civil do período. Contudo, não deixou as promessas de Tancredo de lado, vindo a Constituição.

Depois das AIs e da Constituição autoritária de 1967, finalmente o Brasil teria uma Constituição que novamente prezasse a democracia. Ulysses Guimarães, líder da Assembleia Nacional Constituinte, batizou a nova carta de “Constituição Cidadã”, devido ao fato de garantir direitos políticos e civis negados durante 21 anos. Até hoje, é esta a Constituição do Brasil, o que indica a continuidade institucional desde a Abertura. Ou seja, a democracia vem sendo mantida pelos sucessivos governos desde então. Por outro lado, o governo Sarney foi marcado pelas altas inflações, atingido níveis assustadores. Os preços aumentavam, literalmente, da noite para o dia. O trabalhador, quando recebia seu salário, corria para fazer a compra do mês, pois no dia seguinte o dinheiro já valia menos. Por conta disto, governo investiu no Plano Cruzado, criando uma nova moeda e investindo no congelamento de preços. O Cruzado valia mil Cruzeiros, que era a moeda antiga. Além disso, o governo garantiu o recebimento adiantado do salário, estimulando o consumo. Mas, em 1986, o plano já dava mostras de desgastes, fazendo faltar produtos nas prateleiras e levando pequenos comerciantes à ruína. A tentativa do Plano Cruzado II de restabelecer a normalidade econômica, levou novamente às altas taxas de inflação, que assim permaneceram até o fim de seu mandato. Por outro lado, o governo Sarney cumpriu tudo que se esperava de um governo comprometido com a Abertura. A nova Constituição estabeleceu as eleições diretas, o voto dos analfabetos e o voto facultativo para jovens entre 16 e 18 anos. Também consolidou o fim da Censura nas artes e meios de comunicação.

 

Resumo da Aula 07 – O Brasil Contemporâneo (1989-2013)

Os sucessivos planos econômicos do governo Sarney não tinham dado conta de resolver os problemas básicos da população, sobretudo a mais pobre. Foi este o clima das eleições de 1989, as primeiras em que os brasileiros iriam escolher um Presidente desde 1960! Diante de tamanha responsabilidade, o temor de errar era grande. A maioria dos partidos se apegou a candidatos que foram contra a ditadura militar, ou que tinham se destacado pela guarda da democracia no governo Sarney. No entanto, foram dois candidatos sem grandes antecedentes políticos que se destacaram: Lula, pelo PT, e Fernando Collor de Mello, pelo PRN. Lula surgia como uma liderança de esquerda, associado a ideia de busca por justiça social. Caso eleito, sua origem pobre e pouca escolaridade soaria como uma espécie de justiça social, uma correção dos erros históricos do país. Por outro lado, se políticos experientes e bacharéis não conseguiram domar o Brasil, como se sairia um metalúrgico bem-intencionado? A ideia era de que os brasileiros construíssem, de fato, uma República nova, sustentada sobre bases inovadoras. Então, Collor preferiu fazer uma campanha baseada na novidade e no aceno de incursão do país ao Primeiro Mundo. Collor era a “cara do futuro” e desfrutava das possibilidades que oferecia a todos os brasileiros na campanha: usava jet-ski, motos, celulares, etc. Collor venceu as eleições com 28% dos votos, enquanto Lula ficou com 16%.

Já no início de seu mandato, o Presidente surpreendeu a todos com medidas radicais de intervenção na economia através do Plano Collor. A ministra Zélia Cardoso de Mello ficou tão conhecida quanto o Presidente, embora sua popularidade estivesse associada a valores negativos. O Plano Collor apontava para uma proposta neoliberal, “vendendo” o país às empresas multinacionais; e, também, agia de forma autoritária, como os ditadores que estavam há pouco no poder. Apesar de tais impactos, o Plano, seguido do Plano Collor 2, conseguiu diminuir a inflação, abrindo mercado para produtos importados. Com uma moeda forte – a volta do Cruzeiro -, uma parte dos brasileiros conseguia ter acesso às “maravilhas” do Primeiro Mundo. Com o tempo, a inflação voltaria a crescer, a indústria nacional sofreria o impacto da concorrência dos importados, os salários diminuiriam e o desemprego aumentaria. Por outro lado, no ano de 1992, uma série de denúncias de corrupção por parte do Presidente começou a ser confirmada. Diante disso, a sociedade se mobilizaria novamente e se prepararia para tomar as ruas. O Impeachment então foi concretizado, mostrando ser uma prova de que a democracia tinha realmente voltado e que os gritos de descontentamento eram ouvidos.

Após o impeachment, assumiu o vice Itamar Franco. Um dos temas que mais chamaram atenção em seu governo foram as declarações ambíguas sobre as privatizações, que dividia nacionalistas e liberais, sem que o Presidente tomasse partido. O escândalo conhecido como “os Anões do Orçamento”, outro ponto negativo, era um caso que envolvia a corrupção de deputados federais favorecidos com propinas para repassar verbas públicas para empresas privadas. Por outro lado, no plano econômico, o ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso (FHC), filiado ao PSDB, lançou o Plano Real, que conseguiu resgatar a saúde da economia do país, controlando a inflação. O sucesso do Plano Real foi tão grande que FHC conseguiu vencer no primeiro turno das eleições de 1994. Por outro lado, as privatizações que tinham começado no governo Collor, iriam continuar com força total. O Real se manteve como uma moeda forte, diferentemente das novas moedas criadas nos planos econômicos anteriores, o que favoreceu o investimento de indústrias internacionais no país. O Presidente também investiu na ideia de Estado Mínimo, seguindo o direcionamento do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ou seja, o Estado deveria se manter limitado à área administrativa, abandonando setores como energia, comunicações, saúde e educação. Outra marca registrada no governo FHC, foi a parceria com as Organizações Não Governamentais (ONGs) na administração das questões sociais. Em vez de esperar por um Estado que, na maioria dos casos, se mostrava indiferente, muitos começaram a se organizar para gerir assuntos que lhes diziam respeito – e assim foram surgindo as ONGs. Se no início dos anos 1990 as ONGs surgiam como uma solução inovadora e plena de credibilidade, já nos anos 2000 sofriam com denúncias sobre desvio de verba pública para ONGs que nada faziam a não ser receber dinheiro. Uma das áreas de parceria entre governo e ONGs que surtiu bom resultado foi o combate à AIDS. A epidemia mundial iniciada nos anos 1980 tinha atingido números altíssimos em nosso país no final dessa mesma década. O governo FHC investiu no controle da epidemia, através do fornecimento público de coquetéis e da propaganda de prevenção. Outro destaque do período foi a popularidade dos telefones celulares, da TV por assinatura e da internet que cresceu aceleradamente no final dos anos 1990. Não é a toa que o Brasil é um dos campeões de uso das redes sociais, que vêm se mostrando como um meio bastante eficaz de mobilização política.

No ano de 2002, Lula chegou no poder não mais como sindicalista de esquerda, mas como um líder carismático que mostrava capacidade de dialogar com a oposição. O abraço entre Lula e FHC no momento da transmissão da faixa presidencial, é uma imagem bastante simbólica. Tratava-se de uma passagem sem rupturas ou traumas, o que se confirmariam ao longo dos dois mandatos de Lula. Foi um marco na história da democracia brasileira, um ex-operário e líder sindical chegar na Presidência. Embora tenha conseguido mais de 60% dos votos, Lula ainda causava receios em parte da população. O principal é em relação à imagem do Brasil no mundo, com um Presidente que não se notabilizou pela linguagem complexa e intelectualizada. Seria um grande contraste com FHC, sociólogo e professor universitário. Na economia, o governo Lula se notabilizou por conseguir manter a estabilidade do Real e o controle da inflação. A descoberta do petróleo na área do pré-sal, entre outras novidades, fortaleceu a economia, uma das poucas que não se abalou com a crise internacional de 2008. O fluxo de privatizações diminuiu consideravelmente, enquanto que o Estado voltava a investir em áreas que havia abandonado nos governos anteriores. As classes C e D ascenderam, ganhando melhores condições de vida e maior poder de consumo. Os programas Bolsa Família e o Fome Zero, além de construção de universidades e a adoção de cotas raciais, causaram muita repercussão no governo Lula. Muitas pessoas viram como aspectos demagógicos sem nada resolver de fato. Ao longo dos mandatos, surgiu uma série de escândalos envolvendo o PT como, por exemplo, o mensalão. O impacto destes escândalos foi imenso, sobretudo entre aquelas pessoas que apoiavam o partido há anos. De repente, as pessoas ouviam notícias semelhantes às que haviam abalado o governo Collor, mas desta vez atingindo o PT.

Ao fim do mandato, Lula apontou Dilma Rousseff, Chefe da Casa Civil de seu governo, com sua sucessora. Então, em 2010, os brasileiros elegeram a primeira mulher à Presidência da República, mantendo o partido no poder. Embora não tenha o mesmo carisma de Lula, em 2011 e 2012, a Presidente atingiu um nível de popularidade até mesmo maior que o de seu antecessor. A continuidade das políticas sociais de Lula, além de alguns avanços no sentido da consolidação dos Direitos Humanos no Brasil, explicava estes resultados. No campo dos Direitos Humanos, o governo se preocupou em abrir os arquivos secretos da ditadura civil-militar, procurando desfazer injustiças históricas. A continuação das denúncias envolvendo o PT e as altas taxas de inflação, contudo, abalaram a recepção positiva que Dilma vinha tendo. Além disso, em 2013, uma onda de protestos se espalhou pelo país, inicialmente contra o aumento das passagens, mas logo ganhando outros significados tais como: a presença de religiosos no governo, os altos gastos e desvio de verbas nas obras monumentais realizadas para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas, em 2016. O fenômeno destas manifestações é ainda muito recente e seria arriscado interpretá-los em termos absolutos.

 

Resumo da Aula 08 – A Questão Agrária (1930-2013)

No governo Vargas, havia uma grande preocupação em investir no campo, já que a economia brasileira ainda era baseada em produtos agrícolas. Porém, Vargas não analisou o outro lado – a situação do trabalhador rural. Uma das principais causas do êxodo rural era a não aplicação da legislação social ao campo. O trabalhador rural se sentia ignorado e desamparado. Sem educação, sem saúde, sem transporte e crédito, e somente aqueles que não conseguiam migrar que continuavam no campo. Em seguida, quando Vargas percebeu a organização das grandes cidades do Sudeste juntamente com o crescimento das favelas no Rio de Janeiro e dos bairros pobres em São Paulo, passou a demonstrar uma certa preocupação com o trabalhador rural. As ideias do governo Vargas passaram a favorecer o produtor que, estando bem amparado, produziria mais e melhor. Por outro lado, ainda havia uma total ausência à reforma agrária e os patrões acreditavam que o trabalhador rural, tendo acesso a educação e saúde, seriam mais perigosos, pois seriam mais ativos politicamente.

Quanto a doação de terras, ela aconteceria em áreas pouco povoadas, conhecido como “Marcha para o Oeste”, cuja proposta era ocupar o Centro-Oeste brasileiro, até pouco conhecido e povoado. Tais terras eram destinadas tanto a trabalhadores da região como aos imigrantes sem emprego nas cidades. Boa parte da política de Vargas para o campo estava associada ao problema da imigração. A zona rural, sobretudo do Nordeste, vinha sendo trabalhada pela arte como um espaço de “reserva da brasilidade” desde o início do século XX, com o lançamento de Os Sertões, de Euclides da Cunha. A lógica era associar uma linguagem experimental com temas locais, de forma que o conjunto da obra pudesse dar conta de uma brasilidade ao mesmo tempo original e moderna. Contudo, não estavam de fora dessa operação as preocupações sociais. Muitos escritores regionalistas, como Rachel de Queiroz e Jorge Amado, lançaram um olhar politizado sobre o campo. A literatura era capaz de fazer denúncias que não eram explícitas. Por outro lado, tais denúncias não se destinavam ao trabalhador rural (analfabeto, na maior parte das vezes), mas aos brasileiros da classe média das cidades. A ideia de uma arte que pudesse se dirigir diretamente aos excluídos só surgiria mais tarde, no fim do Período Democrático.

Um momento em que a situação precária dos trabalhadores ficou evidente foi a construção de Brasília no governo JK. Ao mesmo tempo em que JK investia na construção do futuro com uma nova capital modernista, os trabalhadores que chegavam para as obras eram migrantes, sobretudo nordestinos. Ao mesmo tempo em que uma cidade modernista nascia, ao fundo, haviam claros sinais de pobreza entre aqueles que erguiam a nova capital. O “candango”, aplicado aos trabalhadores que construíam Brasília, indica uma visão bastante pejorativa sobre os migrantes. Aos poucos, os candangos passariam a morar nas cidades-satélites (em torno da capital), formando núcleos de extrema pobreza e carestia nas bordas do centro administrativo do país. Com o tempo, o termo “candango” perdeu o sentido pejorativo, sendo aplicado a todos que nascem na cidade. A postura que os artistas tinham com o nacional-populista, viam os brasileiros mais pobres como os depositários da nacionalidade. Contudo, no lugar de apenas apreenderem as características nacionais e/ou fazer a política através da obra de arte, os artistas também investiam na politização do público.

Quase no fim do Período Democrático, a situação dos trabalhadores só se agravava. O mais grave desta situação é que, até a década de 1960, os trabalhadores rurais eram a maioria dos trabalhadores no Brasil. Ao mesmo tempo, mantinha-se a relação desigual na posse de terras, com alta concentração das terras nas mãos de poucos. Ou seja, o Brasil precisava urgentemente de uma reforma agrária. João Goulart se preocupava com diversas reformas no Brasil que levou ao Golpe de 1964. Entre suas ações, o Estatuto do Trabalhador Rural lançado em 1963, previa a extensão dos direitos trabalhistas ao campo. Entretanto, o Estatuto foi recebido de forma agressiva pelos donos de terra, que começaram a expulsar os trabalhadores que exigiam seus direitos, aumentando ainda mais o êxodo rural. Com efeito, surgiram as Ligas Camponeses, iniciadas no interior do Pernambuco. As Ligas começaram com a tentativa dos trabalhadores rurais de uma fazenda em se organizarem através de cotas, para alcançar benefícios que as leis não garantiam. Acusados de “comunistas” e impedidos de se organizarem, procuraram ajuda na cidade, com o advogado Francisco Julião, que seria reconhecido como líder. Através das ações de Julião, a Fazenda seria desapropriada em 1959, resultando em uma vitória significativa para os trabalhadores rurais. Rapidamente, a ideia das Ligas se espalhou pelo nordeste. Neste contexto, a Revolução Cubana acabara de ser realizada com forte participação de trabalhadores rurais. As Ligas eram cada vez mais ligadas com o comunismo, o que gerou uma perseguição atroz contra seus líderes. Já sob a ditadura civil-militar, o movimento seria desarticulado.

Apesar da criação do Estatuto da Terra ainda em 1964 – que ainda dá bases para a reforma agrária -, a ditadura pouco fez na direção de uma reforma efetiva. Na maior parte dos casos, o Estatuto foi usado como forma de controle dos movimentos sociais. Por outro lado, os movimentos sociais no campo seriam retomados e, a partir da Abertura, a luta pela reforma agrária no Brasil: o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). O MST surgiria em plena agitação das Diretas Já, através do Primeiro Encontro Nacional dos Sem Terras, em Cascavel, Paraná, em 1984. Durante o governo Sarney, apesar das promessas de realização efetiva da reforma com o Plano Nacional da Reforma Agrária (PNRA), nada foi feito de efetivo. Foi também nesta época que os proprietários rurais se organizaram para boicotar os avanços da Constituição de 1988 que tinha cedido espaço para a Reforma Agrária. Durante os anos 1990, os governos neoliberais favoreceram a bancada ruralista, gerando muitas perdas para o MST. Foi também nesta época que ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás, onde 19 ativistas do MST foram mortos pela PM do estado do Pará, uma semana antes da criação do Ministério da Reforma Agrária pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso.

Com a chegada do PT ao poder, em 2003, a expectativa do MST e de todos os trabalhadores rurais era grande. O PT foi organizado ao mesmo tempo e no mesmo clima democrático das Diretas Já, mantendo uma relação de apoio ao MST. Porém, o PT que chegou ao poder não era o mesmo que se formara nos anos 1980. Com o resultado de alguns reajustes, figura uma das maiores decepções da gestão PT: o ritmo lento e pouco expressivo da reforma agrária. Enfim, a história da Reforma Agrária, do MST e de outros movimentos que lutam pelos mesmos ideais ainda está só começando.

 

Resumo da Aula 09 – A Questão Indígena

Enquanto atualmente tendemos a aceitar e valorizar as culturas indígenas em sua diversidade e autonomia, permitindo às diferentes etnias que ainda habitam nosso país para que escolham como se vestir e se comportar, para os anos 1930 e 1940 foi colocado em prática a assimilação. Ou seja, os índios seriam bem tratados no Brasil, desde que aceitassem a cultura ocidental. Que não andassem nus ou seminus, que falassem Português e que, preferencialmente, fossem cristãos. A assimilação era entendida como um dos motores do progresso da humanidade e aconteceria de qualquer forma, porém lenta e gradualmente. O SPI (Serviço de Proteção aos Índios), criado em 1907 e mantido durante a Era Vargas, trabalhava com premissas coloniais, como a “conquista” dos índios através de doação de presentes para, em seguida, vesti-los e ensinar-lhes hábitos ocidentais. A Marcha para o Oeste, empreendida por Getúlio Vargas, assim como influenciou na relação do governo com os trabalhadores rurais, também envolveu as políticas indigenistas. Para Vargas, os índios que habitavam as regiões Norte e Centro-Oeste, deveriam ser usados como aliados na ocupação do interior do Brasil. A melhor forma de colaborar seria através da assimilação à cultura ocidental e consequente a transformação em um trabalhador rural. Em 1940, foi fundado o Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI) para atuar junto ao SPI. Fora isso, tivemos a atuação de antropólogos no Brasil, como Claude Lévi-Strauss, considerado um dos fundadores da Antropologia moderna. No início da década de 1960 – Período Democrático -, foi implantado o Parque Indígena do Xingu, em que tribos de diversas etnias vivem até hoje em torno do rio Xingu, no norte do Mato Grosso, entre o Planalto Central e a Amazônia.

Em 1967, para tentar solucionar os problemas de comunicação com as aldeias devido a estradas de péssima qualidade, dificultando o trabalho dos fiscais, onde a presença do SPI e do CNPI levou à morte muitos índios por epidemias e fome devido aos agentes despreparados, foi criado o FUNAI pelo governo civil-militar que há pouco tomara o poder no Brasil. A atuação da FUNAI durante a ditadura militar é ambígua. Há quem defenda referindo ao atendimento de índios doentes e na prática da medicina preventiva. Outros, contudo, fazem denúncias graves que envolvem casos de escravidão e genocídio. Por outro lado, o Estatuto do Índio criado em 1973 regulamentou o direito dos índios à posse das terras que tradicionalmente eram suas. No entanto, apesar de ter fixado um prazo de cinco anos para que este processo de realizasse, o Estatuto até hoje não garantiu que ele acontecesse. Além disso, a disputa pelas terras continuou causando inúmeras agressões contra os índios.

Durante a Constituição de 1988, muitos grupos de diversas etnias se organizaram e foram a Brasília garantir que seus direitos fossem assegurados. Afinal, a Constituição de 1988 considera que os índios tem o direito a sua cultura, podendo permanecer como índios, em vez de serem “integrados” à força na sociedade brasileira. No fim da década de 1980, a consequência das lutas pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, foi o sucesso internacional alcançado pelo líder caiapó Raoni Metuktire. Lutando pela preservação da floresta amazônica e pelo direito à demarcação de terras indígenas, Raoni angariou apoio de figuras internacionalmente conhecidas, entre políticos, intelectuais e artistas. Vale lembrar que, embora a luta de Raoni tenha sido parcialmente vitoriosa, há muitos casos de derrotas daqueles que lutavam pela preservação da floresta e dos povos indígenas. Chico Mendes, por exemplo, foi assassinado justamente no ano em que a Constituição foi promulgada, devido a sua luta pela preservação Amazônica.

Neste século XXI, apesar de toda proteção legal, os povos indígenas continuam a sofrer ataques, muitas vezes com o apoio de parte do governo. Por exemplo, a Internet. Os índios agora tem acesso à tecnologia e isto pode causar uma certa desconfiança. Alguns dizem que não são os índios que estão publicando seus textos nas redes sociais, pois não dominam a tecnologia a este ponto. Outros já pensam que, se os índios possuem acesso a tecnologia, então já não podem mais ser considerados índios. Por outro lado, as notícias sobre os índios são divulgadas com mais liberdade, permitindo que as pessoas se informassem sem precisar passar pelas mídias tradicionais. Claro que nem tudo o que é divulgado no Facebook é confiável. Um índio que use a internet pode contribuir para preservar e divulgar sua cultura através de um meio de tecnologia contemporâneo. Sim, com ou sem Internet, eles continuam sendo índios. São seres humanos como nós.

Gilberto Freyre foi um pensador que contribuiu para a divulgação de uma cultura indígena vaga e difusa. Suas ideias envolvendo a miscigenação como o traço fundamental da cultura brasileira fez com que as características originais das etnias que habitam o Brasil fossem apagadas em nome de uma “cultura nacional” mestiça e sintética. Entretanto, a apropriação e o empobrecimento de suas ideias tiveram consequências negativas para nossa apreensão das culturas e das histórias indígenas – tanto quanto dos negros. Por outro lado, a abordagem da cultura indígena em sala de aula é defendida pela lei No 11.645 de 10 de março de 2008, que estabelece a inclusão do currículo oficial da rede de ensino da obrigatoriedade temática: “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Sendo assim, as escolas de todo território nacional têm a obrigatoriedade de abordar essa temática, e por isso se faz necessário pensar metodologias que possam orientar os docentes na abordagem de tais conteúdos.

 

Resumo da Aula 10 – O Brasil e o Mundo (1990-2013)

Olhamos para a França e idealizamos uma cena romântica no alto da Torre Eiffel. Olhamos para a Grécia e milênios de História nos passam pela mente. Os EUA podem nos fazer desejar diversão, arte e boas compras. O Haiti nos faz lembrar de belas paisagens, mas também crise e miséria. Mas, e o Brasil? Como será que é visto lá fora? Na passagem do século XX para o século XXI, a face do Brasil mudou bastante neste período. De um país submisso e alinhado à vontade dos EUA, passou a ser um dos países com alguma voz e respeitabilidade no mundo. Contudo, alguns aspectos são mais resistentes – quem nunca ouvi falar que o Brasil é a terra do samba, do Carnaval, das praias e do futebol?

O Fundo Monetário Internacional (FMI) foi criado no fim da II Guerra Mundial, com vista à reconstrução dos países atingidos pelo conflito. É um grupo de países que participa de um sistema de cotas, investindo em determinada quantia e, com isso, passa a ter o direito de fazer empréstimos quando há necessidade de sanar a economia em caso de crise. A questão reside no significado político das cotizações e do poder de influência que os países com maiores cotas podem ter. Em 2013, os EUA tinham 17,08% do poder de voto, enquanto o Brasil tinha 2,46%. É por este motivo que muitas críticas ao FMI são também endereçadas ao governo norte-americano. O fato de o país ser o maior cotista, lhe dá o direito de interferir na política econômica dos outros participantes. Ao longo de sua existência, o FMI não tem se preocupado muito com os Direitos Humanos, desde que as políticas econômicas estejam de acordo com o que determina para os países.

Durante o Período Democrático (1946-1964), o que mais deve ser levado em conta é a participação do país na política internacional da Guerra Fria. O Brasil se manteve alinhado aos EUA e, portanto, ao bloco capitalista. No entanto, alguns desvios à esquerda ocorreram no início dos anos 1960. O presidente Jânio Quadros optou por uma política independente, distante dos EUA e da URSS. Mas, como o alinhamento dos EUA já ocorria desde o início da Guerra Fria, alguns sinais apontavam que o Brasil optava por ficar em cima do muro. A política de Jânio trouxe muitas repercussões negativas. Como consequência, veio a sua renúncia e uma tentativa de impedir que Jango assumisse o poder através do parlamentarismo e, em seguida, do Golpe Militar de 64.

Após a Guerra Fria, foi estabelecida uma Nova Ordem Mundial, onde a bipolaridade (EUA e URSS) foi substituída pela multipolaridade. Neste novo contexto, os países passam a se organizar em blocos, procurando proteger mutuamente suas economias. Por outro lado, o poder de decisão do FMI sobre a economia brasileira não diminuiu. A política de privatizações iniciada no governo Collor e levada adiante por Itamar Franco e FHC, também foi determinada pelo órgão. As diretrizes do FMI exigem que o Estado interfira o menos possível na economia, gerando ondas de privatizações que, por sua vez, geram desemprego e pobreza. Ao longo do governo Lula, o Brasil passou a ocupar uma posição mais privilegiada no FMI, sobretudo devido ao fato de fazer parte do BRIC, grupo de cinco países em desenvolvimento com economias relativamente estáveis, em busca de maior poder de decisão internacional. Tais países são: Brasil, Rússia, Índia e China. Em resumo, Lula conseguiu atender às expectativas do FMI, sem descuidar das demandas sociais. O crescimento do PIB, a estabilidade durante a crise mundial de 2008 e o fato de emprestar dinheiro ao FMI fizeram com que o Brasil aumentasse sua cota no FMI (de 1,78% para 2,46%). Isso tudo fez com que o Brasil fosse muito bem visto internacionalmente, recebendo elogios de revistas de economia, que apontaram o país como exemplo para outros em desenvolvimento. Porém, a manifestação dos brasileiros contra o aumento do valor das passagens, ganhou proporções bem maiores em 2013. No governo Dilma, o PT retornou as políticas de privatizações e as taxas de inflação voltaram a crescer e o descontentamento social atingiu níveis altíssimos. A rejeição à Presidente aumentou ainda mais devido a sua demora em demonstrar algum posicionamento diante dos eventos. Quando o fez, procurou um caminho neutro: não condenou, mas tampouco demonstrou apoio.

De 2009 para 2013, podemos perceber a passagem de uma visão otimista sobre o país para outra que põe em dúvida este mesmo otimismo. E duas provas de fogo passaram pelo país em 2014 e 2016: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Para entender a gravidade da situação, basta perceber que todas as lentes do mundo se voltaram para o Brasil nestes dois momentos: qualquer passo falso era televisionado, ao vivo e internacionalmente. É uma espécie de portfólio em que o país ficou à amostra e foi testado, para ver se vale a pena ser investido ou não. Um dos testes envolve justamente a forma de como o país pretendeu lidar com questões sociais durante os jogos. Não é a toa que nos protestos de junho e julho de 2013, um dos gritos de ordem era: “Não vai ter Copa!”. Isto para indicar que o país, com inúmeros problemas sociais, estaria deixando-os de lado, para focar apenas na construção dos estádios e outros aparatos necessários aos jogos. Despejos de populações pobres e aldeias indígenas, demolições de favelas, além do aumento generalizado do custo de vida, formam o preço a se pagar por eventos deste porte.

 

Bons estudos!

Marcell

Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar o resumo das aulas da disciplina História Contemporânea II do 6o período do curso de Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – A Primeira Guerra Mundial

Para entendermos a Primeira Guerra Mundial ocorrida em 1914 à 1918, temos que voltarmos ao panorama político e econômico da Europa no século XIX. A industrialização desenvolveu uma nova demanda, tanto de mercados consumidores quanto de matérias-primas, fazendo com que a Europa voltasse para os continentes que ainda não haviam se industrializados – Ásia e África. A partir desse momento surge o Imperialismo, uma política de colonização que caracterizaria toda a segunda metade do século XIX e estaria ligada aos confrontos da Primeira Guerra Mundial.

As grandes potências Europeias, como a Inglaterra, a França, a Rússia e a Alemanha, tinham seus processos industriais e política imperialista bem diversificadas, por diferentes motivos. A Inglaterra aproveitou por um longo tempo sua supremacia econômica e marítima, mas logo foi ameaçada pela Alemanha, cuja unificação, em 1871, transformara em um império forte cuja indústria baseava-se na formação de carteis. Investindo na indústria pesada e estimulando a associação entre os bancos e as indústrias, a Alemanha deu um salto de desenvolvimento. A construção de uma intensa malha ferroviária tornou o país economicamente ágil e mais integrado.

No caso francês, a industrialização voltou-se para os produtos de luxo, já que havia uma tradição em remeter a França como lugar de civilidade e sofisticação. O mercado francês era único e não entrava em concorrência com os ingleses. Já a Rússia, embora tivesse uma pequena industrialização, a maioria de sua população era camponesa. O sistema de governo era monarquia czarista, totalitária e centralizadora. Era uma potência muito mais pelo seu tamanho e contingente populacional do que, propriamente, por questão bélica. Esta situação valeu-lhe a alcunha de “gigante com pés de barro”.

No ano de 1873, o marechal Otto von Bismarck, que unificou a Alemanha, formou a Liga dos Três Imperadores – Alemanha, Rússia e Áustria-Hungria. Em 1878, essa aliança foi rompida devido ao desacordo entre a Rússia e a Áustria-Hungria acerca dos Balcãs. Em 1882, uma nova aliança foi formada sendo a Rússia substituída pela Itália – Tríplice Aliança. Tais pactos alemães mexeram com a Inglaterra e com a França. A França guardava grande ressentimento devido à guerra franco-prussiana, ocorrida no final do século XIX, e da qual sairia derrotada. Esta derrota implicou na perda territorial francesa para os alemães, a Alsácia-Lorena (rica em minério). O revanchismo francês foi um dos fatores da Primeira Guerra Mundial. Em 1904, temendo o crescimento de um inimigo, Inglaterra e França se aliaram na Entente Cordiale. A adesão da Rússia à entente deu origem a Tríplice Entente. Configurava-se assim, o panorama político europeu – Tríplice Aliança e Tríplice Entente.

As potências europeias disputavam mercados e territórios devido a industrialização constante que demandava recursos. A Alemanha e a Itália, por terem sido unificados tardiamente, também entraram nesta disputa de territórios e consideravam suas posses insatisfatórias. Algumas regiões estratégicas estavam no centro desta disputa, é o caso dos Balcãs. Os alemães lutavam contra a independência desta região, já a Rússia estimulava esta independência para diminuir o poder da Alemanha, e levantar novos aliados.

Os Balcãs são uma região situada entre os mares Negro e Adriático. Foi ocupada por povos eslavos, que deram origem a vários países diferentes como Kosovo, Macedônia, Bósnia, Herzegovina, Bulgária, Montenegro e Servia. Durante muito tempo, esteve sob influência do Império Otomano, mas, no início do século XX, este império entrou em decadência e os países europeus, como a Alemanha, Áustria Hungria, França e Itália, passaram a disputar a região. Com o enfraquecimento Otomano, surgiu um processo de unificação liderada pela Sérvia e estimulada pela Rússia, conhecido como pan-eslavismo. Em 1908, a Bósnia-Herzegovina foi anexada pelo Império Austro-Húngaro, o que fomentou a Guerra dos Balcãs em 1912. Grécia, Bulgária, Montenegro e Sérvia desejavam a expulsão dos turcos com o objetivo de formar a Grande Sérvia, que se tornaria um país independente. A Áustria interferiu no expansionismo dos sérvios, reconhecendo a Albânia como país independente e provocando uma onda nacionalista servia.

No ano de 1914, em uma tentativa de acalmar os ânimos, o Arquiduque e herdeiro do trono Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, viajou até Saravejo, capital da Bósnia, para consolidar a posse da região e legitimar a expansão da Áustria-Hungria. Em junho de 1914, ele foi assassinado pelo sérvio Gavrilo Princip, que pertencia a uma organização nacionalista sérvia, denominada Mão Negra. O assassinato foi o estopim da Primeira Guerra Mundial.

A Primeira Guerra Mundial é dividida em duas fases: a guerra de movimento e a guerra de posição, também chamado de guerra de trincheira. Alguns historiadores defendem uma terceira fase, ofensiva, com a entrada dos EUA no conflito. A guerra de movimento, iniciada em 1914, marca a marcha alemã em direção à França. Para isso, foi necessário invadir a Bélgica para chegar ao território francês. Por essa razão, a Bélgica se uniu a Tríplice Entente para expulsar os alemães. Após vencerem os franceses, os alemães se preparavam para enfrentar seu pior inimigo – a Rússia. Foi no final de 1914 que teve início a nova fase: a guerra de posição ou de trincheira. Nesta fase, milhares de soldados ficavam entricheirados, em enormes condições de insalubridade, o que aumentava o número de mortos. Muitos soldados passavam dias em trincheiras lamacentas, sujeitos ao frio, à fome e às doenças, que matavam tanto quanto as balas do inimigo.

Em 1915, a Itália deixa a Tríplice Aliança e se alia a Tríplice Entente devido a uma promessa de que o país receberia territórios do império  Austro-Húngaro caso fosse derrotada. Em 1917, a Rússia se retira da guerra devido a um conflito interno – Revolução Russa – onde o czar foi deportado e um novo governo foi instaurado. A saída da Rússia parecia ser uma oportunidade para os alemães bombardearem a Inglaterra. Mas a entrada dos EUA na guerra foi uma surpresa. Embora apoiassem a Entente, os EUA ainda não haviam enviado tropas para o conflito, mas contribuíam, mandando suprimentos. Após o bombardeamento da Alemanha contra os navios norte-americanos, as tropas americanas começaram a chegar para por fim ao conflito. A Alemanha ficou isolada, pois os seus aliados haviam abandonado a aliança ou enfraquecidos com os anos de conflito. Em novembro de 1918, o Armistício de Compiègne foi assinado tendo como base a superioridade da Entente.

Em 1919, a paz foi selada com a assinatura do Tratado de Versalhes. O presidente norte-americano, Wodrow Wilson, era a favor de uma guerra sem vencedores e para isso estabeleceu os 14 Pontos de Wilson, uma lista de proposições que buscava a harmonia entre as potências europeias. Mas, no fundo, o Tratado de Versalhes foi um instrumento para subjugar a Alemanha, que foi responsabilizada pelo conflito que dizimara milhares de pessoas. O país perdeu uma boa parte de seus territórios e colônias, e foram distribuídos aos países aliados. A Alemanha ficou completamente destroçada, humilhada, o desemprego e a inflação levariam a população a um estado de fome e miséria. É neste contexto, sob as humilhantes condições de Versalhes, que emergem os movimentos nacionalistas, dentre os quais se destacaria o Nazismo e o início da Segunda Guerra Mundial.

A Europa antes da Primeira Guerra

 

A Europa após a Primeira Guerra

 

Resumo da Aula 02 – Revolução Russa

A história da Rússia na Era Moderna foi, sem dúvida, a história da construção de império, cujo número de habitantes e extensão territorial  faziam dela um dos mais importantes e poderosos países europeus. Contudo, ao chegar ao século XX, a sociedade e a economia do “gigante com pés de barro” pouco se modernizavam. A elite russa era formada pela nobreza, pelos grandes latifundiários, pela igreja e pelo exército. A propriedade de terras e os títulos de nobreza eram os símbolos da prosperidade e riqueza desta sociedade. O sistema era monárquico, regido pelo czar, a principal figura de autoridade.

Os nobres eram chamados de boiardos e a maior parte da população era formada por mujiques, camponeses que trabalhavam nas terras dos nobres. No entanto, os camponeses russos eram diferentes dos medievais. Em 1861, os Estatutos da Emancipação cederam a esta classe não só a liberdade individual, mas a possibilidade de comprar terras – significando que, teoricamente, a mobilidade social era possível. Na prática, nenhum camponês tinha condições para comprar uma terra e, também, não havia um apoio do Estado (empréstimos/financiamento) para o camponês conquistar sua terra. E, por outro lado, as terras que não pertenciam aos nobres, eram propriedades do Estado. Sendo assim, o camponês que não trabalhava para um nobre, acabava que trabalhando para o Estado.

O governo czarista tinha como principal característica sua centralização e autoritarismo. A mais importante dinastia foi a Casa dos Romanov. O czar Pedro I, cuja gestão ocorreu entre 1682 e 1725, foi um dos czares progressistas que modernizou o império, reformou a educação e a administração pública, tendo se tornado um dos maiores líderes políticos de seu tempo. Entretanto, o sentido de progresso era alterado de acordo com a concepção de cada czar. O czar Alexandre II, que reinou entre 1855 e 1881, defendeu o liberalismo e a modernização das estruturas do Estado, abolindo a servidão e anistiando as dívidas dos mujiques (Estatutos de Emancipação). O governo de Alexandre II, ainda que guardasse fortes características liberais, era uma nobreza centralista e por isso reprimia violentamente a oposição. Os niilistas – aqueles que defendiam o uso da razão sobre todas as coisas e a alfabetização dos servos -, embora pacíficos, foram igualmente reprimidos. E, portanto, a eles é atribuído o assassinato do czar em 1881. Alguns historiadores discordam que foram os niilistas que assassinaram Alexandre II, mas sim um grupo terrorista.

Com a morte do czar, Alexandre III subiu ao trono e iniciou o processo industrial russo, com o estímulo à entrada de capital estrangeiro no país. A Casa dos Romanov somente deixaria o poder com a Revolução Russa, de 1917, sendo Nicolau II o último czar. Ainda que tenham feito reformas e que a industrialização tenha sido um dos mais importantes assuntos, a centralização do poder, o autoritarismo, a perseguição política e a predominância dos interesses das elites eram características deste regime, os quais fomentaram a Revolução de 1917.

Em 1904, o czar Nicolau enfrentaria o Japão na Guerra Russo-Japonesa. O centro da discórdia foi a disputa por territórios das regiões da Manchúria e da Coreia. O Japão passara pela Revolução Meiji e possuía um potencial bélico muito superior ao dos russos. Logicamente os russos foram derrotados e tiveram enormes perdas materiais e humanas, o que levaram a já descontente população a empreender uma série de revoltas, motins e greves.

Em 1905, houve uma manifestação popular em frente ao palácio real em São Petersburgo. Os manifestantes eram trabalhadores e desejavam a implantação de uma assembleia constituinte. O povo queria o sufrágio universal e o fim da Guerra Russo-Japonesa. Além disso, a população não estava violenta, e nem armada. Porém, a guarda russa fuzilou os manifestantes e este episódio ficou conhecido como Domingo Sangrento. Se o regime russo já estava fragilizado devido a guerra contra o Japão, o Domingo Sangrento apenas piorou a situação e aumentou as animosidades antigovernistas. Este ato violento fomentou em uma greve geral entre os trabalhadores e até mesmo as forças militares aderiram aos protestos. Buscando conciliação, Nicolau II lançou o Manifesto de Outubro, que previa a instalação de uma Monarquia Constitucional. Os trabalhadores que haviam feito as greves passaram a se organizar em sovietes, conselhos que passaram a existir em todo o território russo.

A despeito da perseguição, a oposição crescia. Diversos grupos proliferaram pela Rússia. Dentre desses grupos, destacavam-se os anarquistas e socialistas. O grupo socialista possuía duas facções: os bolcheviques e os mencheviques. Os mencheviques (minoria) defendiam a aplicação das ideias de Marx. Já os bolcheviques (maioria) defendiam uma revolução, uma ditadura do proletariado. Seu líder, Vladimir Lênin, logo se tornaria uma das mais importantes figuras políticas do século XX.

O último golpe ao czarismo foi dado com a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial. Entretanto, não se esperava que o conflito durasse tanto tempo, nem que contasse com a participação de tantos países. A Primeira Guerra Mundial apenas agravou as condições internas da Rússia tornando-se impopular e provocando uma fome generalizada, culminando com a deposição do czar. Em 1917, uma nova onda de greves envolvendo trabalhadores, soldados e marinheiros assolou o país. Com a renúncia do czar, a república foi instalada. Nesta revolução, logo após a monarquia, os mencheviques, sendo liderado por Alexander Kerensky, tomaram o poder. Entretanto, os mencheviques mantiveram a Rússia na Primeira Guerra, um dos fatores que contribuíram para sua derrocada. Os bolcheviques, liderados por Lênin, conseguiam um apoio cada vez maior junto à população, já que uma das primeiras reivindicações era abandonar a Primeira Guerra Mundial.

Sob a direção de Lênin, o revolucionário Leon Trotsky reunia os bolcheviques para um conflito armado formando o exército vermelho. Em outubro, os bolcheviques invadiram o Palácio do Governo e expulsaram os mencheviques que eram considerados burgueses e não proletariados. Os principais nomes deste novo governo eram o de Lênin, de Trotsky e de Josef Stálin. Em 1918, Lênin ordenou a execução da família real, que ainda vivia na Rússia. Os Romanov foram executados, não só Nicolau II, mas toda sua família, composta pela mulher, Alexandra e por 5 filhos, 4 meninas e 1 menino. Uma das filhas do czar, Anastácia, rendeu filmes, livros e um desenho animado devido a um mito levantado por causa do seu corpo não ter sido encontrado. Somente no século XXI, testes de DNA  feitos com restos mortais encontrados comprovaram que não havia sobreviventes. A monarquia russa acabara de fato.

Os bancos e as fábricas foram estatizados. O Estado também confiscou a produção agrícola e centralizou a distribuição de gêneros básicos, o que foi chamado de comunismo de guerra e provocou, como não podia deixar de ser, grande descontentamento. Lênin instituiu uma política econômica intitulada NEP prevendo a liberdade do comércio interno, regulando a propriedade privada e o comércio. De modo geral, a NEP aliava princípios socialistas e capitalistas. Esta modalidade estabelecida é única e por isso foi chamada de Marxismo-Leninismo. Isto quer dizer que o pensamento marxista jamais foi aplicado na íntegra, em nenhum dos países que adotou o socialismo. Além disso, foi estabelecido o sistema de partido único, o Partido Comunista Russo.

Lênin esteve no poder até a sua morte, em 1924. Em seguida, Trotsky e Stálin disputaram no governo. Trotsky pregava a Internacional Comunista e a ideia de revolução permanente. Já Stálin, defendia a consolidação do socialismo soviético em seu território e de seus aliados. Josef Stálin acabou vencendo a disputa e Trotsky foi perseguido até ser assassinado em 1940, no México.

De modo geral, a Revolução Russa marca um momento de transição de um regime monárquico e capitalista para um Estado republicano e socialista.

 

Resumo da Aula 03 – A Crise de 1929

Após a Primeira Guerra Mundial, a Europa entrou em fase de reconstrução. As economias internas estavam arrasadas, não só o processo de industrialização que havia sido interrompido, mas também a agricultura havia sofrido muitas perdas. Os operários foram convocados pelas forças armadas e, além disso, não havia um mercado ativo em tempos de guerra como existia antes do conflito.

Após o fim da Primeira Guerra, a Liga das Nações foi criada como sendo a primeira tentativa de agregar diversos países em torno do mundo para buscar uma negociação diplomática. O objetivo era evitar um outro conflito mundial. Esta Liga funcionou até a década de 1940 e participaram os países vitoriosos na guerra. A exceção foram EUA que jamais fizeram parte deste organismo, embora tenha sido Woodron Wilson, o Presidente do país, um dos principais defensores desta iniciativa. A Liga das Nações também deu origem à ONU, que é hoje uma das principais organizações políticas internacionais do planeta.

Por outro lado, com o fim da Primeira Guerra, os EUA acabaram emergindo como potência mundial, especialmente devido ao fato de sua produção industrial e agrícola não ter sofrido prejuízo, pois não houve nenhum combate em seu território. Os presidentes norte-americanos que sucederam Woodron Wilson, acreditavam na aplicação de uma política econômica liberal. O liberalismo é uma modalidade do capitalismo onde não exigia a interferência direta do Estado. Ou seja, os presidentes de então pouco faziam para regular os mecanismos econômicos, permitindo que estes se desenvolvessem sozinhos. Se por um lado, esta atitude aumentou o crescimento do país, por outro levou a um resultado desastroso: a crise de 1929.

Na década de 20, com a economia europeia desorganizada, os EUA  passaram a exportar para o continente todos os tipos de mercadorias industrializadas. Também houve uma aproximação com os países latinos, cujas economias agrárias eram de grande interesse para os norte-americanos. Ainda que a América Latina exportasse enormes quantidades de produtos, eles eram muito baratos, pois eram gêneros agrícolas ou matérias-primas. E o que os latinos importavam eram bens industrializados, que eram produtos muito mais caros. Isso significa que o balanço comercial era sempre desfavorável para os latino-americanos. Já o aumento das exportações fomentou o mercado de trabalho, bem como os salários dos trabalhadores. Esta prosperidade gerou um boom de consumo, o que aqueceu ainda mais a economia. A década de 20 não foi só marcado pela economia, mas, também, pela cultura como a “Era do Jazz”. Além da música, o cinema, que foi inventado no século XIX, ganhou força nos anos 1920. Nasciam as grandes estrelas do cinema, ainda mudo e preto e branco.

Do ponto de vista social, o feminismo tornou-se um dos mais importantes movimentos. Devemos lembrar que na Primeira Guerra, as mulheres acabaram ocupando parte do mercado de trabalho, que havia sido deixado vago pela ida dos homens para o front. Com o fim da guerra, esta demanda de ocupação de postos de trabalho, antes exclusivamente masculino, continuou. No ano de 1919, as mulheres norte-americanas conseguiram o direito ao voto, através da luta das chamadas “sufragetes”. As reivindicações logo transcenderam a questão do direito ao voto, sendo a ela acrescentados direitos trabalhistas e sociais, como a conscientização acerca dos direitos reprodutivos e do controle natalidade. Entre as décadas de 1910 e 1920, foram estabelecidos dias dedicadas às mulheres, instituindo o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

Por outro lado, os anos 20 também foram marcados pelos conservadores que defendiam valores como “a moral e os bons costumes”, condenando o comportamento dos “desviantes”, ou seja, aqueles indivíduos que não se adequavam a um padrão social. Mesmo assim, as vedetes continuavam fazendo sucesso, e o número de bares, boates, lugares dedicados à dança e a festas não paravam de aumentar. Contudo, a prosperidade econômica daquele país dava-lhe maior visibilidade e acabou por fazer surgir a expressão “american way of life”, o estilo de vida americano, que seria cobiçado e reproduzido ao longo do planeta.

Apesar do Estado não interferir na economia, a livre concorrência também não era praticada. A economia norte-americana era dominada por monopólios, que aconteciam sob a forma de trustes, holdings e cartéis. O primeiro truste data de 1870 – a Standard Oil, uma empresa de petróleo que pertencia a John D. Rockefeller. Esses monopólios eram ilegais, pois existiam leis antitruste desde finais do século XIX, o que na prática não impediu sua ocorrência.

Apesar do aumento do emprego e do consumo, havia uma desigualdade na distribuição de renda, além do surgimento de grandes fortunas baseadas na especulação do mercado de ações. As companhias que possuem ações na bolsa são chamadas de capital aberto e, nos anos 1920, a compra de ações era considerada um grande investimento. A euforia financeira aumentou a especulação e era como se os anos de prosperidade jamais fossem acabar. Porém, com a Europa se recuperando economicamente, ela deixava, cada vez mais, de importar as mercadorias norte-americanas. Com a diminuição do mercado externo, as indústrias também diminuíam sua produção, aumentando o número de desempregados. A agricultura sofreu crises de superprodução, ou seja, havia gêneros agrícolas, mas não havia consumidores o suficiente. Diversos fazendeiros foram a falência. Com as falências da agricultura e o aumento do desemprego, o poder de consumo também foi decrescendo. Os bancos, que haviam investido tanto na indústria quanto na agricultura, começaram a quebrar, já que não tiveram o retorno de seu investimento. Fortunas e mais fortunas foram perdidas do dia para a noite. Nova York foi tomada pelo desespero, por uma onda de suicídios jamais vista até então.

A crise de 1929 afetou boa parte dos países ocidentais. A América Latina, com sua economia agroexportadora, tinha os EUA como o principal parceiro econômico, foi uma das mais prejudicadas. O Brasil, por exemplo, cuja receita se baseava na agricultura cafeeira, sofreu uma crise de superprodução. Esta crise econômica brasileira, aliado a outros aspectos, foi um dos fatores que levaram ao fim da Primeira República e ao início da Era Vargas.

Para sanar suas finanças, o presidente Franklin Roosevelt instituiu um conjunto de medidas intitulado New Deal. Tais medidas tinham como objetivo a recuperação financeira e a diminuição do desemprego, e deveriam ser aplicadas rapidamente. Foi através de Roosevelt que o Estado passou a interferir na economia. Foi implantada a Previdência Social, bem como uma série de garantias aos cidadãos, como o salário mínimo e o amparo aos desempregados. Os sindicatos foram incentivados e foram estabelecidos subsídios, e crédito financeiro para a recuperação agrícola. Roosevelt se tornou um dos mais importantes presidentes da História dos EUA e teve quatro mandados presidenciais. Essa crise é estudada ainda hoje, e muitas teorias sobre ela são ainda elaboradas. É importante lembrar que a União Soviética não foi afetada pela crise de 1929, já que não havia adotado o capitalismo.

 

Resumo da Aula 04 – Regimes Totalitários: Nazismo e Fascismo

O período entre guerras que compreende os anos de 1919 a 1939, foi marcado por grandes transformações, especialmente na Europa. Entre as décadas de 1920 e 1930 emergem os regimes totalitários que dominariam não só a Alemanha e a Itália, mas também Portugal e Espanha. O Totalitarismo é como um regime tentacular, que age não somente no tocante à vida pública, mas na normatização da vida privada. O Estado determina o que a população pode ler, transmitir, as formas de se expressar, de vestir. De modo geral, podemos ver que, no período pós-guerra, uma crise política e econômica europeia, que se torna mais evidente na Alemanha derrotada, mas também na Itália, teve enormes perdas humanas e materiais. Países europeus mais pobres, como Portugal e Espanha também se tornaram terreno fértil para a disseminação do totalitarismo.

Na Itália, o sentimento nacionalista cultivado a partir da unificação do país, em 1870, ganhava força. O regime italiano era a monarquia parlamentarista. O parlamento estava dividido em Partido Socialista e o Partido Popular, cuja vertente era a democracia cristã e, portanto, apoiado pela Igreja Católica. As diferenças ideológicas provocavam um impasse no parlamento, impedindo a votação das grandes questões e das reformas que a Itália necessitava. Em meio a instabilidade política, é fundado o Partido Fascista, por Benito Mussolini.

Segundo o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva:

“O termo fascismo deriva de uma antiga expressão latina, fascio, que denominava o feixe de varas carregado pelos litores, na antiga Roma, e com os quais se aplicava a justiça. Dessa forma, tal símbolo foi, durante a Revolução Francesa, na Itália, utilizado pelos jacobinos, como representação de liberdade e Risorgimento, já no século XIX, como unidade nacional. Ao longo do século XIX, na Itália, assumiu o caráter de símbolo de ação política, valorizando a justiça e a igualdade. Foi assim, por exemplo, com o seu uso pelo movimento dos trabalhadores sicilianos, entre 1893-94, ou com os intervencionistas de esquerda, interessados na entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial em 1914.” (SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Os fascismos. In: ZENHA, Celeste, REIS FILHOS, Daniel Aarão e FERREIRA, Jorge (orgs.) O século XX: o tempo das crises. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 112.)

Como podemos notar, Mussolini se apropria de um símbolo que já fazia parte da história política italiana e o utiliza para fortalecer seu partido ideologicamente. Seus militantes eram denominados de “camisas negras”, em alusão ao símbolo de vestimenta que se tornaria comum nos anos seguintes. Foi na Marcha sobre Roma, onde milhares de camisas negras confluíram para a capital italiana, exigindo que o Executivo ficasse a cargo de seu líder. Pressionado, o Rei Vitor Emanuel III cede e entrega a Mussolini o cargo de Primeiro Ministro. Em 1924, novas eleições são realizadas e os fascistas venceram. Aqueles que eram da oposição denunciavam fraude, mas foram perseguidos, presos e assassinados. Em 1929, foi assinado o Tratado de Latrão entre o Duce e o Papa Pio XI. Este tratado reconhecia a soberania do papa e fazia do Vaticano um Estado soberano eclesiástico. Rapidamente, o governo do Duce torna-se tentacular e estende-se pelas mais diversas áreas. A crise de 1929 e o colapso do sistema econômico norte-americano fizeram com que o Estado intensificasse a produção bélica e começasse uma política de expansão territorial, sobretudo, em direção à África. A Itália logo se aliaria a Alemanha, em uma aliança decisiva para os rumos da guerra que eclodiria em 1939.

Na Alemanha, após a primeira guerra, foi estabelecida a República de Weimar, que virou entre 1918 e 1933. O regime monárquico foi substituído pelo republicano e uma nova constituição foi feita, na cidade de Weimar, que daria nome ao período republicano alemão. Porém, a crise econômica deflagrava uma enorme insatisfação social. As clausulas de Versalhes inflamaram o sentimento nacionalista alemão, em uma combinação perigosa: crise e nacionalismo, da qual o regime nazista se aproveitaria para ascender ao poder. Não devemos esquecer que o país teve que pagar pesadas indenizações aos vencedores, além de ter perdido parte de seu território. Durante a década de 1920, um partido foi fundado em Munique e que começou a ganhar destaque – Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, também chamado de o Partido Nazista. Embora tenha a palavra socialista em seu nome, o Partido não carrega uma ideologia marxista e, além disso, combatia comunistas e socialistas, a quem vê como oposição ao Estado. Um de seus líderes, Adolf Hitler, prega o fim da República de Weimar e, em 1923, tenta dar um golpe de Estado na mesma cidade, em Munique.

O golpe foi um fracasso e Hitler foi preso. Na prisão, ele escreve a obra que seria a base da ideologia nazista – Mein Kampf (Mina Luta). O arianismo se tornaria fundamental durante todo o período nazista e seria um dos motivos à intensa perseguição e eliminação dos judeus do território dominado pela Alemanha. A crise de 29 piorou as condições de vida já intoleráveis na Alemanha. Em meio ao caos, a pobreza e ao desemprego, as palavras de Hitler ganharam corpo e os adeptos do nazismo cresceram em número e força política. Nas eleições de 1932, os nazistas ocuparam um grande número de cadeiras no parlamento e, em 1933, o então presidente da Alemanha, Paul von Hindemburg nomeou Adolf Hitler como chanceler, o que equivale ao cargo de primeiro ministro.

As primeiras medidas de Hitler como chanceler foram: a eliminação da oposição (socialistas, parlamentares, judeus); criação das Sessões de Segurança (SS), uma política que tinha como objetivo identificar e prender os oposicionistas; a instituição da Gestapo, constituindo em uma equipe de forças especiais. Em março de 1933, tem início o Terceiro Reich e, em 1934, falece o Presidente Hindemburg, o que permite a Hitler assumir também a presidência, sendo proclamado Führer. O racismo se torna uma política do Estado – e essa é uma das diferenças principais entre nazismo e fascismo – e tem início a perseguição aos judeus. Chamada de “solução final”, os judeus eram levados a campos de trabalhos forçados, os campos de concentração, onde eram submetidos as mais degradantes condições. Milhares perderam a vida nos campos, que se tornaram um símbolo do regime nazista.

O Estado Nazista  investiu maciçamente na produção bélica e no militarismo. Não ser um membro do partido era mal visto pelos vizinhos e havia o risco de denúncia como oposição, o que levaria, inevitavelmente, a prisão. Em 1939, a invasão da Polônia da início a Segunda Guerra Mundial e, seu término, em 1945, significaria também o fim do nazismo e do fascismo. Entretanto, nem todos os regimes terminaram ao  fim da guerra. Portugal e Espanha mantiveram seu regime até a década de 1970.

A Primeira Guerra Mundial e, em seguida, a crise de 1929, levou Portugal a uma crise econômica. Um dos temores da república era o socialismo e a possibilidade de reforma agrária, que afetaria diretamente a elite portuguesa. Deve-se lembrar que desde 1917 o Socialismo tornou-se uma ameaça na Europa devido a Revolução Russa. A intensificação da crise econômica portuguesa levou a um golpe militar na década de 1920. Em 1930, foi criado o partido União Nacional, liderado por um dos políticos que havia participado no regime militar, Antônio de Oliveira Salazar. Em 1933, a União Nacional chega ao poder e o Estado Novo passa a ser conhecido também como salazarismo, em referência ao líder deste partido. Como regime totalitário, o salazarismo era contra o liberalismo e perseguia seus opositores. Utilizou largamente a propaganda para fins políticos e foi claramente influenciado, sobretudo, pelo fascismo da Itália. Salazar deixa o poder em 1968, mas o salazarismo permaneceu até 1974, quando a Revolução dos Cravos iniciou um novo período, de abertura democrática no país.

O caso da Espanha tornou-se emblemático por envolver uma intensa guerra civil, que seria considerada um ensaio geral para a Segunda Guerra Mundial, diferente dos outros países, onde o totalitarismo se estabeleceu sem que houvesse uma guerra civil. Nos anos 30, havia duas posições políticas: os falangistas e a Frente Popular. Os falangistas eram um grupo fascista cujo líder, Francisco Franco Bahamonde, defendia o combate ao comunismo. Além da elite espanhola, Franco também era apoiado pela Igreja Católica. De forma gera, a Igreja Católica sempre se opôs ao socialismo e ao comunismo, pois estas ideologias pregam o fim da religião constituída. Por outro lado, a Frente Popular, que tinha o apoio soviético, era formada por trabalhadores, sindicalistas, comunistas e partidos de esquerda. Em 1936,  os falangistas  de Franco empreenderam um golpe de Estado, pondo fim à República Espanhola. A Frente Popular reagiu e teve início a Guerra Civil. Franco obteve apoio da Alemanha e da Itália para combater a Frente Popular. As forças aéreas alemã e italiana foram enviadas para a Espanha. Foram elas que protagonizaram o mais conhecido e trágico episódio do conflito, o bombardeio da cidade de Guernica, em abril de 1937, imortalizada na tela de Pablo Picasso. O apoio alemão e italiano foi decisivo e, em 1939, Franco toma o poder e inaugura o regime que levou seu nome, o franquismo.

 

Resumo da Aula 05 – A Segunda Guerra Mundial

Em 1919, após o fim da Primeira Guerra, teve início a uma onda de movimentos totalitários pela Europa. Em 1929, tais movimentos ganham força devido a quebra da bolsa de valores norte-americana. Em 1935, após a consolidação dos regimes alemão e italiano, tem início a uma política expansionista. A Itália tomou a Etiópia, na África. A Alemanha avançava por territórios franceses e, em nome da paz mundial, os demais países ignoravam esses movimentos.  A incapacidade da Liga das Nações em reagir demonstrou a fragilidade que a levaria à extinção. Em 1936, o apoio de Hitler e Mussolini a Franco, na guerra civil espanhola, permitiu a estes líderes perceberem o alcance de seu poder de fogo e estabelecerem sua aliança, que ficaria conhecida como Eixo Berlim-Roma. Enquanto isso, na Ásia, o avanço japonês provocaria a reação de outras potências que já disputavam a Manchúria chinesa, em especial, a União Soviética. Temorosos com a União Soviética, os japoneses se aliaram aos alemães e aos italianos, configurando o que seria chamado, na Segunda Guerra, de Eixo. Também foi assinado um pacto entre estes três países, o Anti-Komintern, cujo objetivo era impedir o avanço do Comunismo.

Outros países europeus, em especial a França e a Inglaterra, não viram com bons olhos a expansão alemã. Entretanto, com medo de um novo conflito mundial, tais países buscavam negociações e a diplomacia sem hostilidade. Como demonstração desta diplomacia, em 1938, houve a Conferência de Munique para debater sobre a situação da Checoslováquia. Neville Chamberlain da Inglaterra, Édouard Daladier da França, Mussolini da Itália e Hitler da Alemanha estiveram presentes, mas não houve nenhum representante da Checoslováquia. A Conferência cedeu o território para Alemanha e na repartição das Checoslováquia. Seria a última parte da expansão alemã e um erro diplomático que cobraria um enorme preço aos envolvidos. A cessão dos Sudetos tencionava proteger a Polônia de uma invasão Germânica. Porém, este país estava nos interesses dos nazistas que haviam perdido no Tratado de Versalhes. Com o desejo de invadir a Polônia, Hitler fez um acordo com a União Soviética, o pacto nazi-soviético (ou Ribbentrop-Molotov). Estrategicamente, Hitler estava eliminando o último entrave real à expansão nazista.

O pacto nazi-soviético foi muito perigoso. Primeiro, ambos foram obrigados a deixar para trás suas diferenças ideológicas – o nazismo era anti-socialista e anti-comunista, já a União Soviética os defendiam. De modo geral, Stalin acreditava que a vitória de Hitler ampliaria sua esfera de influência e haveria uma divisão política internacional apenas entre soviéticos e alemães. Foi naquela certeza de que não seria atacado, nesta frente, que permitiu a Hitler invadir a Polônia no ano de 1939, iniciando a Segunda Guerra Mundial.

A Polônia fora dominada em curto tempo, graças à técnica militar denominada blitzkrieg, que significa guerra-relâmpago. Com essa tática, a Alemanha conseguiu invadir e derrotar os exércitos da Dinamarca, Noruega, Bélgica e Países Baixos. Em 1940, os nazistas invadem a França e, para concretizar a vitória nazista na Europa, faltava invadir a Inglaterra. A RAF, força aérea inglesa, combatia a Luftwaffe no ar. Londres foi bombardeada e o Primeiro Ministro Winston Churchill conclamava o povo a lutar. Os londrinos foram às ruas defender a cidade.

No ano de 1941, os EUA que apoiavam os aliados com armas e suprimentos, foram bombardeados pelos japoneses em um ataque à base militar de Pearl Harbor, no Havaí. Neste mesmo ano, Hitler quebra o pacto com a URSS e invade seu território. Imediatamente, Stalin reage entrando para a equipe dos aliados que agora conta com diversos países como a Inglaterra, França, EUA e Brasil. A Itália tornou-se incapaz e rendeu-se declarando guerra à Alemanha, em 1943, com a deposição de Mussolini. No ano de 1944, no dia 6 de Junho, conhecido  como Dia D, tropas de diversas nações do mundo desembarcam na Normandia e definem o conflito. A Alemanha, obrigada a lutar em diversas frentes, não conseguia alinhar suas tropas. Em uma clara demonstração de nacionalismo, os nazistas se rendem marchando, jamais abandonando o ideal de germanismo que lhes havia sido incutido pelo Führer.

Com o conflito chegando ao fim, Franklin Rossevelt dos EUA, Winston Churchill da Inglaterra e Stálin da URSS se unem na Conferência de Yalta, com o objetivo de discutir os rumos da Europa no pós-guerra. A parte oriental da Alemanha seria zona de influência soviética e a parte ocidental, zona de influência norte-americana e inglesa. Configurava-se a Guerra Fria.

Apenas no final da Guerra, entre 1944 e 1945, à medida que as tropas aliadas avançavam, se deparavam com campos de trabalhos forçados, os campos de concentração, espalhados por todas as regiões dominadas pelos alemães. O mais famoso deles foi Auschwitz, mas estima-se que existiam outras dezenas destes campos, que foram destruídos pelos alemães ao se retirarem. Nestes campos estavam judeus, oposicionistas, comunistas, homossexuais, ciganos e todos os outros que eram considerados inimigos do regime nazista. Em relação aos judeus, a comunidade judaica internacional, horrorizada pelo genocídio, pressionou pela criação de um Estado Judaico, o que ocorreria em 1948, com a criação de Israel.

Após o Dia D, restavam Alemanha e Japão que mantinham o Eixo. Mussolini havia fugido, mas logo foi capturado pelos italianos. Em 1945, os soviéticos invadem Berlim e uma bandeira da URSS é hasteada no Reichstag, o parlamento alemão. No dia 8 de Maio de 1945, a Alemanha se rende. Hitler havia se suicidado no dia 30 de Abril, no bunker onde vivia com sua mulher e o Estado Maior alemão. O Japão foi o último país a se render e o fez de um modo trágico. Em agosto de 1945, os EUA lançaram bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando, instantaneamente, milhares de pessoas. Foi a única vez, na história, até o momento, que uma bomba atômica foi usada em um combate e tendo como alvo civis.

As perdas humanas estimadas em mais de 50 milhões de mortos, entre 22 milhões de russos e 6 milhões de judeus, foram algumas das mais notáveis consequências da guerra. A Europa sofreu um aumento geral de sua dívida pública com os EUA. Os alimentos foram racionados até os anos 1950, e os EUA foram obrigados a controlar rigidamente as áreas essenciais, como energia, preços, cambio e matérias-primas.

 

Resumo da Aula 06 – Guerra Fria

A divisão da Alemanha, ratificada em agosto de 1945, compreendia quatro zonas de ocupação, dividida entre franceses, ingleses, norte-americanos e soviéticos. Estava estabelecida a Guerra Fria, baseada na bipolaridade, e que consistia em uma disputa ideológica por zonas de influência entre dois blocos: EUA (Capitalista) e URSS (Socialista, liderado por Stalin). Cabe lembrar que a Guerra Fria não se restringiu a esses dois governos.

Em 1946, Winston Churchill cunhou uma expressão que seria sinônimo da ordem que se estabelecera: a Cortina de Ferro. A Cortina de Ferro referia-se ao isolamento que a URSS assumiu como postura após a Segunda Guerra. Por outro lado, há o medo de que um conflito aberto, entre EUA e URSS, significasse uma terceira guerra mundial e, desta vez, o horror de Hiroshima e Nagasaki, se repetisse em todo o planeta. Ainda que não tenha sido um conflito aberto, a Guerra Fria foi o pano de fundo para diversos outros conflitos que eclodiram nas décadas seguintes.

Em 1947, o presidente dos EUA, Harry Truman, o mesmo que autorizou as bombas em Hiroshima e Nagasaki, foi contra o avanço socialista. Truman viu no contexto da Guerra Fria, uma maneira de se afirmar na vida pública, fazendo do combate ao comunismo uma de suas principais bandeiras. Neste mesmo ano, a URSS estabeleceu o Kominform, cujo objetivo era a coordenação política dos diversos partidos comunistas na Europa e fora dela. Em 1949, foi criado o Comecon, o Conselho para Assistência Econômica Mútua, uma versão do Plano Marshall, mas para auxiliar os países socialistas, sobretudo aqueles do Leste Europeu. Devemos ressaltar que, no mundo socialista, não havia um presidente da república, mas do partido. O poder pertencia ao Partido Comunista e seu líder, neste caso, Josef Stalin. Lenin estabeleceu esta estrutura que permaneceu assim até o fim da URSS.

Em 1948, procurando formas para boicotar o lado Ocidental da Alemanha, a URSS estabeleceu um bloqueio isolando as partes oriental e ocidental. O bloqueio buscava impedir o abastecimento da parte Ocidental por meio terrestre, já que uma artilharia antiaérea significaria uma declaração de guerra. Porém, os EUA driblaram fácil o bloqueio, abastecendo a Alemanha por via aérea. Em 1961, começou a ser construído aquele que se tornaria o mais evidente símbolo de uma cisão internacional, o Muro de Berlim. O Muro de Berlim foi considerado o mais emblemático símbolo da Guerra Fria.

Nesse mesmo ano de 1948, houve um processo ao surgimento do Estado de Israel. Após a Primeira Guerra, foi criada a Liga das Nações para intermediar as relações internacionais e políticas, mas a Liga fracassou em seu intento. A prova deste fracasso é a Segunda Guerra Mundial. Mas podemos apontar diversas razões, políticas e ideológicas para a criação do Estado de Israel ter ocorrido neste período. No século XIX, o jornalista e escritor Theodor Herzl, considerado “pai do sionismo”, defendia o direito à soberania e a autodeterminação do povo judeu que para isso deveria retornar a sua região de origem a qual historicamente tinham direito. Durante o século XIX, os judeus eram muito perseguidos e, no século seguinte, Hitler sistematizou esta perseguição com o holocausto. Na Rússia também houve perseguições contra os judeus, casas e estabelecimentos pertencentes a judeus eram queimados e os judeus em si eram apedrejados. O sionismo é uma resposta a esta discriminação que existia há séculos, mas que ganhou evidência após a Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Segunda Guerra, e com a revelação dos campos de concentração, a comunidade judaica passou a exigir, de uma forma mais contundente, seus direitos a um território, não só como uma forma de compensar a morte de 6 milhões de judeus durante a guerra, mas também como uma crítica à inércia dos países aliados sobre o massacre. Os EUA tinham uma comunidade judaica com grande influência política e que auxiliou na articulação da criação de Israel. Por outro lado, os EUA também tinham um grande interesse em formar um país que nasceria como apoio em uma região problemática. Os países do Oriente Médio, como a Palestina, não eram favoráveis às interferências norte-americanas, e ter um país judaico na região era uma estratégia de expansão importante na Guerra Fria. Logicamente, o maior opositor à criação de Israel foi a URSS. Ao final, a Palestina foi dividida entre um Estado Judeu e o outro Árabe. Tal divisão enfureceu os palestinos dando início a uma longa trajetória de conflitos, atentados e invasões que continuam até hoje.

Em 1949, os EUA criaram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A OTAN era uma aliança política militar reunindo os principais países capitalistas da época, além dos EUA, Reino Unido, França, Bélgica, entre outros, compunham essa aliança. Em 1955, a URSS criou uma aliança nos mesmos termos da OTAN voltado para os países socialistas, o Pacto de Varsóvia. Quando a Alemanha foi dividida, ela foi considerada uma região desmilitarizada. Ou seja, nem os EUA e nem a URSS podiam fornecer armas e, também, nenhuma parte da Alemanha poderia constituir um exército. Quando a OTAN surgiu, as potências capitalistas quebraram este termo e passaram a estimular as forças armadas na Alemanha Ocidental. É neste contexto que o Pacto de Varsóvia surgiu.

Durante essa Guerra fria, houve um investimento maciço na indústria bélica, em ambos os blocos, o que aumentava ainda mais o clima de terror e tensão do planeta. Inovações tecnológicas, satélites espiões, agências de inteligência, espionagem industrial foram constantes dos dois lados. Também houve a corrida espacial, onde a URSS chegou perto, mas foram os EUA os primeiros a pousarem na Lua, em 1969. Na esfera cultural, o cinema americano alardava o perigo comunista em filmes como Invasores de Corpos. Os soviéticos criticavam a sociedade americana como fútil e consumista. Nos quadrinhos, o Capitão América tornou-se um símbolo de resistência derrotando o Caveira Vermelha, que personificava os soviéticos. Nas décadas de 1940 e 1950, nos EUA, o senador Joseph McCarthy deu início ao macarthismo ou Caça às Bruxas. McCarthy empreendeu uma verdadeira caçada contra os formadores de opiniões contando com a ajuda do FBI. O ator Charles Chaplin foi vítima das perseguições do senador o que o obrigou a deixar o país, acusado de ações antiamericanas.

No ano de 1949, ocorre a Revolução Chinesa. A China passara todo o século XIX sob a influência do imperialismo sendo mergulhado em diversos conflitos, sendo a Guerra do Ópio um dos mais significativos. O ano de 1911, foi o ano em que a China abandona sua monarquia e adota a República. Após a Primeira Guerra Mundial, a China estava sob ameaça do imperialismo japonês, o Partido Nacionalista – Kuomitang – era intensamente impressionado e sob estas condições cedia às investidas japonesas, que demandavam territórios, além de interferir politicamente no Estado chinês. Esta situação provocou a mobilização de vários setores nacionalistas, que promoviam marchas e manifestações em Pequim. Em 1920, influenciados pelo sucesso da Revolução Russa, foi fundado o Partido Comunista Chinês (PCC), um de seus membros foi o famoso Mao Tsé-Tung. O PCC crescia de uma forma assustadora. Em 1925, o Kuomitang passa a ser liderado por Chiang Kai-Shek, iniciando uma perseguição aos comunistas. Diante destas perseguições, Mao Tsé-Tung se refugia no interior do país, de onde organiza uma resistência ao governo do Kuomitang. Em 1931, foi proclamada a República Soviética da China.

Desde o período imperial, a China era dividida em regiões autônomas comandadas por chefes locais. Esta fragmentação manteve a China vulnerável às investidas estrangeiras. A República de 1911 tinha então, como maior desafio, construir uma unidade nacional, mas o preço desta unificação era alto. Em 1931, o Japão invadiu a Manchúria e as forças administrativas chinesas foram rompidas. Por sua vez, Mao Tsé-Tung organizava um exército formado por camponeses, estudantes e nacionalistas em geral. Seu discurso era a igualdade social e a exaltação ao nacionalismo. Entre 1934 e 1935, foi levantado a Longa Marcha onde Mao reuniu cerca de cem mil homens formando o Exército de Libertação Nacional. Tal demonstração de poder consagrou Mao Tsé-Tung como líder comunista e obrigou Chiang Kai-Shek a aceitar uma aliança com os comunistas. O objetivo era combater os japoneses. Porém, foi a derrota do Japão na Segunda Guerra que a China conseguiu se livrar do seu inimigo.

Em tempos de Guerra Fria, Chiang Kai-Shek passou a ser apoiado pelos norte-americanos. E, logicamente, a URSS passou a apoiar os comunistas chineses. O PCC acreditava que o apoio norte-americano seria uma nova forma de imperialismo e o Estado teria sido vendido ao capital estrangeiro. Com tais argumentos, o exército vermelho continuou a luta até marchar vitorioso sobre Pequim em 1949. Após a vitória, Mao fundou a República Popular da China, um regime comunista que manteve o país isolado durante décadas. Mas, nos últimos anos, a China pratica algo que denomina como socialismo de mercado, um sistema sem precedente na História, já que embora pratique o capitalismo como política externa, mantém a estrutura comunista no plano interno. Além disso, o desenvolvimento industrial fez do país um dos maiores consumidores e petróleo do mundo.

Nos finais da Guerra Fria, prevaleceu o lado capitalista como o sistema econômico regendo as relações do mercado internacional. Os EUA emergem de imediato como potência, mas não se mantém solitários nesta posição por muito tempo. Logo a Comunidade Econômica Europeia e a própria China viriam a se colocar igualmente como potências, inaugurando a era da multipolaridade, onde as esferas de influência política e econômica internacionais podem ser encontradas em diversos países, e não mais concentrada em um bloco de influência.

 

Resumo da Aula 07 – Descolonização Africana e Asiática

Durante o século XIX, o imperialismo europeu incorporou diversas possessões nestes continentes devido a questões econômica (Industrialização) e ideológica (fardo do homem branco). Esta conjuntura, que levou à Primeira Guerra Mundial, permaneceu até o final da Segunda Guerra Mundial. O caso da Índia que foi submetido aos ingleses, as duas forças políticas indianas – o Partido do Congresso (formado por hindus, em 1885) e a Liga Muçulmana, formada em 1906 – sempre fortaleceram o movimento nacionalista, que ganhou força após a Primeira Guerra Mundial através da participação política de Mahatma Gandhi, que logo se tornaria a principal figura na independência do país. Se, por um lado, a existência desses partidos lembra a possibilidade de uma autonomia política indiana, por outro evidencia a cisão religiosa – entre hindus e muçulmanos – dividindo o país. Esta cisão atuava a favor dos ingleses e, por isso, a atuação de Gandhi foi tão significativa que acaba por conciliar os interesses de autonomia tanto de hindus quanto de muçulmanos. A postura pacifista de Gandhi desestimulava os ingleses à repressão violenta, pois corriam o risco de transformá-lo em um mártir, o que só fortaleceria a causa da independência colonial. E foi esta atuação de Gandhi que obrigou a Inglaterra a conceder a independência da Índia, em 1947, e a forma pacífica permitiu aos ingleses manter seus interesses econômicos na região. Por outro lado, internamente, a cisão indiana acabou provocando o surgimento de dois países: a Índia (União Indiana), de maioria hindu; e o Paquistão, de maioria muçulmana. Sendo assim, Gandhi também foi considerado um traidor pelos nacionalistas por não combater esta divisão. E, em 1948, Gandhi foi assassinado por um radical hindu que não aceitava a formação do Paquistão.

Além da Índia, também houve conflitos em uma outra região. É o caso de Israel e Palestina. A primeira Guerra Árabe Israelense ocorre em 1948, quando a área destinada a Israel começa a ser efetivamente ocupada. Em tempos de Guerra Fria, se o Estado Judaico era aliado norte-americano, os países árabes eram apoiados pelos soviéticos. Já o caso das colônias francesas, na Ásia, foi bastante diferente do que ocorrera na Índia. Os franceses dominavam a região conhecida como Indochina, invadida pelo Japão na Segunda Guerra. A invasão japonesa motivou a reação das forças locais. O líder da resistência, Ho Chi-minh, fundou o movimento de libertação do Vietnã (que fazia parte da Indochina), denominada Vietminh, empreendendo uma guerrilha contra os franceses. A França perde a guerra e a posse da Indochina seria desmembrada em três países diferentes: Laos, Camboja e Vietnã. A independência destes países foi reconhecida em 1954, na Conferência de Genebra. Nesta mesma conferência, o Vietnã foi dividido em mais uma demonstração da Guerra Fria. O Vietnã do Norte, liderado por Ho Chi-minh, adotando o comunismo, e o Vietnã do Sul, o capitalismo. Esta cisão levaria à Guerra do Vietnã em 1965. Em 1955, ocorreu a Conferência de Bandung, na Indonésia, reunindo dezenas de países asiáticos e africanos, com o objetivo de impedir que a Guerra Fria “esquente” na região da Indochina. Pois, submeter-se à aliança a um dos blocos significaria uma nova forma de submissão a potências estrangeiras que poderia levar à dependência política e econômica.

Além disso, a África foi praticamente dividida em sua totalidade e qualquer ameaça a independência recém-conquistada era alvo de repúdio. Logo surgiu a expressão “terceiro mundo”, para se referir a estes países não alinhados. Em seguida, esta expressão se popularizou para se referir a países que ainda não haviam conseguido adquirir um grau de desenvolvimento econômico e político semelhante àquele dos países europeus e dos EUA. No século XIX, a França tomou posse da Argélia e este domínio se estendeu após a Segunda Guerra. Em 1952, houve um conflito que se acirra em 1954, com a Frente de Libertação Nacional (FLN) em confronto aberto contra os franceses que ocupavam a capital, Argel. O conflito trouxe de volta ao poder, na França, o General Charles de Gaulle, que havia sido um dos símbolos de resistência francesa ao nazismo. O general articula um plebiscito e negocia com a FLN. O resultado aconteceu em 1962, quando a maioria vota pela emancipação levando Ben Bella ao poder do novo país, a República Democrática Argelina.

O Sudão, um dos maiores países africanos, também foi marcado por intensos conflitos. Em finais do século XIX, o Sudão estava dividido entre a posse da Inglaterra e do Egito. Esta divisão também agravou uma intensa divisão entre cristãos (no Norte) e muçulmanos (no Sul). Com o fim da Segunda Guerra, o Egito viu uma oportunidade de dominar todo o Sudão, e exigiu a retirada dos ingleses do país. Após a independência, em 1956, o Sudão mergulha em uma situação de instabilidade política e conflito interno entre Norte e Sul que viria a se prolongar por mais de quatro décadas. Esta instabilidade é demonstrada através do Conflito de Darfur iniciada no século XXI. Desde 2003, disputas políticas internas no Oeste do Sudão, rico em petróleo e minérios, tem oposto grupos árabes e não árabes. Mas a questão vai muito além de religioso, assumindo contornos de conflito étnico e genocídio. Darfur foi um dos conflitos mais recentes, mas não o primeiro. E pela situação política sudanesa, dificilmente será o último.

Portugal foi um dos últimos países europeus a abrir mão de suas colônias africanas, o que só ocorre nos anos 1970 do século XX mediante a um conflito, a Revolução dos Cravos, que eclode em 1974. Esta revolução derrubou o salazarismo de Portugal e acabou libertando as colônias portuguesas, como Angola.

As independências promoveram fronteiras arbitrárias o que faz da África o único continente em que algumas fronteiras são linhas retas. Por outro lado, o mundo ocidental via na África como um bloco único, e não como regiões com culturas e sociedades próprias, provocando uma série de conflitos étnicos que resultaram em massacres, como o ocorrido em Ruanda, em 1994. Mesmo livre do jugo europeu, o continente ainda não foi capaz de resolver seus problemas internos.

 

Resumo da Aula 08 – Os Conflitos da Guerra Fria: Vietnã, Coréia e Cuba

As décadas de 1950 até 1980 do século XX foram repletos de guerras civis e crises internas, ocorridas em diversos países. Os mais emblemáticos foram: Coréia, Vietnã e Cuba.

Em 1949, com a Revolução Chinesa, o temor da expansão socialista provocou diversos conflitos na Coréia. E, em 1950, a Coréia da Norte invadiu a Coréia do Sul para unificar o país sob o regime comunista. A guerra civil se estendeu até 1953 com a morte do líder soviético, Josef Stálin, provocando alteração na política externa da URSS. Stálin foi sucedido por Nikita Khurshchev. Já nos EUA, Dwight Eisenhower foi eleito. E os dois novos líderes tentaram um acordo de paz, sem ninguém se interessar pela extensão da Guerra da Coreia. Por outro lado, durante o período imperialista, a Coreia foi invadida e ocupada pelo Japão. Os japoneses consideravam esta região estratégica, política e militarmente, além de terem interesses nos recursos locais. Com a entrada do japão na Segunda Guerra, a situação da Coreia se agravou, já que além de buscar recursos, muitos coreanos foram enviados para o exército japonês.

Já Cuba, após a sua independência no século XIX, passou a ser submetida à política norte-americana do Big Stick e da Doutrina Monroe, que justificava a intervenção dos EUA, nos países latinos, com o pretexto de manter a ordem e garantir a emancipação das ex-colônias latinas de suas respectivas metrópoles. Neste contexto, a Constituição Cubana possuía um mecanismo chamado Emenda Platt. Esta emenda permitia a presença militar dos EUA em Cuba, e quebrava a soberania do país, motivo de grande revolta entre a população cubana. Em 1933, Fulgencio Batista chega ao poder, cujo governo rapidamente assumiu o aspecto de uma ditadura. Batista não se opunha a intervenção estrangeira na ilha. Conforme a ditadura tornava-se cada vez mais opressora, iam crescendo também os grupos de resistência, normalmente, na clandestinidade. Com uma tática de guerrilha, os revolucionários foram tomando aos poucos as cidades do interior, até que, em 1958, entram vitoriosos em Havana, a capital cubana. Fulgencio se exilou em Portugal e, em seguida, na Espanha, onde faleceu em 1973. Nos anos 1950, surge um movimento guerrilheiro liderado por Fidel Castro, filho de um grande produtor de cana de açúcar, que havia estudado Direito na Universidade de Havana, onde começou a se interessar por questões políticas. Junto com o seu irmão, Raul, e com o apoio de Camilo Cienfuegos e do médico argentino Ernesto “Che” Guevara, Fidel iniciava um movimento sistemático de oposição a Fulgêncio Batista. No princípio, a Revolução Cubana deste grupo não era um movimento socialista. Che Guevara era um dos poucos que defendia a adoção deste regime em Cuba. Foi no ano de 1959 que é marcada a vitória da Revolução Cubana. Suas primeiras medidas foram a realização de uma intensa reforma agrária, além da nacionalização de diversos empreendimentos, como refinarias, usinas e indústrias, pois a maior parte desses setores pertenciam a norte-americanos. Em tempos de Guerra Fria e uma economia agrária, um embargo econômico seria uma sentença de morte. Este embargo significava que nem os EUA e nem seus aliados comprariam ou vendiam qualquer produto para os cubanos, sufocando o mercado e, por consequência, sua economia. Mas, por outro lado, a URSS recebeu Fidel de braços abertos. Foi desta forma que, em 1961, uma revolução sem pretensões socialistas, adota este regime e se coloca como aliado do bloco soviético. Ter um aliado socialista no “quintal dos EUA” era uma grande vantagem estratégica para os soviéticos. Logo, essa vantagem traria um incidente internacional – a  Crise dos Mísseis.

Já o Vietnã, que sofreu com a divisão a partir da Convenção de Genebra, onde o Sul seria comandado por Bao Dai (capitalista) e o Norte, comandado por Ho Chi Minh (Comunista), deveriam, em 1956, ser realizadas eleições livres, que novamente unificariam o país em um único regime. O presidente norte-americano Eisenhower, temendo que o país se consolidasse sob a liderança de Ho Chi Minh, enviou tropas para o Vietnã do Sul e mediante um plebiscito – que parece ter sido fraudado – colocou no poder, Ngo Dinh Diem, que apoiava abertamente os EUA. Ngo Dinh Diem logo se tornaria um ditador, cancelando as eleições e proclamando a independência do Sul. Porém, houve uma resistência interna no Sul independente, de orientação comunista, disposto a lutar contra a interferência norte-americana e pela redemocratização do país. A partir dos anos 1970, sem um avanço significativo contra o Norte, e contabilizando milhares de mortos, a derrota norte-americana era iminente. Diversos grupos protestavam abertamente contra o conflito. Feministas, hippies, músicos, intelectuais, jornalistas, formadores de opinião, levantavam suas vozes e pediam pelo fim do conflito. O Vietnã foi um dos primeiros conflitos a ter a cobertura maciça da imprensa e a divulgação das informações vindas diretamente do front revelavam o horror da guerra.

Três anos após a unificação do Vietnã, eclode, no Irã, uma guerra civil, que ficaria conhecida como Revolução Iraniana. O Oriente Médio era palco de disputa e alvo de muitos interesses, por ser a maior região petrolífera do planeta. O Irã era governado pelo Xá (monarca) Reza Pahlevi. Pahlevi favorecia os interesses norte-americanos o que provocava a oposição dos nacionalistas, que não desejavam interferências estrangeiras em sua soberania nacional. A população, insatisfeita, levou ao poder o aiatolá Ruhollah al-Khomeini no ano de 1979. Esta revolução levou ao poder o fundamentalismo islâmico, a ala radical dos muçulmanos. Logo, radicais e moderados passaram ao embate, provocando uma guerra civil. Em 1980, Saddam Hussein, líder do Iraque, invade o Irã em busca de territórios. É importante ressaltar que Hussein era apoiado pelos EUA do presidente Ronald Reagan. Este mesmo Hussein foi, anos mais tarde, acusado de crimes de guerra e retirado do poder por pressão norte-americana. A Guerra Irã-Iraque prosseguiu até os anos 1990, quando o Iraque finalmente reconheceu a posse do Irã de seu território original. Esta foi uma guerra sem vitoriosos e os dois países sofreram intensas perdas, humanas e materiais.

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o posterior esfalecimento da União Soviética, teve fim uma das mais longas guerras da história, a Guerra Fria.

 

Resumo da Aula 09 – O Fim da URSS e a Nova Ordem Mundial

A década de 1970 foi caracterizada por uma série de acordos, objetivando, sobretudo, o controle da produção e a comercialização de armamentos entre os dois blocos envolvidos na guerra fria. Pois qualquer conflito poderia lançar mão de armas nucleares, o que seria devastador não só para os países envolvidos, mas para todo o planeta. O presidente dos EUA, no período, John F. Kennedy, foi assassinado no Texas, em 1963, por Lee Harvey Oswald. O atirador alegava ser inocente e estaria sendo incriminado somente por ter vivido parte da sua vida na URSS. Oswald foi morto enquanto era transferido para prisão. Com a morte de Kennedy, Lyndon Johnson assume a presidência. Seu governo recrudesce a participação dos EUA, na Guerra do Vietnã, empenhando no combate ao socialismo. É somente no governo do republicano Nixon, em 1968, que se inicia uma conciliação com os países comunistas, sem comprometer o bloco capitalista.

No início dos anos 1970, os EUA defende a entrada da China no Conselho de Segurança da ONU. Este Conselho foi criado em 1946, um ano depois da fundação da ONU, e é formado por 15 membros, dentre os quais apenas 5 são permanentes. Atualmente, são eles: EUA, Rússia, China, Reino Unido e França. As outras 10 vagas são preenchidas mediante eleição da Assembléia Geral e cada país pode ocupá-la por 2 anos. O apoio de Nixon à entrada da China comunista no Conselho de Segurança da ONU, demonstrou o início de um período que ficou comumente conhecido como detente (afrouxamento da austeridade política que dividia o mundo até então) e caracteriza a década de 1970. A aproximação entre China e EUA se consolidou, em 1972, com a visita de Nixon ao país, governado por Mao Tse Tung. Após a vitória do comunismo chinês e a ascensão de Mao Tse Tung ao poder, o líder comunista se referia ao Ocidente como “tigre de papel”, demonstrando que, na verdade, não havia nada a temer. O secretário do Estado norte-americano, Henry Kissinger, foi um dos principais articuladores da aproximação EUA/China e se tornou um dos maiores especialistas em política internacional na história recente. Por outro lado, a política de Nixon foi incrivelmente inovadora, já que quebrava o isolamento diplomático de décadas entre os blocos capitalista e socialista. Nixon também se encontrou com Brejnev, líder da URSS, rendendo a assinatura do primeiro SALT – Strategic Arms Limitation Talks – as conversações sobre limites de armas estratégicas, cujo termo envolve diversos tipos de armamentos, como aviões de guerra, armas nucleares e mísseis intercontinentais. No ano de 1972, Nixon caiu no “escândalo Watergate”, que obrigou-o a renunciar. Membros do Partido Republicano foram acusados de espionar o partido rival, Democrata. Watergate era o nome do complexo de prédios localizado em Washington onde abrigava a sede do Partido Democrata. Nixon foi obrigado a renunciar e esta renúncia ocorreu em 1974.

Os sucessores de Nixon, Gerald Ford e Jimmy Carter, continuaram com a política externa de Nixon. Entretanto, no governo de Ronald Reagan (1981-1989), esta política sofre alguns percalços. Em 1980, ainda na gestão de Carter, os norte-americanos boicotam as Olimpíadas realizadas em Moscou, devido a invasão soviética no Afeganistão ocorrida em 1979. Em 1984, foi a vez dos soviéticos boicotarem as Olimpíadas do mesmo ano sediadas em Los Angeles. Em 1985, Mikhail Gorbatchev assume o poder na URSS. O novo líder estabelece um conjunto de amplas reformas, fundado em dois pilares: a Glasnost (transparência) e a Perestroika (reconstrução/reestruturação). Em 1987, Gorbatchev assinou o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, implicando na destruição e controle de mísseis de médio e longo alcance. Pouco antes da assinatura do Tratado, em junho de 1987, Reagan, em visita a Alemanha, discursa pela queda do Muro de Berlim. Cabe lembrar que, ao imputar a Gorbatchev a decisão acerca da manutenção ou queda do muro, Reagan isentava os EUA da responsabilidade pela existência desta estrutura, já que, após a Segunda Guerra, o país havia apoiado a divisão da Alemanha. Em 1989, o muro caiu e surpreendeu o planeta. O ministro alemão Helmut Kohl proclamava ser aquele o início de uma Alemanha como jamais havia sido visto. Com a unificação, a Alemanha se tornava a terceira maior potência na época, atrás somente dos EUA e do Japão. A queda do muro e a adoção do capitalismo foi interpretado como a falência do regime socialista.

Apesar dos esforços de Gorbatchev, a Perestroika e a Glasnost conseguiram desagradar tanto aos socialistas radicais como aos simpatizantes do capitalismo. Para os socialistas, as medidas representavam a fraqueza do líder soviético que comprometia o regime. Para os capitalistas, tais medidas eram mudanças de pouco alcance, cujos resultados só poderiam ser vistos a longo prazo. Sem apoio, Gorbatchev viu as repúblicas soviéticas se organizarem sob uma nova bandeira, a CEI, Comunidade dos Estados Independentes, em dezembro de 1991. Logo depois da criação da CEI, no natal de 1991, Gorbatchev renunciou.

O fim da URSS implicou no término da Guerra Fria e, portanto, da bipolaridade. De imediato, os EUA emergem como potência nesta Nova Ordem Mundial, mas logo ficaria claro que, com o desenvolvimento europeu e chinês, a nova realidade seria multipolar. Os mercados mundiais passaram a ser unificados em torno do capitalismo – ainda que o socialismo e o comunismo se mantivessem em alguns países, como Cuba e China – e o processo de globalização foi acelerado.

 

Resumo da Aula 10 – Terrorismo e Política Externa Norte-Americana

Após o fim do governo Ronald Reagan, assumiu a presidência dos EUA, George H. W. Bush, cujo mandato se estendeu de 1989 a 1993. Essa foi a última gestão antes do fim da URSS e foi marcada pela Guerra do Golfo. Esta guerra eclode em 1990, mas não há uma interferência direta da Guerra Fria. Neste mesmo ano, Saddam Hussein, líder do Iraque, invade o Kuwait, rico em petróleo. Rapidamente, os EUA reagem, apoiados pelas Nações Unidas, pelo Reino Unido e pela França. Esta guerra mostrou a preocupação do Ocidente com os países do Oriente Médio, devido ao fato de estes concentrarem as maiores reservas de petróleo do planeta. A derrota do Iraque foi uma demonstração do poderio ibérico norte-americano. Apesar do enorme sucesso, a Guerra do Golfo provocou um enorme gasto financeiro. Por isso, o republicano George H. W. Bush não conseguiu ser reeleito, perdendo as eleições para o democrata Bill Clinton.

Embora a Guerra Fria trouxesse uma aparência de “passividade” às relações internacionais, logo esta realidade mostrou ser apenas ilusória. Como exemplo dessa ilusão, podemos citar os conflitos do Afeganistão. O país havia sido ocupado pela URSS, que apoiou a posse de Barbrak Kamal, em 1980. Visto como um governo que cedia aos interesses estrangeiros, cresce a resistência local pelos mujahedins (guerrilheiros) que buscam expulsar o invasor. Estes guerrilheiros eram apoiados pelos EUA, Paquistão e Arábia Saudita. Nos anos 1980, este grupo forma uma aliança levando o líder soviético Mikhail Gorbatchev a iniciar o movimento de desocupação das tropas soviéticas, concluído em 1988. A ocupação soviética levou o Afeganistão a uma guerra civil entre os nacionalistas e aqueles que defendiam o governo. Durante esses conflitos, o grupo Talibã, fundamentalistas islâmicos, ascendeu ao poder. Este grupo defendia o estabelecimento do Estado que seguisse rigidamente os princípios do Islamismo. Com a milícia talibã no poder, as mulheres foram proibidas de trabalhar fora de casa e foi restaurada a punição de apedrejamento até a morte. O adultério e o homossexualismo são considerados crimes em alguns países que professam a fé islâmica.

Paquistão e Arábia Saudita reconheceram o Talibã como o legítimo governo afegão. Medidas radicais foram tomadas, como a destruição das estátuas históricas de Buda, em 2011, considerado um patrimônio. Neste mesmo ano, em 11 de setembro, dois aviões de passageiros foram lançados contra as torres gêmeas do WTC, em Nova Iorque, no Pentágono e em Pittsburg, na Pensilvânia. Estima-se que tinha como destino a Casa Branca, em Washington, mas os sequestradores foram impedidos pelos passageiros de alcançar seu alvo. Os atentados, reivindicados pelo grupo terrorista Al Qaeda, liderado por Osama Bin Laden, deixaram milhares de mortos, quase todos civis. Tal ataque não só mudou os rumos do país, mas, também, de toda a política internacional. Foi formado uma coalizão antiterrorismo, liderada pelos EUA e apoiada pelo Reino Unido. O alvo era o Afeganistão, sede do grupo terrorista Al Qaeda. Os EUA exigiam a entrega de Osama Bin Laden para julgamento. Porém, o líder talibã, mulá Omar, recusou-se a cumprir a exigência. Esta atitude fez com que os países como Arábia Saudita e Paquistão, aliados do Afeganistão, rapidamente retirassem seu apoio e o país ficou sozinho para lutar contra a ameaça norte-americana. Em outubro de 2001, Cabul foi bombardeada e o governo talibã deposto pelas forças de coalizão. Um novo governo foi instituído, mas a guerra continuou por mais de uma década.

O presidente George W. Bush estipulou o que ficou conhecido como Doutrina Bush, uma série de princípios que justifica o combate ao terrorismo em qualquer parte do mundo. Segundo essa doutrina, os EUA podem interferir militarmente em qualquer país que considere uma ameaça terrorista ou que abrigue terroristas – como é o caso do Afeganistão. Além disso, podem depor regimes que considerem uma ameaça à segurança nacional – como no Iraque. Essa doutrina deu origem à chamada “guerra preventiva”, que busca impedir novos atentados em solo americano ou aliado.

Nos EUA existem diversos partidos, além de candidatos independentes, sem partido, que também podem ser eleitos. Mas, na prática, apenas dois partidos se revezam na presidência: republicanos e democratas. Como a eleição não é direta, e sim feita através de colégios eleitorais, Bush foi eleito sem ter recebido maior número de votos total da população. Esta eleição, ocorrida em 2000, também foi marcada por inúmeras acusações de fraude. Dessa forma, o novo presidente assume o cargo sob uma atmosfera de legitimidade, e o ataque terrorista marcou sua primeira grande atuação na presidência e garantiu sua eleição para um segundo mandato. No plano interno, foi assinado o Ato Patriótico, que cassava uma série de liberdades civis. A partir deste ato, tornou-se possível monitorar qualquer comunicação – internet, email, correios, ligações telefônicas, etc – de cidadãos americanos e estrangeiros, sem autorização prévia da justiça. Em 2004, a segunda gestão de Bush foi marcada pela guerra preventiva contra o Iraque. Além disso, houve inúmeras críticas internas contra o Ato Patriótico e, também, o furacão Katrina devastou a cidade de Nova Orleans, em 2005, mostrando uma certa inabilidade da parte do governo em lidar com as consequências naturais.

A Guerra do Iraque, que também caracterizou a segunda administração de Bush, levou a uma enorme crise financeira. Sob justificativa de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, o país foi invadido em 2003. Bush e o primeiro ministro britânico, Tony Blair, temiam que Saddam Hussein, líder iraquiano, pudesse se constituir em uma ameaça imediata de terrorismo. Em 2003, Hussein foi deposto e, em 2006, foi condenado a morte pelos iraquianos. Mesmo após sua morte, a guerra continuou. Com efeito, em 2005, Londres sofreu um dos maiores ataques terroristas de sua História, também empreendido por fundamentalistas islâmicos. A guerra do Iraque prosseguia e, em Bagdá, foi criada a Zona Verde, uma área de não agressão, e mesmo com a cidade destruída e a ameaça terrorista aparentemente controlada, somente em 2011 o conflito teve fim.

O legado da Era Bush, além da manutenção de sua doutrina, foi uma intensa crise financeira. O investimento na indústria bélica deixou de lado questões internas, como a caótica situação da saúde. Em 2008, seu governo se encerra em meio a uma das maiores crises financeiras da História dos EUA, comparável com a Crise de 1929. As eleições seguintes deram vitória ao democrata Barack Obama, que assumiu o compromisso de sanear as finanças, desocupar o Afeganistão, acabar com o Ato Patriótico, revitalizar o sistema de saúde e fechar a base de Guantánamo. Mas, até meados de sua segunda gestão, nenhuma dessas plataformas foi cumprida. Além disso, houve uma crise no mercado mobiliário. De forma simples, Bush investia na construção de imóveis. Logo, havia mais residências que compradores, e os bancos passaram a estender seus financiamentos mesmo sem garantia de pagamento de empréstimos. Quando as pessoas passaram a não conseguir quitar seus empréstimos, os bancos retomavam estas casas e as colocavam no mercado novamente. Sem crédito, não havia como comprar imóveis, e os bancos se viram donos de diversas propriedades. Quando o Lehman Brothers, o quarto maior banco norte-americano, decretou falência, a situação já era irreversível.

 

Obrigado pessoal!

Bons estudos!

Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar um resumo das aulas da disciplina Sustentabilidade do 6o período do curso de Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

Resumo da Aula 01 – Desenvolvimento Sustentável: Conceitos e Objetivos

O rastro deixado pela humanidade sobre a Terra está por toda parte. As estatísticas de conversão e desmatamento são frequentemente contestadas, pois o falso orgulho nacional quase sempre distorce esses dados para que as coisas pareçam melhores do que na realidade estão, tanto para o público interno como para o externo (Dourojeanni e Pádua, 2007). A preocupação com os problemas ambientais ganhou escala e maior repercussão no final da década de 60 e início da década de 70. Discussões formais sobre os impactos ambientais causados pelo desenvolvimento e pela industrialização aconteceram com a criação do Clube de Roma, em 1968, na Itália, formado por cientistas preocupados com os impactos provocados pelo crescimento econômico e com a disponibilidade de recursos naturais do planeta.

O começo dos estudos do relacionamento entre o meio ambiente e o crescimento econômico foi marcado pelo relatório Os limites do crescimento, escrito por Jay Forrest e Dennis Meadows, do Instituto Tecnológico de  Massachusetts (MIT). O trabalho enfatiza que a exploração e degradação dos recursos naturais limitariam o crescimento da economia mundial. Tratava essencialmente de problemas cruciais para o futuro desenvolvimento da humanidade. A conclusão que chegaram é que o planeta Terra não suportaria mais o crescimento populacional por causa da pressão sobre os recursos naturais e do aumento da poluição (Hernandez, 2009).

A concepção de desenvolvimento sustentável tem suas raízes fixadas na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, capital da Suécia, em julho de 1972, segundo Brunacci e Philippi Junior (2009). “O desenvolvimento sustentável satisfaz às necessidades atuais sem comprometer a capacidade de futuras gerações satisfazer suas próprias necessidades”. Vemos que o conceito de desenvolvimento sustentável surgiu em um contexto de crise econômica e da revisão de paradigmas de desenvolvimento. Ao qualificar o desenvolvimento com o adjetivo “sustentável”, incorpora-se um conceito de capacidade de substituir ou continuar. A sustentabilidade expressa uma preocupação com o meio ambiente para que as gerações futuras o utilizem e o desfrutem da mesma forma que o presente.

É importante ressaltar que o desenvolvimento sustentável exige que se definam prazos, com qual ordem de prioridades, a que níveis e escalas e quais recursos econômicos utilizar para obter a sustentabilidade. Um outro problema a ser considerado é o da interpretação. Por exemplo, uma grande parte da literatura disponível tende reduzir o conceito a uma mera sustentabilidade ecológica ou a um desenvolvimento ecologicamente sustentável, preocupando-se apenas com as condições ecológicas necessárias para manter a vida humana ao longo das gerações futuras, segundo Bifani (1997 apud Funiber, 2009).

Desenvolvimento ambientalmente sustentável: O desenvolvimento econômico e o bem-estar do ser humano dependem dos recursos  da Terra. Os recursos da Terra são suficientes para atender às necessidades de todos os seres vivos do planeta se forem manejados de forma eficiente e sustentada. O desenvolvimento econômico com o meio ambiente são compatíveis, interdependentes e necessários.

Desenvolvimento socialmente sustentável: A chave para o desenvolvimento é a participação, a organização, a educação e o  fortalecimento das pessoas. O desenvolvimento sustentado não é centrado na produção, é centrado nas pessoas. Nenhum sistema social pode ser mantido por um longo período quando a distribuição dos benefícios e custos seja extremamente injusta, especialmente quando parte da população está submetida a um debilitante e crônico estado de pobreza.

Vemos que há diversas formas de interpretar o conceito de desenvolvimento sustentável, mas todas têm as mesmas características e devem derivar para um consenso quanto ao conceito básico e quanto às estratégias necessárias para sua consecução. Dessa forma, destaca-se que o conceito de desenvolvimento sustentável não é único, mas converge para um consenso.

 

Resumo da Aula 02 – A Prática do Desenvolvimento Sustentável

Há três níveis ou sistemas distintos de existência que obedecem às suas próprias leis (Dias, 2004). São eles: Físico, Biológico e Social.

Físico: O planeta físico, sua atmosfera, hidrosfera e litosfera (rocha e solos), que seguem as leis da física e da química.

Biológico: A biosfera, com toda as espécies de vida, que obedecem as leis da física, química, biologia e ecologia.

Social: A tecnosfera e a sociosfera, o mundo das máquinas e construções criadas pelo homem, governos e economias, artes, religiões e culturas, que seguem leis da física, da química, da biologia, da ecologia e também das leis criadas pelo homem.

Um exemplo de uma lei física é a lei da entropia, segundo a qual todas as máquinas se desgastam. Um exemplo de uma lei biológica é a composição química e organização de qualquer indivíduo que são determinados pelo código genético em longas moléculas de DNA dentro de cada célula. As leis geradas pelo homem são muito variáveis  de acordo com as circunstâncias e com o tempo. Uma vez que os fenômenos ambientais obedecem às mesmas leis físicas, eles se comportam, em sua maioria, da mesma forma, em qualquer lugar, embora sua complexidade possa levar a enormes variações locais (Dias, 2004).

A busca de um modelo de desenvolvimento sustentável e de sua consequente implantação já ocorre em algumas décadas, alicerçada na visão crítica da organização da sociedade humana e impulsionada pelos diversos problemas de caráter ambiental e social. Um resultado importante desta discussão é a crescente conscientização sobre as significantes interferências que o homem impõe aos sistemas naturais. O modelo de desenvolvimento sustentável deve ser capaz não só de contribuir para a superação dos atuais problemas, mas também de garantir a própria vida, por meio da proteção e manutenção dos sistemas naturais que a tornam possível.

A Constituição de 1988, no Brasil, reflete esse quadro sustentável em seu art. 225:

Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

O documento do Ministério do Meio Ambiente (MMA 2011) revelou que:

Até novembro de 1996, mais de 1.800 cidades em 64 países, envolveram-se em atividades de Agenda 21 local – A21L. Entre elas, o ICLEI (International Council for Local Environmental Initiatives) constatou que: 993 cidades em 43 países já tinham estabelecido um processo de planejamento para o desenvolvimento sustentável, e outras 879 estavam apenas iniciando (p. 12).

O setor industrial também demonstra seu interesse nessa questão, refletido pelas mais de 2 mil certificações em Sistemas Integrados de Gestão em todo país. O entendimento da existência de limites no que se refere aos padrões de consumo e produção, e a necessidade de promoção de justiça social encerram questões de revisão e mudanças na forma de planejar. Diversos trabalhos vêm sendo elaborados no campo do assunto, na busca de princípios metodologias e ferramentas de avaliação. Eles têm como objetivo colaborar para a reversão dos processos de degradação ambiental, consumo elevado de recursos naturais e desigualdade socioeconômica, alcançando assim melhoria da qualidade de vida dos seres do planeta de forma sustentável.

Segundo Funiber (2010), uma forma de medir o desenvolvimento é através de indicadores, os quais normalmente estão relacionados apenas com questões econômicas. Tais indicadores devem considerar as dimensões econômicas, sociais e ambientais. É necessário, entretanto, que se busque formas de comunicação desses indicadores, de modo que possam ser compreendidos por todos os atores da comunidade, onde, então, a educação ambiental assume papel vital nesse processo.

 

Resumo da Aula 03 – Da Questão Ambiental para o Campo do Consumo

O crescimento populacional vem causando sérios impactos degradadores sobre o meio ambiente neste século. Os estudos demonstram que os países com um rápido crescimento demográfico vêm enfrentando dificuldades para gerar um desenvolvimento econômico sustentável. Por outro lado, a conscientização ambiental também está relacionada ao controle da natalidade e ao consumo desenfreado que estamos nos impondo culturalmente como fator de status social. Prevê-se que a população humana aumentará de 6,5 bilhões a 8-9 bilhões ou mais entre 2005 e 2050, com um crescimento particularmente rápido nos países em desenvolvimento, como a China.

Aqueles que não acreditam que a terra está superpovoada apontam que a expectativa de vida média de 6,5 bilhões de pessoas é maior hoje do que já foi em qualquer época do passado, e está previsto que aumentará ainda mais. Também alegam que o crescimento populacional representa o recurso mais valioso do mundo para solucionar problemas ambientais e outros, e para estimular o crescimento econômico em razão do aumento de consumidores. Determinados países em desenvolvimento e alguns membros das minorias de países desenvolvidos consideram o controle populacional uma forma de genocídio, cujo intuito é impedir que sua economia e suas forças políticas cresçam.

Já os que apoiam uma diminuição ou uma possível interrupção no crescimento populacional, alegam que falhamos ao suprir as necessidades básicas de cerca de um a cada cinco indivíduos. Aqueles que propõem esta diminuição advertem que há duas sérias consequências caso a taxa de natalidade não declinem de forma drástica. A primeira, a taxa de mortalidade pode aumentar em razão do declínio das condições de saúde e ambientais. O segundo é o uso de recursos e os danos ambientais podem se intensificar conforme mais consumidores aumentam suas já grandes pegadas ecológicas em países desenvolvidos e em alguns países em desenvolvimento, como China e Índia, que estão passando por um rápido crescimento econômico.

O aumento da população e o consequente crescimento do consumo podem elevar os estresses ambientais. Estes analistas acreditam que as pessoas devem ter liberdade de gerar quantos filhos que quiserem, mas somente se isso não reduzir a qualidade de vida das pessoas agora e no futuro, seja pelo enfraquecimento da capacidade da terra de sustentar a vida, seja por rupturas sociais. Segundo Paul Hawken (2007), os problemas a serem enfrentados são vastos e complexos, mas se resumem a isto: 6,5 bilhões de pessoas estão procriando exponencialmente.

O papel dado à população reflete menos conflitos de evidências do que de interpretação da mesma evidência. Os estudos de caso com populações regionais têm sugerido cautela nas associações “população – transformação”. Quando esses estudos foram conduzidos regionalmente e em áreas que exibiam condições socioambientais similares, foram encontradas correlações fortes. Bilsborrow e Okhoto-Ogendo (1999) citam diversos estudos que comprovaram tais correlações (Brasil, Haiti e Bolívia); entretanto, caracterizam-nas como “casuais”. No nosso estudo sobre a região de Taguatinga, Ceilândia e Samambaia, em 1996-1999 (Dias, 1999), essa correlação foi muito clara, inclusive com outros vetores sociais, como a violência, o desemprego, o aumento da emissão de gases estufa e outros.

Um outro estudo relevante, buscando a compreensão dessas inter-relações, foi conduzido por Myers (1995 apud Dias, 2004).  Esse autor, enfatiza, falando sobre biodiversidade, que existem muitos elos que fazem o quadro muito mais complexo do que uma simples equação população/biodiversidade. Acrescenta que o crescimento populacional não é o único fator que está produzindo as mazelas ambientais conhecidas, não sendo mais que uma variável dentre as demais. Esse crescimento passa a ser significativo, em termos de produção de pressão ambiental, quando ele excede à capacidade de oferta de recursos naturais de um país aos seus habitantes ou quando excede a capacidade dos seus planejamentos de desenvolvimento.

Ao longo da história, várias formas de conquista e manutenção do poder foram desenvolvidas no interior de diferentes sociedades visto que essa relação assimétrica vincula-se necessariamente a uma desigualdade social preexistente.

Poder econômico: O poder econômico repousa na capacidade que a posse dos bens considerados vitais em determinadas situações, confere a quem os possui, no sentido de determinar o comportamento alheio.

Poder ideológico: O poder ideológico, por sua vez, consiste na propriedade que determinados grupos possuem para criar e difundir valores – que lhes são próprios – para o conjunto da sociedade.

Poder político: Consiste na posse dos instrumentos mediante os quais se podem coagir outros indivíduos (Zioni, 2008).

Nas sociedades antigas, o poder ideológico representava a estratégia predominante  de dominação. Nas sociedades modernas, de maior complexidade tecnológica e diferenciação social, o poder econômico passou a impor-se sobre as outras formas, como o Estado (poder político) e a arte, cultura, ciência e educação (poder ideológico). Nas sociedades contemporâneas, extremamente complexas, esses três tipos de poderes coexistem e se desenvolvem no sentido de que “fundamentam e mantém uma sociedade de desiguais” (Bobbio e Bovero, 1994 apud Zioni, 2008).

A população de 2017 está em cerca de 7,3 bilhões e está projetada para crescer em cerca de 1 bilhão na próxima década. Os problemas que  conhecemos hoje, serão apenas pequenas demonstrações do que pode acontecer com a nossa qualidade de vida, se os rumos da escalada humana não sofrerem redirecionamentos.

 

Resumo da Aula 04 – Educação Ambiental

A sociedade humana, empurrada por padrões de consumo insustentáveis, impostos por modelos de desenvolvimento insanos, completados por um mórbido e renitente crescimento populacional, tornou-se mais injusta, desigual e insensível de poucas décadas para cá. O papel da educação ambiental neste contexto torna-se mais urgente.

Segundo Paulo Freire, famoso educador brasileiro, ninguém educa ninguém, ninguém conscientiza ninguém e ninguém se educa sozinho. Isso significa que a educação depende de adesão voluntária, depende de quem a incorpora e não de quem a propõe. No Relatório para a UNESCO de 1996, a educação aparece como indispensável à humanidade na construção dos ideais de paz, da liberdade e da justiça social como também para o desenvolvimento contínuo, tanto das pessoas como das sociedades, do século XXI em diante (Pelicioni, 2009).

A educação ambiental se coloca numa posição contrária ao modelo de desenvolvimento econômico vigente no sistema capitalista selvagem, em que os valores éticos, de justiça social e solidariedade não são considerados nem a cooperação é estimulada, mas prevalecem o lucro a qualquer preço, a competição, o egoísmo e os privilégios de poucos em detrimento da maioria da população (Pelicioni e Philppi Junior, 2005). A educação ambiental tem como proposta  principal a superação da dicotomia entre natureza e sociedade, através da formação de uma atitude ecológica nas pessoas. Um dos seus fundamentos é a visão socioambiental, que afirma que o meio ambiente é um espaço de relações, é um campo de interações culturais, sociais e naturais (a dimensão física e biológica dos processos vitais).

A educação ambiental na década de 1960 ainda não estava bem delineada e, por vezes, era confundida com educação conservacionista, aulas de ecologia ou atividades propostas por professores de determinadas disciplinas, que ora privilegiavam o estudo compartimentalizado dos recursos naturais e as soluções técnicas para os problemas ambientais locais, ora visavam despertar nos jovens um senso de maravilhamento em relação à natureza (Pelicioni, 2002 apud Pelicioni, 2009). Vários autores apontam a Keele Conference on Education and Countryside, realizada em 1965, na Universidade de Keele (Inglaterra), como um marco a partir do qual o termo Environmental Education (educação ambiental) alcançou ampla divulgação (Martin e Wheeler, 1975 apud Pelicioni, 2009).

No Brasil na década de 1960, ocorreu uma nova onda de produção legislativa – o novo Código Florestal, a nova Lei de Proteção aos Animais e a criação de vários parques nacionais e estaduais. Entretanto, continuavam não sendo discutidos problemas fundamentais como o estilo de desenvolvimento que o país deveria adotar, a poluição, o zoneamento das atividades urbano-industriais, entre outros. A ditadura de 64 desmobilizou a cidadania, resultando numa atuação estatal tímida e particularmente voltada para a preservação do chamado ambientalismo geográfico, naturalista, ou seja, ainda voltado para a criação de áreas naturais protegidas.

No final da década de 60, a UNESCO organizou a Conferência da Biosfera. Este evento deu continuidade ao tema da cooperação internacional em pesquisas científicas, que havia sido inicialmente abordado, em 1949, na Conferência Científica das Nações Unidas sobre a Conservação e Utilização de Recursos (Pelicioni, 2009).

A primeira Conferência Intergovernamental sobre a Educação Ambiental foi realizada em Tbilisi, capital da Geórgia, em 1977. E foi intitulada Conferência de Tbilisi. Esta Conferência  produziu um documento chamado Livro Azul, que até hoje é uma importante fonte de consulta para ações em Educação Ambiental. Dez anos depois, em 1987, trezentos especialistas de 100 países reuniram-se em Moscou. Esta reunião ficou conhecida como Congresso de Moscou. O Congresso de Moscou fez uma análise da situação ambiental global e não encontrou sinais de que a crise ambiental houvesse diminuído. Portanto, concordou-se que a Educação Ambiental deveria preocupar-se com a promoção da conscientização, transmissão de informações, desenvolvimento de hábitos e habilidades, promoção de valores, estabelecimento de critérios e padrões, e orientações para resolução de problemas e tomada de decisões.

A Conferência do Rio, ou Rio-92, veio contrariar os que gostam de tornar as coisas mais complicadas. Ficou patente a necessidade do enfoque interdisciplinar e da prioridade das seguintes áreas de programas:

  • Reorientar a educação para o desenvolvimento sustentável;
  • Aumentar os esforços para proporcionar informações sobre meio ambiente, que possam promover a conscientização popular;
  • Promover o treinamento;

A Rio-92 também endossou as recomendações da Conferência sobre Educação para Todos, realizada na Tailândia (1990), que incluiu o tratamento da questão do analfabetismo ambiental. Esse tipo de analfabetismo foi classificado como o mais cruel, pernicioso e letal para a perda contínua e progressiva da qualidade de vida no planeta.

 

Resumo da Aula 05 – Preocupação Mundial

Ao instituir uma política ambiental, é necessário que o governo estabeleça os objetivos, defina as estratégias de ação, crie as instituições e estruture a legislação que a contém e que orienta sua aplicabilidade. Com isso, a gestão ambiental é a implementação pelo governo de sua política ambiental, pela administração pública, mediante a definição de estratégias, ações, investimentos e providências institucionais e jurídicas, com a finalidade de garantir a qualidade do meio ambiente, a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável (Philippi Junior e Maglio, 2009).

A Encyclopedia Britannica realça a visão de gestão relacionando-a ao uso racional de recursos naturais: o controle apropriado do meio ambiente físico, para propiciar seu uso com o mínimo abuso, de modo a manter as comunidades biológicas, para o benefício continuado do homem. Já Hurtubia coloca a perspectiva da gestão ambiental relacionada ao uso de recursos naturais em atividades primárias.

Numa visão mais moderna, a gestão ambiental desenvolve-se  com base na formulação de uma política ambiental, em que estejam definidos os instrumentos de gestão a serem utilizados (controle ambiental, avaliação de impactos ambientais, planejamento ambiental, objetos de conservação ambiental, planos de gestão, etc). O conceito de gestão vem sendo utilizado para incluir, além da gestão pública do meio ambiente, os programas de ação desenvolvidos por empresas e instituições não-governamentais para administrar suas atividades dentro dos modernos princípios de proteção do meio ambiente.

Gestão ambiental é, portanto, um processo político-administrativo de responsabilidade do poder constituído, destinado a, com participação social, formular, implementar e avaliar políticas ambientais a partir da cultura, realidade e potencialidade de cada região, em conformidade com os princípios de desenvolvimento sustentável. A preocupação com a qualidade ambiental vem crescendo com a evolução da sociedade, paulatinamente, à medida que os problemas se tornam cruciais e exigem soluções. Em sua evolução, a sociedade volta-se globalmente para preservar o meio ambiente em prol das gerações futuras. Nesse panorama de encontros e discussões sobre meio ambiente, destaca-se a importância da formação de profissionais que saibam compreender as diferentes dificuldades de suas sociedades, podendo então contribuir com soluções adequadas, não predatórias e voltadas para a conservação, a preservação e o controle dos recursos da natureza.

 

Resumo da Aula 06 – Legislação e Políticas Públicas

Desde o princípio, o homem interage com o meio ambiente esforçando-se em descobrir as charadas da natureza. A harmonia com o meio ambiente, porém, é obstruída pelo aumento do número de pessoas, bem como pelo consumo em larga escala dos recursos ambientais. Com isso, surge as políticas públicas, que deveriam regular o uso desses recursos, necessários para a vida da sociedade, de forma justa e com igualdade.

Até o início do século XX, o campo político e institucional brasileiro não se sensibilizava com os problemas ambientais, embora não faltassem problemas e nem vozes que os apontassem. A degradação de uma área não era considerada um problema ambiental pela classe política, pois sempre havia outras a ocupar com o trabalho escravo. Nenhuma legislação explicitamente ambiental teve origem nas muitas  denúncias desses políticos, que podem ser considerados os precursores dos movimentos ambientalistas nacionais e que, já nas suas origens, apresentavam uma tônica socioambiental dada pela luta  contra a escravatura, a monocultura e o latifúndio. Somente quando o Brasil começa a dar os passos firmes em direção à industrialização, inicia-se o esboço de uma política ambiental. Conforme Barbieri (2010), uma data de referência é o ano de 1934, quando foram promulgados os seguintes documentos relativos à gestão de recursos naturais: Código de Caça, Código Florestal, Código de Minas e Código de Águas.

As políticas públicas dessa fase procuram alcançar efeitos sobre os recursos naturais por meio de gestões setoriais (água, florestas, mineração, etc), para as quais foram sendo criados órgãos específicos, como o Departamento nacional de Recursos Minerais, Departamento Nacional de Água e Energia Elétrica, entre outros. Até meados da década de 1970, a poluição industrial ainda era vista como um sinal de progresso e, por isso, muito bem-vinda para muitos políticos e cidadãos.

Enquanto as mudanças ocorriam no Brasil, no mundo iniciava-se uma política de comando e controle que assumiu duas características definidas:

  1. A imposição pela autoridade ambiental, de padrões de emissão incidentes sobre a produção final do agente poluidor;
  2. A determinação da melhor tecnologia disponível para abatimento da poluição e cumprimento do padrão de emissão;

Nessa modalidade de política ambiental, os padrões de emissão deixam de ser meio e fim da intervenção estatal e passam a ser instrumentos, dentre outros, de uma política que usa diversas alternativas e possibilidades para a consecução de metas acordadas socialmente. O Brasil, após a Conferência de Estocolmo de 1972, o governo militar brasileiro não reconheceu a gravidade dos problemas ambientais e defendeu sua ideia de desenvolvimento econômico em razão da ausência de preocupações com o meio ambiente e a distribuição de renda. Porém, os estragos ambientais levaram, em 1973, o Executivo Federal a criar a Secretaria Especial do Meio Ambiente e diversos estados criaram suas agências ambientais especializadas, como a Cetesb no Estado de São Paulo e a Feema no Estado do Rio de Janeiro.

Foi com o advento da Lei 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a Politica Nacional do Meio Ambiente, que conhecemos uma definição legal e passamos a ter uma visão global de proteção ao meio ambiente. Temos que ter em mente que: “a sociedade não é o lugar da harmonia, mas, de conflitos e de confrontos que ocorrem em suas diferentes esferas (da política, da economia, das relações sociais, dos valores, etc.)”.

 

Resumo da Aula 07 – Sustentabilidade

Alguns críticos acreditam que as visões de mundo ambientais centradas no ser humano deveriam ser expandidas para reconhecer o valor intrínseco ou inerente de todas as formas de vida, independentemente de seu uso potencial ou real para os seres humanos. Esta visão ecocêntrica é dedicada à preservação da biodiversidade e do funcionamento de sistemas de suporte à vida para todas as vidas. Nosso desafio é tentarmos focar naquela que se reverta em benefício conjunto: Terra, homem e outras formas de vida. Segundo Miller Junior (2007), a sustentabilidade é a capacidade dos diversos sistemas da Terra, incluindo as economias e sistemas culturais humanos, de sobreviverem e se adaptarem às condições ambientais em mudança.

O primeiro passo em direção à sustentabilidade é entender os componentes e a importância do capital natural e da renda natural ou biológica que ela fornece. Por analogia, os recursos renováveis que compõem parte do capital natural da Terra, podem nos fornecer uma renda biológica indefinidamente renovável, desde que não usemos esses recursos mais rápido do que a natureza o renova. Desde as primeiras discussões relacionadas ao meio ambiente, vários acordos ambientais têm sido negociados e inúmeros fóruns de discussão criados com o objetivo de repensar o modelo economicista adotado para o desenvolvimento e de conter o encaminhamento para a exaustão dos recursos naturais. É percebido que nos últimos 20 anos, a agenda ambiental internacional e a busca pela sustentabilidade têm evoluído tanto no sentido de implementar os acordos já assinados, como no sentido de encontrar formas de proteger outros recursos naturais essenciais como, por exemplo, mananciais de água. Para que se alcancem os objetivos de sustentabilidade, é importante que o trabalho iniciado prossiga em diversas frentes, em âmbito global e local, com a modificação dos sistemas produtivos e das práticas de uso dos recursos naturais.

A pesquisadora Elisete Batista da Silva Medeiros nos apresenta que o objetivo da sustentabilidade é colocado sob forma de três restrições:

  1. Os recursos naturais devem ser extraídos procurando fazer a substituição por recursos equivalentes;
  2. A exploração dos recursos renováveis  deve ser feita respeitando a sua renovação;
  3. A emissão de rejeitos deve ser compatível com a capacidade de assimilação do ambiente;

Esse estilo é guiado por uma nova ética de desenvolvimento, ética essa na qual os objetivos econômicos do progresso estão subordinados às leis de funcionamento dos sistemas naturais e aos critérios de respeito e dignidade humana e de melhoria da qualidade de vida das pessoas. Nós precisamos entender que a Terra não precisa que a manejemos para que ela avance, mas nós precisamos da Terra para sobreviver. O que precisamos salvar é a existência da nossa e de outras espécies que podem se tornar extintas por causa de nossas atividades, essa é a lição pregada pela sustentabilidade.

 

Resumo da Aula 08 – Ações Sustentáveis

Os conceitos de sustentabilidade e crescimento econômico constituem temas emergentes. Uni-los é uma tarefa árdua para economistas, políticos, empresários, ecologistas e população, visto que a preocupação das elites com o meio ambiente é mínima ou nenhuma, inclusive falta conscientização por parte da população (Oliveira Neto, 2008). Na atualidade, o problema principal é que essas discussões parecem míopes, pois o conceito de sustentabilidade é muito mais abrangente do que apenas tratar do desmatamento, do derretimento das geleiras, etc.

Para que possamos começar a pensar numa reversão de valores para que efetivamente façamos ações em prol da sustentabilidade, é necessário que indicadores nos forneçam informações do meio natural e socioeconômico para a análise, que deve ser sistemática e relevante, no planejamento de um sistema de gestão ambiental. Os indicadores são instrumentos auxiliares e no acompanhamento de um projeto  no decorrer do tempo. A seguir, alguns indicadores muito úteis nos planos de ação da gestão do meio ambiente (FUNIBER, 2009):

  1. Programa de monitoramento de planos de ação específicos, que permitem o acompanhamento de um plano de proteção, de recuperação e de introdução da flora e fauna, de um plano de educação e sensibilização ambiental e de outros planos de ação que façam parte dos planos de gestão.
  2. Programa de acompanhamento biológico, que tem como principal objetivo o monitoramento do estado em que se encontram as populações de fauna e flora de uma determinada área natural, num período de tempo o mais dilatado possível, e sob  uma metodologia padronizada;
  3. Programa de acompanhamento socioeconômico, que visam o monitoramento das características apresentadas pela população humana na área natural, ou em suas proximidades, num dilatado período de tempo e sob uma metodologia padronizada.
  4. Programa de controle de impacto que busca como objetivo destacar mudanças de parâmetros biológicos e ambientais, produzidos geralmente por problemas de origem ou indução humana em escala global (diminuição do ozônio na estratosfera, chuva ácida) e em âmbito local e regional (contaminação de um rio, erosão de uma bacia hidrográfica, etc).

A história do desenvolvimento de indicadores ambientais teve início oficial na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Natural e Desenvolvimento, quando se produziu um consenso geral a respeito da necessidade de avançar para a implementação da sustentabilidade. Segundo o educador ambiental, Mitchell Thomashow, quatro perguntas básicas estão no âmago da alfabetização ambiental:

  1. De onde vem as coisas que consumo?
  2. O que sei sobre o lugar onde vivo?
  3. O quanto estou preocupado com a Terra e com outros seres vivos?
  4. Qual o meu propósito e minha responsabilidade como ser humano?

Temos que ter um senso de reverência, admiração, mistério e humildade ao ficarmos sob as estrelas, sentados no meio de uma floresta ou observando a majestade e o poder do oceano, pois isso é o que realmente temos na vida.

 

Resumo da Aula 09 – Consumo Consciente

A sociedade moderna está cada vez mais consciente do impacto ambiental associado ao desenvolvimento. O uso intensivo dos recursos naturais e a cada vez maior geração de resíduos representam, paradoxalmente, um limite para o próprio desenvolvimento. Os problemas ambientais que afetam mais diretamente os países são o desflorestamento, a erosão, a contaminação; tais problemas ambientais estão associados ao consumo. Consumir é necessário para a sobrevivência dos seres vivos. Todos os organismos consomem: água, nutrientes e energia. Mas há uma diferença significativa entre outras espécies de organismos vivos e o homem: O consumismo desenfreado e exagerado que não é somente para sobreviver no meio em que vive.

Segundo o site Ressoar, quando se fala em consumo, a primeira coisa que vem à mente é o simples ato de comprar por necessidade ou por impulso. Então, o consumo consciente é uma maneira de consumir levando em consideração os impactos provocados pelo consumo. O consumidor consciente busca o equilíbrio entre a sua satisfação pessoal e a sustentabilidade do planeta, lembrando que a sustentabilidade implica em um modelo ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável. Já o consumo sustentável é a maneira de como usamos os recursos naturais para satisfazer as necessidades pessoais sem o comprometimento das necessidades das gerações futuras. Isto é, saber usar para nunca faltar.

A satisfação das necessidades humanas possui três componentes: O utilitário, o de comunicação e o psicológico. O componente utilitário nem sempre determina a escolha; as vezes o ato do consumo está motivado pelo propósito de se comunicar com os outros, de demonstrar que se respeitem as convenções sociais, que se está na moda ou que se é completamente diferente. O componente psicológico impulsiona a consumir para se provar algo a si mesmo, para se assemelhar à imagem que tem de si e se sentir bem consigo mesmo. Modificar os hábitos de compra da população é um objetivo indispensável para coadjuvar a proteção do meio ambiente, diminuir a contaminação e a geração de resíduos e promover um eficiente controle de energia, entre outras coisas.

Sabemos hoje que a questão do consumo está relacionada principalmente com a cultura social atual: do modismo e do “ter mais significa poder mais”. Mas, infelizmente, se isso não for revertido logo, teremos cada vez menos. Cabe aqui uma palavra: consciência!

 

Resumo da Aula 10 – Tecnologias Limpas

Segundo Tachizawa (2009), a tecnologia não é só uma força isolada. É também o motor propulsor da competição global. O encurtamento dos ciclos de vida dos produtos ressalta a situação pela redução do número de anos, ao longo dos quais os custos fixos serão amortizados com maior volume proveniente de vários países e precisar ser conseguido um menor número de anos. O resultado significará maior número de organizações, que precisarão de volume global significativo para que possam sobreviver.

Segundo Miller Junior (2008), muitos analistas nos desafiam a dedicar mais atenção ao desenvolvimento econômico sustentável no que se refere ao meio ambiente. Um sistema econômico produz mercadorias e serviços utilizando recursos naturais, humanos e manufaturados e é uma instituição por meio da qual mercadorias e serviços são produzidos, distribuídos e consumidos para satisfazer às necessidades das pessoas e os desejos ilimitados da maneira mais eficiente possível.

A tecnologia limpa é uma estratégia ambiental preventiva aplicada a processos, produtos e serviços para minimizar os impactos sobre o meio ambiente carregando 3 propósitos: lançar menos poluição no meio ambiente, gerar menos resíduos e consumir menos recursos naturais, principalmente os não renováveis. Proposto pela Comissão da Comunidade Econômica Europeia, em meados da década de 1970, esse conceito referia-se a qualquer tecnologia que pudesse reduzir a poluição e economizar recursos.

Várias diretrizes foram sugeridas para favorecer a cooperação em vez do confronto quando lidamos com problemas ambientais importantes. Dessa maneira, ambientalistas e líderes de corporações poderiam se tornar parceiros em uma busca conjunta de sustentabilidade ambiental e econômica. Pessoas de ambos os lados de questões ambientais delicadas deveriam se comprometer a não exagerar ou distorcer suas posições na tentativa de jogar no ganha-perde ou ganhador – leva-tudo. Há compromissos em qualquer decisão ambiental, logo elas devem trabalhar juntas para encontrar soluções ganha-ganha equilibradas, implementadas de uma maneira flexível e adaptativa.

A antropóloga Margaret Mead resumiu nosso potencial de mudança: “Nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos atentos e comprometidos possa mudar o mundo. Na realidade, só assim se foi capaz de mudar o mundo até hoje”. Isso significa que devemos aceitar nossa responsabilidade ética de administradores do capital natural da Terra, deixando-a em uma condição boa, senão melhor, do que aquela que encontramos.

Para que serve uma casa se você não tiver um planeta para colocá-la? (Henry David Thoreau)

 

E acabou! 🙂

 

Bons estudos!

Ola pessoal!

Esta postagem é referente à disciplina Tópico em Libras do curso à distância de Licenciatura em História da Faculdade Estácio de Sá. Infelizmente, não tem como montar um resumo desta disciplina pois são poucos conteúdos online e muito vídeo-aula. Isso é algo meio que lógico porque estudar Libras requer mais prática do que teoria. Por ser uma disciplina de ensino à distância, confesso que não gostei muito. Eu estou já acostumado a estudar sozinho, realizar trabalhos acadêmicos sozinho, ou seja, fazer cursos à distância tem tudo a ver comigo. Agora… Libras? Estou no último período da faculdade EAD e Libras foi a única disciplina que não concordei em ser uma disciplina à distância. A única didática foi essa – decorar o abecedário em Libras e repetir os movimentos que o professor faz nas videoaulas. Na minha opinião, deveria ter uma interação frente a frente/cara a cara entre os alunos e o professor, onde haja uma conversação bem bacana em libras, uma atividade entre os alunos, e por aí vai.

Enfim, na minha opinião, estudar Libras à distância é horrível! Há quem discorde de mim, claro. Mas uma disciplina tão importante como Libras não deveria ser apenas decoreba e repetir os movimentos que o professor faz. É tedioso.

No entanto, é muito importante para nós que trabalhamos na área da Educação estudar Libras. Então, eu gostaria aqui de deixar logo abaixo uma gravura do alfabeto em Libras. E caso você tenha um profundo interesse em estudar Libras, procure um curso presencial. Se não me engano, o SENAC oferece curso presencial de Libras. Caso você estudou Libras à distância e gostou muito, pode deixar aqui o seu comentário defendendo este curso à distância que irei aprovar com muito prazer!

 

Grato pela atenção,

Marcell

 

Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar um resumo das aulas da disciplina Seminários Integrados em História do 5º período do curso Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

E então? Bora nos preparar para o ENADE – FACULDADE ESTÁCIO DE SÁ?

 

Resumo da Aula 01 – O Ciclo Sinaes

O Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior) analisa as instituições, os cursos e o desempenho dos estudantes. Reúne informações do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) e das avaliações institucionais e dos cursos: Avaliação das Instituições (IGC), Avaliação dos Cursos (CPC) e Desempenho dos Estudantes (Nota ENADE). O SINAES avalia todos os aspectos que giram em torno desses três eixos. Nos processos regulatórios, para a IES (Instituto de Ensino Superior) ou para o curso, são levados em conta os referenciais de qualidade IGC (Índice Geral de Cursos) e o CPC (Conceito Preliminar de Cursos).

O IGC (Índice Geral de Cursos da Instituição) é o indicador de qualidade construído com base em uma média ponderada das notas dos cursos de Graduação e Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) das Instituições. O CPC (Conceito Preliminar de Curso) é um indicador prévio da situação dos cursos, e é composto por: Autoavaliação e Censo e Cadastro. O relatório de autoavaliação deve conter a identificação dos meios e recursos necessários para a realização de melhorias, assim como uma avaliação dos acertos e equívocos do próprio processo de avaliação. Atualmente, o Inep realiza a coleta de dados sobre a educação superior e irá compor o CADASTRO das IES. Durante o período de preenchimento do questionário, os pesquisadores institucionais podem fazer, a qualquer momento, alterações ou inclusões necessárias dos dados de suas respectivas instituições.

O ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) integra o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES). E serve para aferir o rendimento dos alunos dos cursos de graduação em relação aos conteúdos programáticos. Todos os alunos concluintes do 2º semestre do ano em questão e do 1º semestre do ano seguinte serão selecionados para realizar o Exame.

 

Resumo da Aula 02 – Formação Geral: Grupo de Temas I

Arte: Mostra ideias e situações através do ponto de vista do artista; A arte é uma forma criativa de como a humanidade expressa suas emoções, sua história e sua cultura através de alguns valores estéticos, como beleza, harmonia, equilíbrio. Podendo ser representada através de esculturas, pinturas, cinemas, danças, entre outros.

  • Arte Pré-histórica: Manifestações que surgiram antes da escrita como, por exemplo, as pinturas rupestres;
  • Idade Antiga: Período compreendido entre a invenção da escrita até a queda do Império Romano Ocidental: Arte Egípcia, Arte Grega, Arte Romana, Arte Islâmica;
  • Idade Média: Temos a Arte Romântica (valorização do sobrenatural, da religião), e a Arte Gótica (arquiteturas grandiosas representando a existência de um Deus que vive num plano superior);
  • Idade Moderna: Temos o Renascimento (Racionalidade, Dignidade do Ser Humano, Rigor Científico, Ideal Humanista, Reutilização das artes Grego-Romanas), e também temos o Barroco (predomínio das emoções);
  • Idade Contemporânea: Neoclassicismo (retorno ao passado), Romantismo (valorização dos sentimentos e da imaginação, nacionalismo, valorização da natureza, sentimentos de liberdade, igualdade e fraternidade), Realismo (cientificismo, valorização do objeto, expressão da realidade), Impressionismo (contrastes de luz e sombra de acordo com a lei das cores complementares, tonalidades que os objetos adquirem ao refletir a luz solar, etc.), Expressionismo (domínio psicológico, preferência pelo patético, trágico e sombrio) e Cubismo (a natureza com formato de cones, esferas e cilindros).

Cultura: Ajuda a entender os comportamentos sociais; A Cultura se desenvolveu da possibilidade da comunicação oral e de fabricação de instrumentos, capazes de tornar mais eficiente o aparato biológico humano. A cultura serve de lente através da qual o homem vê o mundo e interfere na satisfação das necessidades fisiológicas básicas. Para Boaventura de Souza Santos, é preciso criar um novo paradigma comunicativo que propicie uma meditação e conciliação dos valores de cada cultura. Nos dizeres do autor: um diálogo intercultural.

Filosofia: Contribuir para uma reflexão mais profunda sobre as questões do nosso tempo; Nasceu na Grécia no final do séc. VII e início do séc. VI a.C. E surgiu pela necessidade de um outro tipo de explicação para a ordem do mundo – explicação racional. Quando o homem passou a questionar o mundo e buscar explicações mais plausíveis, por meio da razão, excluindo suas emoções e suas crenças religiosas, passou-se a obter respostas mais realistas que, demonstradas, muitas vezes de forma ingênua, se aproximavam mais da realidade das pessoas e por isto talvez, passaram a ser bem mais aceitas pela sociedade.

Democracia: Do grego demo = povo e cracia = governo, ou seja, governo do povo. Na democracia, as pessoas possuem liberdade de expressão e manifestação de suas opiniões. A Democracia é o sistema de organização social mais eficiente para se cultivar e se praticar a liberdade de ação e de expressão.

Ética: Deriva do grego Ethos (caráter). É um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. Embora não seja confundida com leis, a ética está relacionada com o sentimento de justiça social. A ética é construída por uma sociedade com base nos valores históricos e culturais. Do ponto de vista da Filosofia, a Ética é uma ciência que estuda os valores e princípios morais de uma sociedade e seus grupos.

 

Resumo da Aula 03 – Formação Geral: Grupo de Temas II

Ecologia: É uma ciência que estuda os seres vivos e suas interações com o meio ambiente onde vivem. Por outro lado, a questão ambiental também constitui uma área de atuação desta ciência, já que a mesma possui seus princípios e preceitos, que vão muito além da degradação provocada pelo homem no ambiente.

Educação Ambiental: Objetiva o contato direto entre o homem e o meio, o resgate e a conscientização de que o meio é relevante à sobrevivência, à saúde, ao bem-estar do indivíduo.

Biodiversidade: É a variabilidade entre os seres vivos de todas as origens, a terrestre, a marinha e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos dos quais fazem parte. O termo Biodiversidade foi originado em 1980 por Thomas Lovejoy e desde 1986 a nomenclatura tem sido usada no que se refere à diversidade da natureza viva. O Brasil detém o maior número de espécies conhecidas de mamíferos e de peixes de água doce, o segundo de anfíbios, o terceiro de aves e o quinto de répteis.

Sustentabilidade: Ter uma atitude consciente em relação aos nossos hábitos de consumo é a melhor maneira de se mudar o mundo. Economize água, luz, recicle seu lixo, faça a sua parte e ajude a construir um futuro para todos.

Multiculturalismo: É o termo utilizado para descrever uma localidade/país ou região onde estão presentes muitas culturas sem que haja uma predominante.

Globalização: É um fenômeno de abertura das economias e das respectivas fronteiras em resultado do acentuado crescimento das trocas internacionais de mercadorias, da intensificação dos movimentos de capitais, da circulação de pessoas, do conhecimento e da informação, proporcionados quer pelo desenvolvimento dos transportes e das comunicações, quer pela crescente abertura das fronteiras ao comércio internacional. A integração dos países gerou uma liberação econômica, revolução nos transportes, revolução nas telecomunicações, da Internet, entre outros. Consequentemente houve uma redução dos postos de trabalho com a automação, extinção de profissões como datilógrafo, e o aumento do desemprego.

Geopolítica: É uma área da Geografia que tem como objetivo fazer a interpretação dos fatos da atualidade e do desenvolvimento político dos países usando como parâmetros principais as informações geográficas.

Políticas Públicas: São diretrizes do poder público que se apresenta através dos programas, ações e atividades desenvolvidas pelo Estado diretamente ou não, com a participação de entes públicos ou privados, para garantir um direito de cidadania. A falta de um planejamento urbano, de políticas públicas voltadas a uma ordenação do crescimento das cidades, ocasiona diversos problemas sociais e ambientais.

Desenvolvimento Sustentável: Desenvolver o mundo em harmonia com as limitações ecológicas do planeta, ou seja, sem destruir o ambiente, para que as gerações futuras tenham chances de existir e viver bem, de acordo com as suas necessidades. Para isso existem Conferências, como a ECO 92 e a Rio+20. Porém, com o passar dos anos, os problemas ambientais aumentam e soluções, medidas, não saem do papel.

 

Resumo da Aula 04 – Formação Geral: Grupo de Temas III

Identidade de Gênero e Identidade Sexual: A identidade de gênero é constituído por vários componentes estruturados em diferentes épocas e por várias influências. Identidade sexual representa o conjunto de características sexuais que diferenciam cada pessoa das demais e que se expressam pelas preferências sexuais, sentimentos ou atitudes em relação ao sexo. É o sentimento de masculinidade ou feminilidade que acompanha a pessoa ao longo da vida. Para Grossi (2005), gênero é uma construção cultural, processado na educação formal e informal de homens e mulheres, contrariamente do senso comum, que compreende que biologicamente o sexo, por si só, determina os comportamentos masculinos e femininos.

Desigualdade de Gênero: As desigualdades de gênero foram construídas historicamente, em decorrência de um modelo da sociedade, marcadamente Patriarcal – um modelo baseado em uma forte organização sexual hierárquica, partindo do domínio masculino na esfera familiar, transposta para a esfera pública.

A Mulher no Mercado de Trabalho: As mulheres constituem 70% dos mais pobres no mundo. No Brasil, de todas as pessoas que recebem o salário mínimo, 53% são mulheres. As mulheres representam a maioria dos trabalhadores em tempo parcial e do setor informal e têm uma taxa de desemprego maior que o setor masculino.

O Trabalho na História: Segundo Mozart Victor Russomano temos: Regime da Escravidão, Regime da Servidão, Regime das Corporações, Regime das Manufaturas e, finalmente o Regime do Salariado.

Redes Sociais: É uma das formas de representação dos relacionamentos afetivos ou profissionais dos seres humanos entre si ou entre os agrupamentos de interesses mútuos. As Redes Sociais na web são páginas que propiciam a interação entre pessoas de diferentes regiões, oferecendo diversos recursos para que a mesma aconteça. A Responsabilidade Social tem a ver com a consciência social e o dever cívico, dando-lhe o caráter coletivo e que por isso a Responsabilidade social busca estimular o desenvolvimento do cidadão e fomentar a cidadania individual e coletiva.

 

Resumo da Aula 05 – Projeto Pedagógico do Curso História EAD

Para o historiador é fundamental que ele entenda que vivemos em um mundo em que suas regras não foram criadas do nada, mas sim são frutos de continuidades e rupturas que se manifestam ao longo do tempo. O historiador é um ser crítico, pensante, atuante em seu cotidiano. Nosso curso é uma licenciatura, visa formar professores, mas entrar no mundo da História é um caminho sem volta. Você é um sujeito que tem relações familiares, políticas, culturais, que tem religião, religiões ou não tem uma religião, mas sabe que sua vida e a forma de se portar em sociedade são influenciadas por visões religiosas. Seus pensamentos não serão colocados em jogo, mas em exercício. Neste sentido, como o historiador se relaciona com o mundo, como ele cresce em sua capacidade de análise? Mergulhando no mundo, lendo jornais, livros, ouvindo notícias, produzindo conhecimento, escrevendo, preparando-se para não achar qualquer ideia pronta como norma.

A perspectiva teórico-metodológica do curso encontra-se em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de História, conforme parecer CNE/CES 492/2001 e se estrutura em três imperativos básicos, a saber: a formação de professores; a otimização da estrutura curricular de modo a preparar esses professores-historiadores dentro da carga horária prevista em lei; a necessidade de uma formação com ênfase na cidadania. Já o aluno deve ser estimulado a desenvolver a sua autonomia, prosseguindo além da informação recebida, formulando suas próprias perguntas para poder construir seu próprio entendimento do assunto.

O curso de Licenciatura em História visa ser um espaço de difusão e de consolidação da disciplina de História. A literatura científica tem sugerido que profissionais de educação expostos a cursos e práticas de pesquisa em programas de formação ou aperfeiçoamento de professores tendem a apresentar uma atitude mais positiva a respeito da realização da pesquisa. O aluno deve ser agente de sua formação, entendendo que lhe são dadas as ferramentas e dali deve ser iniciada uma busca que a universidade está à disposição para ajudá-lo. O profissional terá uma sólida formação no ensino que o habilite ao exercício do magistério e estará habilitado a suprir as demandas relativas ao seu campo de atuação na docência ou em atividades como: preservação do patrimônio, assessorias a entidades culturais, artísticas, turísticas, dentre outras

 

Resumo da Aula 06 – As Práticas: TCC e Estágio Supervisionado

O curso de História considera o aluno como sujeito de seu processo educativo, buscando implementar um fazer pedagógico comprometido com o processo de construção e reconstrução do conhecimento, com as dimensões social e afetiva, com o relacionamento teoria e prática e com a contextualização dos saberes. Nesse sentido, a concepção curricular privilegia uma abordagem metodológica que traz para o lugar central da formação as práticas e a reflexão sobre elas. Busca-se então promover ações pedagógicas que articulem os saberes e as práticas, vinculando-os as ideias da ética, da responsabilidade, da cidadania, da solidariedade e do espírito coletivo direcionando-as ao atendimento das necessidades da comunidade regional e local.

O processo de ensino visa, em última instância, o desenvolvimento das capacidades cognitivas dos alunos e a sua preparação para a vida social e profissional. A atuação do professor é vista como inesperável das condições sociais, culturais e emocionais dos alunos. O ensino, assim, é compreendido como uma prática concretamente situada, voltada para a aprendizagem de alunos determinados, com características socioculturais específicas.

A carga horária total da disciplina de Estágio Supervisionado, de acordo com o parecer CNE/CP 2/2002, é de 400 horas, a serem cumpridas a partir do início da segunda metade do curso, neste caso, no nosso curso de História, compreende ao 4º período. Por tratar-se de um curso de formação de professores, o estágio supervisionado é realizado nas escolas de Educação Básica, aproximando assim a Universidade do ambiente escolar e propiciando uma interação maior com os alunos e a comunidade. Cada aluno deverá apresentar um roteiro de atividade e o Relatório Final das Atividades Desenvolvidas ao final de cada uma das três disciplinas de estágio. Portanto, o Estágio Supervisionado possibilita ao aluno o desenvolvimento das seguintes competências: realizar reflexão sobre a prática pedagógica; desenvolver habilidades comunicativa e propositiva; desenvolver habilidades de pesquisa consideradas como fundamentais à sua formação como professor.

Já o TCC deve ser tratado como uma joia. Uma pesquisa elaborada vai te dar maturidade para o desenvolvimento de sua vida como profissional em História, lhe dará segurança para ler e interpretar os aspectos diversos do seu cotidiano.

 

Resumo da Aula 07 – Caminhos da Revisão de Conteúdos: Religião e História

O que te faz brasileiro? A noção de brasilidade é um fenômeno construído, não automático, determinado, indiscutível. A partir do momento em que você se entende como pertencendo a um grupo e é aceito pelo mesmo, pode carregar essa identidade. Neste sentido, elementos como a cultura e a sociedade se sobrepõem e dialogam com a ideia de indivíduo. Neste contexto, a religião passou a fornecer uma identidade – a Católica. O Brasil nasceu no mesmo momento em que foi criada a Companhia dos Jesuítas e a Igreja buscava se reformar. Com a formação de um Estado Laico na República, a igreja enfraqueceu na política – perdeu-se o direito aos registros de nascimento e morte, mas os bispos e padres passaram a dialogar de uma forma mais intensa com outras matrizes que se posicionavam de forma secundária no Brasil.

As religiões xamanísticas – os etnólogos adotaram o costume de empregar indistintamente os termos xamã, homem-médico, feiticeiro ou mago, para designar determinados indivíduos dotados de prestígio mágico-religioso e reconhecidos em todas as sociedades primitivas. A enorme dispersão dos povos tupi-guaranis por uma imensa área geográfica, conjugada com um longo isolamento, provocou diferentes transformações em seus sistemas de crenças.

Judaísmo no Brasil – As últimas informações sobre a presença de judeus no Brasil datam de meados do século XVIII. Nessa época, com o desenvolvimento da mineração, milhares de portugueses se deslocaram para a região das Minas Gerais, dentre eles, um número considerável de cristãos-novos. De fato, muitos desses cristãos-novos não mantinham ligações com o Judaísmo, mas, por serem ricos comerciantes e mineiros, eram acusados de praticar Judaísmo por seus inimigos e dificilmente se livravam das condenações da Inquisição. Uma nova onda de imigrantes judeus começou a chegar ao Brasil em fins do século XIX.

Religiões Afro-Brasileiras – Infelizmente, por falta de registro, só começamos a notar a sua presença de forma mais intensa na iconografia do século XIX.  As Irmandades religiosas acabaram por reforçar o sincretismo e o diálogo religioso. Era o espaço onde se reunia o dinheiro para a libertação e a garantia dos enterros. Depois da libertação dos escravos, começaram a surgir as primeiras casas de candomblé. Imagens e crucifixos eram exibidos nos templos, orixás eram identificados com santos católicos.

Protestantismo – Podemos dividir em dois grupos: “protestantes de imigração” (luteranos alemães são os mais representativos) e “protestantes de missão” (metodistas, presbiterianos, batistas, etc) que vieram implantar suas igrejas e escolas. O protestantismo americano é um protestantismo de povoamento, isto é, ele foi se formando à medida que protestantes europeus passavam para as possessões inglesas em busca de novas condições de vida. Este protestantismo de povoamento chegou ao Brasil no século XIX. Em seguida, surge o protestantismo evangelical: Pentecostalismo.

Teologia da Libertação – É uma corrente teológica que engloba diversas teologias cristãs desenvolvidas no Terceiro Mundo ou nas periferias mais pobres do  Primeiro Mundo a partir dos anos 70 do século XX, baseadas na opção pelos pobres contra a pobreza e pela sua libertação. A situação da pobreza é denunciada como pecado estrutural e estas teologias propõem o engajamento político dos cristãos na construção de uma sociedade mais justa e solidária, cujo projeto identifica-se com ideais da esquerda.

Talvez o pentecostalismo seja o movimento que mais influencie as manifestações de religiosidade que acontecem hoje, em muitas partes do mundo: de umas décadas pra cá, as Igrejas que mais crescem são de matriz pentecostal.

 

Resumo da Aula 08 – O Cinema e a História: Revendo o Mundo Contemporâneo

É inegável a importância que a imagem adquiriu na sociedade contemporânea. O cinema sofreu contestações desde sua criação, do campo teórico ao estético, mas a possibilidade da mudança de cenário no estudo da história com o advento da História Cultural, multidisciplinar e refúgio da História das Mentalidades, trouxe a possibilidade do olhar para produção de uma sociedade, transformou, e ainda vem transformando, a análise do cinema como objeto para o historiador. Segundo Marc Ferro, a linguagem do cinema revela-se ininteligível e, como a dos sonhos, é de interpretação incerta. Importante é saber que o filme, trazido das margens por uma historiografia que busca analisar as estruturas e as mentalidades, revela o mundo em que foi produzido, pensamento de seus produtores, a leitura seja histórica, testemunhal, propagandista da sua época de produção.

Para Peter Burke, uma história cultural fora do domínio acadêmico, está ligada a uma mudança de percepção manifestada em expressões cada vez mais comuns, como “cultura da pobreza”, “cultura do medo”, “cultura das armas”, “cultura dos adolescentes”, ou “cultura corporativa” e também nas chamadas “guerras de culturas” nos EUA e no debate sobre multiculturalismo em muitos países. O filme para ser entendido como objeto para história depende da dialética de sua materialidade textual que está implícita nas escolhas feitas para tema, tese, realização da obra e as perguntas que essa materialidade vai permitir o historiador, pesquisador, fazer e obter a resposta do filme.

Usar o filme cientificamente requer cautela, uma vez que há dificuldade pelo elevado grau de subjetividade, e não se é possível refletir de maneira direta a sociedade, e o não seguimento de modelos lógicos se faz necessário ressaltar todos os aspectos, até técnicos do filme, que se encontram condicionada socialmente, seja sua estética, sua própria linguagem cinematográfica como um todo (os movimentos de câmara, os planos, os enquadramentos, a iluminação, etc).

 

Resumo da Aula 09 – A História da Arte e a História

A produção artística pode servir como lugar privilegiado a partir do qual o historiador tem acesso à síntese dos valores que compõem o imaginário político e cultural de uma determinada coletividade. Autores como Marc Bloch, Pierre Bourdieu, Jacques LeGoff e Max Weber já apontaram de diferentes formas a necessidade do estudo das representações, dos símbolos e do imaginário para se entender a dimensão política do homem. O propósito da Arte é nos dar uma sensação da coisa, uma sensação que deve ser visão e não apenas reconhecimento. Para obter tal resultado, a Arte se serve de dois procedimentos: o estranhamento das coisas e a complicação da forma, com a qual tende a tornar mais difícil a percepção e prolongar sua duração.

Podemos analisar a arte da Mesopotâmia nas tradições bíblicas, por exemplo, onde nos permitem pensar que os grandes zigurates têm uma relação a ser pensada com a Torre de Babel, referida pelos judeus e reproduzidos nos livros do Cristianismo. No Egito temos a matemática como elemento artístico, como mundo medido em que a arte se manifesta nesta matematização e servia para marcar a continuidade, para dar a vida e eternidade fundamentais ao discurso egípcio. Na Europa tivemos a Arte Românica, a Arte Gótica e o Renascimento. A partir do Renascimento, cresceu o interesse artístico pela paisagem. O artista renascentista portava-se como um cientista que observava, analisava e documentava a natureza através de sua prática. A arte barroca originou-se na Itália, mas não tardou a irradiar-se por outros países da Europa e a chegar também ao continente americano trazida pelos colonizadores portugueses e espanhóis. O estilo barroco traduz a tentativa angustiante de conciliar as forças antagônicas: bem e mal; Deus e diabo; espírito e matéria; entre outros.

 

Resumo da Aula 10 – Relembrando o Início: História Antiga e Medieval

O estudo do Egito Antigo mostrou-se como um desafio que encantou e gerou controvérsias historiográficas que puseram o papel do historiador em constante reflexão. Pensar sobre a sociedade egípcia é pensar no papel do faraó, seja como liderança, como símbolo ou como problema social. Sua legitimidade fora tão marcante que, mesmo diante de grupos vindos de fora do domínio egípcio, como hicsos, persas, gregos e romanos, a representatividade do título e ser então o ocupante do trono de Hórus é um dos elementos que levou a historiografia a mergulhar e a buscar ampliar seu entendimento sobre esta sociedade. O trabalho do historiador hoje deve marcar a luta contra o entendimento da linguagem egípcia. Tal preocupação demonstra que a língua não são narrativas acidentais, meras, distantes, mas sim, a organização de textos com métricas, formas específicas, figuras de linguagem que, se não estudadas apropriadamente, criam falsos problemas e enfraquecem o estudo da história egípcia.

Na Grécia, a organização social e política do mundo grego encontram as vésperas da guerra do Peloponeso seu auge. O mundo grego, a partir de discursos de ordem ateniense, construía a ideia de que finalmente a filosofia, a matemática, o comércio, a democracia no modelo ateniense tinham chegado ao seu termo. O grande problema é que havia uma distância entre o discurso idealizado e as realidades politicas. A Guerra do Peloponeso marca uma virada decisiva na História da Grécia em todos os seus aspectos. As disputas vão gerar profundas transformações na estrutura e no pensamento político, na condição dos cidadãos, na busca de uma valorização de uma condição menos política passando a ter representações em membros do cotidiano das cidades atenienses.

Na República de Roma, trata-se de uma perspectiva sobre a própria concepção de cidade peculiar a muitos povos antigos, particularmente aos greco-romanos. Assim como não existia Atenas sem os atenienses ou Esparta sem os espartanos, os romanos não formulavam qualquer ideia de Roma sem levar em consideração a si próprios. Marco Túlio Cícero foi senador e um dos autores de maior reconhecimento dentro do mundo romano. Proveniente de família que pertencia à elite militar romana, recebeu toda a linha educacional a qual o cidadão romano era direcionado. Sua formação fora ainda complementada em linhas filosóficas, retóricas e gramaticais até seus vinte anos. Entre as suas proposições sobre a lei natural, Cícero defende que era necessário existir uma elite de homens mais capacitados, pois estes conduzem com correção os governos, permitindo o alcance de suas glórias, e esse era o motivo das vitórias romanas, e sua quebra acarretaria o seu fracasso.

Cunhado por historiadores como Hanry Marrou, a Antiguidade visa responder o período de transição que marcaria o colapso de instituições administrativas e sociais romanas, apontando para um período de prolongada crise que daria início a Idade Média. A construção de uma Teocracia Papal é uma das discussões mais presentes na historiografia medieval. Quando pensamos em impérios medievais, tendemos a buscar as explicações dos antigos manuais em que se observa o Império Carolíngio e o Sacro Império. A visão papal de império desenvolveu-se intimamente associada à ideia de igreja universal, tendo o episcopado de Roma como cabeça. Para Jacques Le Goff, os traços primordiais da nova paisagem intelectual da cristandade ocidental na virada do século XII para o XIII são: a divisão do trabalho, a cidade, as instituições novas, um espaço cultural comum a toda a cristandade, não mais representado pela repartição geográfica e política da alta Idade Média. As Cruzadas aumentavam a possibilidade de comércio, de oportunidades e também a chance de lucros do grego, do árabe, sendo lidos dentro do espaço europeu e sendo traduzidos. Nesses materiais, Aristóteles é definido por Tomás de Aquino e Platão, por Agostinho.

 

Bons estudos, pessoal!

Marcell

Convento da Penha (ES)

Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar um resumo das aulas da disciplina Patrimônio Histórico Brasileiro do 5º Período do curso Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – O Que é Patrimônio Histórico Brasileiro

A palavra patrimônio vem do latim patrimonium, e quer dizer, em sua essência, “herança paterna”. De modo geral, o termo remete a legado, e desta maneira, podemos entender patrimônio, grosso modo, como bens – materiais, imateriais e ambientais – legados a uma civilização e que fazem parte da formação de uma identidade nacional. Sociedades antigas, como a grega e a romana, preservaram parte de sua memória, especialmente através de documentos escritos e monumentos. Como exemplo de documentos, podemos citar os poemas Ilíada e Odisseia, de Homero, que recuperam fatos históricos e mitológicos da Grécia antiga e a Guerra do Peloponeso, de Tucídides, também sobre a Grécia clássica. Entretanto, embora a noção de memória seja antiga e considerada importante para o desenvolvimento de um povo, o mesmo não acontece com a noção de patrimônio.

O entendimento tradicional de patrimônio teve como característica sua setorização: patrimônio arqueológico, patrimônio antropológico, histórico, ambiental e assim por diante. Hugues de Varine Boham propõe que patrimônio cultural englobe três tipos de diferentes elementos que são: Naturais, Técnicos e Artefatos. Os elementos naturais são aqueles referentes a natureza, clima e meio ambiente. Os elementos técnicos estão ligados ao conhecimento como, por exemplo, as práticas das sociedades indígenas na área da medicina, artesanato e vestuário. E os artefatos que é o grupo mais importante de todos, pois reúne os chamados bens culturais, que englobam toda sorte de coisas, objetos, artefatos e construções obtidas a partir do meio ambiente e do saber fazer.

Temos também o patrimônio imaterial que é composto por elementos intangíveis, ou seja, não são objetos. Pode ser desde uma técnica de produção artesanal (conhecimento) até festas ou manifestações culturais que dizem respeito à memória de um grupo ou de uma sociedade. No Brasil, temos as cavalhadas, a Festa do Divino e a capoeira. Na culinária, temos as técnicas para fazer o acarajé (Bahia) por exemplo.

Na América, as heranças coloniais permitiram o surgimento de novos modelos de sociedade que fazem parte do patrimônio cultural americano. No Brasil, a partir do século XV, temos a presença portuguesa naquela que seria a maior colônia lusa, e por isso também chamada de América portuguesa. Podemos perceber como funcionava a sociedade na época do Brasil-Colônia através das pinturas de Jean Baptiste Debret que fundou, no Rio de Janeiro, uma academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas-Artes. Uma de suas obras serviu como base para definir as cores e formas geométricas da atual bandeira republicana, adotada em 19 de novembro de 1889.

Com a industrialização brasileira sendo retomada de forma sistemática pelo estado, a partir da Revolução de 1930, surgiram novos patrimônios. Trata-se dos patrimônios urbanos e arquitetônicos, como o Palácio Capanema, no Rio de Janeiro e a cidade de Brasília. Podemos concluir que patrimônio histórico são bens, manifestações e técnicas que representam um povo ou que constituem um elemento essencial na formação da identidade nacional. Por muito tempo, apenas a cultura das classes dominantes foi valorizada. É por isso que é mais provável hoje encontrarmos resquícios da cultura portuguesa no Brasil, do colonizador europeu, do que das culturas indígena e africana, consideradas culturas subalternas ou primitivas. Embora as culturas sejam diferentes entre si, não existe uma hierarquia de culturas. O que percebemos é que há uma sofisticação na definição de patrimônio, que passa do particular para o geral, deixa de ser regionalizado para se apresentar como nacional.

Precisamos atentar que a expansão urbana e a construção de novas habitações são necessárias, não sendo males em si, mas a falta de políticas públicas efetivas é o maior responsável pelo desaparecimento de inúmeros bens culturais do país. Alguns eventos tornam estes problemas mais evidentes, como foi o caso da 1a Guerra Mundial. Ao fim deste conflito, foi formada a Liga das Nações para evitar que uma nova guerra eclodisse na Europa. Mas sua função fracassou, já que em 1939 começou a 2a Guerra Mundial. Por outro lado, esta instituição abriu as portas para a Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar de sua curta existência, a Liga das Nações teceu uma série de iniciativas, não só políticas, mas também intelectuais, e foi fundamental para a concepção de preservação do patrimônio histórico. Em 1921, é criada a Organização Internacional de Cooperação Intelectual (OICI) que visava desenvolver a colaboração dos povos nos domínios da inteligência, a fim de assegurar o bom entendimento internacional para a salvaguarda da paz.

 

Resumo da Aula 02 – Patrimônio Latino-Americano

O objetivo principal da UNESCO, que existe desde a década de 1940, sempre foi a preservação patrimonial. Entretanto, a ideia de patrimônio da humanidade surgiu depois dos anos 40, e teve um fato concreto que motivou sua criação. Em 1959, o Egito tinha um projeto de construir a represa de Assuã, no rio Nilo. Mas a represa poderia inundar uma enorme parte do vale sagrado, que continha tesouros arqueológicos inestimáveis como, por exemplo, um dos mais belos templos da antiguidade – Abu Simbel. A função da preservação patrimonial não é impedir o desenvolvimento nacional. Este desenvolvimento deve ser realizado considerando o dano que será causado aos patrimônios arquitetônicos e naturais. O caso da represa Assuá é emblemático. O governo egípcio entendia a importância histórica do vale, mas não poderia abrir mão da construção da represa. Com o apoio de 50 países, o templo inteiro foi desmontado e reconstruído, pedra por pedra, em um lugar mais alto, para que não fosse atingido pelas águas de Assuá. Essa iniciativa arrecadou milhares de dólares, e demonstrou a importância da preservação patrimonial e a consolidação da ideia de patrimônio da humanidade.

No Brasil, na década de 1970, a construção de um açude na Bahia inundou a região que havia sido ocupado por Canudos, cuja guerra, ocorrida na República Velha, é parte importante da história e tema de uma das principais obras de nossa literatura: Os Sertões, de Euclides Cunha. A inundação de Canudos ocorreu sem que o poder público se dispusesse a pensar alternativas como a que fora utilizada no Egito e, dessa forma, parte da nossa história se perdeu. Somente na década de 1990, com a seca de parte do açude, algumas ruínas que pertenciam ao arraial de Canudos despontaram e puderam ser estudadas.

Quando os europeus chegaram ao continente americano, obviamente, não viram que estas civilizações “encontradas” por eles eram donas de sua própria rica e única cultura, viram-nas como bárbaras, que deveriam ser civilizadas e cristianizadas. Por um lado eliminou grande parte da cultura indígena local e por outro criou uma nova cultura, latina, com a mistura de diversos elementos, indígenas, europeus e africanos. A intensa miscigenação, cerne da identidade cultural do continente, gerou os mais diferentes modelos de identidades nacionais. Mas não podemos dizer que o colonizador é a grande diferença, pois os EUA foram colonizados pela Inglaterra, mas a Guiana e Belize também. Entretanto, suas identidades nacionais são profundamente diferentes. Sendo assim, a colonização é um aspecto dentre vários, que fazem parte da construção de uma identidade e, por conseguinte, de uma memória nacional.

No século XIX, o médico italiano Cesare Lombroso se dedicou a estudar a delinquência, baseada em critérios raciais. Segundo suas teorias, fundamentadas em estudos biológicos, os negros e pardos, por sua constituição biológica, eram mais propensos à violência e ao crime. Tese que explicaria a miséria e a criminalidade – problemas constantes na América Latina. Porém, a teoria de superioridade racial defendida por Lombroso não era uma novidade. A escravidão africana foi defendida durante séculos partindo do pressuposto da inferioridade da etnia negra. Estas teorias raciais do século XIX serviram para conformar todo o pensamento de uma época e nos ajudam a compreender o descaso com que o patrimônio latino foi tratado pelas elites dominantes. Em meados do século XX em diante, há um esforço para que este patrimônio seja recuperado. A plantation ligada à agroexportação se manteve como característica da América latina, mesmo depois da independência. Esta estrutura gerou questões importantes com relação à posse da terra, que se mantém até os dias atuais.

Na América portuguesa a terra era distribuída a fidalgos, nobres ou homens próximos da corte. Na América Espanhola, havia a possibilidade desta terra ser concedida aos primeiros colonizadores que se tornavam governadores da região que desbravavam. Quando acontece a independência, essa estrutura não muda pois os crioulos, descendentes de espanhóis que fizeram a independência, eram justamente os donos destas terras e não tinham nenhum interesse em alterar esta estrutura. Entre os anos 1930 e 1950, com as crises do mercado exterior, o continente passou a sofrer uma industrialização sistemática. Especialmente a crise de 1929, que arrasou as economias latinas. Essas reformas desconsideraram o patrimônio local e demoliram inúmeras obras arquitetônicas, como casarios, importantes para a preservação da memória nacional. Atualmente, a ideia de patrimônio deixou de ser somente histórico para se tornarem culturais, ou seja, foram generalizados.

A principal contribuição para a identificação e preservação dos bens latino-americanos são as cartas patrimoniais adotadas pela UNESCO: Normas de Quito e Declaração de Amsterdã. Nas Normas de Quito, é estimulada a participação e atribuída uma enorme parcela de responsabilidade ao Estado, que deve zelar pelo patrimônio nacional. E a Declaração de Amsterdã passou a abranger bairros ou cidades inteiras. Com a globalização e o acesso à informação pelos mais diversos meios, como a internet, o turismo tende, também, a se globalizar. Com a competitividade de setores na área turística, os patrimônios latinos constituem fonte de investimento dos estados.

Em 2006, foi realizada a Convenção do Patrimônio Mundial, onde os países participantes podiam solicitar a UNESCO o tombamento de determinado patrimônio que será então avaliado e dado início ao processo de tombamento. Na fronteira com o Brasil e a Argentina, encontram-se as Missões, tombadas em 1980, que são um exemplo da vida e da relação entre indígenas e jesuítas no período colonial. Na Bolívia, na década de 1980, foi tombada uma cidade inteira: Potosi. Esta cidade, um dos principais centros mineradores de prata no período colonial, possui um conjunto arquitetônico da época que se constituiu em um dos maiores do mundo. O Machu Pichu é um exemplo raro de patrimônio indígena sem interferência hispânica, o que explica sua importância e o enorme número de turistas que a visitam anualmente. E, recentemente, no Brasil, durante as obras de remodelação do porto do Rio de Janeiro, na Praça Mauá, foram encontrados inúmeros artefatos que pertenciam aos africanos trazidos como escravos que desembarcavam neste porto para serem vendidos nos mercados. É importante concluirmos, no caso da preservação do patrimônio latino, que estes bens podem e devem ser revertidos em fonte de lucro através do turismo.

 

Resumo da Aula 03 – A Preservação Patrimonial nos Dias Atuais: Histórico e Experiências

Quando falamos sobre patrimônio, imediatamente pensamos em casas, monumentos, marcos que estão intrinsecamente ligados a uma herança histórica. Patrimônio acabou virando sinônimo de antiguidade, resquício histórico. Em grande parte, isto ocorre porque, historicamente, as nações latinas são jovens e suas trajetórias como países independentes possuem pouco mais de dois séculos, algo muito recente se compararmos com as construções europeias que datam do período do Império Romano, como a Muralha de Adriano, na Inglaterra, ou a Muralha da China, construída antes de Cristo. Os próprios estados latinos demoraram a adquirir a noção de preservação, em parte porque tampouco os consideravam dignos de serem preservados.

Quando os países latinos se tornaram estados nacionais, buscaram formar uma identidade própria, mas o modelo adotado ainda era o Europeu. A França, sobretudo, era considerada o berço da civilização ocidental moderna e muitos de seus princípios, tanto filosóficos quanto arquitetônicos foram adotados nestes novos países. O príncipe holandês Maurício de Nassau, que governou a região de Pernambuco, urbanizou as cidades Recife e Olinda e fez diversas melhorias e obras públicas. Dentre elas está a construção de sua residência e sede do governo, conhecido como palácio das Duas Torres. Os holandeses foram expulsos em 1654, mas as obras que aqui fizeram, permaneceram.

No século XVIII, D. André de Melo e Castro demonstrava sua preocupação na utilização do palácio como quartel. A carta de D. André, escrita em 1742, é considerada um dos primeiros documentos brasileiros que expressa uma preocupação com a preservação patrimonial:

Será mais útil fabricar-se quartéis novos, do que bulir no Palácio das Duas Torres, porque tenho por certo que, por mais que se trabalhe em atalhar as despesas, em bulir a obra, sempre ficará coberta de remendos. (Trecho da Carta do Conde das Galveias, D. André, ao Governador de Pernambuco, 1742)

Um dos casos mais emblemáticos, ocorridos na República Velha, foi a ordem dada pelo então Ministro da Fazenda, Ruy Barbosa, para que centenas de documentos referentes a escravidão fossem queimados em praça pública. Após a abolição, os senhores de escravos exigiram do Estado uma indenização por aquilo que julgavam a perda de suas propriedades. A queima dos documentos impediu que estes senhores provassem a posse destes escravos e, portanto, não pudessem ser indenizados. Embora importante para o momento, a perda desta documentação inestimável provocou um enorme prejuízo para a recuperação de uma história da escravidão.

A reforma de Pereira Passos, ainda que tenha trazido benefícios para a cidade, era também uma medida de ordenação social, que expulsava do coração da cidade as classes populares. No Brasil, a cultura popular não era reconhecida ou valorizada, sendo entendida como algo feito por vadios e que, em casos como a capoeira, deveria ser coibida pela lei. A reforma de Pereira Passos não foi a única a alterar a cidade. O Morro do Castelo abrigou algumas das primeiras estruturas administrativas do século XVI, além da primeira Igreja da Sé da cidade do Rio de Janeiro, que continha o marco da fundação da cidade e os restos mortais de seu fundador, Estácio de Sá. Sua importância histórica não impediu sua completa destruição, levando junto as habitações pobres da população que nelas viviam. Somente com o fim da República Velha e o início da Era Vargas, entre 1930 e 1945, que o estado brasileiro começou a pensar uma legislação que contemplasse as práticas de preservação patrimonial. O governo Vargas ocupou-se do estabelecimento de uma nova identidade nacional, que pode ser vista nas obras deste governo, além do fomento a determinadas manifestações culturais e na criação de órgãos responsável pela imprensa e pela propaganda varguista. Em 1937, com o golpe do Estado Novo, os artigos constitucionais permitem ao Estado interferir na propriedade privada, a fim de preservá-la se for constatado seu interesse como patrimônio. Essas medidas permitiram ao recém-criado SPHAN – Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -, que passaria a se chamar IPHAN – Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, dar início ao processo de tombamento, como hoje conhecemos.

Em finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, era comum que diversos países do mundo fizessem grandes eventos comemorativos, reunindo representantes das mais diversas nações. Nesses eventos, os pavilhões que representavam os países não eram feitos como vemos hoje, nas feiras e exposições, pequenas divisórias de madeira ou material plástico. Eram erguidos grandes prédios. Ao fim da exposição, os prédios eram geralmente, demolidos. A Torre Eiffel, hoje símbolo nacional da França, foi construída em 1889, para a Exposição Universal ocorrida em Paris. Os parisienses, por sua vez, acharam aquele monumento, que servia como porta de entrada para a exposição uma monstruosidade. Seguindo a linha dos eventos, a Exposição Universal de 1904 ocorreria em Saint Louis, EUA. Para representar o pavilhão do Brasil, foi encomendado ao Coronel Francisco Aguiar a construção de um prédio, com uma condição: o prédio, após o término da exposição, deveria ser desmontado pedra por pedra e ser reconstruído no Brasil. Surgiu assim o Palácio Saint Louis, que depois passou a ser chamado de Palácio Monroe, em homenagem ao presidente norte-americano, James Monroe.

 

Resumo da Aula 04 – Conquista e Colonização da América Portuguesa

Uma das questões mais interessantes acerca do patrimônio é que ele resgata uma parte de nossa história. São manifestações, construções e monumentos significativos para a compreensão da identidade nacional. No caso do Brasil, uma das principais características de nossa identidade é a diversificação cultural.

A Península Ibérica estava dividida em reinos como Portugal, Aragão, Castela, Navarra e Granada. Destes reinos, apenas Granada estava sob domínio muçulmano, sendo todos os demais, católicos. A Espanha se unifica em torno de um casamento entre duas coroas: os reinos de Aragão e Castela. Desta união, os outros reinos também passaram a ser unificados, menos Granada, pois foi necessário a expulsão dos muçulmanos em um processo chamado de Guerra de Reconquista. Cabe lembrar que apesar da expulsão dos mouros, há uma intensa contribuição da cultura árabe para a cultura portuguesa e espanhola. Podemos citar as técnicas de azulejaria. Os azulejos são ricamente decorados e adornavam prédios públicos e palácios, e que também foram amplamente utilizados na arquitetura brasileira, desde o período colonial. Por outro lado, a Europa se concentrava no lucrativo comércio de especiarias, trazidas do Oriente. O eixo da economia era o Mar Mediterrâneo, mas boa parte das rotas comerciais orientais era dominada pelos muçulmanos, e os produtos que entravam na Europa, precisavam passar primeiro nas terras italianas, como Veneza, o que provocava um monopólio comercial com preços exorbitantes. Mais tarde, o eixo comercial deixaria de ser o Mediterrâneo, e passaria a ser o Atlântico, o que implicava em enormes mudanças tanto econômicas quanto sociais já que a navegação por este oceano era algo novo.

Durante o século XV, Portugal lançou-se às conquistas na costa da África, com a incorporação dos territórios como as ilhas da Madeira e dos Açores. O continente americano já havia sido atingido por Cristóvão Colombo, em 1492, que tomou posse das terras em nome da Espanha. O entendimento da importância e riqueza das culturas existentes na América, antes da chegada de Colombo, fez com que o termo “descoberta da América” ou “descobrimento do Brasil” caísse em desuso. A viagem de Colombo levou à assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494, firmado entre os reinos de Portugal e Espanha, e intermediado pela Igreja Católica. Então, a colonização do Brasil estava inserida no âmbito das navegações e das práticas do mercantilismo, empreendidas tanto por Portugal quanto pelos demais estados nacionais modernos. A expansão marítima permitiu a formação do antigo sistema colonial, baseado no mercantilismo, que vigorou entre os séculos XV e XVIII. Em casos como a colonização inglesa nas treze colônias que deram origem aos EUA, estas colônias também estavam sujeitas ao pacto colonial e como nos demais processos coloniais, tinham como objetivo o fortalecimento de economia metropolitana.

Se na Idade Média, o sentido de riqueza era a posse de terras, na Idade Moderna este parâmetro muda se concentrando na quantidade de metal precioso acumulado pelas coroas. Podemos dizer que a colonização acontece como um desdobramento do processo de expansão marítima, acompanhado da adoção das práticas mercantis e do desenvolvimento comercial corrente em toda a Europa. A partir de 1504, as terras brasileiras passaram a ser alvo de interesses estrangeiros, notadamente dos piratas franceses, que estabeleceram relações amigáveis com os indígenas, e estavam em busca do pau-brasil, assim como os portugueses. O contrabando intensificou-se e o descaso português permitiu a invasão francesa e a fundação de colônias, como a França Antártica, no Rio de Janeiro, e a França Equinocial, no Maranhão. Ainda que os franceses tenham sido expulsos, sua presença no Brasil deixou um enorme legado. A França Antártica deu lugar a cidade do Rio de Janeiro, e a França Equinocial deu lugar a capital do estado do Maranhão, São Luiz.

Seguindo a linha do Tratado de Tordesilhas, o território foi dividido em 15 faixas de terra, que foram concedidas a 12 donatários. Os donatários detinham os diversos poderes administrativos e, em troca, custeavam todas as despesas decorrentes do processo de colonização, como gastos com transporte. O sistema de capitanias não prosperou conforme a expectativa da Coroa. Os custos que pesavam sobre os donatários eram enormes, provocando o desinteresse da maioria deles pelas terras. Os indígenas se mostraram hostis à ocupação de suas terras, dificultando a montagem dos povoados. Apenas as capitanias de Pernambuco e de São Vicente obtiveram relativo sucesso ao investirem na montagem de uma empresa açucareira. Em seguida, o Governo Geral surgiu para centralizar o poder, que permitiu o efetivo desenvolvimento da colônia. Junto vieram os jesuítas que instituíram as bases da educação, construindo escolas e igrejas hoje tombadas pelo patrimônio histórico, e coube a Manoel da Nóbrega junto com José de Anchieta, a fundação da cidade de São Paulo em 1554, a partir do estabelecimento de um colégio jesuíta com o objetivo de catequizar os indígenas da região.

O Pateo do Collegio, marco zero da cidade de São Paulo, é um patrimônio histórico tombado e sua localização marca o contraste entre colonial e o moderno, já que as estruturas sobrevivem cercadas por inúmeros arranha céus hoje característicos da cidade de São Paulo. Em seu interior, encontra-se o túmulo de José de Anchieta, um dos mais importantes jesuítas da história colonial.

 

Resumo da Aula 05 – A Organização Administrativa Colonial

A instalação do Governo Geral no Brasil constituiu uma nova etapa do desenvolvimento administrativo colonial, mas sua implantação também passou por dificuldades. Quando Tomé de Souza centralizou as funções administrativas, as capitanias que prosperaram, como Pernambuco, viram sua autonomia sendo diminuída, o que provocou insatisfação. Se Tomé de Souza enfrentou problemas, com o segundo governador geral, Duarte da Costa, não foi diferente. Um dos episódios mais singulares acabou por opor o governo geral aos jesuítas.

O bispo Dom Pero Fernandes Sardinha, que veio para o Brasil com Tomé de Souza, teve que retornar para Portugal em 1556. Na volta, seu navio naufragou ainda no litoral brasileiro. Dom Pero e quase toda tripulação, bem como os demais passageiros, foram capturados e devorados, provavelmente pela tribo dos índios caetés. Os caetés não eram os únicos praticantes de canibalismo. Os tupinambás, famosos guerreiros, também mantinham esta prática. O alemão Hans Staden, também no século XVI, foi capturado pelos tupinambás mas teve sorte, foi resgatado. Staden viveu 9 meses entre os indígenas e descreveu e desenhou seus rituais, dentre eles, o canibalismo. O livro Duas Viagens ao Brasil de Staden fez um enorme sucesso na Europa, mas contribuiu para reforçar a imagem do indígena como bárbaro e pagão.

Faz parte do senso comum entender as tribos brasileiras como ingênuas, o “bom selvagem” do qual nos fala Jean Jacques Rousseau. Diante do domínio europeu, algumas tribos indígenas ofereceram mais resistência, aliando-se, por exemplo, aos invasores franceses. Outras se aliaram aos portugueses. Um dos exemplos de resistência foi a Confederação dos Tamoios (1556-157). Os tupinambás, aliados a outras tribos como os goitacazes e os aimorés, fizeram uma série de levantes, sobretudo contra a escravização indígena. Um dos fatores do fracasso das capitanias hereditárias foi justamente a resistência dos indígenas à invasão de suas terras. A colonização deve ser entendida em um processo maior, que inclui as necessidades metropolitanas e a economia mercantilista. O açúcar vinha do Oriente e chegava a Europa principalmente através do comércio veneziano, e alcançava um alto preço no mercado. Procurando oferecer esta mercadoria a preços mais competitivos, Portugal implantou nas ilhas, como na Ilha da Madeira, engenhos açucareiros, o que permitiria que o produto chegasse ao comércio europeu a um preço mais baixo que aquele praticado pelos comerciantes venezianos, o que proporcionava grandes lucros. Mas, esta atividade, para gerar o lucro almejado pela metrópole, deveria ser feita em grandes faixas de terra, que permitissem uma enorme produção, voltada para o mercado externo. Estabelece-se a economia de plantation que é baseado na monocultura, na mão de obra escrava e na economia agroexportadora, que caracteriza a sociedade colonial.

A escravidão não era uma novidade, pois já era praticada nos reinos da África, em geral, tendo escravos como prisioneiros das inúmeras guerras tribais. Sendo assim, entre os séculos XVI e XIX, milhares de africanos, de diferentes etnias, foram trazidos para o Brasil e mantidos sob o regime de escravidão em substituição ao trabalho indígena. De fato, o comércio negreiro enriqueceu os traficantes. Os escravos eram comumente chamados de “negros da Guiné”, em referência a esta região, mas, na prática, provinham das mais diferentes áreas e etnias africanas. O jesuíta André João Antonill chama de boçal o africano recém-chegado ao Brasil e que não dominava o idioma, o português. Os escravos que sobreviviam às viagens eram vendidos nos mercados, próximos ao porto. No Brasil, foram notórios os mercados de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, onde eram comprados e encaminhados para os engenhos de açúcar. Na Bahia também podemos ver inúmeras referências a este período histórico como, por exemplo, a construção de um Pelourinho em praça pública para o castigo de escravos e criminosos.

Durante os séculos XVI, os africanos de origem iorubá praticavam o candomblé, uma religião politeísta. Ao aportarem no Brasil, eram batizados e submetidos à conversão ao catolicismo, sendo proibidos de praticar a sua própria religião. A fusão entre os elementos católicos e iorubás deu origem um intenso sincretismo religioso, notório em diversas igrejas. Esse sincretismo associaria os orixás aos santos católicos. Assim, a Iemanjá do candomblé é associada a Nossa Senhora; Iansã, a Santa Bárbara; Ogum a São Jorge e assim por diante. A devoção dos africanos a Nossa Senhora deu origem a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que começou a construir uma igreja, no Pelourinho, no século XVIII. Os membros da Irmandade doavam seu trabalho, que pode ser observado não só no interior da igreja, mas também no cemitério de escravos que possui ainda hoje, em seu terreno.

Os escravos trabalhavam na lavoura ou na Casa Grande e, na prática, estavam encarregados de todo o serviço. A produção do açúcar era árdua desde o cultivo da cana até o produto final, havia várias etapas. Os plantéis de escravos de um engenho variavam de acordo com seu tamanho, mas não era incomum que incluíssem centenas de indivíduos. Não é por acaso que os senhores de engenho sejam os mais fervorosos defensores da escravidão, e os mais ferrenhos opositores dos abolicionistas.

 

Resumo da Aula 06 – A Corte Portuguesa no Brasil, a Independência e as Disputas Políticas no Período Imperial.

No início da ocupação portuguesa, Salvador, na Bahia, foi a primeira capital, posto que ocupou até 1763. Com a descoberta do ouro mineiro, o porto do Rio de Janeiro era a melhor escolha para o escoamento do minério. Logo, a cidade tornou-se uma das mais populosas da colônia e, em 1763, o Marquês de Pombal, então ministro do reino, transferiu a capital da Bahia para o Rio de Janeiro. O poder político carioca tornou-se ainda mais evidente a partir de 1808, com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, evento que pode ser considerado um dos pontos de partida para a independência, que aconteceria em 1822. A vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil foi um acontecimento inédito na história mundial, já que nunca antes uma corte completa tinha deixado o seu reino para se alojar numa colônia, especialmente em terras tão distantes quanto o Brasil. As transformações sociais, políticas e econômicas que a vinda da família real provocou no Brasil foram avassaladoras. Em primeiro lugar, tinha o fim do pacto colonial. Desde o início da colonização, o Brasil só poderia comercializar apenas com Portugal. Com a metrópole invadida pelos franceses e o centro do governo sendo transferido para o Rio de Janeiro, o pacto perdeu sentido. Dom João também revogou o alvará de 1785, que havia sido implementado por sua mãe proibindo a instalação de manufaturas no Brasil. Podemos dizer que a partir de 1808, a colônia assume ares de metrópole, não só se tornando o centro das decisões político administrativas do Império, mas também do ponto de vista da sociedade.

Desde o início da colonização, vigorava a proibição aos impressos, que foi extinta por Dom João, com a criação da Imprensa Régia. Então, ainda em 1808, entra em circulação o jornal Correio Braziliense, publicado em Londres e, mais tarde, a Gazeta do Rio de Janeiro, sendo estes os primeiros jornais do país. Para fins de defesa, foi criada a Fábrica de Pólvora, em terras que foram incorporadas à Coroa. E também foi instalado um jardim, chamado originalmente de Jardim de Aclimação. Mais tarde, o jardim de Dom João passou a se chamar Real Horto e depois, Jardim Botânico. Por sua história e importância, foi tombado pelo Patrimônio Histórico em 1937 e nele ainda se encontram as ruínas da primeira fábrica de pólvora do Período Joanino.

Ao chegar ao Rio de Janeiro, o regente desapropriou diversas moradias. Na fachada das casas, eram pintadas as letras PR, iniciais de Príncipe Regente. Isso queria dizer que o morador daquela casa deveria se mudar para dar lugar a alguém designado pela Coroa. Popularmente, o PR acabou sendo traduzido como Ponha-se na Rua. No século XVIII, o Marquês de Pombal, um déspota esclarecido, expulsou a ordem jesuíta do Brasil, pois defendia a total separação entre a Igreja e o Estado, e temia a influência da Igreja na colônia, especialmente dos jesuítas, cuja presença remontava aos primórdios da colonização, ainda no século XVI.

Durante a permanência da corte no Rio de Janeiro, entre 1808 e 1821, também houve uma intensa urbanização: Surgiram teatros; foi criado o Banco do Brasil; o acervo que daria origem à Biblioteca Nacional foi trazido de Portugal; diversos artistas vieram à colônia na chamada Missão Artística Francesa; foi criada a Escola Real de Artes e Ofícios que daria origem a Escola de Belas Artes, dentre diversas outras medidas. A elevação do Brasil a Reino Unido consolidou politicamente a autonomia que havia sido iniciada com a vinda da família real em 1808. Ao retornar, Dom João teve que reordenar a política portuguesa, e as cortes demandavam o retorno imediato de Dom Pedro, pois desejavam que o Brasil fosse recolonizado e retornasse ao papel de colônia para reforçar a economia de Portugal, que então se reafirmaria como metrópole. Mas os interesses da corte feriam o desejo da elite política e econômica brasileira, que ganhara autonomia no Período Joanino, e não estava disposta a abrir mão destas conquistas. Sem espaço para uma negociação viável, restou a Dom Pedro declarar a independência no dia 7 de Setembro de 1822.

Após a independência, Dom Pedro I enfrentou diversos problemas. A manutenção da unidade territorial era uma das maiores preocupações, já que as dimensões continentais do país e os interesses das diferentes elites faziam com que o separatismo regional fosse uma ameaça constante. Para se firmar enquanto nação, era necessário o reconhecimento da independência pelos demais países. O primeiro país a reconhecer a emancipação do Brasil foram os EUA, que haviam se independido da Inglaterra em 1776. Em 1823, os EUA reconheceram a independência do Brasil seguindo os princípios da Doutrina Monroe, cujo lema “América para os americanos”, estimulava a libertação das colônias de suas metrópoles. Em 1824, foi outorgada a Primeira Constituição do Brasil, que também estabelecia uma renda, em dinheiro, para eleitores e parlamentares, mas sua característica mais peculiar foi a adoção de um quarto poder: o Poder Moderador. Na Europa do iluminismo, o filósofo Montesquieu defendia a separação dos poderes, que seria por sua vez, dividido em três instâncias. O filósofo Benjamin Constant, a partir dos escritos de Montesquieu, acrescentou a teoria de um quarto poder, o moderador. O Poder Moderador teria um caráter de neutralidade, garantindo a harmonia dos demais poderes. No Brasil, ao ser aplicado na constituição de 1824, a teoria de Constant não foi adotada em sua íntegra, pois concedia ao imperador poderes totais sobre as demais instâncias.

O estabelecimento do Poder Moderador gerou diversas revoltas, dentre elas, a Confederação do Equador (1824). A revolta, motivada pela centralização de poder nas mãos de Dom Pedro I e pela intensa interferência política que os portugueses tinham no Estado, mesmo após a independência, sofreu intensa repressão do império e culminou na execução de dois de seus líderes: Frei Caneca e o Padre Mororó. No plano externo, o país se envolveu na Guerra da Cisplatina, entre 1825 e 1828. Além das perdas humanas, o conflito aumentou a crise, em uma economia já fragilizada, o que abalou profundamente a popularidade do imperador. Não restou ao imperador alternativa a não ser a abdicação em favor do seu filho, Pedro de Alcântara, ainda criança, que ocorreu em 1831.

 

Resumo da Aula 07 – Abolição, Republicanismo e Crise Final do Império

O turbulento período regencial teve, como uma de suas principais características, a disputa de grupos políticos pelo poder e a eclosão de diversas revoltas em todo o país. A solução política para restituir a harmonia interna e consolidar a unidade territorial foi o golpe da maioridade, elevando o herdeiro do trono, Dom Pedro II, que ainda era um adolescente. As revoltas regenciais evidenciam não só a fragilidade do sistema político, mas a diversidade de interesses internos e os graves problemas para a manutenção da unidade e da construção de um Estado nacional, iniciados com a independência, em 1822. O jovem Pedro II não podia governar sozinho e teve que recorrer a políticos experientes e que haviam feito parte das regências. Dois partidos se destacam na disputa pelo poder: o liberal e o conservador. O modelo político adotado foi a Monarquia Constitucional, da qual a Inglaterra era a mais destacada representante. Mas o nosso modelo era bastante diferente daquele praticado pelos britânicos. Como havia o poder moderador, os ministros estavam submetidos diretamente ao imperador, o que de fato, os concedia plena liberdade de ação já que podiam ignorar as demandas do parlamento. O centro das decisões políticas era a Casa da Câmara. Entre os períodos colonial e imperial, as cidades mais antigas como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, possuem, no seu centro urbano, as casas da câmara. No Rio de Janeiro, a casa de câmera foi demolida no século XX e deu lugar ao Palácio Tiradentes. Este palácio, também um monumento tombado, já abrigou a Câmara dos Deputados e hoje é sede da Assembléia Legislativa.

A política do início do Segundo Reinado e suas medidas centralizadoras acaba por denotar um viés antiliberal, em um momento em que o liberalismo se afirma, mundialmente, como uma tendência política. Em São Paulo e Minas Gerais eclodem movimentos contra esse estado antiliberal que são reprimidos com violência pelo Estado Imperial. Em 1848, quando a Europa passava pela Primeira dos Povos, tem lugar, em Pernambuco, a Revolução da Praieira que era influenciada pelos ideais liberais que dominavam a Europa. A revolução que durou 2 anos, acabou sendo derrotada, sobretudo, por falta de recursos. Do ponto de vista econômico, o Brasil manteve a conhecida economia de plantation, estrutura que havia sido montada desde o período colonial, baseado no latifúndio, monocultor, agro exportador e escravocrata. O imperador Dom Pedro II era instruído, fã das inovações e das tecnologias, viajou por inúmeros países e boa parte do acervo do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista é oriundo de suas viagens, como a imensa coleção de objetos egípcios. Dom Pedro II foi em uma feira nos EUA em 1877 e, nessa feira, foi apresentada uma novidade, o telefone. Dom Pedro II acabou entrando na história como a primeira pessoa a utilizar o aparelho.

Dom Pedro II reinou com relativa estabilidade, o que proporcionou o primeiro surto industrial brasileiro, a chamada Era Mauá. A posição da Inglaterra com relação ao Brasil e as constantes interferências inglesas na política nacional colocavam em xeque a soberania do país e do imperador. Em 1861, tem início a questão Christie, um incidente diplomático que abalou as relações Brasil/Inglaterra. A questão Christie é o momento em que o imperador afirma de fato seu poder e assegura a soberania nacional, pois rompe politicamente não só com um dos mais poderosos países do mundo de então, mas com o seu principal parceiro econômico. Pouco antes da retomada das relações Brasil/Inglaterra, em 1864, ocorre a Guerra do Paraguai que envolveria a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai.

A região do rio da Prata sempre foi conflituosa, palco das chamadas questões platinas. Das ex-colônias platinas, o Paraguai era a que possuía a maior fragilidade geográfica. Sendo assim, o Paraguai buscou a autossuficiência e a diminuição da dependência externa, a fim de minimizar sua fragilidade econômica, herdada do período colonial. O exército paraguaio não teve grande dificuldade em conquistar parte do território brasileiro cujas fronteiras estavam claramente desprotegidas. O próximo alvo foi a província de Corrientes da Argentina, como parte do plano de expansão de Lopez. Então, em maio de 1865, Argentina, Brasil e Uruguai se uniram para acabar com o Paraguai de Solano Lopez. A vitória da Tríplice Aliança fortaleceu os militares que por sua vez, exigiriam uma participação política maior, além do reconhecimento do império. Em 1870, marca o início da derrocada do regime imperial, que foi fruto da soma de fatores, dos quais podemos destacar as questões militar, religiosa e escravista.

Além da questão militar, temos também a questão religiosa. Em finais do século XIX, o Vaticano preocupava-se com a expansão da Maçonaria, e decretara que os padres proibissem que os maçons tomassem parte nos cultos católicos. Dom Pedro II tinha claras simpatias pela maçonaria e puniu com prisão dois bispos que seguiram as ordens de Roma: o bispo de Olinda, Frei Vital Maria; e o de Belém, Dom Antônio de Macedo Costa. A prisão dos religiosos provocou um grande impacto negativo na imagem do imperador, já que a maior parte da população brasileira era católica. A escravidão também se colocava cada vez mais como um problema. Os EUA haviam abolido a escravidão após a Guerra de Secessão e o Brasil, junto com Cuba, era um dos poucos países que insistia na manutenção do sistema escravista. Para minimizar o impacto da abolição, foram promulgadas as chamadas leis abolicionistas, que tinham como objetivo a abolição progressiva: Lei do Ventre Livre (1871), Lei dos Sexagenários (1885), Lei Áurea (1888).

 

Resumo da Aula 08 – A República Oligárquica

A Proclamação da República no Brasil foi fruto do desgaste das antigas estruturas imperiais cujos problemas e conflitos se evidenciaram, sobretudo, a partir de 1870. Não é de se admirar que a República implantada mantivesse diversas características herdadas do Império, como a estrutura fundiária e a manutenção das classes sociais. Os anos iniciados deste período, a República Velha, foram caracterizados pelo domínio político das oligarquias cafeeiras, que fizeram valer seus interesses em detrimento das demandas populares. A economia, por sua vez, encontrava-se em uma situação particularmente delicada. A abolição da escravatura transformou os trabalhadores em assalariados. O Ministro da Fazenda, Rui Barbosa, autorizou uma enorme emissão de moeda, em uma política chamada como encilhamento. Mas o Estado Republicano, recém-criado, não tinha ainda reservas econômicas suficientes para garantir o valor da moeda, fazendo com que, ao invés de estimular a economia, o encilhamento provocasse uma enorme inflação gerando uma intensa especulação financeira.

Politicamente, foi estabelecida uma nova constituição, em vigor a partir de 1891. Seu modelo inspirador era a constituição dos EUA, que vigorava naquele país desde o século XVIII. O poder moderador, que havia sido motivo de controvérsia na Constituição de 1824, foi extinto e em seu lugar restabelecida a estrutura dos três poderes: legislativo, executivo e judiciário. O sistema federalista que aumentaria a autonomia dos estados, acabou abrindo espaço para que o poder, de fato, ficasse concentrado na região Sudeste – Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais detinham o maior poder econômico e colégios eleitorais. O café era o grande motor da economia e, portanto, os interesses dos cafeicultores eram claramente favorecidos, em qualquer âmbito. Se o Vale do Paraíba havia se constituído como o principal polo de produção cafeeira, foi, progressivamente, perdendo o posto para o Oeste Paulista.

Em 1891, mesmo ano da constituição, foi aberta a Avenida Paulista, cujo objetivo era abrigar residências e desafogar as ruas mais ao centro financeiro. A Avenida Paulista logo se tornou o lugar dos grandes palacetes, pertencentes a cafeicultores e a grandes empreendedores, que construíam sua casa com enorme luxo e ostentação. A maior parte dos antigos casarões, na Avenida Paulista, que já abrigou nomes como o Conde Matarazzo, foi demolida na década de 80 do século XX. Poucos exemplares restaram, mas os processos de tombamento são dificultados por disputas entre os herdeiros e o estado. Diversos prédios históricos se perderam como, por exemplo, o Palacete Santa Helena. O edifício abrigava parte da vida cultural paulistana, contando com cinema e teatro. Foi demolida na década de 1970, para dar lugar à estação de metrô. Mas o edifício Martinelli teve sorte e resistiu à especulação imobiliária. Construído em 1929, foi um dos arranha-céus do país e acabou por se tornar um símbolo do progresso paulista, sendo hoje um bem tombado pelo patrimônio histórico. Em 1922, tem início a Semana da Arte Moderna, traduzindo o espírito de uma cidade que convivia entre a modernização urbana e o antigo poder oligárquico e rural. Os modernistas, como Mario de Andrade, Tarsilia do Amaral, Anita Malfatti e Oswald Andrade preconizavam uma arte moderna brasileira, buscando inspiração nos mais diversos tipos, urbanos e rurais, que ocupariam espaço privilegiado em sua literatura e em sua arte.

No Rio de Janeiro, uma das das principais obras foi a abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. As ruelas e becos, tão característicos daquela região desapareceram para dar lugar as grandes avenidas das quais a Central é um dos melhores exemplares. Embora tenha de fato modernizado o centro da cidade, nem todos os aspectos da reforma foram positivas. A expulsão da população pobre estimulou a formação das favelas, como a do Morro da Favela, atual Morro da Providência, na zona portuária.

 

Resumo da Aula 09 – Revolução de 1930 e Era Vargas

Durante a República Velha, prevaleceram os interesses das oligarquias e a manutenção da economia agroexportadora. A distribuição de terras, baseada no grande latifúndio, não sofreu alteração e os princípios federalistas contidos na Constituição de 1891 acabaram por permitir a supremacia política concentrada no eixo São Paulo – Rio de Janeiro – Minas Gerais. Além disso, havia a política dos governadores, um acordo entre o governo federal e os governos estaduais. Utilizando a influência dos coronéis, garantia-se a eleição daqueles que apoiavam a presidência. Em troca, o Governo Federal garantia apoio sem restrição à política executada pelos governadores.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, a exportação do café foi prejudicada, já que os países para o qual o Brasil exportava estavam de algum modo envolvidos neste conflito, que desorganizou o mercado externo. Após o fim da guerra, o Brasil passa a enfrentar uma crise interna. A insatisfação militar tomou forma no movimento tenentista, que teve sua primeira revolução em 1922, no Rio de Janeiro, na chamada Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Além da Revolta do Forte, também houve a Revolta Paulista, a Revolta de 1924 e a Coluna Prestes. Tais movimentos foram reprimidos, mas construíram parte do caminho que levaria à Revolução de 1930.

Apesar da crise externa, o café prosseguia sendo o principal produto exportador. Em 1922, foi fundada, em Santos, a Bolsa do Café, com o objetivo de negociar o produto. O prédio da bolsa foi tombada em 2009 pelo Patrimônio Histórico. Além da questão militar, o movimento operário também ganhou expressão, e era influenciado por correntes do pensamento como o socialismo e o anarquismo. O presidente Arthur Bernardes, do Partido Republicano Mineiro, governou de 1922 a 1926 e foi obrigado a recorrer ao estado de sítio para garantir a ordem. Após Arthur Bernardes, assume o paulista Washington Luis, que procurou manter a estabilidade. Mas em 1929, eclode uma crise econômica de proporções mundiais, a chamada Crise de 29. Os países afetados suspenderam grande parte de suas importações, afetando diretamente a economia cafeeira que dependia deste mercado.

Nas eleições de 1930, esperava-se que o Washington Luis indicasse um mineiro, mas acaba indicando um outro paulista, o Júlio Prestes, para concorrer as eleições. Tal atitude rompe o elo dos partidos que constituía a base da república: o PRM (Partido Republicano Mineiro) e o PRP (Partido Republicano Paulista). Então, os mineiros se aliaram com os gaúchos e lançou um político do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, que teria um paraibano, João Pessoa, como vice-presidente. Tal aliança foi chamada de Aliança Liberal. Mas as eleições de 1930 deram vitória a Julio Prestes. Por outro lado, São Paulo era o maior colégio eleitoral do país e, por isso, Júlio Prestes teve a maior vantagem.

A revolução era iminente quando um evento trágico acabou por precipitar os acontecimentos: o assassinato de João Pessoa. Não há um consenso de que sua morte tenha sido motivada por questões políticas, stricto sensu. Embora tenha sido assassinado enquanto estava em uma confeitaria, em Pernambuco, por João Dantas, atribui-se ao crime também razões pessoais e não somente políticas. De toda forma, seu assassinato foi o impulso que levaria Getúlio Vargas ao poder.

Após assumir o poder, Vargas dissolveu o Congresso Nacional e as casas legislativas municipais e estaduais. São Paulo reagiu à perda de seu lugar na política nacional e, em 1932, acontece a Revolução Constitucionalista, iniciada em 9 de julho e tendo o seu fim no dia 3 de outubro do mesmo ano. A Era Vargas levou a Constituição de 1934 e, pela primeira vez, a constituição considerou as necessidades reais dos trabalhadores: salário mínimo, férias remuneradas, proibição do trabalho infantil, entre outras medidas. De outra forma, Vargas assume o papel de mediador entre diversos grupos sociais, como o operariado, a quem favorece com as leis trabalhistas e as elites econômicas. Também foi criado o Ministério da Educação e Saúde, que teve como seu mais notável ministro o mineiro Gustavo Capanema.

As grandes reformas não impediram que, em 1937, ocorresse um novo golpe, dando início ao Novo Estado, um período ditatorial que se estenderia até o fim da Era Vargas em 1945. Sob a justificativa de impedir o avanço dos comunistas, começa um período de repressão e censura, com a criação de órgãos como o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) e a Polícia Secreta, chefiada por Filinto Muller e responsável pela deportação de Olga Benário. Olga era judia e companheira do líder comunista Luis Carlos Prestes. Ela foi deportada para a Alemanha nazista e morreu em um campo de concentração em 1942.

A eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, deu um novo salto econômico para o Brasil aumentando seus índices de importação e exportação. No plano interno, também existiam pressões das elites e da população para a abertura política, o que acabou por fazer com que Vargas fosse obrigado a abandonar o poder em outubro de 1945. Mas Vargas voltaria ao poder através das eleições de 1951. Apesar de inúmeras controversas, as mudanças operadas em sua gestão foram fundamentais para o desenvolvimento do país e para o processo de industrialização, tardio e necessário.

 

Resumo da Aula 10 – O Nacional Desenvolvimentismo

As políticas iniciadas por Vargas teriam continuidade mesmo após sua saída do governo, em 1945, com a inauguração de um novo momento na história da República: o nacional-desenvolvimentismo, que se estende de 1945 até 1964, quando ocorre o golpe que inaugura a ditadura militar brasileira. O desenvolvimentismo, segundo Vera Cepêda, é um projeto de transformação social profunda, operada politicamente de maneira racional e orientada pelo Estado, vinculando economia e avanço social.

Com a saída de Vargas, assume ao poder, temporariamente, José Linhares. A primeira medida foi a convocação de novas eleições, que dariam vitória a Eurico Gaspar Dutra, que governou entre 1946 e 1951. Em 1951, novas eleições deram a vitória a Vargas, que não terminaria seu mandato. Cabe lembrar que este segundo governo não faz parte da Era Vargas, mas é analisado sob outra conjuntura, profundamente ligado à ordem internacional do pós-guerra. O principal oponente de Vargas era o jornalista Carlos Lacerda, que fazia campanha constante contra Getúlio, colocando-o como ditador que não estava a serviço do povo. A situação tornou-se insustentável com o atentado sofrido pelo jornalista, que ficou conhecido como atentado da Tonelero, por ter ocorrido na rua de mesmo nome, em Copacabana, Rio de Janeiro. Lacerda sobreviveu, mas um oficial da Aeronáutica, major Rubens Vaz, acabou sendo vitimado. Lacerda acusou Vargas de ser o mandante do atentado, o que causou grande comoção na opinião pública. Sem apoio interno e externo, Vargas via seu projeto naufragar e, em agosto de 1954, suicidou-se no Palácio do Catete.

Diante do suicídio do Presidente, seguiu-se um período de incertezas políticas, que só teriam fim com as eleições seguintes, que elegeriam Juscelino Kubitschek para o cargo de Presidente da República, que ocuparia entre 1956 e 1961. O trabalhismo de JK era entendido como uma continuidade da política getulista, o que levantou uma forte onda oposicionista, liderada sobretudo pela UDN (União Democrática Nacional), que lançara a candidatura de Juarez Távora à Presidência. A campanha presidencial foi ousada, investindo na ideia de progresso e desenvolvimento, que seria traduzido no slogan 50 anos em 5. Os 50 anos em 5 seriam alcançados através de um avançado conjunto de objetivos: o plano de metas e o meta síntese – a construção de Brasília. O plano de interiorizar a capital era ambicioso e previa investimentos de cinco setores considerados básicos ao desenvolvimento: Energia, Transporte, Indústria de Base, Alimentação e Educação. Os investimentos seriam mistos – tanto públicos quanto privados -, mas os três primeiros setores acabaram recebendo a maior falta do investimento, contando com mais de 90% do total. Alimentação e educação acabara, portanto, ficando em segundo plano.

Brasília não integrava, particularmente, nenhum dos cinco setores fundamentais, mas representava-os em seu conjunto, já que construir uma capital a partir do zero implicava em, necessariamente, desenvolver seus setores básicos. Não se acreditava que o projeto fosse sair do papel, e a determinação de JK em construir Brasília foi encarada tanto como ousadia como quanto loucura. Em seguida, surgiu um problema de ordem prática: a transferência dos servidores públicos e de suas famílias do Rio de Janeiro para Brasília, o que afetou sobremaneira a vida destes funcionários: era a capital interferindo na ordem familiar. Reconhecendo sua importância como patrimônio arquitetônico, em 1987 a cidade de Brasília foi tombada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Desde seus primeiros momentos, o tombamento de Brasília foi controverso. Seus defensores argumentavam que era a primeira capital erguida no século XX e o conjunto arquitetônico modernista era, em si, único. Já os opositores diziam que era prematuro avaliar a importância do Modernismo enquanto estilo artístico e arquitetônico. Em 2009, o famoso arquiteto, Oscar Niemeyer, demonstrava seu desapontamento ao constatar a pobreza das cidades-satélites (cidades arredores) e concluiu que Brasília falhara em seu objetivo de promover uma integração social entre as mais diversas classes, já que os pobres foram confinados aos espaços periféricos da capital. Niemeyer também declarou que uma cidade não pode ser tombada, porque sempre aparecem modificações. Então, uma cidade tombada é ignorância. As modificações são inevitáveis, e Brasília ainda vai passar por muitas delas.

Brasília representou um evento histórico, cultural e político único na história do Brasil e um capítulo marcante na história contemporânea ocidental. Estes foram alguns dos motivos que levaram a UNESCO a conceder a Brasília, em 1987, o Título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Por outro lado, o senso comum culpou a construção de Brasília e o governo JK pela dívida externa brasileira, o que não é verdade. A dívida já existia, mas sofreu, de fato, um aumento considerável no período. Seja como for, meio século depois, Brasília continua polêmica, título que está muito longe de ser extinto.

 

 

Bons estudos!

Marcell

Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar um resumo das aulas da disciplina História do Brasil Republicano do 5o Período do curso Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – A Crise da Monarquia e a Proclamação da República (1881-1889)

De acordo com o historiador Rodrigo Perez Oliveira, a ação dos militares foi motivada pela insatisfação em não ver reconhecidos, por parte do governo e da elite civil, os méritos do Exército durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). A Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul. Ela foi travada entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai). A Tríplice Aliança acabou que derrotando o Paraguai após mais de cinco anos de lutas. O Paraguai tornou-se um dos países mais atrasados da América do Sul, devido ao seu decréscimo populacional, ocupação militar por quase dez anos, pagamento de pesadas indenizações de guerra, no caso do Brasil até a Segunda Guerra Mundial, e perda de praticamente 40% de seu território para o Brasil e Argentina. Após a guerra, o Paraguai manteve-se sob a hegemonia brasileira.

O que estava em jogo na questão militar era o lugar político do homem da caserna (quartel). Para os dirigentes civis, o militar deveria ser um profissional especializado na arte da guerra e obediente às ordens do Estado. Já para alguns setores do oficialato, sobretudo aqueles mais identificados com o positivismo, o soldado era um cidadão fardado e, por isso, também tinha direito à voz política. A tensão entre “soldado profissional” e “soldado cidadão” foi característica da monarquia brasileira e se acentuou após 1870, quando parte do Exército se sentiu desprestigiada pelas tentativas do governo em desmobilizar os efetivos da corporação. A questão militar foi uma sucessão de conflitos entre 1884 e 1887 suscitados pelos embates entre oficiais do Exército Brasileiro e a monarquia, conduzindo a uma grave crise política que culminou com o fortalecimento da campanha republicana. Em 1885, o Coronel Cunha Matos fez uma viagem de inspeção à província do Piauí e atestou várias irregularidades. Cunha atribuiu tais falhas ao comandante da Companhia de Infantaria dessa província. Em 1886, um deputado piauiense, aliado do capitão advertido por Cunha Matos, atacou-o em um discurso na Câmara dos Deputados local. Cunha Matos foi acusado por ter contribuído com o Exército paraguaio, mas Cunha retrucou as acusações por meio de um artigo publicado na imprensa. Já o ministro da Guerra, deputado Alfredo Chaves, censurou o coronel Cunha alegando que a legislação em vigor desde 1859 determinava que os oficiais eram proibidos de discutir questões políticas ou militares na imprensa sem o consentimento prévio do ministro e o mandou prender por dois dias.

O general e senador do Rio Grande do Sul, José Antônio Correia da Câmara, o Visconde de Pelotas, era amigo e correligionário político de Cunha Matos e passou a discursar no Senado em 1886 em sua defesa. Pelotas criticou violentamente o ato do ministro e afirmou que a ofensa sofrida por Cunha Matos mexera com os brios de todo o Exército. O senador alegou que os esforços de Cunha Matos pelo bem da pátria, não estavam sendo levados em consideração pelo Ministério. Em agosto de 1886, o Tenente-Coronel Sena Madureira, então comandante da Escola de Artilharia de Rio Pardo, prestou apoio a iniciativa de Pelotas. O senador Franco Sá, ex-ministro de Guerra, e que havia demitido Sena Madureira em 1884, alegou que o Ministro Alfredo Chaves deveria manter-se irredutível na punição contra Cunha Matos.

A essa altura, a retórica messiânica fundamentada na memória da Guerra do Paraguai já se tornara a base discursiva da ação política dos oficiais do Exército que eram opositores ao regime monárquico. No dia 2 de setembro, Visconde da Gávea enviou ao Marechal Deodoro da Fonseca uma carta na qual perguntava se ele havia concedido permissão para Sena Madureira publicar seu protesto no jornal republicano A Federação. Deodoro respondeu que não e que dedicaria atenção ao assunto. Dias depois, Deodoro enviou um ofício ao ministro da Guerra informando que a legislação em vigor se referia apenas à discussão pública entre os militares e que Sena Madureira não havia cometido nenhum ato digno de represália. O ministro Alfredo Chaves rejeitou Deodoro e mandou punir Sena Madureira com uma repreensão. Foi a partir desse momento que os acontecimentos começaram a se configurar. Os políticos civis ligados ao Partido Republicano não tardaram a ver na questão militar, uma oportunidade para indispor ainda mais o Exército Brasileiro com a monarquia. Júlio de Castilhos aproveitou essas discussões públicas para publicar o artigo “Arbítrio e Inépcia”, que reforçava a retórica messiânica já articulada pelos oficiais do Exército. Castilhos alegava que o governo imperial estava ofendendo “aquele que lhe salvou de grandes apuros nos campos paraguaios”. A partir de então, as páginas do jornal gaúcho A Federação foram palco dos artigos escritos por Sena Madureira e Júlio de Castilhos. Ambos não pouparam críticas à administração imperial.

A onda de protestos chegou à Escola Militar da Praia Vermelha no RJ. No dia 1º de outubro, a mocidade militar manifestou solidariedade a Sena Madureira e afirmou sua disposição para assumir, junto com o tenente-coronel, as responsabilidades que poderiam resultar na rebeldia contra o governo. Os promotores do movimento foram presos pelo General Severiano da Fonseca, irmão de Deodoro. Diante desses conflitos, o Barão de Cotegipe solicitou a Deodoro que acalmasse os ânimos dos jovens alunos. Na resposta, é possível perceber a disposição do marechal em assumir o papel de representante dos protestos da classe militar. Então, Deodoro tornou-se uma importante liderança militar nos conflitos com o governo. Por outro lado, o próprio sistema estava doente; desde meados do século XIX, algumas mudanças estruturais tornaram o centralismo monárquico inadequado para a nova realidade nacional.

No dia 9 de novembro de 1889, houve uma inflamada reunião na sede do Clube Militar. O General Benjamin Constant e os seus alunos da mocidade militar, estavam em pé de guerra. Oficiais como Benjamin Constant, Sólon, Sebastião Bandeira e Mena Barreto defendiam a solução republicana para a crise monárquica. Já Deodoro da Fonseca, relutava em trair o velho imperador D. Pedro II. Em relação a posição do Marechal Floriano Peixoto, é impossível dar uma resposta definitiva. Ao mesmo tempo que liderava o gabinete de Ouro Preto, Floriano Peixoto parecia empossar a conspiração que estava sendo tramada nos bastidores do Clube Militar. Após a morte dos principais líderes militares do século XIX, Deodoro da Fonseca se torna um dos oficiais mais estimados de todo o Exército. Na verdade, naquele final de século, a monarquia já dava claros sinais de ser um sistema incapaz de conciliar as velhas e novas demandas dos diferentes grupos sociais brasileiros.

Benjamin Constant e Sebastião Bandeira organizaram um encontro de Deodoro com líderes civis do Partido Republicano, como Quintino Bocaiúva, Aristides Lobo, Rui Barbosa e Francisco Glicério. O marechal Deodoro da Fonseca mantinha boas relações com o regime monárquico e com o próprio imperador D. Pedro II. Envolveu-se com os republicanos em meio à crescente insatisfação que, desde a Guerra do Paraguai, se espalhava entre os militares. No dia 14, Floriano Peixoto enviou uma carta a Ouro Preto informando-o de que algo “muio grave estava para acontecer”. O chefe do gabinete ordenou a convocação de Deodoro e solicitou ao ministro da Justiça que a Polícia e a Guarda Nacional fossem postas em prontidão. Ainda de madrugada do dia 15, um grupo de estudantes da Escola Militar da Praia Vermelha foi buscar Benjamin para liderar as tropas em direção à sede do Ministério de Guerra. Deodoro estava ausente devido ao seu estado de saúde. Mas, para a surpresa de todos, assim que soube da movimentação, Deodoro foi ao encontro das tropas, passando a comandá-las no Campo de Santana, no Rio de Janeiro. Apenas o Barão de Ladário, ministro da Marinha, agiu em defesa da monarquia, o que, obviamente, não foi suficiente para salvá-la.

Estava feito! Depois de mais de sessenta anos, o Brasil, finalmente, seguia a tendência política do continente americano. Estava extinta a inusitada monarquia tropical.

 

Resumo da Aula 02 – A República das Espadas: Consolidação da República e Primeira Ditadura Militar Brasileira

É inegável que os militares controlavam o Estado e conduziam os rumos da administração do Brasil. Porém, mesmo estando desalojadas do poder executivo, as oligarquias cafeicultoras, particularmente a paulista, também exerceram grande influência nas políticas públicas e nas estratégias mobilizadas para a consolidação do regime republicano. Nesse sentido, a principal característica da República das Espadas foi a aliança entre as elites civis mais poderosas do Brasil e o Exército. Mas esta aliança foi frágil e conflituosa, o que ficou claro no momento em que Floriano Peixoto entregou o poder ao primeiro Presidente civil da República brasileira, o paulista Prudente de Morais. A partir deste momento, os militares florianistas não mais seriam aliados dos civis, mas sim seriam os seus principais inimigos.

As instituições ainda eram frágeis, a ausência do Poder Moderador como árbitro dos conflitos e a resistência das lideranças monárquicas inconformadas transformaram os cinco primeiros anos da República brasileira em um período conflituoso e particularmente violento. O governo controlado pelo Exército mostrou-se pouco tolerante com as oposições: jornais foram empastelados, lideranças foram assassinadas e presas, etc. O que estava em jogo era o modelo político brasileiro e a imagem do País no mundo. O Imperador D. Pedro II era muito estimado na Europa e a estabilidade do Estado monárquico era considerada uma qualidade que distinguia o Brasil dos países com os quais faziam fronteira. Então, a imagem da República na Europa não era nada boa, o que dificultou bastante a concretização de contratos financeiros e a aquisição de empréstimos e financiamentos.

O golpe militar republicano aconteceu quando era realizada a I Conferência Internacional Americana (EUA), evento organizado pelo governo norte-americano visando aumentar os contatos com o restante do continente, enfraquecendo assim a influência europeia. Uma das principais características do primeiro ano da República foi a intensidade dos negócios e da especulação financeira, tendo como consequência as vultosas emissões de dinheiro e a facilidade do crédito. Várias empresas nasceram da noite para o dia, algumas delas eram fantasmas. E, no início de 1891, a crise se manifestou de forma mais clara com a derrubada nos preços das ações, a falência dos estabelecimentos bancários e de empresas. O valor da moeda brasileira despencou. Esses foram os resultados do Encilhamento – Política desenvolvida por Rui Barbosa (1849-1923), na época o Ministro da Economia do governo provisório de Deodoro da Fonseca. O objetivo de Rui Barbosa com essa política era fomentar a atividade industrial no Brasil, fazendo com que o país não dependesse tanto das atividades agrícolas.

Enquanto o governo provisório do Marechal Deodoro da Fonseca dava seus primeiros tropeços no planejamento econômico, os primeiros representantes eleitos sob a égide da República, reunidos em Assembléia Constituinte entre novembro de 1890 e fevereiro de 1891, redigiam a nova constituição brasileira, que deveria substituir a carta monárquica de 1824. Orientados por Rui Barbosa e tomando como modelo a constituição dos EUA, as novas leis introduziram importantes mudanças no sistema político brasileiro, até então caracterizado pela centralização monárquica.

Em plena crise econômica provocada pelo fracasso do encilhamento, o Congresso formalizou o governo de Deodoro da Fonseca, sendo Floriano Peixoto, eleito, também de uma forma indireta, o Vice-presidente. Apesar dos dois serem oficiais do Exército, cada um tinha o seu jeito diferente de governar. Floriano Peixoto defendia uma proposta jacobina de República baseada no forte personalismo do líder e no diálogo direto com alguns setores da população urbana. Já Deodoro possuía convicções republicanas frágeis, o que provocava certa desconfiança por parte dos republicanos históricos, que temiam o aliamento do presidente com as lideranças monárquicas. A essa altura, Deodoro da Fonseca já era extremamente impopular, tanto entre os parlamentares civis como para grande parte da imprensa. Então, percebendo a impossibilidade da resistência armada, Deodoro da Fonseca decidiu renunciar ao cargo de Presidente da República, e começava assim o governo do Marechal Floriano Peixoto. Peixoto subiu ao poder e se manteve até o fim do quadriênio (1890-1894), com o apoio da oligarquia paulista.

O governo de Floriano Peixoto foi extremamente conturbado. A primeira grande luta de Floriano seria para se manter no poder na medida em que a legitimidade de seu mandato era questionada por alguns grupos. Entre eles estavam os políticos monarquistas adesistas, os “republicanos de última hora”, que exigiam a convocação de novas eleições. Além disso, haviam também dois grandes conflitos que ameaçavam seu governo:

  1. Desde fevereiro de 1891, o Rio Grande do Sul estava sofrendo com a disputa entre federalistas, partidários de Silveria Martins, político monarquista, e os republicanos, liderados por Júlio de Castilhos e base de apoio do Marechal Floriano neste Estado.
  2. O outro conflito foi a Revolta da Armada, iniciada em setembro de 1893 e liderada pelos Almirantes Custódio de Melo e Saldanha da Gama. A Revolta da Armada foi um movimento antirrepublicano e monarquista, demonstrando a instabilidade política dos primeiros anos da República brasileira.

As oligarquias que dominavam o poder legislativo apoiaram Floriano Peixoto na manutenção de seu mandato e na repressão à Revolução Federalista e à Revolta Armada. Se por um lado este apoio foi fundamental para a manutenção das instituições republicanas, por outro fez com que Floriano ficasse preso na rede política tecida pelas oligarquias. Tal fato foi central para a transição ao governo civil de Prudente de Morais. As duas revoltas – Revolta Armada e a Revolução Federalista – consistiram em movimentos de contestação à legitimidade do governo do Marechal Floriano, que contou com o apoio irrestrito do Congresso, na época controlado pelas oligarquias regionais.

A motivação inicial da Revolução Federalista foi uma questão interna à política do Estado do Rio Grande do Sul. Após fraudes escandalosas nas eleições e uma sucessão de assassinatos políticos, Júlio de Castilhos assumiu a presidência desse Estado em janeiro de 1893. Poucos dias depois, os adversários políticos do novo governante organizaram um movimento armado que tinha o objetivo de depor Castilhos. Então começou a guerra civil entre as forças do governo e a oposição – liderança federalista organizada por Gaspar Silveira Martins, contrária à centralização do Estado e ao cerceamento da liberdade administrativa do Estado. Mas a oposição ao governo de Castilho era heterogêneo demais, tornando, assim, a sua principal fraqueza. A guerra durou 31 meses afetando mais três estados fronteiriços, chegando mesmo até São Paulo. Os castilhistas acabaram vencendo e 10 mil homens foram mortos. Esse foi o momento em que a violência do governo do Marechal Floriano ficou mais evidente.

A Segunda Revolta da Armada foi promovida por setores do oficialato da Marinha e liderada pelo contra-almirante Custódio José de Melo. Os revoltosos se manifestavam contra a corrupção e a inconstitucionalidade do governo do Marechal Floriano. A Revolta Armada foi debelada ainda em 1893, quando o governo fez um acordo, intermediado pelo governo português, com os líderes revoltosos, que foram exilados. Seria um navio oficial da Marinha portuguesa o responsável por transportar esses homens. O governo do Marechal Floriano considerou o fato uma traição e rompeu relações diplomáticas com Portugal.

O governo do Marechal Floriano Peixoto parece ter cumprido o seu objetivo: desmobilizar as oposições e consolidar definitivamente as instituições republicanas, praticamente excluindo a possibilidade da restauração da monarquia. Para as elites civis, com destaque para a oligarquia paulista, a necessidade passava a ser outra: desmilitarizar a república. Porém, para alguns setores do Exército, a República ainda corria o risco e os civis não tinham condições morais de assumir o controle do país. Em 1º de Março foram realizadas as eleições presidenciais destinadas a definir o sucessor de Floriano Peixoto. Prudente de Morais e Manoel Vitorino foram eleitos presidente e vice-presidente da República. Aproximava-se, então, o momento da transferência do poder para os civis. Se por um lado a cúpula florianista declinou aos anseios jacobinos por um movimento militar que mantivesse a ditadura, por outro, não entregou o poder aos civis sem antes encenar simbolicamente a sua insatisfação.

Em 15 de novembro de 1894, quando a República comemorava o seu quinto aniversário, o paulista Prudente de Morais assumiu a chefia do Estado brasileiro. O projeto da oligarquia paulista que estava sendo idealizado desde a década de 1870 era concretizado: o grupo mais rico do Brasil agora controlava também o governo do país.

 

Resumo da Aula 03 – Os Primeiros Governos Civis e a Pacificação dos Militares (1894-1902)

Prudente de Morais, sucessor de Floriano Peixoto, reconheceu a importância da “coragem, a pertinência e a dedicação do benemérito marechal” para a consolidação das novas instituições. Contudo, o presidente Prudente de Morais deixou claro sobre os interesses das oligarquias cafeicultoras que passariam a controlar a partir de então, e até 1930, os rumos da República brasileira: pacificar a conduta política do Exército e reconduzir os militares à caserna, retirando-os da arena política. O General Jacques Ourique, o novo diretor da Escola Militar da Praia Vermelha, iniciou um programa de disciplinarização da conduta política dos alunos da Escola Militar, a que o General Teixeira Jr., diretor da escola do quadriênio Campos Sales, deu prosseguimento. Mas enfim, tal empreendimento não foi bem sucedido devido a Revolta da Vacina.

A Revolta da Vacina foi uma revolta popular ocorrida no Rio de Janeiro em 1904. Foram vários conflitos urbanos entre populares e as forças do governo (policiais e militares). A principal causa foi a campanha de vacinação contra a varíola, realizada pelo governo e comandada pelo médico Dr. Oswaldo Cruz. A grande maioria da população era pobre e desinformada, e não conheciam o funcionamento da vacina. Então, não queriam tomar a vacina. Além disso, o povo também estava inconformado com a reforma urbana na cidade do Rio, que desalojou milhares de pessoas para que cortiços e habitações populares fossem colocados abaixo para a construção de avenidas, jardins e edifícios mais modernos.

O primeiro presidente civil da República brasileira, Prudente de Morais, reduziu os efetivos do Exército, prestigiou a brigada policial, dando-lhe o caráter de força de segurança privada, promoveu oficiais contrários à participação castrense na política e negou promoções aos que dela participavam. Isso desagradou os jacobinos que foram a principal base de apoio popular a Floriano Peixoto, e gerou atritos constantes entre eles e o governo civil. Eduardo Prado, um dos principais adversários políticos da ditadura florianista, criticou a enorme influência de Floriano Peixoto entre os estudantes da Escola Militar. Floriano Peixoto, mesmo após sua morte em junho de 1895, continuou sendo muito estimado pelos alunos da Escola Militar.

O interesse do governo em se aproximar do Exército ficou claro em 27 de janeiro de 1895, quando o primeiro regimento de cavalaria retornou de Santa Catarina, onde lutara por dez meses contra os federalistas. Em carta ao Ministro da Guerra, General Bernardo Vasques, Prudente de Morais solicitou a organização de uma grande festa para receber o regimento comandado pelo Coronel Martinho da Silva. O ministro da Guerra atendeu ao pedido do presidente da República e uma grande festa foi organizada para recepcionar o regimento de cavalaria. O projeto de desmilitarização da política nacional, segundo Rodrigo Perez, não foi idealizado e efetivado apenas pelos exércitos civis; contou com a colaboração de segmentos do próprio Exército, como Jacques Ourique e Nepomuceno Mallet. Não foi somente o jacobinismo da Escola Militar que criou dificuldades ao governo de Prudente Morais. Em meados de 1893, formava-se no sertão da Bahia, numa fazenda abandonada, uma povoação conhecida como “Arraial de Canudos”. Seu líder era Antônio Conselheiro que atraiu milhares de sertanejos, entre camponeses, índios e escravos recém-libertos, e que foi destruído pelo Exército da República na chamada Guerra de Canudos em 1897.

Apesar do esforço empreendido, Prudente de Morais não conseguiu entregar a seu sucessor, o paulista Campos Sales, uma República pacificada. Eleito em 1º de março de 1898, Campos Sales herdou um cenário de grave crise econômica e de grande instabilidade política. O principal desafio para o novo presidente foi a consolidação da hegemonia das oligarquias cafeicultoras. Para tal, era imprescindível dar continuidade ao projeto de pacificação da conduta política dos militares iniciado no governo de Prudente de Morais. Os conflitos entre a mocidade militar e as forças do governo foram constantes também no governo de Campos Sales. Por isso, o presidente da República prosseguiu tentando controlar as ações dos estudantes militares e enfraquecer a influência do jacobinismo florianista entre eles. No plano financeiro, o governo republicano herdara do Império uma dívida externa que consumia grande parte do saldo da balança comercial. Em junho de 1898, foi acertado o penoso funding loan – um acordo com os credores que resultou em novos empréstimos destinados ao pagamento dos juros do montante dos empréstimos anteriores. O Brasil comprometeu-se a cumprir um duro programa de austeridade econômica caracterizado pela restrição interna do crédito e pelo corte dos gastos públicos. Tal pacote comprometeu a imagem do governo perante a sociedade.

O governo de Campos Sales foi marcado pela criação de uma estratégia política destinada a dificultar a atuação das oposições no Congresso Nacional. Acrescente-se o fato de que o Poder Executivo encontrava extremas dificuldades em se impor ao Legislativo. Diante disso, Campos Sales idealizou um arranjo político conhecido como “política dos governadores”. O propósito da política dos governadores foi eliminar as disputas entre as facções nos estados, reforçar o Poder Executivo e inaugurar a “rotinização do poder” na Primeira República. Em termos gerais, o governo central dava ampla autonomia aos governos estaduais, que, por sua vez, ajudavam a controlar as eleições legislativas, fazendo com que apenas candidatos da base de apoio chegassem ao Congresso Nacional. A mocidade militar continuou a promover dificuldades ao governo civil. Então, Campos Sales trocou o comando do Ministério da Guerra e da Escola Militar da Praia Vermelha. O General João Nepomuceno assumiu o cargo do Ministério, e o General Teixeira Jr. assumiu a Escola Militar. A mocidade militar continuou a ser controlada de perto, e suas manifestações eram violentamente combatidas, sobretudo aquelas realizadas no dia 19 de junho, aniversário de morte de Floriano Peixoto.

Campos Sales passou a faixa da presidência em 1902 ao também paulista Rodrigo Alves com a certeza de que a República, de fato, navegava em águas mais tranquilas e começava a viver um período de estabilidade e de relativa prosperidade, que era baseada na agroexportação de café. Tal estabilidade não resultou necessariamente na ausência de contestações por parte da população mais pobre, até então excluída dos mecanismos formais de participação política.

 

Resumo da Aula 04 – As Manifestações Populares e os Canais Não Oficiais de Participação Política

O escritor João do Rio foi um dos principais cronistas em ação no Rio de Janeiro nos primeiros anos do século XX. A cidade é o palco para as lutas entre as representações político-simbólicas rivais que marcaram a transição da monarquia para a República e os anos da consolidação do novo regime. Segundo José Murilo de Carvalho, os primeiros anos do novo regime foram marcados por disputas pelo controle da simbologia oficial republicana. Ainda ele, Tiradentes não tinha sua imagem atrelada nem ao separatismo nem ao militarismo. Pelo contrário, o mito Tiradentes, que começou a ser construído ainda em 1880, estava diretamente relacionado à inconfidência mineira, um acontecimento libertário e civil. Ainda segundo Carvalho, os responsáveis por esses embates foram os jacobinos e os positivistas. O desenlace final dessas disputas elevou Tiradentes à posição de herói oficial da República brasileira. A tradição popular, segundo Carvalho, foi importante tanto na escolha do hino quanto na escolha da bandeira da jovem República, o que demonstra que o regime não esteve indiferente à opinião popular e tentou conquistar a adesão dos mais pobres. “Bestializado” é um adjetivo com o qual o líder republicano Aristides Lobo caracterizou a ação popular na ocasião da proclamação do novo regime. O povo, que deveria ser o protagonista na cena política do regime republicano, assistiu, “bestializado”, ao nascimento do novo regime, chegando mesmo a confundir a movimentação liderada pelo Marechal Deodoro com um desfile militar.

Carvalho ainda crê que as relações entre o Estado e a sociedade precisam ser vistas como uma via de mão dupla, que não é obrigatoriamente equilibrada. Ou seja, o povo brasileiro dos anos finais do século XIX e dos primeiros anos do século XX não precisa ser visto obrigatoriamente como uma massa acéfala sem nenhuma capacidade de discernimento e facilmente manipulada pelos detentores do poder. A manifestação popular não é motivada pela falta de instrução, de educação ou de valores civilizatórios, mas sim pela presença de uma insatisfação que se torna forte o bastante para provocar a mobilização coletiva.

De acordo com o historiador Douglas Monteiro (2006), desde meados de 1893, formava-se no sertão norte da Bahia, em uma fazenda abandonada, uma povoação conhecida como “Arraial dos Canudos”. Seu líder era Antônio Vicente Mendes Maciel, o famoso Antônio Conselheiro. Com o tempo, Canudos tornou-se uma sociedade alternativa, e o poder de Conselheiro um desafio às autoridades republicanas. O movimento liderado por Conselheiro surgiu em um contexto social marcado pela crise e pelas mudanças nas relações entre a Igreja Católica e o poder público. Entre todas as mudanças ocorridas, certamente a mais importante para entendermos o caso de Canudos foi a institucionalização do Estado laico, que pôs fim ao padroado, que na monarquia definia a Igreja Católica como uma instituição indiferenciada do Estado Brasileiro. De acordo com a Constituição de 1891, o Brasil se tornava um Estado laico, no qual inexistia qualquer religião oficial, sendo o culto definido como assunto de foro pessoal. A laicização foi aceita por setores do poder público e, também, por membros eclesiásticos que desejavam ter mais autonomia em suas ações. Mas, nas regiões do interior do Brasil, o fim do padroado foi considerado uma afronta aos desígnios divinos, aos quais os poderes humanos deveriam obedecer. Nesses lugares, a República passou a ser vista como um regime herético, infame e contrário à religião. Em seu apogeu, o Arraial dos Canudos chegou a contar com 20 mil habitantes e foi visto tanto pelas autoridades políticas locais quanto pelo governo do RJ como um movimento religioso formado por fanáticos que lutavam pela restauração da monarquia.

De acordo com José Murilo de Carvalho, a cidade do Rio de Janeiro sentiu de modo particularmente intenso as mudanças provocadas pelo advento da República. É exatamente na conjuntura dessas mudanças e nas políticas públicas modernizantes desenvolvidas pelos governos republicanos que propomos a análise da Revolta da Vacina. Com o aumento da população, os velhos problemas de abastecimento de água e de saúde pública se tornaram ainda mais graves. Apesar de ter sido por um único estopim, a obrigatoriedade da vacina, a Revolta de 1904 foi fragmentada e envolveu um amplo leque de interesses. Os seguintes grupos e motivações foram: Os setores mais pobres da população carioca, justamente aqueles que moravam no centro da cidade e tiveram suas moradias destruídas pela política sanitária do Dr. Oswaldo Cruz. A insatisfação dessas pessoas era motivada tanto pela revolta de terem sido desalojados de suas casas quando pelo moralismo conservador que considerava o corpo, sobretudo o feminino, inviolável. E, também, temos os jacobinos positivistas e florianistas liderados por Lauro Sodré e Barbosa Lima. Tais grupos representavam a principal oposição ao governo das oligarquias civis. Os jacobinos viram a chance de restabelecer a ditadura positivista.

 

Resumo da Aula 05 – A Estabilização da República: A Relativa Eficiência de um Eficaz Mecanismo de Dominação Política (1902-1922)

Quando o golpe militar de novembro de 1889 transformou o Brasil em uma República, prontamente o novo regime adotou o modelo jurídico dos Estados Unidos, que constituíram a primeira República Federativa Presidencialista dos tempos modernos. Esse modelo republicano era baseado no primado da descentralização política e da autonomia administrativa dos poderes locais, o que era considerado fundamental para a eficiência da administração pública. Por aqui, os poderes municipal e estadual não chegaram a ser engrenagem fundamental da máquina político-administrativa, apesar de terem sido fundamentais para a dinâmica oligárquica que caracterizou a política brasileira entre 1902 e 1930. Os governos de Prudente de Morais (1894-1898) e de Campos Sales (1908-1922) consolidaram a República Liberal Oligárquica, provocando o esfacelamento do jacobinismo, após o fracasso da tentativa de assassinar Prudente de Moraes. Os militares voltaram para os seus quartéis, e a elite política dos grandes Estados, São Paulo à frente, tinha triunfado. O grande papel atribuído aos Estados provocou em alguns deles lutas de grupos rivais.

Manter os conflitos dentro de uma margem de segurança, visando ao não comprometimento da estrutura do sistema, foi objetivo fundamental da “política dos governadores”. Segundo Victor Leal, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, o poder local não era o mais forte nesse aspecto. Muitas vezes essa pretensão generalista apoiada em casos específicos serviu de base para os críticos do trabalho desse autor, mas as hipóteses desenvolvidas por ele nos oferecem importantes pistas sobre a máquina oligárquica brasileira. O coronelismo, por exemplo, teve origem na criação da Guarda Nacional, em 1831, e se alimenta da fragilidade do poder político. O homem pobre do campo caía nas malhas do poder dos coronéis tanto por vontade própria quanto por medo das punições que os mandatários poderiam impingir a todos aqueles que ousassem se opor à sua autoridade. Se de um lado, o coronel era a personificação do poder na localidade, do outro sua autoridade dependia, necessariamente, de uma boa relação com as instâncias superiores da administração política, como os poderes estadual e federal.

Segundo Maria do Carmo, nesse sistema político, a presidência era o elemento central de coesão, e as alianças em nível nacional giravam em torno da disputa para eleger o chefe do Executivo. Para determinar a sucessão presidencial, os partidos políticos de São Paulo e Minas Gerais geralmente trabalhavam juntos, mas, a partir de 1910, o Rio Grande do Sul também entrou no meio. Segundo Boris Fausto, a República concretizou a autonomia estadual, dando plena expressão aos interesses de cada região. As tentativas de organizar partidos nacionais foram transitórias ou fracassaram. Os principais grupos no jogo político da República Oligárquica eram: Partido Republicano Paulista (PRP), Partido Republicano Mineiro (PRM) e Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Em São Paulo, o PRP tinha estreita relação com as elites econômicas locais que eram ligadas a agroexportação de café, e com a atividade industrial. Já o PRR e o PRM tinham mais autonomia em relação às sociedades rio-grandense e mineira. O PRR tinha uma forte ligação com o positivismo, e funcionou como uma espécie de instância de arbitramento das relações entre os estancieiros e os imigrantes. O PRM eram formados por políticos profissionais que utilizavam a máquina pública para favorecer aliados e perseguir adversários.

Poderíamos dizer que o voto poderia ter sido o principal instrumento mobilizado pela sociedade civil para impedir o monopólio político dessas oligarquias. A primeira vista, parecia que as oligarquias poderiam ser quebradas pela massa da população por meio do voto. Entretanto, o voto não era obrigatório e o povo, em regra, encarava a política como um jogo entre os grandes e os partidos estaduais se acertavam, lançando candidaturas únicas, o quando os candidatos de oposição não tinham qualquer possibilidade de êxito. Os especialistas afirmam que os resultados das eleições não traduziam a opinião pública nacional, já que o voto não era secreto e os eleitores estavam sujeitos a todo tipo de pressão política. Dulce Pandolfi dizia que nas primeiras décadas do Brasil republicano, um dos mais graves e delicados problemas do sistema eleitoral era a falsificação das atas eleitorais, com a alteração do número de votantes. O número de pessoas envolvidas diretamente com as fraudes era alto, e muitos recebiam nomes especiais: os cabalistas, os fósforos e os capangas. Os cabalistas eram os encarregados de incluir novos nomes nas listas dos votantes. Os fósforos eram os que assumiam a identidade de eleitores mortos ou ausentes. E os capangas eram os que intimidavam os eleitos e, se necessário, faziam uso da força física. Diante desse quadro, dificilmente a população poderia perceber o voto como um direito, como um modo de participar da vida política e decidir os destinos do país. Esse ritual cumpria funções estratégicas, abrindo brechas no interior do jogo de poder oligárquico e implicando uma série de procedimentos de negociação que essas elites mantinham com seu eleitorado, quer fosse ele de cabresto ou não, como acontecia em algumas cidades, como o Rio de Janeiro e São Paulo. O voto de cabresto é um sistema tradicional de controle de poder político através do abuso de autoridade, compra de votos ou utilização da máquina pública.

As negociações entre as oligarquias mineira e paulista não foram de todo harmônicas. Também houve conflitos nas relações entre os dois estados que, no período, controlavam a política nacional. Entre 1894 e 1906, os paulistas dominaram o Executivo em virtude da coesão de sua elite política e da força econômica do café. A partir daí, o pacto político entre paulistas e mineiros foi consolidado, fato que permitiu que um mineiro, Afonso Pena, ocupasse a presidência da República entre 1906 e 1910. Durante o governo de Afonso Pena, foi ampliada a rede ferroviária, impulsionou o povoamento territorial, incentivou a produção cafeeira e foi renovada a Marinha de Guerra. Também foram resolvidas as questões de limites e o Brasil foi representado na Conferência de Haia por Rui Barbosa. Em 1909, houve um desentendimento entre paulistas e mineiros a respeito do sucessor de Afonso Pena. Então, as eleições de 1909 foram marcadas pela volta provisória dos militares ao poder e pela entrada da oligarquia gaúcha no cenário político nacional. Marechal Hermes da Fonseca, apoiado pelas oligarquias mineira e gaúcha, e Rui Barbosa, apoiado pela oligarquia paulista, foram os dois candidatos a Presidência. A campanha de Rui Barbosa se debruçou, então, sobre o debate entre civilismo e o militarismo, e fez duras críticas à intervenção do Exército na política. Embora a candidatura de Rui Barbosa fosse apoiada pela mais importante força política da época, a oligarquia paulista, sua campanha se apresentou como uma luta da inteligência pelas liberdades públicas, pela cultura, pelas tradições liberais, contra o Brasil inculto, oligárquico e autoritário. Mas, Hermes da Fonseca acabou ganhando, produzindo grandes desilusões na restrita intelectualidade da época.

A grande característica do governo do Marechal Hermes da Fonseca foi o autoritarismo. A truculência do governo de Hermes da Fonseca desagradou a todos, até mesmo os mineiros que o apoiaram nas eleições de 1909. Por isso, em 1913, paulistas e mineiros fizeram um acordo não escrito para discutir os rumos da cafeicultura realizado na cidade mineira. A partir daí, as duas oligarquias seriam mais coesas e se revezariam no controle da presidência da República.

 

Resumo da Aula 06 – A Reorientação da Política Externa do Estado Brasileiro: A Guinada Americanista

Em um momento no qual a imprensa já estava bem-desenvolvida, quando os jornais circulavam com certo dinamismo entre os países ocidentais, a proclamação da República no Brasil repercutiu bastante internacionalmente. Recebida com restrições na Inglaterra, a proclamação da República foi saudada com entusiasmo na Argentina e aproximou o Brasil dos EUA. O golpe militar de novembro de 1889 pôs fim ao período no qual o Brasil foi uma exceção política no continente americano. A mudança no eixo-diplomático ficou ainda mais clara a partir de 1902, quando José Maria da Silva Paranhos Jr., aquele que, na monarquia, havia sido o Barão do Rio Branco, assumiu o comando do Ministério das Relações Exteriores. Um dos principais objetivos era alcançar a posição de primeira potência sul-americana para o Brasil. O Barão do Rio Branco foi um dos patronos da diplomacia brasileira e um dos principais representantes do adesismo (termo utilizado para designar o movimento de adesão à República por parte das lideranças monarquistas). O Barão era um defensor da Doutrina Monroe, a “América para os Americanos”. Ao lado de uma política estratégica de aproximação com os EUA, vista como forma de assegurar a hegemonia brasileira na América do Sul, o Barão do Rio Branco tratou também de ampliar o número de representantes do Brasil no exterior a fim de intensificar as relações internacionais do país. Seria reducionista afirmar que a estratégia geopolítica por Rio Branco consistisse exclusivamente na busca pela aproximação com os EUA. Houve também o interesse em consolidar as fronteiras nacionais e terminar com litígios que comprometiam havia décadas a harmonia na relação entre o Brasil e seus vizinhos limítrofes.

No início da República, os principais pontos de conflitos fronteiriços se localizavam na região norte/nordeste do território nacional: querelas com a França e a Inglaterra por causa dos limites com as Guianas, e com a Bolívia e o Peru por causa do Acre. Já no sul, a disputa era travada com a Argentina, em torno da região de Palmas, que está situada no oeste dos estados de Santa Catarina e Paraná. Diferente do que aconteceu com suas congêneres europeias, a monarquia brasileira não estabeleceu a hereditariedade como principal critério para a aquisição de títulos honoríficos. Ou seja, no Brasil Império, o fato do pai ter um título de nobreza, não significava necessariamente que o filho também o teria. Era necessário prestar serviços à monarquia e demonstrar fidelidade ao trono. Por isso, podemos dizer que a nobreza brasileira foi meritocrática, e não hereditária. Nesse sentido, é possível afirmar que José Peranhos, um representante da nobreza brasileira, foi uma exceção, já que herdou o título de seu pai, José Maria da Silva Paranhos, o primeiro Visconde do Rio Branco e um dos diplomatas mais importantes do século XIX brasileiro. Foi exatamente esse caso de José Paranhos que foi treinado naquela que foi uma das principais instituições de ensino em funcionamento no Brasil nesse período: a Faculdade de Direito de São Paulo.

Em 1893, o político e intelectual Eduardo Prado escreveu sobre a ilusão americana criticando as novas instituições, sendo, por isso, a primeira obra a ser censurada pela República brasileira. A definição da República como uma espécie de interrupção da marcha nacional rumo à civilização, representada na América, segundo Eduardo Prado, pela monarquia católica, foi uma das principais marcas do anti-republicanismo que começou a se constituir a partir do final da década de 1880 na obra desse autor. Eduardo Prado estava em sua fazenda em meados de novembro de 1893, quando recebeu uma advertência de que, no Rio de Janeiro, a administração florianista já havia autorizado a sua prisão, e homens do Exército já policiavam os portos de Santos e do Rio de Janeiro para evitar qualquer tentativa de fuga.

 

Resumo da Aula 07 – Entre a Indústria e a Vocação Agrícola: A Agenda Econômica da Primeira República Brasileira

Certamente, a imigração em massa foi um dos principais fatores responsáveis pelas transformações sociais e econômicas que caracterizaram os primeiros anos de vida da República brasileira. O Brasil, junto com os EUA e a Argentina, foi o principal receptor de europeus e asiáticos que vieram para as Américas em busca de melhores condições de trabalho e ascensão social. Essa imigração se explica, além de outros fatores, pela forte demanda de força de trabalho naqueles anos para a lavoura de café. O incentivo a imigração não foi uma novidade estabelecida pelos governos republicanos; já fazia parte dos planos das elites proprietárias desde o início da década de 1870, quando se tornou evidente que a escravidão não veria o século XX nascer. É possível encontrar vestígios que apontam para a péssima qualidade de moradia e de trabalho que os proprietários dispensavam aos trabalhadores estrangeiros, que, assim como os escravos, não foram passivos e resistiram ao poder dos grandes fazendeiros. A principal transformação consistiu na substituição da parceria pelo colonato. Na parceria, os imigrantes se responsabilizavam pelo cultivo do cafezal, recebendo por isso dois pagamentos anuais: no momento do plantio e no momento da colheita. Já no colonato, não havia divisão de lucro entre o proprietário e o trabalhador. Neste sistema, os trabalhadores não recebiam salário, mas poderiam utilizar a terra para produzir gêneros de interesse próprio, que poderiam ser destinados tanto à subsistência quanto ao comércio local, deixando maior autonomia para os trabalhadores.

A República nasceu sob os impactos de uma grave crise econômica que abalava as contas do Estado brasileiro desde a década de 1870, quando os preços internacionais do café começaram a experimentar as primeiras grandes quedas. Fora isso, foram gastos com operações militares para reprimir a Revolta dos Canudos e a Revolução Federalista. O resultado foi um rombo no erário e, para contornar a situação, os governos republicanos utilizaram as mesmas estratégias que o governo monárquico: a obtenção de empréstimos para financiar a capacidade de investimento do Estado e para saldar os juros das dívidas anteriores. A Guerra dos Canudos foi o confronto entre o Exército Brasileiro e os integrantes de um movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro, que durou de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia. A Revolução Federalista ocorreu no sul do Brasil logo após a Proclamação da República, e teve como causa a instabilidade política gerada pelos federalistas, que pretendiam “libertar o Rio Grande do Sul da tirania de Júlio de Castilhos”, então presidente do Estado, e também conquistar uma maior autonomia do estado do Rio Grande do Sul, descentralizando o poder da então recém proclamação da República. A divergência teve início com atritos ocorridos entre aqueles que procuravam a autonomia estadual, frente ao poder federal e seus opositores. A luta atingiu as regiões do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Naquilo que se refere a riqueza, a grande tentativa dos governos republicanos do período foi o equilíbrio entre as atividades agroexportadoras e a produção industrial. A austeridade que passou a caracterizar o comportamento econômico dos governos republicanos após a presidência de Campos Sales contrariou diretamente os interesses dos grandes proprietários de café. Para tentar contornar essa insatisfação, os governos dos três principais estados (SP, MG e RJ) produtores de café, assinaram um acordo em 1906, na cidade de Taubaté, comprometendo-se a garantir, se necessário com o dinheiro público, os preços rentáveis do produto e estimular seu consumo interno. O que mais impressiona do Convênio de Taubaté foi a cláusula que obrigava os governos a obterem empréstimos externos para comprar o excedente de café e garantir a manutenção dos preços. O esforço do Estado brasileiro para proteger os preços desse produto no mercado internacional denota a força política da elite cafeicultora, sobretudo a paulista.

O predomínio da agroexportação do café, contudo, não foi completo durante a Primeira República. Ainda que com cifras bem mais modestas do que aquelas observadas em relação ao café, outros produtos agrícolas – açúcar, cacau, mate, fumo, algodão e borracha – também foram importantes para a riqueza nacional. Já a atividade industrial passou a ter mais importância no conjunto da economia brasileira a partir de 1880 e 1890, quando foram criadas as condições necessárias para o desenvolvimento de um número considerável de pequenas oficinas e grandes fábricas nas principais cidades brasileiras. O agente impulsionador desse primeiro movimento industrial foi a agroexportação, com sua força e dinamismo, que, ao gerar renda, ao possibilitar a montagem de uma infraestrutura de transporte e ao ampliar o mercado interno de consumo, criou o ambiente propício para um longo processo de industrialização que somente chegaria ao fim em meados do século XX. Houve um aumento considerável nas importações de matérias-primas como o ferro e cimento e de máquinas e equipamentos. Por isso, a indústria brasileira passou por vários problemas durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando a crise do comércio internacional dificultou a importação de bens de produção. Foi nesse momento que a indústria brasileira se diversificou, conforme comprova o estabelecimento dos primeiros núcleos de indústria pesada, como as usinas siderúrgicas e de máquinas e equipamentos. Se de um lado a agricultura foi o carro-chefe da economia brasileira até meados do século XX, do outro, os próprios excedentes de capital produzidos pela agroexportação de produtos primários possibilitaram o desenvolvimento da atividade industrial.

 

Resumo da Aula 08 – 1922: Questionamentos e Projetos de Modernidade

Como a Europa estava em guerra antes da década de 20, o Brasil foi obrigado a produzir internamente aquilo que antes era importado. É isso que a bibliografia especializada chama de “industrialização pela substituição das importações”. A década de 1920 tem importância fundamental para a história política da Primeira República Brasileira. Tratou-se do momento de crise da República Oligárquica. O desenvolvimento industrial modificou sensivelmente a sociedade brasileira à medida que fez crescer os núcleos urbanos e fortaleceu politicamente setores da sociedade que não estavam sob o controle dos velhos mecanismos de dominação oligárquica. Podemos ver que tanto as práticas políticas “coronelistas” quanto a dependência da estrutura econômica agroexportadora eram sinais do atraso do Brasil em relação aos países mais desenvolvidos do mundo.

O político Rui Barbosa, que já havia sido candidato em 1910 e em 1914, novamente se apresentou para a corrida eleitoral e, sem nenhuma ajuda das grandes máquinas oligárquicas, que apoiavam a candidatura de Epitácio Pessoa, obteve cerca de um terço dos votos válidos e venceu no Distrito Federal. O resultado surpreendente da campanha eleitoral de Rui Barbosa mostrou que algo estava mudando na sociedade brasileira. A década de 1920 confirmaria essa suspeita. Outro elemento fundamental para a crise dos anos 1920 foi a crise na aliança que até então havia conseguido dar certa estabilidade ao sistema: o pacto entre as oligarquias mineira e paulista. O bloco oligárquico voltaria a rachar somente em 1919, quando Rui Barbosa e Epitácio Pessoa disputaram a Presidência da República. As articulações das eleições começaram ainda em 1918, no último ano do governo de Venceslau Brás, que foi presidente do Brasil durante a Primeira Guerra Mundial.

O eixo São Paulo-Minas Gerais queriam derrotar Rui Barbosa que representava o tipo de homem público considerado inadequado para os objetivos traçados pelas oligarquias regionais. Então, o grupo escolheu o paulista Rodrigo Alves. Porém, Rodrigo Alves já tinha 70 anos de idade e morreu em 1919, o que conduziu o mineiro Delfim Moreira, então o vice-presidente, ao cargo. Esse foi o momento em que as discordâncias entre paulistas e mineiros ficaram mais claras, já que ambos os grupos desejavam “fazer” o presidente. Então, com o apoio do Partido Republicano Paulista, Pessoa foi eleito presidente da República brasileira, permanecendo até 1922. Momento em que o eixo São Paulo-Minas Gerais já não era mais poderoso como antes. Nesse sentido, podemos dizer que, em 1922, os elementos da crise da República Oligárquica, que já podiam ser percebidos pontualmente na década de 1910, vieram à luz de forma tão explícita que a própria existência desse tipo de lógica política ficou claramente comprometida. Então, podemos também analisar que a crise de 1922 só terminou em 1930 com o golpe final, onde, no momento da tomada do poder pelos gaúchos, subiu no poder Getúlio Vargas.

Prontamente, a oligarquia gaúcha, que a essa altura já era um importante elemento de desestabilização nas relações políticas entre os estados mais poderosos da Federação, posicionou-se contra a indicação dos paulistas e mineiros. Outras oligarquias regionais, como a paraibana e a fluminense, uniram-se ao Rio Grande do Sul e formaram a Reação Republicana, que lançou a candidatura de Nilo Peçanha à Presidência da República. Mesmo com todo apoio popular, Nilo Peçanha não conseguiu ser eleito e, mais uma vez, o candidato das oligarquias mais poderosas saiu vitorioso. Foi no curso da disputa eleitoral que veio à tona a insatisfação militar. A sensação de que o governo de Bernardes era antimilitar ganhou dramaticidade com uma carta publicada no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em outubro de 1921. Tratava-se de cartas enviadas por Bernardes a um líder político de Minas Gerais, contendo pesadas ofensas aos militares. As cartas falsas tinham como objetivo de indispor ainda mais as forças armadas contra a candidatura de Bernardes. Além disso, junto com as comemorações do primeiro centenário da independência do Brasil, ganhou força nos salões de arte e nos círculos intelectuais a discussão a respeito do moderno brasileiro e da criação de uma cultura estética genuinamente nacional.

O grande objetivo dos artistas e intelectuais que se reuniram em fevereiro de 1922 em São Paulo, era mostrar que o Brasil estava sintonizado com a modernidade do século XX. Escritores e poetas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia; pintores como Tarsilla do Amaral, Anita Malfatti e Di Cavalcanti; e músicos como Heitor Villa-Lobos apresentam ao público brasileiro a arte moderna, constituindo um escândalo. Superação! Essa é a palavra de ordem para os modernistas brasileiros, que desejavam a criação de uma arte genuinamente nacional e antenada com as inovações europeias e norte-americanas.

 

Resumo da Aula 09 – Segregação Racial e Rebeldia nas Décadas de 1910 e 1920: A Revolta dos Marujos às Manifestações dos Trabalhadores Urbanos

Seria redundante dizer que a experiência da escravidão negra deixou profundas marcas na sociedade brasileira; marcas que até hoje são facilmente percebidas quando analisamos os índices de violência, pobreza e escolaridade e percebemos que a população afro-brasileira é mais sensível a algumas mazelas sociais. Por isso, seria, no mínimo, ingênuo achar que a extinção formal da escravidão, que aconteceu com a assinatura da Lei Áurea, foi o suficiente para eliminar completamente a discriminação racial e as práticas sociais inspiradas no regime escravocrata. Um exemplo claro foi o costume dos oficiais da Marinha em punir com chibatadas os desvios de conduta dos marujos que, em sua grande maioria, eram negros. A grande revolta que definitivamente eliminou a prática das chibatadas somente aconteceu em novembro de 1910, quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi punido com 25 chibatadas por ter se envolvido em uma briga com um colega. Todos os tripulantes do navio eram convocados para assistir ao “espetáculo”, marcado por batidas de bumbo ao fundo. Um oficial, geralmente o mais graduado, castigava as costas do marujo com chibatadas que, dependendo da infração, poderiam chegar ao número de 50! Ainda que por tradição, a Marinha fosse uma força militar aristocrática, em seus quadros superiores, os marujos eram recrutados entre os setores mais pobres da população, justamente aqueles descendentes de escravos que tinham dificuldade de se ingerir no mercado de trabalho.

O palco da Revolta da Chibata foi o navio Minas Gerias que, na época, estava ancorado no porto do Rio de Janeiro. Rapidamente, o motim ganhou a adesão de outros marujos que estavam em terra e embarcados no encouraçado São Paulo, que também estava ancorado no porto carioca. A situação saiu do controle e os rebeldes mataram dois oficiais. A notícia prontamente se espalhou, o que provocou certo pânico na região central da capital da República já que os marujos ameaçavam bombardear a cidade. Diante da gravidade da situação, o governo brasileiro resolveu negociar com os revoltosos, liderado pelo almirante negro, Marujo João Cândido. Os revoltosos exigiam o fim imediato dos castigos físicos, a melhora nos soldos e nas condições de trabalho e a anistia imediata para todos os envolvidos no movimento. Pressionado pelo pânico, o governo aceitou prontamente todas as reivindicações, fazendo com que os marujos encerrassem a revolta. Contudo, o governo foi esperto e perseguiu violentamente os líderes do movimento, provocando uma nova revolta que, desta vez, aconteceu na Ilha das Cobras, também no Rio de Janeiro. Vários marujos foram presos e, entre eles, o próprio João Cândido.

Autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda apontam o cristianismo católico como um dos elementos primordiais na formação da cultura brasileira. De acordo com as considerações de Gilberto Freyre, no Brasil nós tivemos um catolicismo dionisíaco marcado pela permissividade com alguns pecados, por exemplo, os excessos sexuais dos patriarcas e pelo messianismo popular. Ainda que seja necessário qualquer tipo de ortodoxia, inclusive a marxista, não há como negar que a dinâmica produtiva imprime suas marcas na lógica social. Foi nesse momento que aconteceu o primeiro grande impulso de desenvolvimento industrial da história do Brasil que, entre outras coisas, provocou o surgimento de um novo ator politico que daí para diante seria protagonista no cenário nacional: o proletariado urbano.

A Guerra do Contestado (1912-1918) – Segundo Boris Fausto, o contestado era uma região limitrofe entre Santa Catarina e Paraná. A situação na região ficou ainda mais tensa no início de 1911, quando um grupo de moradores foi arbitrariamente removido por causa da construção de uma ferrovia e da atuação de uma grande empresa madeireira. A figura de José Maria foi fundamental para o prosseguimento do movimento, já que ele foi santificado pelos revoltosos, que lutavam empunhando seu retrato e esperando pelo seu retorno milagroso, o que se configurou como uma espécie de sebastianismo do século XX. Segundo Jacqueline Hermann, a Guerra do Contestado foi inserida em um contexto de transformações estruturais na sociedade brasileira, o que envolveu, entre outras coisas, a abolição da escravidão, a proclamação da República e a consequente laicização do Estado. Os rebeldes foram massacrados durante anos por tropas estaduais e federais e, em 1918, o movimento já estava completamente aniquilado.

A luta operária (décadas de 1910 e 1920) – Bóris Fausto dizia que o crescimento das cidades e a diversificação de suas atividades foram os requisitos mínimos de constituição de um movimento da classe trabalhadora. Nos centros urbanos a liberdade de circulação era muito maior, assim como era maior a circulação das ideias, por significativas que fosse as diferenças de instrução e a ausência de veículos de ampla divulgação. O período entre os anos de 1917 e 1919 foi marcado por um ciclo de greves em São Paulo e no Rio de Janeiro. Segundo Ângela de Castro Gomes, surgiram nessas cidades vilas e bairros operários, espaços nos quais os trabalhadores viviam com suas famílias, estabeleciam redes de apoio na vizinhança, criavam grêmios culturais e esportivos e associações de moradores. As condições de trabalho nas fábricas estavam longe de serem as ideais. Isso fica muito claro no relatório dos funcionários do Departamento do Trabalho do Estado de São Paulo, que foi redigido em 1912. A duração de trabalho diário era de 11 horas úteis. O tempo de trabalho poderia variar por seção de 11 horas e meia e 12 horas e meia por dia, fora a questão do trabalho infantil. Nos primeiros anos do século XX, ainda não existia no Brasil, a legislação que hoje controla as relações de trabalho.

De todas as propostas que influenciaram a ação dos operários brasileiros, nas primeiras décadas republicanas, certamente o anarquismo foi o mais importante. Os anarquistas combatiam o capitalismo moderno e todas as formas de opressão. Propunham a livre organização dos indivíduos e a gestão econômica comunitária. Em uma sociedade recém-egressa da escravidão e sem uma cultura política assentada na democracia, a supressão do Estado e de todas as formas de repressão encontrava bastante receptividade nos sindicatos e grupos operários. Em geral, o anarco-sindicalismo brasileiro era contrário às instituições liberais, desprezando os políticos, os partidos e qualquer instância de representatividade. O socialismo também teve sua importância; diferente dos anarquistas, os socialistas defendiam a organização dos trabalhadores em um partido operário que deveria procurar lugar na estrutura do Estado democrático através da mobilização dos mecanismos formais de participação política, buscando, dessa forma, a reforma endógena do Estado Industrial. Apesar das diferenças entre socialistas e anarquistas, havia também semelhanças como a utilização da imprensa como elemento de mobilização e doutrinação, e a construção de uma imagem positiva do trabalhador urbano que foi apresentado como um homem honesto, explorado econômica e socialmente e, por isso, digno de atenção da sociedade em geral.

 

Resumo da Aula 10 – A Revolução de 30

O mês de novembro de 1930 foi marcado por uma grande guinada política: tratou-se do movimento armado liderado pelas oligarquias de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul que ficou conhecido como a Revolução de 30. O Presidente Arthur Bernardes enfrentou sérias dificuldades e teve que recorrer as seguidas decretações de estado de sítio, a situação jurídica que prevê a suspensão temporária dos direitos fundamentais dos cidadãos. O governo pagou um alto preço pela tentativa de austeridade econômica: a impopularidade junto aos setores mais poderosos da época, ou seja, os grandes cafeicultores. A solução encontrada foi transferir a defesa do café da União para o Estado de São Paulo, que a assumiu permanentemente. O governo paulista assumia a atribuição de regular a entrada de café no porto de Santos e de efetuar a compra da mercadoria quando julgasse necessário.

Apesar da insatisfação, o eixo Minas/São Paulo funcionou outra vez em 1926, quando o mineiro Arthur Bernardes foi sucedido pelo paulista Washington Luís. Apesar de ser carioca, Washington Luís foi formado politicamente em São Paulo. As dissidências no seio do PRP (Partido Republicano Paulista) não eram novidades, mas seu impacto aumentou ao longo da década de 1920, chegando ao ápice em 1926, quando foi fundado o PD (Partido Democrático), que tinha um programa liberal e pretendia conduzir a reforma política do país. Suas principais bandeiras eram o voto secreto e obrigatório, a representação das minorias e a criação de uma justiça eleitoral autônoma. Por outro lado, a elite gaúcha vivia na mesma época o processo inverso; após décadas de conflitos internos, o que envolveu a guerra civil entre republicanos e federalistas em 1893, os gaúchos se aglutinaram ao redor da liderança de Getúlio Vargas, que se elegeu governador do Estado do Rio Grande do Sul em 1927.

O desentendimento no coração do pacto entre as oligarquias mineira e paulista, tornou o cenário político ainda mais complexo e instável. A intransigência de Washington Luís empurrou os mineiros, os gaúchos e o PD a um acordo, fazendo com que se formasse uma frente política ampla de oposição ao PRP. Em julho de 1929, após longa negociação, as oposições lançaram a candidatura de Getúlio Vargas para a Presidência e de João Pessoa, então Presidente da Paraíba, para a Vice-Presidência. Estava formada a Aliança Liberal, que prometia a modernização do Estado brasileiro. A Aliança Liberal defendia a necessidade de incentivar a produção nacional em geral e não apenas do café, combatia os esquemas de valorização do produto em nome da ortodoxia financeira e, por isso mesmo, não discordava neste ponto da política de Washington Luís. Em meio a essas circunstâncias, estourou a crise de 1929 nos EUA, impactando em cheio a economia brasileira, deixando ainda mais frágeis a República do café. Surgiram, então, ainda mais conflitos entre os fazendeiros que exigiam do Governo Federal mais empenho na proteção do café, e a Presidência da República, que afirmava a impossibilidade de fazê-lo. A Aliança Liberal não conseguiu colher grandes dividendos políticos da crise e Júlio Prestes venceu as eleições realizadas em 01 de março de 1930. Os velhos recursos políticos, como o voto de cabresto, foram utilizados por ambos os lados. Porém, o PRP mostrou ser mais hábil nesse tipo de artimanha.

A aproximação entre os líderes políticos da Aliança Liberal e os Tenentes tinha agora plenas condições de se concretizar, o que acabou de fato acontecendo. A única exceção foi o líder tenente Luís Carlos Prestes, e que atuava na “Coluna Prestes” entre 1925 e 1927. Em maio de 1930, Prestes publicou um manifesto no qual se declarava socialista revolucionário e negava apoio às oligarquias dissidentes aglutinadas na Aliança Liberal. Prestes estava sendo bastante influenciado pelo Partido Comunista Brasileiro que foi fundado em 1922. Na sua visão, os grupos em conflito eram apenas a tradução dos interesses dos imperialismos britânico e norte-americano pelo controle da América Latina. Até meados de 1930, a conspiração revolucionária não se mostrava forte o suficiente até que, em 26 de Julho, João Pessoa foi assassinado em uma confeitaria no Recife por seu adversário político, João Dantas. A partir daí, a conspiração revolucionária se tornou mais forte.

O mapa da Revolução começou no início de outubro em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. No Nordeste, o movimento começou no dia 04 de outubro e teve o comando de Juarez Távora e o Estado da Paraíba como centro das operações. Rapidamente, a situação tornou-se favorável aos revolucionários. Uma junta militar, em nome do Exército e da Marinha, depôs o Presidente Washington Luís em 24 de outubro, e constituiu um governo provisório. Getúlio Vargas chegou ao Rio de Janeiro escoltado por 3 mil soldados gaúchos para ser empossado na Presidência da República em 03 de novembro. A nova situação política comandada por Getúlio Vargas precisou negociar com diversos interesses, dando início, aquilo que Bóris Fausto chamou de Estado de Compromisso…

 

Obrigado pessoal,

Bons estudos!