E o Fim Chegou…

Publicado: 30 de novembro de 2017 em E o Tio Patinhas?
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Ola pessoal!

Depois de 3 longos anos, finalizei o curso de Licenciatura em História pela Faculdade Estácio de Sá. Vou encerrando por aqui os meus trabalhos, e se você curtiu todos esses resumos aqui publicados, então você vai gostar deste curso que a Estácio fornece. Estudar História é sempre uma aventura. É entender como a sociedade foi se transformando no decorrer das Eras até chegar ao que nós somos nos dias de hoje – nosso modo de vestir, nosso modo de comer, nosso modo de falar, de pensar, de interagir… tudo isso faz parte da História! Não precisamos da máquina do tempo de Alexander, nem do DeLorean de Marty e Doc Brown, e muito menos da cabine telefônica de Bill e Ted. Basta apenas abrir um bom livro e explorar inúmeros registros presentes em nossa volta. Sabe aquela curiosidade que surge em você ao ver aquela foto bem antiga do seu tataravô no álbum de fotografias? Já é uma sementinha de um conhecimento histórico. Aquele desejo que te impulsiona a analisar, a pesquisar, a buscar por informações de um passado importante…. HISTÓRIA!

Enfim, vou ficando por aqui. Você tem autorização para imprimir todas as postagens deste blog, encadernar e deixar guardadinho na sua estante para futuras consultas (Até recomendo fazer isso! Vai saber até quando este blog continuará no ar). Mas não tem autorização para comercializar. Entendeu? Rum!

Para mais informações a respeito do curso de Licenciatura em História, Clique Aqui.

Também escrevi um romance intitulado Asmith, A Arqueira Destemida. Caso queira me ajudar adquirindo o livro, clique aqui.

Estou encerrando este blog, mas continuo realizando outros trabalhos aqui.

 

Desejo a todos vocês um excelente estudo, uma excelente aventura e sucessos! Sempre!

 

Deus os abençoe.

 

Marcell de Oliveira

Ola pessoal!

Nesta postagem, irei apresentar o resumo das aulas da disciplina Prática de Pesquisa em História do 6o período do curso de Licenciatura em História da Faculdade Estácio de Sá. Esta disciplina nos auxilia no desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso.

 

Resumo da Aula 01 – O Conhecimento Histórico Como Uma Ciência Especializada

O historiador Leopold von Ranke é considerado o pai da historiografia científica devido aos seus estudos que foram fundamentais para a transformação da História como uma disciplina autônoma. Os historiadores contemporâneos são herdeiros da proposta metodológica desenvolvida pela primeira geração do historicismo germânico em pelo menos um aspecto: a centralidade da análise da documentação, aquilo que Ranke chamou de “fontes”, para o estudo do passado. Os historicistas levam muito além a crítica documental e, ainda hoje, passado mais de 150 anos da primeira geração do historicismo germânico, a crítica documental continua a ser o elemento fundamental para a identidade científica histórica. Para o filósofo Paul Ricoeur, a documentação é uma espécie de “presença fictícia” do passado, o que faz com que a imaginação do historiador encontre limites. Por isso que todo trabalho de História precisa apresentar uma discussão específica a respeito do trato metodológico com a documentação.

A História como ciência especializada trata-se de uma possibilidade que não estava dada no conhecimento ocidental antes do século XVIII. É claro que a História já se constitui como prática intelectual desde a Antiguidade. Mas, até o século XIX, os estudos históricos não tinham uma identidade disciplinar específica. Mas o que mudou na experiência cultural da modernidade que permitiu a História como um campo disciplinar e autônomo? Podemos apontar a aceleração da temporalidade moderna, que fundou uma nova relação entre presente e passado. E a proposta de conhecimento moderno, que através do tratamento cartesiano (O Discurso do Método) é baseado no primado da especialização. Uma das principais características da modernidade é a aceleração do ritmo das mudanças sociais. Se na experiência histórica pré-moderna, na sociedade tradicional onde as instituições sociais se modificam mais lentamente, a relação entre passado e presente é caracterizada pela continuidade, pelas semelhanças. Nas sociedades modernas isso se transforma radicalmente, o que foi fundamental para a fundação da Ciência Histórica. Nesse sentido, são as demandas do tempo presente que condiciam e formatam o interesse pelo estudo do passado. No tipo da experiência cultural, a História é definida como um conhecimento pragmático e voltado a um exercício pedagógico moral e cívica.

Foi exatamente no século XVIII, quando as revoluções modernas, em particular a francesa, transformaram intensamente as instituições sociais e políticas vigentes que se inaugurou uma nova relação entre passado e presente. O passado não poderia ser mais utilizado como fonte de exemplos e de lições morais, já que passa a ser mais diferente do que semelhante quando comparado ao presente. O passado passa a ser pensado como um objeto de estudos que precisa ser conhecido em suas particularidades. Surge, então, a possibilidade de fundação de uma ciência especializada no estudo desse passado, o que aconteceu no século XIX nos quadros do historicismo germânico.

Os escritos filosóficos de René Descartes traduzem a concepção moderna de racionalidade científica. Descartes utiliza quase sempre a primeira pessoa do singular, o que se configura como uma espécie de reivindicação de sua autoridade sobre aquele estudo. Esta individualização é uma das grandes marcas da concepção moderna de ciência, na qual o cientista é um especialista em um determinado conjunto de saberes. Com o tempo, a concepção especializada de conhecimento foi ganhando força no século XIX, no momento do nascimento da maior parte dos campos científicos que hoje são fundamentais para a nossa cultura acadêmica. No século XIX havia duas tradições científicas: “Ciências Humanas” ou “Ciências do Espírito”, e “Ciências Duras” ou “Ciências Exatas”.

Wilhelm von Humboldt foi um dos principais historiadores envolvidos nos debates teórico-metodológicos da Ciência Histórica. Ele dialogou com a tradição filosófica representada por grandes autoridades como Aristóteles e Kant, e tentou definir o conhecimento histórico como uma ciência interpretativa baseada no princípio da subjetividade autoral. Por outro lado, Leopold Ranke defendeu a apropriação do conhecimento histórico a partir da proposta das “ciências duras” e, segundo ele, as fontes históricas são a única via de acesso do historiador à experiência utilizada; por isso, o pesquisador precisa se esforçar ao máximo para narrar da forma mais imparcial possível os eventos estudados.

 

Resumo da Aula 02 – O Projeto de Uma Ciência Histórica de Inspiração Sociológica

No século XX, o movimento historiográfico francês chamado “Escola dos Annales”, afirmou que a “História problema”, de cariz sociológico, era a melhor forma de produzir o conhecimento histórico. Segundo o professor Peter Burker, os historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre se conheceram na Universidade de Estrasburgo, e ali conviveram durante treze anos (1920 à 1933). Estes dois historiadores fundariam, em 1929, a Revue des Annales. A ideia inicial de criar um periódico de estudos históricos foi de Lucien Febvre, onde teve a ideia de fundar uma revista dedicada à História Econômica, que seria dirigida pelo historiador Henri Pirenne. Henri Pirenne foi cotado para assumir o cargo de editor chefe da revista, mas, por algum motivo, recusou. Marc Bloch e Lucien Febvre, então, tornaram-se os editores.

O primeiro título da revista, lançada em 1929, foi Annales d`histoire économique et sociale e tinha como modelo o periódico Annales de Géographie, de Vidal de la Blache. A revista pretendia exercer uma liderança intelectual nos campos da História Social e Econômica. Segundo o historiador François Dosse, o projeto de Marc Bloch e Lucien não deve ser reduzido a uma simples resposta dos historiadores à crise que explodiu de Walt Street em outubro de 1929, mas que já vinha se desenhando desde o término da Primeira Guerra Mundial. Esta crise está relacionada às novas questões que valorizam os aspectos econômicos e sociais, por sua vez mergulhados na deflação, na recessão e no desemprego. Todo o processo de cientifização da História envolveu, entre outras questões, uma ampla discussão teórico-metodológica na qual o movimento dos Annales foi buscar os elementos fundamentais do seu projeto historiográfico. Em um primeiro momento, as análises políticas e biografias de grandes líderes tinham a predileção da maioria dos historiadores. Mas, Michelet e Burckhardt tinham uma visão mais ampla da História do que os seguidores de Ranke. Burckhardt interpretava a história em que interagiam três forças – Estado, Religião e Cultura. Já Michelet defendia a história daqueles que sofreram, trabalharam, definharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofrimentos.

As críticas à historiografia política e biográfica também vieram da historiografia econômica, do Marxismo e da Sociologia. O paradigma historiográfico dos Annales teve grande capacidade de influenciar as pesquisas desenvolvidas em vários países. Os Reis taumaturgos, de 1924, foi um dos principais estudos de Marc Bloch. Seu tema é a crença compartilhada pelas sociedades inglesa e francesa da Idade Média, onde o toque dos reis era milagroso e capaz de curar doenças. Esta obra abriu caminho para os “historiadores das mentalidades”. O livro contribuía para a “psicologia religiosa”. Esta discussão sobre a psicologia da crença não era desenvolvida pelos historiadores ao longo da década de 1920, sendo mais comum entre antropólogos, psicólogos e sociólogos. A abordagem de Marc Bloch fundamentou a ênfase nas estruturas, nas coletividades e na longa duração, o que traduziu certo otimismo epistemológico característico para os modelos interpretativos modernos. Já Lucien Febvre elegeu o Renascimento e as reformas religiosas como seus principais temas de pesquisa. A biografia do reformador Martinho Lutero, por exemplo, não se trata de uma mera biografia, mas sim de uma tentativa de resolver um problema da relação entre o indivíduo e o grupo, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social.

No ano de 1956, quando Lucien Febvre morreu, marcou a ascensão definitiva de Fernand Braudel, administrador da Maison de Sciences de l`Homme, ao comando dos Annales. Para isso, houve uma disputa com Robert Mandrou, que também reivindicava a herança intelectual de Febvre. A relação dos dois herdeiros tornou-se harmoniosa e, em 1962, Mandrou se demitiu do cargo de secretário executivo da Revista. O principal trabalho de Braudel foi O Mediterrâneo. O Mediterrâneo é um livro de grandes dimensões para os padrões editoriais da época e é dividido em três partes, cada uma abordando o passado de uma forma diferente: a longa temporalidade da natureza; a média temporalidade das estruturas; e a curta temporalidade dos eventos. Braudel não abre mão da narrativa factual, e a sua preocupação é situar indivíduos e eventos em um contexto, em seu meio, mas ele os torna inteligíveis ao preço de revelar sua fundamental insignificância.

Claude Lévi-Strauss ganhou fama internacional em 1955, com o seu livro Tristes Trópicos, no qual o autor analisa a relação entre a América e a Europa, a partir das experiências de sua viagem ao Brasil. Segundo Lévi-Strauss, o historiador permanece no plano empírico e do observável, incapaz, portanto, de modelar e de ter acesso às estruturas profundas da sociedade. A diferença essencial entre a História e a Etnologia, ainda segundo Lévi-Strauss, não é nem o objeto, nem o objetivo. Ambas têm o mesmo objeto: a vida social, e o mesmo objetivo: uma melhor compreensão do homem. A História trata de expressões conscientes, e a Etnologia, das condições inconscientes da vida social.

O estruturalismo historiográfico foi, durante décadas, hegemônico no campo disciplinar da História. Porém, este cenário está se transformando nos últimos anos, quando os modelos estruturalistas vêm sendo esvaziados, enquanto outras propostas de análise, pós-estruturalistas, ganham cada vez mais força. Cada vez mais os objetos de pesquisa precisam ser recortados com precisão a partir de critérios de delimitação cronológica e geográfica. Por exemplo:

  1. Uma pesquisa sobre as forças armadas: Não é adequado uma pesquisa sobre a “História do Exército” ou sobre a “História do Exército Brasileiro”. O mais adequado poderia ser “História das relações entre o Exército e a política no Brasil ao longo da década de 1980”.
  2. Escravidão Africana no Brasil: Um bom exemplo seria propor uma “História das relações de parentesco no plantel de escravos no Vale de Paraíba na década de 1780”.

 

Resumo da Aula 03 – Os Marxismos e a Análise Histórica

O século XIX foi caracterizado pelo surgimento de alguns sistemas filosóficos e o marxismo foi um deles. Com a sua ênfase nas estruturas econômicas e produtivas, a historiografia marxista não se preocupa com a ação dos sujeitos ou com eventos isolados, que fez com que o materialismo histórico tivesse uma recepção relativamente boa por parte da história social francesa. Foi ao longo de 1840 que Karl Marx travou contato com leituras e pensadores que seriam fundamentais para o seu sistema filosófico; em Berlim, Marx conviveu com os discípulos de Hegel, que eram chamados de “jovens hegelianos” ou “hegelianos de esquerda”. Em Paris, ele conheceu os socialistas utópicos Proudhon e Fourier, e começou a amizade com Friedrich Engels. No ano de 1847, Marx e Engels, através dos diálogos sobre o Capitalismo, fundaram o Partido, ou a Liga (Bund), Comunista. Em 1852, Marx publicou o 18 Brumário de Napoleão Bonaparte, que foi um dos seus principais trabalhos enquadrados no gênero histórico. Na área da Economia, os trabalhos mais importantes foram: Manuscritos econômicos-filosóficos (1844), Crítica da economia política (1859) e O Capital (1876). Na área da Filosofia, destacam-se: Sagrada Família (1845), Ideologia Alemã (1846) e Miséria da Filosofia (1847).

O sistema filosófico de Karl Marx dialogou diretamente com o racionalismo. O racionalismo se fundamenta em dois princípios:

  1. a definição da razão como uma capacidade elementar do homem e
  2. o compromisso dessa capacidade racional com o conhecimento da verdade.

O marxismo pressupõe um fim ideal para o sistema capitalista de produção, que seria, de acordo com os prognósticos de Karl Marx, o momento da revolução do proletariado, quando os trabalhadores, agindo como um sujeito coletivo da história e impulsionados por uma identidade de classe, colocariam fim à opressão burguesa. O momento da revolução era o desenlace óbvio do capitalismo por conta da contradição que é inerente ao sistema, ou seja, a luta entre as classes. Para Marx, os trabalhadores somente serão capazes de colocar fim ao capitalismo e salvar a modernidade se, e somente se, tiverem consciência da sua situação. Por isso, é a razão que funciona como uma espécie de “messias laico” na teoria marxista. O marxismo se desdobrou em várias correntes de análise, tornando essa tradição bastante complexa e diversificada.

Lenin, o principal representante do Partido Comunista da URSS, interpretou as obras de Karl Marx priorizando a dimensão político-revolucionário do materialismo histórico, e é original em diversos aspectos; ao contrário da defesa do proletariado como o sujeito coletivo responsável pela destruição do capitalismo, Lenin enfatizou o papel do indivíduo, do intelectual revolucionário e do partido como a vanguarda do proletariado. Já a interpretação desenvolvida por Georg Lukács, conhecida como “marxismo ocidental”, pois não teve muita influência do leninismo da URSS, alega que a identidade de classe não precisa traduzir a origem de classe no sujeito. Nesse sentido, o intelectual burguês pode se identificar com a causa do proletariado. Louis Althusser, um dos marxistas mais influentes do século XX, priorizou o lado científico do materialismo histórico, buscando o diálogo dessa corrente de pensamento com os estruturalismos então em voga nas ciências humanas. Ele se afastou dos primeiros escritos de Marx para visar a capacidade científica dessa corrente de pensamento. E, por último, temos a Escola de Frankfurt que é um grupo de intelectuais que se reuniu em torno do Instituto de Pesquisas Sociais fundado, em Frankfurt, em 1924. Theodor Adorno e Max Horkheimer, principais líderes do movimento, escreveram o tratado A Dialética do Conhecimento, em 1947. Os pensadores desta Escola procuraram desenvolver uma teoria crítica do conhecimento e da sociedade inspirados na obra de Marx e em suas raízes hegelianas, relacionando o marxismo com a tradição crítica moderna. Tais intelectuais formularam uma crítica a racionalidade técnica e propuseram uma racionalidade emancipatória. A indústria cultural torna-se a principal manifestação dessa racionalidade técnica que transforma tudo em objeto de consumo.

A historiografia brasileira também oferece exemplos de interpretação marxista, como os estudos de Caio Prado Jr., Jacob Gorender e Nelson Werneck Sodré. Examinar tais estudos é fundamental para qualquer historiador brasileiro que tenha o interesse de se aproximar do materialismo histórico.

 

Resumo da Aula 04 – A Derrocada dos Macromodelos e a Proposta do Giro Linguístico

A partir da década de 1960, ganhou fôlego, dentro das ciências humanas, o interesse pela análise da linguagem científica. Diante da crise do otimismo científico, alguns pesquisadores dialogaram diretamente com a tradição dos estudos retóricos, e passaram a manifestar interesse pela construção das interpretações científicas, sem estarem propriamente preocupados com o problema da verdade e da objetividade científica. No campo da ciência história, esta questão foi proposta pelo livro Meta História de Hayden White, e publicado em 1962. White não reivindica um estatuto científico para História, mas sim destaca a dimensão narrativa desse conhecimento. O livro A Escrita da História, de Michel de Certeau, publicado em 1982, mostrou que o problema da linguagem estava na agenda dos historiadores profissionais. Tanto White como Certeau apontam para o clima de desconfiança que caracterizou o campo científico da História ao longo do século XX. Os historiadores passaram a se preocupar com a construção da sua linguagem científica, ampliando, portanto, sua abordagem para além da pretensão de escrever sobre eventos passados.

Se o século XIX foi o momento da euforia científica e da crença de que todos os problemas da humanidade seriam resolvidos pela capacidade racional, o século XX, com as experiências das guerras mundiais e da mobilização da tecnologia científica para a destruição, frustrou os prognósticos otimistas do século XIX, o que possibilitou o desenvolvimento de perspectivas céticas em relação à atividade científica. O campo de produção do conhecimento histórico não ficou indiferente à crise do racionalismo científico moderno. Surgiram outras propostas investigativas de modelos pós-estruturalistas. Jürgen Habernas, herdeiro da Escola de Frankfurt, levou em conta os interesses da humanidade no processo do conhecimento científico. Neste sentido, Habernas levantou a seguinte tipologização dos interesses: interesses técnicos; interesses produtivos; e interesses emancipatórios ou libertadores. E apresentou a possibilidade de examinar as suas condições de produção, inspirando importantes historiadores como Hayden White, Michel de Certeau, Fançois Hartog e Frank Ankersmith.

Um dos aspectos mais importantes do giro linguístico, na historiografia, foi a instrumentalização da retórica para o exame de textos historiográficos. Aristóteles é a principal referência da retórica clássica para os debates linguísticos caros à historiografia contemporânea. Para Aristóteles, a retórica é composta de três partes fundamentais:

  1. A invenção, marcada pelo uso de silogismos e entimemas;
  2. A disposição, comprometida com a organização dos argumentos em um plano narrativo;
  3. A elocução, relacionada ao estilo no qual o discurso é falado ou narrado;

O silogismo refere-se às verdades necessárias e inquestionáveis que dispensam os maiores reforços retóricos já que a sua constatação é óbvia. Já a entimema refere-se às verdades que são prováveis, mas que não são óbvias e, por isso, a sua validade depende do esforço retórico. Ao produzir um texto, o historiador põe em prática uma série de procedimentos científicos que têm o objetivo de construir uma trama discursiva e apresentar uma determinada representação de um evento passado como verdadeira. A proposta do giro linguístico é justamente examinar a construção dessa representação e analisar os exercícios persuasivos mobilizados pelos historiadores para conferir sensação de verdade aos textos, sem com isso negar a validade heurística da historiografia.

A proposta dos estudos historiográficos chegou ao Brasil no final dos anos 1980, tendo Manoel Luiz Salgado Guimarães como um dos seus principais fundadores. Em 1988, o autor publicou o artigo Nação e civilização nos trópicos, na Revista de Estudos Históricos da Fundação Getúlio Vargas. Ao longo dos últimos anos, a pesquisa historiográfica se fortaleceu bastante no Brasil, formando, inclusive, uma associação de historiadores especializados nessa temática. Autores como Rebeca Gontijo, Valdei Lopes Araújo, Maria da Glória Oliveira, Temístocles César Jr. e Durval Muniz de Albuquerque Jr. estão entre os mais importantes representantes dos estudos historiográficos brasileiros.

 

Resumo da Aula 05 – A Derrocada dos Macromodelos e a Proposta da Micro-História

Clifford Geertz, antropólogo norte-americano, desenvolveu uma discussão relacionada à redução do conceito de cultura e aos consequentes ajustes no exercício da análise antropológica. Geertz critica as grandes abstrações estruturalistas e defende uma análise mais próxima da materialidade dos fenômenos, um estudo antropológico mais circunscrito e delimitado geográfico e cronologicamente. Ainda ele, a cultura não é uma estrutura que serve como objeto de conhecimento científico, mas sim um entremeado de valores mobilizados circunstancialmente. Pode-se dizer que Geertz propôs o redimensionamento das pretensões da análise antropológica; não mais a estrutura, a coletividade e aquilo que é comum, mas sim o evento, o particular e aquilo que é único. O princípio da análise científica não é descartado por Geertz, mas sim redimensionado.

Na década de 1970, um grupo de historiadores italianos desenvolveu um programa de pesquisa que em muitos aspectos se opôs ao estruturalismo da História Social francesa desenvolvida pelos Annales. Ao rejeitar as abordagens estruturalistas, os micro-historiadores italianos não questionaram o estatuto científico da História, mas sim tentaram desenvolver uma proposta de análise baseada em outro critério de cientificidade. Esse esforço teórico foi desenvolvido no livro Mitos, Emblemas, Sinais, escrito por Carlos Guinzburg e publicado em 1986. Trata-se do “paradigma indiciário” que Carlos Guinzburg afirma ser o mais adequado para o atual estágio da historiografia pós-estruturalista. Guinzburg também apresenta um outro modelo científico chamado “galileana”. A ciência galileana tinha uma natureza totalmente diversa, que poderia adotar o lema escolástico do individum est ineffabile, do que é individual não se pode falar. O argumento do autor é que ambos os modelos, o galileano e o indiciário, fazem parte do repertório científico ocidental. Porém, o modelo galileano era inadequado, pois era uma disciplina qualitativa, que tem por objeto casos, situações e documentos individuais, enquanto individuais, e justamente por isso alcançam resultados que têm uma margem ineliminável de causalidade.

Diante dessa crise dos macromodelos, Ginzburg propõe uma saída semelhante com aquela desenvolvida por Geetz: o ceticismo controlado dentro dos valores científicos ocidentais e a proposição de uma abordagem científica mais empírica e menos pretensiosa. O autor defende a ideia de que a crise que o campo científico dos historiadores estava vivenciando naquele momento não colocava em risco a identidade científica da História, mas sim sua definição como uma ciência estruturalista. Ginzburg afirma ser possível encontrar nas discussões artísticas e científicas do século XIX, elementos que nos permitem visualizar a importância do modelo científico indiciário, que ele alega ser uma alternativa ao modelo galileano. O autor destaca três elementos:

  1. o método morelliano de identificação de falsificação em obras de arte;
  2. os romances de Conan Doyle, especialmente a ação do personagem Sherlock Holmes;
  3. os primeiros estudos de Freud;

Ginzburg defende a adoção de uma identidade epistemológica para a história, que não seria aquela que caracterizava o estruturalismo da história social francesa, nem tampouco a dimensão retórica, considerada exagerada, proposta por Hayden White. É como se o autor estivesse dizendo que a história é uma ciência, mas não uma ciência das totalidades, e sim dos indícios, das experiências e das ações individuais. Dessa forma, sem se afastar da tradição científica, mas buscando se afastar no estruturalismo da história social francesa, os micro-historiadores italianos desenvolveram uma perspectiva historiográfica de cariz monográfico que hoje funciona como uma espécie de cânone metodológico para os historiadores profissionais. No atual estágio dessa história, o estruturalismo da História Social desenvolvida por autores como Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel não é mais o fundamento do modelo defendido pelo grupo.

Os anos de crise mundial foram um momento de revisão brutal, que anunciava inclusive as revisões suaves das quais em 1968 havia sido o sintoma generalizado nas sociedades ocidentais. O progresso deixava de ser uma certeza ao mesmo tempo em que se começava a duvidar da capacidade indefinida dessas sociedades para resolver seus problemas latentes (Revel; 2000,p. 14).

Revel informa que a Micro-História nasceu dos debates desenvolvidos por um pequeno grupo de historiadores reunidos em torno da revista Quaderni Storici, que questionaram o rendimento das macroanálises historiográficas. As obras O Queijo e os Vermes, de Carlos Ginzburg, e Herança Imaterial, de Giovanni Levi, são considerados dois clássicos da Micro-História.

 

Resumo da Aula 06 – A Derrocada dos Macromodelos e a Proposta da “Nova” História Cultural

As discussões teóricas que passaram a ser cada vez mais frequentes no campo disciplinar da História após a década de 1970 chegaram também aos estados culturais. Após o final de 1980, quando surgiram os primeiros textos da historiadora norte-americana Lynn Hunt, os estudos sobre História Cultural passaram a ser menos abrangentes e mais atentos às práticas sociais. A “Nova” História Cultural, que também ficou conhecido como “História das Mentalidades”, foi apontada por Jacques Le Goff no texto As mentalidades: uma história ambígua. O projeto da História das Mentalidades era apagar ao máximo as diferenças e buscar categorias compartilhadas pelos membros de uma determinada sociedade. Em seguida, Philippe Ariès, um outro representante do projeto historiográfico das mentalidades, afirma que essas particularidades são diluídas e quase imperceptíveis da longa duração, que é por definição o recorte cronológico privilegiado pela História das Mentalidades. Outros representantes da História das Mentalidades como Robert Mandrou, afirmaram que o essencial desse modelo analítico estava no “nó que liga as distâncias entre as maneiras de pensar e de sentir e as diferenças sociais” (1961, p. 46). É justamente a dimensão ampla dessa abordagem o alvo das críticas dos autores que começaram a formular o programa da “nova” História Cultural no final dos anos 1990.

A partir de então, cada vez mais historiadores interessados nesse tipo de temática passaram a se distanciar da proposta analítica das mentalidades e a se aproximar dos estudos mais atentos às práticas e representações específicas. Para Roger Chartier, essa nova História Cultural levou os historiadores a refletir sobre as suas próprias práticas e, em particular, sobre as escolhas conscientes ou as determinações ignoradas que comandavam o seu modo de construir as narrativas e as análises históricas. Para Lynn Hunt, a “nova” História Cultural possui uma característica fundamental de centrar sua atenção sobre as linguagens, as representações e as práticas. A nova História Cultural propõe um modo inédito de compreender as relações entre as formas simbólicas e o mundo social.

A “nova” História Cultural parte o princípio de que toda prática produz uma representação, que pode ser letrada, artística, religiosa, etc. Ao distinguir as práticas das representações, a “nova” História Cultural, de alguma forma, traduz o ceticismo característico do cenário intelectual desse período. A historiografia seria então um estudo das representações sociais, buscando sempre entender o que essas representações têm de conflitivas e como isso traduz a dinâmica imprevisível das experiências. Redimensionada para o plano do indivíduo ou da comunidade, o conceito de representação foi pensando como o conjunto de mecanismos através do qual os indivíduos ou grupos atribuem sentido aos seus atos e aos atos dos outros.

Os bons livros tidos como exemplos para a “nova” História Cultural são: Em Busca da Oralidade Perdida de Andrea Daher, O Espelho de Heródoto de François Hartog, e As Armas e as Letras de Rodrigo Perez de Oliveira.

 

Resumo da Aula 07 – A Derrocada dos Macromodelos e a Proposta da “Nova” História Politica

Durante as décadas em que a proposta da História Social foi hegemônica, as investigações interessadas nos fatos políticos e nas biografias foram consideradas menos importantes pelas universidades francesas. Esse quadro vem se transformando desde a década de 1980, quando, na esteira da crise dos paradigmas estruturalistas, as perspectivas política e biográfica foram retomadas pelos historiadores profissionais. Após a década de 1980, um grupo de estudiosos como René Remond, Beatriz Sarlo, Serge Berstein e Michel Winock, começou a trazer para a pauta dos estudos históricos, os eventos políticos e as trajetórias biográficas. Por outro lado, tais temas não faziam parte do cânone historiográfico da História Social francesa proposta pela ‘Escola’ dos Annales. De acordo com René Remond, a história política de hoje não pode negar que buscou no passado da ciência histórica alguns exemplos daquilo que precisava ser retomado. Ao formular a reflexão nesses termos, Remond chama atenção para o fato de que a Ciência Histórica é marcada pela presença dos estudos sobre os fenômenos políticos.

O nome Charles Seignobos tem destaque nos estudos a respeito da História Política desenvolvida no século XIX. Para Remond, Seignobos foi o primeiro a se dar conta de dois fatos importantes que foram determinantes nos primórdios da sociologia eleitoral: a diversidade dos “temperamentos” políticos regionais e a profundidade do seu enraizamento. Remond apresenta mais uma advertência: o cuidado com o risco de supor que a interpretação que os Annales propuseram a respeito da Ciência Histórica é a única possível.

André Siegfried é considerado por muitos o pai da geografia eleitoral. Para Siegfried, é no comportamento politico dos eleitores e dos candidatos que é possível compreender os valores que condicionam o funcionamento do poder, o que para o autor significava também o funcionamento do Estado. Essa perspectiva priorizava o exame das disputas pelas posições de poder na estrutura do Estado, que no século XIX havia se consolidado como o fundamento dos nacionalismos. Para Remond, a historiografia precisa ser pensada a partir do diálogo entre as interrogações internas à comunidade dos historiadores profissionais e as inquietações que caracterizam a realidade na qual o conhecimento histórico é produzido. Remond também afirma que as duas Grandes Guerras provocaram o aumento da necessidade de intervenção do Estado no cotidiano das sociedades e que isso também provocou a valorização do elemento político. Já os estudos de Michel Foucault a respeito do poder e das suas diversas formas de atuação e manifestação, foram fundamentais para o desenvolvimento da “nova” História Política. A principal contribuição de Foucault para a formulação teórica da “nova” História Política foi:

a complexificação do conceito de poder, que se tornou plural e diversificado o suficiente para não mais se enquadrar apenas na esfera de atuação do Estado, como afirmavam os historiadores do século XIX.

No século XIX, segundo François Dosse, a escrita biográfica e a História Política eram abordagens historiográficas tão próximas que chegavam a se confundir uma com a outra. O tempo passou e esse tipo de pesquisa foi se enfraquecendo na medida em que se fortalecia o estruturalismo da História Social francesa, sendo revitalizado a partir da década de 1980. Mas é importante que você saiba que as pesquisas biográficas vivem em um momento de intenso fortalecimento, podendo servir, inclusive, como um possível tema para o seu TCC. O sociólogo Pierre Bourdieu tinha uma certa tendência a negar a perspectiva biográfica, criticando especialmente a biografia que Jean Paul Sartre escreveu sobre a vida de Gustav Flaubert. Para Bourdieu, os biógrafos incorrem no erro de supor que a trajetória individual pode ser analisada de forma isolada das outras instâncias da vida social, como se fosse possível ao sujeito viver só e sem nenhum tipo de interação com o mundo.

Para bons exemplos de práticas de pesquisa que dialogaram com a perspectiva da História Política, são os livros: Capítulos de História do Império de Sérgio Buarque de Holanda, e Duque de Caxias de Adriana Barreto de Souza. O bom exercício historiográfico, que se materializará na produção do seu TCC, demanda um grande esforço de leitura, para que os procedimentos da pesquisa se tornem claros para o autor.

 

Resumo da Aula 08 – A Historiografia Pós-Moderna em Perspectiva

O pós-modernismo é um daqueles conceitos que padecem de um mal-estar quase ontológico, o que torna a sua definição uma tarefa árdua que alguns afirmam ser impossível. Diante disso, o passado, pensado como uma experiência concreta, parece perder espaço, o que possibilitou o fortalecimento da dimensão interpretativa da representação historiográfica. Assim, a historiografia especializada tornou-se uma grande arena de conflitos entre interpretações diferentes e por vezes rivais. Segundo François Lyotard, o aspecto mais fundamental da condição pós-moderna é a morte dos centros, o colapso das propostas racionalistas que se ancoravam no princípio de que de fato era possível conhecer a realidade e que a realidade era um dado objetivo, com existência própria e independente da cognição humano, sendo, por isso, passível de ser conhecida. A condição pós-moderna se fundamenta na incredulidade diante das metanarrativas modernas. Segundo Keith Jenkins, a definição do “pós-modernismo” é particularmente difícil devido a um dos princípios fundamentais que caracterizam essa experiência cultural: a definição da experiência como algo líquido, incerto e, no limite, impossível de ser objetivada. Já Durval Muniz, diz que o simbolismo do século XIX se condensa todo o fracasso da modernidade, a falência do humanismo e o fim do sonho iluminista. E, por fim, Franklin Rudolf Ankersmit acredita em dois aspectos desta superprodução não intencional. Em primeiro lugar, a discussão sobre a obra de Hobbes torna-se uma discussão sobre a interpretação da obra de Hobbes, em vez de ser uma discussão sobre a obra em si. E, em segundo lugar, por evidentemente prestar-se a múltiplas interpretações, o texto original de Hobbes perdeu sua capacidade de funcionar como árbitro no debate dentro da História.

O historiador Pierre Nora alega que nunca antes na História os homens demonstraram tanto interesse pelo passado, o que traduz a combinação da curiosidade com o medo da perda. Diante do grande interesse pelo passado, como manter a identidade epistemológica da história quando existe uma multiplicidade de vozes interessadas em falar algo sobre o passado? Quais recursos precisam ser mobilizados pelos historiadores visando qualificar o resultado do seu trabalho como o produto de uma ação especializada? Para Durval Muniz, por mais que o historiador também utilize da imaginação no trato com a documentação e com a bibliografia secundária, ele jamais pode ter a mesma liberdade de especulação que o literato. Para Jorn Rusen, por mais que existam hoje diferentes formas de tratar o passado e que essa multiplicidade seja legítima, é importante que a comunidade profissional dos historiadores continue tentando apresentar ao público uma apropriação técnica e especializada das experiências pretéritas.

Quando o historiador apresenta seu trabalho, ele se coloca em diálogo com uma comunidade científica. Por isso, é necessário o intenso exercício de leitura da produção bibliográfica, que se torna cada vez mais extensa em todos os ramos da pesquisa histórica. Não existe um “ponto zero” do conhecimento; no limite, todo trabalho historiográfico é coletivo em alguma medida, já que o tempo todo precisamos nos remeter a outros trabalhos, sempre com o esforço de conversar com eles.

 

Resumo da Aula 09 – O Cariz Monográfico das Pesquisas Históricas na Pós-Modernidade

Toda pesquisa precisa ser prefigurada por um projeto, que é onde o historiador organiza seu trabalho, escolhe seu tema de estudos, delimita o problema que será abordado, dialoga com a bibliografia especializada e define um tratamento metodológico para a documentação disponível. O século XVIII pode ser pensado como a matriz dos estruturalismos que dominaram as ciências humanas do final do século XIX até a segunda metade do século XX. “A História é considerada a construção e realização da subjetividade universal, um processo racional, inteligível. Seu desfecho é previsível: a vitória da razão, que governa o mundo” (Reis, 2006, p. 68). Neste sentido, a ambição estruturalista em conhecer a totalidade da realidade somente tem sentido na modernidade científica, que foi caracterizada pela definição do homem como um ser naturalmente racional e capaz de conhecer o mundo que o cerca.

A expressão teria dois sentidos: “História de Tudo” e “História de Todo”. No primeiro sentido, seria a consideração de que tudo é História, não havendo mais regiões interditadas ao historiador. No segundo sentido, seria a ambição de apreender o todo de uma época, uma abordagem holística de uma sociedade, o que levaria, talvez, a uma contradição com a História-problema. Portanto, no atual estágio do campo histórico, as abordagens totalizantes não são consideradas apropriadas pela maioria dos historiadores. É ponto pacífico entre os historiadores que nos últimos anos a pesquisa histórica passou por um processo de especialização temática. O historiador brasileiro José D’Assunção escreveu o livro O Campo da História, em que analisa essa fragmentação e seus desdobramentos na prática profissional do historiador. Para François Dosse, o instante da fragmentação pode ser situado em algum momento da década de 1980, quando a fragmentação do campo histórico tornou-se notório para todos os seus integrantes. Já Michel Vovelle, defendeu uma historiografia comprometida com as grandes sínteses. Pois, ainda ele, subordinar o conhecimento histórico às historietas e curiosidades é o maior perigo que hoje se coloca àqueles que praticam profissionalmente esse tipo de atividade. Vovelle também dizia que o fundamento da especialização profissional está justamente na síntese, na capacidade do historiador em conseguir dizer algo com o seu trabalho; de dizer algo sobre a sociedade, sobre as pessoas e sobre o tempo (1989, p. 143).

O historiador brasileiro Ciro Cardoso ataca as propostas historiográficas que ele chama, pejorativamente, de “pós-modernos”, acusando-as de serem frágeis do ponto de vista epistemológico e de enfraquecerem a identidade científica da História. Já o historiador norte-americano Jack Hexter, um crítico da História Total, acusa de ser impreciso e vago. Para ele, uma história global jamais atingiu a articulação do real que pretendia. Era mais uma reunião colossal de dados e informações, uma superposição de temas incontáveis do que uma integração do real. Já Michel Foucault, analisou a História Total e afirmou que o seu projeto é de restituir o conjunto da civilização, do princípio de uma sociedade, da lei que dá conta de suas coesões, do “rosto de uma época”. Uma proposta que traduz com perfeição os ânimos epistemológicos dos homens modernos. Para Jean Louis Flandrin, a História Total corre o risco de ficar limitado às abstrações que têm mais a ver com as especulações teóricas dos historiadores do que com as práticas sociais dos atores históricos.

Todo texto historiográfico precisa ser pensado como o produto final de um intenso trabalho de pesquisa, que é sempre motivado pelo interesse em conhecer certo aspecto da realidade passada. Como o alcance da pesquisa é sempre limitado, o historiador precisa se esforçar para delimitar um conjunto de experiências e propor uma interrogação sobre elas. Esta interrogação é o problema, e o problema é a pergunta que motiva o historiador ao esforço da pesquisa. Uma das principais transformações da transição da História Total para a História Fragmentada foi justamente a maior delimitação na formulação dos problemas.

 

Resumo da Aula 10 – O Projeto de Pesquisa Como o Primeiro Passo da Operação Historiográfica

Todo trabalho historiográfico é produto de um intenso exercício de pesquisa, o que envolve, entre outras coisas, a delimitação de um tema e de um problema, a análise da bibliografia especializada e a redação do texto. Para que tais etapas sejam concluídas, é necessário o planejamento, que se materializa em um projeto de pesquisa. O projeto nada mais é do que um horizonte que precisa ser maleável o suficiente para se acomodar aos imprevistos da caminhada do pesquisador, que podem se manifestar na indisponibilidade de alguma documentação ou na insuficiência do tempo previsto para a conclusão do trabalho. Os projetos de pesquisa podem ter vários formatos e serem compostos por diversas nomenclaturas.

É importante que o projeto seja constituído por cinco partes:

  • Introdução: É o momento onde o pesquisador apresenta o problema da sua pesquisa, ou seja, o objeto de estudos que será desenvolvido;
  • Objetivos e Hipóteses: Para que fazer? Onde quero chegar?;
  • Quadro Teórico: É o lugar onde o pesquisador analisa algumas abordagens que o ajudam a pensar de forma mais abstrata sobre o seu objeto de estudo;
  • Metodologia e Fontes: É onde o pesquisador define seu trabalho como pertencente ao gênero histórico. É necessário de uma sensibilidade para desenvolver uma metodologia adequada ao seu problema e aos documentos disponíveis. O termo correto é exatamente este: desenvolver;
  • Bibliografias: É a parte mais simples do projeto. Informar as fontes consultadas: livros, revistas, sites, etc. Logicamente seguindo as normas da ABNT;

 

Tenha um ótimo TCC, pessoal.

 

Marcell

Ola pessoal!

Nesta postagem, irei apresentar o resumo das aulas da disciplina Museologia do 6o período do curso de Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – A Museologia e o Seu Campo de Estudo

A palavra Museologia é formada por duas expressões gregas: museon (lugar das musas) e logos (estudo ou reflexão através da sensibilidade e razão). A origem da palavra museu – o “lugar das musas” -, é onde os objetos eleitos como sendo os melhores representantes da sua espécie ficam guardados para serem apresentados para as pessoas apreciarem as suas qualidades e refletir sobre o seu significado. O objetivo maior da Museologia é o estudo do “fato museológico”, isso é, o estudo das relações sensíveis que se estabeleceram entre as pessoas e os objetos apresentados em um cenário expositivo. Entretanto, a Museologia por muito tempo foi considerada como uma disciplina que estudava exclusivamente as práticas desenvolvidas no interior dessas instituições. Mas, a partir da década de 1970, tal modelo passou a ser questionado passando a defini-la como uma ciência social que estuda os objetos de museu como fontes de conhecimento. Esta percepção do objeto como fonte de saber e de reflexão produz uma importante diferença no momento de selecioná-lo para integrar um acervo de museu, pois existem vários tipos de conhecimento conforme o valor que lhes é atribuído, e também por “quem” lhes atribui este valor. Para “quem” estes objetos podem ter significado? Que tipo de conhecimento o estudo desses objetos pode produzir? E que tipo de reflexão poderá ser feita?

Atualmente, quando a ciência museológica seleciona objetos para integrar um acervo, o faz pelo seu valor enquanto fontes de conhecimento e questionamento, isso é, “percebendo” a sua capacidade de fazer as pessoas refletirem sobre as suas realidades anteriores e atuais quando elas se deparam com eles. Assim, a Museologia é uma ciência da informação, na medida em que seleciona, conserva, ordena e investiga as informações contidas nos objetos e acervos museológicos. E, também, uma ciência social aplicada por realizar pesquisas sobre tais informações e divulga-las para o público na forma de conhecimento através de exposições. Os museus só passam a existir quando o homem adquire a consciência de seus patrimônios natural e cultural. Assim que a consciência dessas práticas tem início, começa a se definir a identidade dos grupos humanos em todos os tempos e lugares. E a partir daí que a humanidade passa a construir esses espaços chamados de museus e os utiliza para preservar esse patrimônio, isto é, para preservar seu legado histórico, ecológico, artístico e cultural. Então, a função primordial dos museus é: selecionar, guardar, conservar, pesquisar e divulgar tudo aquilo que seja eleito patrimônio.

O patrimônio natural se constitui no espaço físico onde um grupo humano se instala e vive. O patrimônio cultural nos objetos materiais (tangíveis) que produz para viver e também nas suas criações imateriais (intangíveis). Essas criações imateriais se baseiam nas práticas que o ser humano constrói para compreender o mundo em que vive e se reconhecer como um grupo unido, como, por exemplo, o folclore, a gastronomia, a língua, a mitologia, entre outros. A natureza onde nascem as águas, mares, rios e florestas, onde produzem alimentos, são espaços importantes para a vida das pessoas. Do mesmo modo são as cidades, os bairros, as praças e os prédios construídos para as pessoas viverem e se utilizarem deles. São criações materiais.

O campo de estudo da Museologia é a investigação da instituição “museu”, dos acervos nela contidos e das interações desses acervos com as realidades dos vários grupos humanos. Em um amplo universal, podemos destacar: a pintura, a escultura, a arquitetura, a numismática (moedas), os meios de transporte, a armaria, a indumentária (vestuário e joalheria), a heráldica (brasões), o mobiliário, as condecorações, a tapeçaria, os utensílios domésticos, prataria e ourivesaria, os acervos religiosos, as danças, a literatura, o teatro, o folclore, a culinária típica e várias outras formas de expressão que o homem cria para identificar-se e organizar-se em sociedade. Todos esses conhecimentos são investigados em uma perspectiva sócio-histórica e aplicados pela ciência museológica através da museografia, da expografia, da conservação e restauração, dos estudos de público e da pedagoga museal. Existem vários tipos de museus conforme os acervos que possuem. Para isso, a Museologia interage com várias outras disciplinas. A pesquisa museológica abrange o amplo universo das expressões artísticas e, também, se relaciona intimamente com o campo das ciências humanas, a Antropologia, a Arqueologia, a Ciência Politica, entre outros. Há ainda uma relação próxima com as ciências exatas – a Física e a Matemática – e com as ciências biológicas e da terra, como a Medicina, a Astronomia e a Química. A Museologia engloba vários campos do saber criando elos para produzir conhecimento a partir de uma diversidade de informações contidas nos seus acervos.

 

Resumo da Aula 02 – Histórico da Museologia no Mundo e no Brasil

A palavra museu teve origem na antiga Grécia. Museion era o nome dado aos templos das musas, que representavam os ramos das artes e das ciências. Eram locais reservados para debates filosóficos e estudos artísticos, científicos e literários. Mas, com o passar do tempo, a ideia de museu foi adquirindo novos significados, até que, no século XV, colecionar objetos virou uma mania em toda a Europa. As pessoas importantes tinham um costume em ter um “gabinete de curiosidades” em suas casas, para exibir objetos raros e exóticos como prova de sua riqueza e poder. Com a expansão das navegações para o oriente e para o novo mundo, essas coleções passaram a ser enriquecidas com obras de arte, artefatos científicos e outros objetos provenientes das Américas e da Ásia, adquiridos pela nobreza e pela burguesia ascendente. Além de objetos, tais coleções também passaram a abrigar espécimes da natureza (animais, plantas e minerais raros e exóticos), formando as primeiras coleções científicas criadas por estudiosos que buscavam reproduzir o ambiente natural de espécies vindas de terras distantes. Por outro lado, os gabinetes de curiosidades eram adquiridos mais pelo prazer de colecionar e demonstrar poder do que para servir como elementos de pesquisas. Não havia um critério científico na formação dessas coleções. Foi entre os séculos XV e XVI que surgiram as primeiras coleções organizadas para formar acervos de instituições parecidas com as que hoje conhecemos como museus. Mas foi somente no final do século XIX que surgiu, na Inglaterra, uma instituição criada para essa finalidade: o Museu de História Natural de Londres. E o primeiro a classificar os objetos por classes foi Carlos Lineu, criador do método de classificação científica. A partir de então, as coleções passaram a ser usadas também para a pesquisa, e os antigos gabinetes transformaram-se em museus, tal como hoje são conhecidos. Contudo, tais instituições não eram abertas para o público, apenas para estudiosos e membros de sociedades científicas.

Em 1753, surgiu o Museu Britânico em Londres (Inglaterra). Entre 1750 e 1773 o Museu do Louvre, em Paris (França) e, em 1783, o Museu Belvedere em Viena (Áustria). Mas somente no final do século XVIII, na França, foi permitido ao público ter acesso a essas instituições, marcando o surgimento dos primeiros museus nacionais. Em 1808 surgiu o Museu Real dos Países Baixos (Amsterdã, Holanda). Em 1810, o Altes Museum (Berlim, Alemanha). Em 1819, o Museu do Prado (Madri, Espanha). E em 1852, o Museu Hermitage (São Petersburgo, Rússia). Criados dentro do espírito nacionalista da época, tais museus tinham como função formar cidadãos através do conhecimento do seu passado, e participarem de maneira decisiva na construção dos Estados nacionais emergentes e das nacionalidades. Durante o século XIX, várias expedições coloniais recolhiam espécimes da flora e da fauna, e assim foram se formando as coleções de Mineralogia, Botânica, Zoologia, Etnografia e Arqueologia. Ainda em 1870, surge o Museu Metropolitano de Nova Iorque (EUA) com um perfil mais pedagógico, e serviu de modelo para outros museus norte-americanos e, também, influenciando a ação de museus latino-americanos, como MASP (Museu de Arte de São Paulo) e o Museu de Antropologia da Cidade do México.

No Brasil, a primeira instituição museológica surgiu no início do século XIX. O Museu Real, criado por D. João VI, no Rio de Janeiro, em 1818, veio a ser o atual Museu Nacional. De início, seu acervo era composto por uma coleção de história natural doada pelo próprio príncipe. Em seguida, seu acervo foi enriquecido por uma importante coleção de Egiptologia adquirida por D. Pedro I. Contudo, o Museu Real manteve um perfil colecionista e, somente no final do século XIX, adquiriu um caráter científico. Ainda no Brasil, em 1884 foi criado o Museu do Exército e, em 1868, o Museu da Marinha. Depois foram criados o Museu Paranaense (1876) e o Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (1894). Em seguida vieram os museus etnográficos: o Paraense Emílio Goeldi (1866) e o Museu Paulista (1894), atualmente Museu do Ipiranga. As pesquisas desenvolvidas por estes museus apoiavam-se nas teorias darwinistas, a partir da qual eram interpretadas as origens e a evolução das espécies e da sociedade, que mais tarde foi a base da Antropologia. Tanto no Brasil quanto no mundo, os museus se constituíram baseado na história e na cultura do seu país e, por outro lado, na Pré-História, na Arqueologia e Etnologia.

No Brasil, assim como nos outros países, os museus de modelo enciclopédico predominaram até 1930, quando entraram em declínio junto com as teorias evolucionistas. Os museus brasileiros mantiveram suas ações a favor do nacionalismo, celebrando a exuberância da nossa natureza e a cultura do nosso povo. Esta temática nacionalista teve força no Museu Histórico Nacional (MHN), no Rio de Janeiro, em 1922, junto com o Movimento Modernista. O objetivo das ações realizadas pelo MHN era educar o nosso povo através dos valores nacionais. As exposições apresentavam fatos e personagens da nossa história, incentivando o culto à tradição e à formação cívica como fatores de união e progresso. A partir de então, o MHN tornou-se referência para outros museus brasileiros, e contribuiu para a criação do curso de graduação em Museologia, em 1932, que funcionou no próprio museu até 1979.

A partir da década de 1980, outros tipos de instituições passaram a ser criadas principalmente nas capitais e grandes cidades do Brasil e do mundo. Além de reunirem acervos de diversos tipos para realizarem suas exposições, alguns centros culturais se especializaram em adquirir e conservar acervos específicos, tornando-se referência no tratamento desses acervos.

 

Resumo da Aula 03 – Museus, Centros Culturais e Centros de Memória

Os museus são instituições sócio-históricas de pesquisa: históricas, de ciências, comunitárias, de artes, universitárias ou específicas de uma expressão cultural. Em geral, os museus se diferenciam pelo tipo de acervos e estudos que levantam. As exposições, os eventos, os programas educativos e outras atrações que acontecem nos museus também podem diferenciá-los. Os museus podem ser públicos ou privados. Também podem ser mantidos por uma comunidade, uma escola, um clube, uma empresa ou por qualquer grupo de pessoas que têm um interesse em um determinado assunto. Os ecomuseus  (museus comunitários) englobam todo o patrimônio cultural e natural de uma comunidade. Esses espaços geralmente são geridos pela própria comunidade, pois eles são os verdadeiros herdeiros do seu patrimônio e têm interesse em reproduzir essas tradições no tempo presente. Suas tradições podem ser conservadas através de comemorações de datas importantes ou reverenciadas em personagens da própria comunidade.

Muitos museus também possuem bibliotecas e espaços interativos como cinemas, teatros, restaurantes entre outros. Nesses espaços acontecem diferentes eventos e programações desenvolvidas para vários tipos de público. Muitos desses espaços deixaram de ser apenas museus na sua forma tradicional e tornaram-se referências de lazer e cultura em suas cidades, passando a ser chamados de Centros Culturais, ainda que muitos mantenham o nome de museu. Em diversas cidades do Brasil e do mundo, existem e continuam sendo criados museus no formato de centro culturais. Para alguns museólogos, os centros culturais são a evolução do museu tradicional. Mantendo os princípios da museologia, os centros culturais geralmente são criados por empresas, para utilizá-los como instrumentos de visibilidade institucional. Com recursos próprios, os centros culturais produzem exposições, eventos e programas educativos diferenciados daqueles que normalmente são oferecidos pelos museus tradicionais. Através deles, é possível envolver-se com estímulos variados e simultâneos a partir de acervos múltiplos, onde cada espaço assume um sentido próprio, e onde tudo é informação. A informação não está disposta convencionalmente, mas de modo que o visitante não tenha dificuldades para encontrá-la.

Temos também os Centros de Memória. Mantendo os critérios da prática museológica, essas instituições também coletam, conservam, pesquisam e divulgam acervos que podem se referir a determinados períodos históricos. Em geral, esses espaços realizam exposições permanentes sobre um tema específico com diversos formatos. Também produzem periodicamente eventos para comemorar datas e acontecimentos importantes, e manter vivas essas lembranças na memória das suas comunidades ou de um país.

 

Resumo da Aula 04 – A Comunicação Museológica

A comunicação museológica é a denominação genérica dada às diversas formas que os museus usam para transmitir conhecimentos: exposições, artigos científicos, estudos de acervos, catálogos de coleções, filmes, teatros, palestras, oficinas, etc. É o cenário expositivo que se potencializa a relação entre o homem e o objeto, e é nessa relação que o público tem acesso à poesia das coisas, das pessoas, dos fatos históricos e dos lugares de memória. Aos profissionais de museus, cabe a tarefa de construir esse encontro, pesquisando os acervos, abordando temas socialmente relevantes, elaborando mostras e estudando as formas como os diversos tipos de público se relacionam com os objetos organizados em um cenário expositivo. O objetivo maior da comunicação museológica é de produzir emoções e reflexões que possam transformar a atitude das pessoas quando elas são confrontadas com suas realidades.

Nos primórdios da Museologia, as exposições tinham um caráter puramente contemplativo. Eram organizados de modo enciclopédico e somente pesquisadores eram capazes de perceber e entender essas estruturas e seus significados. Para o visitante comum, eram apreciadas passivamente, apenas para satisfazer curiosidades. Com o tempo, as exposições passaram a ser concebidas por equipes de especialistas, para serem compreendidas e provocarem uma atitude ativa e crítica no público. Assim surgiram as equipes interdisciplinares formada por pesquisadores, educadores, historiadores, designers, museólogos e outros especialistas da área da expografia. Atualmente se oferece ao público a oportunidade de aprender através de um comportamento ativo-cognitivo (intelectual, emotivo e crítico), interagindo com a exposição. É na interação ativa e crítica entre a mensagem apresentada e o visitante que a exposição permite que as pessoas vivenciem uma experiência de apropriação do conhecimento. A pesquisa de recepção de público estuda os modos e consequências do encontro entre a mensagem que se quer transmitir e o seu destinatário. O público, de fato, recria criticamente a mensagem (cada um do seu jeito), a partir do seu próprio universo referencial, fazendo uma síntese subjetiva do conteúdo. É nessa relação profunda entre objeto-sentido, tema-sentido e exposição-sentido que ocorre a reflexão, a aquisição do conhecimento e a mudança de atitude.

Os estudos de transmissão de mensagens através de exposições estão intimamente relacionados com a área da Comunicação Social. Por outro lado, pensar que existe um predomínio do emissor sobre o receptor sugere uma relação de poder, como se houvesse uma relação sempre direta, linear, de um polo (emissor) sobre o outro (receptor). Por isso, o processo comunicacional museológico não está na mensagem, e sim na interação. Museu é diálogo, e não um monólogo. Por isso, a avaliação de uma exposição se dá sobre os efeitos da interação com o público, e não sobre um processo linear entre emissor e receptor. A exposição é o local de encontro entre o que o museu quer apresentar, buscando provocar um comportamento ativo e crítico do público à sua síntese subjetiva. Uma exposição interativa é aquela que permite ao visitante caminhar livremente pelo seu espaço, observar os objetos, relacioná-los ao tema abordado, aprender o seu conteúdo temático, entre outros. Nela é possível observar, comentar, analisar, julgar, criticar, comparar, relacionar, lembrar, rejeitar, etc. É nessa relação que o público recria o discurso expositivo e dá a ele um novo sentido. As vezes acontecem ao mesmo tempo eventos sobre assuntos totalmente diferentes. São as chamadas “estruturas de acolhimento”, onde pode acontecer algo surpreendente. Isto também faz parte de uma experiência de qualidade.

 

Resumo da Aula 05 – Acervos Museológicos

A seleção de objetos é um critério fundamental, porque tem a ver diretamente com a proposta do museu de confrontar o homem com a sua realidade. Imagina uma caneta simples, como tantas outras canetas. Agora pense na caneta que a Princesa Isabel usou para assinar a Lei Áurea, que formalizou o fim da escravidão no Brasil. Esta não é uma caneta qualquer. É um objeto ligado a um fato histórico, e é isso que a torna diferente de todos os outros objetos, isto é, de todas as outras canetas. Quando você o vê em uma exposição, imediatamente pensa naquele episódio da História brasileira e no processo histórico que envolveu o fim da escravidão. Geralmente, tais objetos não são apresentados isoladamente. E sim são contextualizados em um tema e apresentados junto com outros objetos também significativos, para potencializar as reflexões sobre o tema que o museu quer abordar. Portanto, o elemento estruturador de uma exposição é o objeto museológico, e o cenário expositivo deve ser pensado para dar destaque a este objeto e ao seu significado. O objeto é a “musa” da exposição, seu elemento-chave. E o acervo museológico é o conjunto desses objetos institucionalizados em um museu. Portanto, um objeto institucionalizado é aquele que passa a fazer parte do acervo de um museu. Primeiramente ele é selecionado pelo seu valor intrínseco para integrar o acervo e, em seguida, é formalmente integrado a esse acervo pela institucionalização.

Não apenas objetos podem ser musealizados. Pode-se também musealizar monumentos, praças, prédios, cidades ou outras expressões da cultura consideradas significativas para um grupo social. Nesses casos, a institucionalização vai além dos museus e atingem outras instâncias institucionais, como, por exemplo, um município, um país ou até mesmo toda a humanidade. É assim que são constituídos os patrimônios culturais da humanidade. Um bem “tombado” é um bem patrimonial institucionalizado. Isso significa que ele foi “registrado” por uma instância governamental pela sua importância e, portanto, é protegido. Tombamento significa registro. O objeto musealizado é aquele que é selecionado para ser conservado em um museu, e o objeto tombado é aquele que não pode ser guardado em um museu. Assim são os bens culturais materiais e imateriais. Não é possível guardá-los em um museu, mas eles devem ser conservados, e por isso são registrados como patrimônio cultural, isto é, tombados. Por outro lado, o valor intrínseco de um objeto conservado em um museu, ou de um acervo museológico, só existe quando lhe é atribuído um sentido, isto é, quando possui um significado sócio-histórico. Para que isso aconteça, o objeto precisa que seja usado para transmitir conteúdo desse significado ou dessa cultura. Assim, o museu se torna o repositório desses sentidos e conhecimentos contidos nos objetos e acervos, e as exposições são os meios usados para transmitir esses saberes e significados.

Os recursos expográficos podem ser diversos: ambientes, trajetos, textos, legendas, desenhos, fotografias, etc., podendo formar um grande conjunto de efeitos especiais usados para explicar um conteúdo e enriquecer a experiência dos visitantes. É na interação do público com os objetos, acervos e com os recursos expográficos que os museus dialogam com as pessoas a respeito do tema em questão. Do mesmo modo, as pesquisas que se realizam sobre os objetos musealizados obedecem a critérios semelhantes à pesquisa histórica acadêmica. E o conhecimento produzido é o resultado da análise histórica de fontes documentais, onde o objeto é o próprio documento. Como o objeto é o próprio documento, é necessário de condições especiais para serem selecionados, guardados, pesquisados e seus conteúdos apresentados em um contexto temático para serem questionados pelo público. Como já vimos, existem vários tipos de acervos. Madeira, couro, metal e outros materiais têm tratamentos diferentes para que durem mais tempo e preservem suas características físicas.

Os acervos também podem ser vivos como, por exemplo, o jardim botânico ou zoológico, as plantas e os animais são conservados vivos, e assim são expostos. Há também os não-vivos que também podem ser conservados através da taxidermia (empalhamento). Tais acervos são conservados conforme as suas naturezas, e recebem um tratamento especial para aumentar sua durabilidade. As condições de higiene, temperatura, luz e outras variáveis climáticas são permanentemente controladas. Então, o objetivo da pesquisa museológica é de promover o uso social dos seus acervos, aproximando a sociedade dos significados que eles exprimem e os conhecimentos que neles existem.

 

Resumo da Aula 06 – Como os Museus, Centro Culturais e de Memória podem Apoiar a Pesquisa Histórica

No final da década de 1980, iniciou-se em várias cidades brasileiras e de outros países a criação de centros culturais que deram uma nova feição aos museus tradicionais. Também foram criados os museus comunitários, os centros de memória, os ecomuseus e os centros de referência. Os museus que aqui podemos citar são: Museu da Língua Portuguesa (SP), Museu de Astronomia e Ciências Afins (RJ), Museu Emílio Goeldi (PA) e Instituto Butantã (SP). Estas são instituições museológicas tradicionais que se especializaram no tratamento e pesquisa de acervos e temas específicos. Ao longo do tempo, os novos tipos de museus ajustaram suas programações a partir das demandas recebidas dos diversos públicos, adaptando-se aos seus acervos, recursos e aproveitando suas características físicas, espaciais e simbólicas. Por exemplo: estar localizado junto a uma natureza exuberante ou em uma área histórica da cidade, possuir uma bela arquitetura, entre outros aspectos. Sendo assim, programas educativos multidisciplinares passaram a ser criados para o aprendizado da História, usando novas linguagens e tecnologias para desvendar novas áreas do conhecimento histórico. Nesses programas, períodos e fatos históricos são revistos e analisados por vários ângulos da pesquisa histórica contemporânea, tornando-os atraentes para os diversos tipos de público.

Além de espaços expositivos e de lazer, muitos museus e centros culturais possuem ricas bibliotecas e núcleos de pesquisa histórica e de outras disciplinas. Tais pesquisas são geralmente atualizados a cada evento para serem divulgadas em site, livros, revistas e outros veículos publicados pela própria instituição. As apresentações musicais, de poesia, de contadores de estórias, visitas guiadas e outras atividades são direcionadas para um tema histórico escolhido e apresentadas em diferentes linguagens. Há também museus diretamente ligados a instituições de pesquisa. Muitas universidades possuem coleções nos seus centros acadêmicos para usá-las nas aulas práticas. Por exemplo: as faculdades de Medicina, Biologia, Odontologia, Geologia e outras áreas ligadas às ciências da terra possuem acervos que vão desde esqueletos humanos até espécimes de animais, plantas e minerais. O Museu da Energia Nuclear (Recife) é mantido pela Universidade Federal de Pernambuco. A Estação Ciência é ligada à Universidade de São Paulo.

Também existem os centros de referência, que são instituições especializadas na pesquisa de assuntos ou áreas específicas do conhecimento. Por exemplo: o Museu da Vida é ligado ao Instituto Oswaldo Cruz (RJ), que é um centro de referência na pesquisa biomédica. Há também os centros culturais privados que se especializaram em reunir, conservar e disponibilizar coleções específicas, geralmente ligada a artes plásticas e outras expressões culturais. O Instituto Moreira Salles (RJ, MG e SP) especializou-se em conservar e pesquisar acervos ligados à fotografia e à música popular brasileira. Todas essas instituições possuem sites, bibliotecas e laboratórios que podem ser visitados e usados para pesquisa. Por outro lado, muitos museus são localizados nos próprios prédios e lugares onde os acontecimentos ocorreram. As cidades históricas e os ambientes naturais também são uma boa forma de se ter contato com o espaço real e com as realidades. Visitar tais espaços permite trocar experiências e adquirir conhecimentos para a formação de pessoas capazes de interferir no presente. Além de promover a interação social, ampliam a observação, a percepção e a crítica, enriquecendo todo o processo de aprendizado. Portanto, visitar cidades históricas é uma forma de estabelecer contato direto com os ambientes onde os fatos ocorreram, favorecendo a observação, a percepção, a reflexão e a crítica.

 

Resumo da Aula 07 – Equipe Técnica de Museus

A ciência museológica atua sobre os métodos de seleção, conservação e pesquisa de objetos que possuam significados considerados importantes para os grupos sociais. Então, pode-se dizer que a museologia é um campo para profissionais que desejam trabalhar com a comunicação através dos objetos e acervos. Ou seja, trabalhar na seleção, restauração e conservação de objetos, pesquisa de acervos, elaboração de publicações, entre outros. O profissional de museu, seja de qualquer área, mas que atue no campo museológico, é legalmente regulamentado desde 1984. Seus direitos são preservados através dos Conselhos Regionais (COREM) e do Conselho Federal de Museologia (COFEM). As equipes que trabalham em museus são constituídas por profissionais de diversas formações, que atuam em áreas distintas: áreas de administração e documentação, historiadores, museólogos, educadores, arqueólogos, antropólogos, restauradores, designers, comunicadores e arquitetos. Dependendo do tipo de projeto, há profissionais de muitas outras áreas, formando uma equipe multidisciplinar.

Inicialmente, para se conceber uma exposição ou um evento e decidir sobre o seu tema e como abordá-lo, a direção do museu se reúne com o grupo de especialistas “da casa” para analisar a sua viabilidade. Nessa fase, são analisados: os recursos disponíveis (financeiros, materiais, etc), a importância do tema, a maneira para abordá-lo aos públicos que se quer atingir, se está de acordo com a ética, os objetivos e resultados que se quer alcançar. Além de riscos, condições de segurança, patrocinadores, entre outros. Depois vem as pesquisas.

Produzir um evento exige o envolvimento de toda a equipe do museu. As pesquisas iniciais normalmente são realizadas por museólogos, arqueólogos, etnólogos, biólogos, geógrafos e historiadores. Em seguida vem os educadores, museólogos, conservadores, programadores virtuais, comunicadores, arquitetos, designers, cenógrafos, cenotécnicos, aderecistas, artistas e outros. Tais profissionais serão precisos dependendo do tema a ser abordado. Durante o evento, atuam os seguranças, os monitores e assessores de imprensa. No final, é feita uma avaliação da atuação de cada uma das áreas envolvidas, além dos resultados produzidos sobre o público.

Diferentemente dos outros profissionais, as atenções do museólogo estão voltadas para a comunicação museológica. Por isso, ele se torna uma figura central como coordenador dessa grande equipe. Ele coordena os interesses de todos os profissionais em relação às expectativas do público e da própria instituição e seus parceiros. Ou seja, o museólogo atua simultaneamente como coordenador e comunicador. É ele quem seleciona os objetos do acervo do museu e atua em equipe. A relação que o público estabelece com os objetos, com os acervos e com a forma como eles são apresentados estimula a reflexão sobre o seu papel na sociedade. O museu torna-se um canal de comunicação e espaço de debate de temas importantes selecionados por diversos profissionais a partir de pesquisas realizadas sobre as demandas da sociedade.

O designer, o arquiteto e o próprio museólogo são os profissionais que dão destaque aos objetos e os inserem na cena expositiva, associando-os ao enunciado central até o seu desenvolvimento conceitual. Tais profissionais devem saber explorar criativamente o lado sensorial do visitante. Para isso, usam diversos recursos: cores, sons, luzes, temperaturas, aromas, etc., construindo um ambiente ao mesmo tempo agradável e harmonioso entre a forma e o conteúdo.

O papel do educador define os objetivos educacionais de uma mostra e as estratégias didático-pedagógicas a serem aplicadas. Para isso, ele pesquisa as reações dos visitantes diante de determinadas situações expográficas. Por trabalhar com estudantes, o educador entende o espaço expositivo como uma grande sala de aulas interativas. Atualmente, os programas educativos de museus, centro culturais e de memória são desenvolvidos por empresas especializadas, contratadas periodicamente através de editais.

Geralmente a instituição define quais tipos de público quer atingir. É um trabalho de inclusão social que requer uma pesquisa prévia de público. Por exemplo: uma amostra que quer receber deficientes visuais, crianças ou pessoas da terceira idade que necessitam de recursos especiais. Desse modo, os objetos devem ser escolhidos e dispostos de maneira conveniente, e o tema explicado de modo a favorecer os sentidos que faltam nesses públicos, para que a experiência seja a mais interativa possível. No caso dos deficientes visuais, devem explorar o tato, a textura, os aromas e os sons, e os textos em braile ou narrados por um monitor/gravação. Para os deficientes auditivos, é necessário o uso de Libras. Para as crianças, um tema deve ser apresentado através de jogos e brincadeiras. Para as pessoas de terceira idade, os textos devem ser em letras maiores, bem visíveis, entre outros. A qualidade de uma amostra é medida pela sua capacidade de acolhimento. O educador, o designer e o museólogo são profissionais fundamentais na construção da experiência criativa do público. Portanto, os profissionais que atuam em museus devem possuir conhecimento multidisciplinar.

Ao conservador cabe a tarefa de verificar as características do meio físico e as condições em que os objetos ficarão expostos, e realizar as ações de controle ambiental. A segurança é um aspecto fundamental para os museus e os acervos, seja pela responsabilidade de guardar e conservar objetos valiosos e frágeis, seja pelo risco de manipular, transportar e expor esses objetos em locais para públicos diferenciados. Para transportar e expor objetos raros e de valor é exigido um seguro contra danos de diversas naturezas, desde incêndio e furto até catástrofes naturais. Os valores desses seguros são expressivos. Já o historiador atua desde a concepção até as pesquisas de vários tipos que são necessárias para se realizar uma ação museológica. Em todos os segmentos do museu, o historiador estará presente para documentar todas as fases do projeto e comentar os seus resultados na perspectiva sócio-histórica daquele momento, ou seja, vai criticar a importância daquela ação sobre a sociedade na atualidade e as transformações que produziu o momento histórico presente. Para o historiador, o museu é o mundo.

 

Resumo da Aula 08 – Principais Conceitos Usados na Museologia

O objeto museológico é o objeto institucionalizado, isto é, musealizado. É aquele que é selecionado para integrar o acervo de um museu. Tais objetos não são neutros, e possuem um significado, um sentido simbólico, afetivo e informacional. Essa definição de objeto museológico remete ao conceito de musealização, ou seja, são valorizados como documentos e selecionados para provocar o confronto do homem com a sua realidade. Este confronto é fabricado no cenário museológico para ser pensado, discutido e entendido pelas pessoas. Por outro lado, é necessário que os museus não sejam usados como instrumentos de manipulação, pois o exercício da cidadania e do livre pensamento crítico é a finalidade almejada pela disciplina museológica. Os objetos museológicos devem ser preservados e usados pela sociedade como referências para refletir e agir sobre a realidade, pois a (re)construção da identidade cultural de um povo é baseada nas reflexões que esse povo faz sobre suas realidades, a partir do contato com o seu patrimônio cultural.

O fato museológico (ou museal) estabelece a relação entre o homem e o objeto em um cenário expositivo ou natural. A exposição também procede de uma seleção prévia de determinados objetos, tanto pelos valores que eles representam como pelo que se quer questionar sobre esses valores. O objeto não significa apenas o objeto físico, mas o conjunto das expressões que formam o patrimônio cultural, ou seja, as danças, a gastronomia, a literatura, a natureza, entre outros. São todas essas linguagens faladas, escritas, representadas que amplificam o sentido da palavra objeto, e que no seu conjunto constituem um acervo patrimonial. Então, o patrimônio cultural é formado pelo conjunto de objetos físicos (materiais), simbólicos (imateriais) e naturais (ambientes e lugares), e o fato museológico é o resultado do encontro do homem com esse patrimônio. Nos museus são mostrados em um cenário expositivo para provocar esse encontro do homem com a sua realidade. Nos ecomuseus, o patrimônio é a própria natureza, e o cenário expositivo é a própria paisagem. Nos museus comunitários, o patrimônio pode ser uma pessoa viva a quem foi atribuído um sentido, porque ela exprime a cultura daquele grupo.

A musealização é um dos conceitos-chave da ciência museológica, e é através dessa noção que se entende o valor dado aos objetos, isto é, pela sua capacidade de exprimir, significar, dar sentido. É um processo que se inicia com a seleção de um objeto pelo olhar museológico sobre as coisas materiais, naturais ou simbólicas, e a capacidade de perceber os sentidos que esse objeto pode possuir para a sociedade como um todo. O ato de musealizar considera a importância da informação trazida por eles em termos de documentalidade, testemunhalidade e fidelidade, além do seu poder de “questionar” para incitar as pessoas a refletirem e agirem sobre as suas realidades atuais. Resumindo, a musealização é um processo que integra a seleção, a preservação e a comunicação. Entretanto, o ato de musealizar um determinado objeto também pode conter uma intenção ideológica, pois é um processo seletivo impregnado de informações vinculadas a valores socioculturais que se quer transmitir para perpetuá-los. Em síntese, a musealização é um processo que realiza uma série de ações sobre os objetos: aquisição, conservação, catalogação, pesquisa e comunicação. Desse modo, pode-se musealizar os objetos por suas qualidades históricas, antropológicas, sociológicas, técnicas, artísticas, econômicas, etc. É daí que o conceito de musealização se imbrica com a noção de acervo e surgem novos conceitos, como os de “patrimônio comunitário”, “patrimônio integral” e “referência patrimonial”.

O patrimônio comunitário é o conjunto de bens partilhados por um grupo de pessoas instaladas em um espaço físico delimitado, e que ao longo do tempo criam hábitos próprios cuja preservação é importante para a identidade cultural daquele grupo. O patrimônio integral é o conjunto de bens naturais, materiais e imateriais que deve ser preservado para a integridade dos seres vivos. A natureza, o ar, a água e os valores universais como a ética, a justiça e a paz são bens patrimoniais integrais. Já a referência patrimonial é um elemento que pode ser um objeto ou uma expressão da cultura, ligado a um conjunto patrimonial maior e que pode representá-lo. Tais conceitos levaram à criação de vários tipos de museus: ecomuseus, museus de cidade, museus comunitários, museus de bairro, etc. Cada um com seus objetivos de desafios metodológicos de construir a relação entre o homem e o objeto.

 

Resumo da Aula 09 – Museologia: Principais Marcos Teóricos

Século XV: objetos raros e exóticos eram selecionados por critérios puramente pessoais e guardados em locais chamados de “gabinetes de curiosidades”.

Século XVI: a partir do Renascimento foram agregados aos objetos, além dos valores estéticos, monetários e, também, o valor histórico. Era o período da Revolução Comercial.

Séculos XVII e XVIII: com o advento da Revolução Científica, os objetos passaram a ser selecionados também pelo seu caráter científico, em geral ligados à História natural e cultural do Novo Mundo. Porém, foi durante a expansão imperialista europeia que os primeiros museus criados no século XVIII integraram às suas coleções, objetos que interessavam mais à pesquisa científica. Daí em diante, os museus passaram a ser abertos ao público e tornaram-se centros de produção de conhecimento, principalmente para a História Natural e para a Antropologia. Desde então, os objetos deixaram de ser coletados somente pelo seu caráter científico e passaram a ser também selecionados e exibidos para ilustrar aquele período histórico, como símbolos de riqueza e domínio europeu sobre o mundo.

Século XIX: as exposições foram marcadas por uma forma enciclopédica de apresentar as coleções.

Século XX: ainda que os museus tenham passado a estar abertos ao público e voltados para a divulgação de conhecimento, somente no início do século XX esse propósito foi ampliado e organizado como uma ação efetiva, especialmente na França, para depois ser copiado por outros países. Portanto, o resultado prático desse primeiro pensar museológico foi a criação de uma pedagogia museal. É dessa época em diante que a Museologia passa a ser epistemologicamente pensada, isto é, pensada de uma forma organizada, ordenada. A Museologia passa a existir de fato como ciência. Mas ainda nessa fase, persistia um problema: como e o que exibir nas exposições ainda era decidido por um pequeno número de especialistas que não consideravam o olhar público. Não havia diálogo na comunicação museológica. O público não interagia com a mostra. E os museus brasileiros seguiram esse mesmo modelo.

No Brasil, os museus de ciência foram os primeiros a receber regularmente grupos de estudantes e escolas. Por isso, foram os pioneiros na criação de serviços de difusão educativa para a divulgação dos resultados das suas pesquisas para os jovens e os leigos através da linguagem mais acessíveis. O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi o primeiro a criar uma área de difusão educativa para transmitir seus estudos de Antropologia e História Natural. Em seguida foi o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Museu Paulista, o primeiro estudava a natureza amazônica e o segundo, também estudava a História Natural do Brasil e outros países da América do Sul. O Butantã em São Paulo e Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, também seguiram os mesmos passos.

Sendo assim, as primeiras questões pensadas pela ciência museológica foram a recepção de público e a transmissão de conhecimento para públicos constituídos por não especialistas. Foi somente na década de 1970 que começaram a surgir os chamados “museus vivos” ou “interativos”. No início, eram grandes aquários e zoológicos onde os animais ficavam soltos em seu habitat natural, e as visitas eram guiadas por biólogos e oceanógrafos que explicavam ao público os conhecimentos sobre a fauna e a flora. Como exemplo temos o Simba Safari e Estação Ciência em São Paulo, o Museu da Vida no Rio de Janeiro, e o Projeto Tamar na Bahia. Tais iniciativas trouxeram para os museus a interatividade, e mudaram o conceito de musealização.

A história da Museologia também teve declarações importantes. São eles:

  • Declaração do Rio de Janeiro (Brasil – 1958): destacou a importância dos museus como recursos educativos, trazendo um novo entendimento ao objeto museológico mais valorizado no seu conjunto com outros objetos do que pelo seu valor isolado;
  • A Carta de Veneza (Itália – 1964): ampliaram a noção do patrimônio, incorporando os bens naturais e a arquitetura das cidades como referências patrimoniais. Também trouxe a pesquisa sobre o relacionamento das pessoas com a natureza e com as cidades. O objetivo foi ampliar e democratizar o conhecimento sobre o patrimônio. Os parques naturais, as praças e prédios passaram a ser considerados referências patrimoniais, e com o tempo tornaram-se mais acessíveis à população;
  • 9a Conferência do Conselho Internacional de Museus – ICOM (França – 1971): mostrou a necessidade de dar aos museus uma dinâmica mais adequada. Nessa época, a sociedade pressionava por mais liberdade de expressão. Foi pela primeira vez apresentado a ideia de uma Museologia comprometida com as questões políticas da época, a “Nova Museologia”;
  • Mesa Redonda de Santiago (Chile – 1972): esse encontro, com influência da UNESCO, produziu um documento considerado dos mais importantes para a Museologia, que apela para uma ação museológica comprometida com a sociedade, com a economia, com a educação e política. A noção de patrimônio foi ampliada para objetos e monumentos a serem preservados em seu próprio local de origem. Também surgiu a ideia de patrimônio cultural da humanidade, aplicado para cidades, monumentos e bens naturais;
  • Declaração de Quebec (Canadá – 1984): a “Nova Museologia” é reconhecida e, como consequência, é criado no ano seguinte o Movimento Internacional para uma Nova Museologia (MINOM). É também lançado o conceito de ecomuseu, dando origem aos museus comunitários e centros de referência;
  • Declaração de Oaxtepec (México – 1984): é lançado o conceito de ecodesenvolvimento, que consiste em promover a emancipação cultural, econômica, social e ambiental de populações instaladas em locais específicos e delimitados;
  • Declaração de Caracas (Venezuela – 1992): a partir de 1990, diversas instâncias governamentais e não governamentais passaram a fazer parte das discussões museológicas. A Declaração de Caracas, junto com a Eco-92 (RJ), atualizou os conceitos de patrimônio integral e museu integral propostos na Mesa de Santiago (1972). A ideia de patrimônio mundial da humanidade se fortaleceu, e as ações dos profissionais passaram a ser reconhecidas pelos governos. E, também, surge a noção de Pedagogia do Patrimônio e de Tesouros Humanos Vivos;

A Pedagogia do Patrimônio abrange todas as ações pedagógicas fundamentadas sobre o patrimônio cultural. Ou seja, o patrimônio cultural pode ser ensinado através de qualquer método, programa ou disciplina, e esse ensino pode ser destinado a alunos de qualquer nível escolar ou social. Os Tesouros Humanos Vivos (ou Patrimônio Cultural Vivo) mantém fortes ligações com o passado, e reconhece a fragilidade de várias expressões culturais que estavam em vias de extinção. Assim, para proteger essas referências culturais, a Declaração de Caracas propôs o reconhecimento dos Tesouros Humanos Vivos.

A Política Nacional de Museus (PNM) é um documento emitido pelo Ministério da Cultura em 2003, e o seu objetivo é democratizar os museus. Tal postura defrontou os museus brasileiros com os seguintes desafios: Promover e incentivar a criação das disciplinas para debater o patrimônio cultural e proteger a memória coletiva; Criar e implantar sistemas para identificar e classificar Tesouros Humanos Vivos; Estudar, refletir discutir e apresentar modos e estratégias para que os museus possam se aproximar das comunidades e suas expressões culturais.

 

Resumo da Aula 10 – Curadoria em Museus

A palavra “curador” vem da expressão latina tutor, e significa “aquele que cuida”. Nos museus, os curadores são responsáveis pela administração de uma exposição em todas as suas fases e níveis. Geralmente são profundos conhecedores do tema abordado ou, conforme o tipo da mostra, especialistas em História, Filosofia ou Estética. Os objetos musealizados são escolhidos pelo curador, ou por uma equipe de curadores, a partir dos seus significados e capacidades expressivas. As demais responsabilidades e tarefas administrativas são distribuídas, as vezes, pelo próprio curador. Este foco na interpretação explica por que a curadoria é sempre considerada o coração de uma exposição museológica. Mesmo naquelas exposições em que não existe uma coleção a ser mostrada – centros de ciências ou de museus para crianças -, é necessário interpretar a pesquisa feita pela curadoria, pois é através dela que será elaborada a narrativa do conteúdo que a exposição irá apresentar ao público. Quando não há um curador, normalmente são os museólogos ligados à própria instituição que se incubem dessa responsabilidade. Há também os “curadores convidados” como artistas, educadores, especialistas, colecionadores, entre outros. Esta característica não altera o caráter fundamental da curadoria. Seja individual ou em equipe, é uma função estratégica que exige esforço de pesquisa e deve ser bem executada.

No planejamento de uma exposição museológica, a curadoria necessita fazer: idealizar e formular o conceito da exposição; pesquisar o tema; analisar e selecionar os objetos; documentar os objetos selecionados; preparar e ordenar as legendas, os textos, os gráficos e demais instrumentos; avaliar o resultado. Pois a ideia central de uma exposição é a estratégia criada pela curadoria para abordar uma questão e propor uma reflexão. Os objetos são os principais ingredientes de uma exposição, e o modo de distribuí-los no espaço físico é a primeira preocupação dos organizadores de uma mostra. Em uma mostra que apela para o sentido estético, a reação mais comum é a simples contemplação. Este tipo de mostra propõe uma experiência mais orientada às emoções e sentimentos. Nas exposições de tipo histórico, os objetos são organizados dentro de vitrines ou inseridos em dioramas (representação de uma cena), ou ainda dispostos em galerias usadas para auxiliar a compreensão de tema ou relacioná-los entre si dentro do contexto. As exposições do tipo exploração apresentam temas arqueológicos ou de história natural. A disposição do acervo segue uma ordem cronológica, onde toda a superfície do piso e da parede é utilizada para exibi-lo. Já as exposições interativas incluem experimentos, simulações e demonstrações ao vivo. Geralmente são apresentadas em museus de ciência e tecnologia, salas multimídia, aquários, planetários e parques temáticos.

 

Bons estudos! 🙂

Marcell

Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar o resumo das aulas da disciplina História do Brasil Contemporâneo do 6o período do curso de Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – Período Getulista

Em quase todas as capitais brasileiras há ruas, avenidas ou praças em homenagem a Getúlio Vargas. No Rio de Janeiro, por exemplo, existe a Avenida Getúlio Vargas, inaugurada pelo próprio Getúlio em 1942. Já São Paulo, a maior cidade da América Latina, é a grande exceção. Afinal, não apresenta nenhuma homenagem ao estadista brasileiro. Por outro lado, o centro da cidade é cortado pela Av. Nove de Julho, que é a data onde se comemora a Revolução Constitucionalista, sendo também um dos feriados paulistas.

Em 1930, tropas gaúchas que apoiaram um Golpe de Estado liderado por Getúlio Vargas chegaram na Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro, que ainda era a capital da República. Os caras tiveram a proeza de amarrar seus cavalos em um obelisco da região. Devido a importância que o lugar tinha – os símbolos nacionais espalhados por todos os cantos, o prédio do Senado e da Câmara, Teatro Municipal, Biblioteca e Museu Nacional, entre outros -, o gesto das tropas de Getúlio foi considerado um escândalo por uns e uma demonstração de coragem por outros. A presença dos cavalos amarrados naquele obelisco indicava que os gaúchos chegaram para dominar. Mas para que o Golpe se concretizasse, Getúlio precisava conseguir a deposição do presidente Washington Luís.

Vale ressaltar que São Paulo e Minas Gerais eram os maiores produtores de café do momento; daí a importância de garantir que a Presidência fosse sempre ocupada por políticos desses estados. Para as eleições de 1930, Washington Luís quebrou o protocolo ao apoiar o candidato paulistano Júlio Prestes, em vez de apoiar um candidato mineiro. Antônio Carlos de Andrada, governador de Minas, contrariado, juntou-se a outros políticos descontentes como João Pessoa, da Paraíba, e Getúlio Vargas, do Rio Grande do Sul. Juntos, formaram a Aliança Liberal, que escolheu Vargas para concorrer às eleições. Mesmo com a derrota, a Aliança Liberal organizou um movimento revolucionário com o objetivo de seguir até a capital para tomar o poder. De fato, o candidato eleito por meios fraudulentos, Júlio Prestes, sequer tomaria a posse. E assim, os gaúchos amarraram seus cavalos no obelisco desrespeitando todos os símbolos de poder que se encontravam à sua volta.

Antes disso, na década de 1920, o Brasil passava por uma insatisfação devido ao movimento chamado Tenentismo, onde os jovens do Exército (os tenentes) se destacavam procurando meios em moralizar a política e mudar os rumos do Brasil. Ao mesmo tempo, a Coluna Prestes, movimento liderado por Luís Carlos Prestes, saiu do Rio Grande do Sul em 1922, percorrendo o interior do país, apontando as misérias e acusando a exploração dos mais pobres pelos governantes. Outros insatisfeitos eram os socialistas e os comunistas que, animados com a Revolução Russa de 1917, buscavam também tomar o poder no Brasil. Entre os trabalhadores, a atuação dos socialistas e comunistas foram destacadas pela greve, manifestações públicas e conflitos com a polícia. Os anarquistas também estavam juntos pela causa.

No plano cultural, criadores de diversas áreas (pintores, escultores, músicos, etc) buscaram refletir sobre uma nova identidade para a arte brasileira e para o próprio Brasil. Tais movimentos, conhecidos como modernismos, procuravam livrar a arte dos parâmetros acadêmicos, considerados ultrapassados. Porém, as propostas modernistas foram várias e ocorreram em diversos lugares no Brasil.

Além da política e da cultura, a economia também deu sua contribuição para o Golpe de 1930. Nessa época, a economia brasileira era baseada no café. Com a quebra da Bolsa de Nova York em 1929, o principal produto de exportação brasileiro sofreu bastante. As oligarquias locais, sustentadas pelo café, entraram em crise. Portanto, haviam duas opções: solucionar o problema ou abrir mão do poder. Então… Getúlio Vargas chegou e amarrou seu cavalo no obelisco.

Os primeiros anos do Governo Provisório (1930-34) de Vargas foram marcadas por intensas negociações com os grupos que desejavam uma parte do poder. As oligarquias, apesar de afastadas do controle direto, ainda tinham algum poder de decisão. O Integralismo de Plínio Salgado, assemelha-se, nas ideias e nos rituais, às ideologias italianas e alemãs. Por outro lado, os industriais lutavam para que o setor tivesse mais investimentos do que a agropecuária. Outro grupo de pressão era da classe média, que vinha se manifestando ao longo da década de 1920, o Tenentismo. Enquanto os setores da Esquerda, como os socialistas, comunistas e anarquistas, atuavam no controle da organização dos trabalhadores. O pessoal da direita se organizava nos moldes nazifascistas (presentes na Europa desde a década de 1920).

O trabalhismo foi uma das características mais fortes da Era Vargas devido a atuação dos grupos que estremeciam o Brasil na década de 1920. Socialistas e comunistas conjugavam a atuação política institucional (partidos e eleições), por exemplo, ao movimento de mobilização e organização sindical. O PCB (Partido Comunista Brasileiro) é hoje o partido mais antigo do Brasil, tendo sido fundado em 1922. Os anarquistas eram contra qualquer forma de organização política associada ao poder. Preferiam privilegiar a organização sindical e suas atividades. Também contrários à organização partidária, estavam os cooperativistas. Porém, este grupo não conseguia dialogar com os anarquistas, pois propunham uma união de forças entre trabalhadores, empregadores e Estado. Logo mais pra frente, os cooperativistas se aliaram aos socialistas. Deste modo, no fim dos anos 1920, a disputa pela preferência dos trabalhadores tendeu a oscilar: de um lado os cooperativistas e os comunistas; do outro, os comunistas.

Com a chegada de Getúlio Vargas, os cooperativistas ganharam força. A criação do Ministério do Trabalho foi fundamental, garantindo a criação de leis de proteção ao trabalhador, ao mesmo tempo em que zelava pela fiscalização dos patrões. A sindicalização não era obrigatória, mas compulsória. Somente os trabalhadores sindicalizados teriam acesso aos direitos que o governo concedia e, também, só os sindicatos legalizados davam acesso a tais direitos. Por outro lado, era necessário abrir mão da liberdade de expressão política e de livre associação, aceitando o sindicalismo nos termos impostos pelo governo. Em troca de alguns direitos, os trabalhadores tiveram sua capacidade de luta e contestações enfraquecidas.

Em 1932, dois anos depois de ter tomado o poder, Getúlio ainda não havia cumprido o prometido, e permanecia no poder sem uma nova Constituição. Isso não agradava em nada aos setores que haviam sido afastados, os cafeicultores que passaram a se manifestarem na Revolução Constitucionalista. Por um lado, a ausência de uma Constituição impedia que os cafeicultores pudessem retomar o poder legalmente. Por outro, esta ausência da Constituição era uma forma de Getúlio continuar ocupando o poder por um tempo indeterminado. Então, São Paulo, um dos maiores produtores de café da época, deu origem a uma revolta contra essa situação, que foi a Revolução Constitucionalista – iniciada em 9 de julho e se estendendo até outubro daquele ano. Também haviam outros grupos que lutavam pela separação de São Paulo em uma República independente, e haviam outros que desejavam a organização do país em forma de Confederação, com maior autonomia para os estados. Tais eventos se constituem, na memória paulista, como um ponto marcante de sua identidade. Para todos aqueles que participaram dos eventos, a Revolução representou uma defesa corajosa da democracia contra o abuso de poder de Getúlio Vargas. Não é à toa que São Paulo se configura a única capital brasileira a não cultuar a memória de Vargas.

A Constituição prometida por Vargas em 1930 só seria promulgada, por conta das pressões da Revolução Constitucionalista, em 15 de julho de 1934. Foi uma vitória para a democracia, pois garantiu muitos direitos que a de 1891 (Primeira Constituição) ignorava. Além disso, a Carta de 1934 garantiu o voto secreto, estendeu o direito de votos à mulheres e criou a Justiça do Trabalho. Celina Guimarães Viana foi considerada a primeira eleitora do Brasil. Por outro lado, nos extremos deste contexto, haviam forças de esquerda e de direita disputando. Luis Carlos Prestes, ex-líder tenentista convertido ao comunismo, organizou a Aliança Nacional Libertadora ao lado dos socialistas. Do outro lado, estão os setores mais conservadores, aglutinados em torno de Plínio Salgado que fundou a Ação Integralista Brasileira, e havia se constituído nos moldes dos partidos nazifascistas europeus.

No ano de 1937, os Integralistas criaram um falso plano comunista, que teria como objetivo tomar o poder: o Plano Cohen. Apesar de falso, foi o que justificou Getúlio a dar um novo Golpe, instituindo o Estado Novo. A Constituição de 1934 e as eleições para 1938 foram suspensas, o Congresso foi fechado e Vargas assumiu o caráter ditatorial de seu governo. O Estado Novo, como a própria expressão indica, foi uma tentativa de criar um país renovado, como se tudo estivesse começando do zero.

 

Resumo da Aula 02 – Estado Novo

Como o próprio nome diz, o Estado Novo (1937-1945) foi um momento de renovação. O país passou por um período de revisão, modernizando diversos setores da sociedade. Contudo, nem todos os aspectos relacionados ao Estado Novo podem ser associados a valores positivos, como modernidade e renovação. Existe outro lado deste período, bem mais sombrio, e que muitos prefeririam esquecer.

Nos setores arquitetônicos, a sede do Ministério da Educação e Saúde representa um aspecto renovador e ousado do Estado Novo. Entre os criadores estavam Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, que, mais tarde, idealizariam Brasília, a nova capital do país em 1960. Além disso, o Palácio detém o título de primeiro edifício modernista da América Latina. Por outro lado, testemunha um aspecto mais sombrio do Estado Novo: sua arquitetura foi inspirada nos novos edifícios mandados construir por Hitler, em Berlim.

Getúlio, na fase inicial do Estado Novo, se identificava com o nazifascismo. O termo “Estado Novo” foi copiado do regime instaurado pelo líder autoritário Salazar, que governou Portugal entre 1933 e 1968. O Estado Novo português só terminaria em 1975. Além disso, na época que antecede a Segunda Guerra Mundial, os governos neofascistas ainda não eram mal vistos. Ao contrário, também representavam certa modernidade. A construção do Estado Novo resultou na criação da Constituição de 1937, no momento de renovação, de imensa modernidade, mas também, foi um período de conservadorismo, autoritarismo e violência. Apesar da Constituição ter sido criada, o fato é que Getúlio não faria muito uso dela durante o período ditatorial de seu governo, preferindo administrar através de decretos-lei. A polícia política, criada para detectar, prender e torturar os opositores do governo, foi logo posta em ação. Luís Carlos Prestes, líder da Aliança Nacional Libertadora, ficou encarcerado durante todo o Estado Novo. Sua companheira, Olga Benário, uma judia alemã, foi exilada para seu país de origem, em um momento em que Hitler estava no poder. Como milhões de judeus, Olga foi morta em campos de extermínio durante a II Guerra Mundial. O escritor Graciliano Ramos, também preso, escreveu o livro Memórias do Cárcere durante o período.

Além disso, a própria Ação Integralista Brasileira, a principal opositora dos comunistas, também passou a ser perseguida por Vargas. Aliás, os radicais da extrema-direita foram os únicos a tentar um contragolpe, que ficou conhecido como Levante Integralista, em 1938, reagindo ao fechamento de sua organização. Desse modo, mais adequado do que imaginar que o Estado Novo tenha sido uma vitória da direita sobre a esquerda, é pensar que foi a busca de uma terceira via. Os objetivos de Vargas em suas primeiras ações, além do aumento de seu poder, era neutralizar as ideologias. Ou seja, nem tanto à esquerda e nem tanto à direita, mas adotando o que cada um teria de bom para oferecer. De um lado, o apoio aos trabalhadores. De outro, a centralização. Assim que instituiu o Estado Novo, Vargas fechou o Congresso e substituiu os governadores dos estados por interventores de sua confiança, que receberam bastante autonomia para agir.

Na questão cultural, em uma época anterior à TV e Internet, jornais e revistas ainda eram meios de divulgação centrais. O rádio, que chegara no Brasil nos anos 1920, era uma febre. Durante o governo Vargas, ele se desenvolveu em todos os lugares do Brasil. Em cidades pequenas, a transmissão era feita através de alto-falantes, em praça pública. Outro meio de comunicação era o cinema, principalmente por conta dos cinejornais apresentados antes da atração principal. As salas de exibição eram muito mais numerosas do que hoje em dia. E o Estado Novo utilizou e controlou todos esses meios, sendo por isso considerado um Estado moderno, que fazia uso da tecnologia mais avançada em seu tempo. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em 1939, teve como objetivo em investir propaganda governamental, além de controlar, através da Censura, o que se dizia sobre Vargas e o Estado Novo. O DIP também tinha ligações com o Ministério da Educação e Saúde, que se responsabilizava pelas funções educativas nos meios de comunicação. A atuação da DIP levou a Radio Nacional a ser considerada como a primeira emissora com transmissão unificada para todo o território brasileiro. Nesta época, os cantores de rádio eram como atores de cinema e telenovela: estrelas idolatradas pelo público, com fã-clubes entre outros. Um outro bom exemplo da atuação do DIP é o programa de rádio A Hora do Brasil, que existe ainda hoje, mas com o nome de A Voz do Brasil.

Na área da educação, Capanema discordava de Anísio Teixeira, um teórico da Escola Nova. Anísio teve a oportunidade de reformular a rede educacional dos estados da Bahia e do Rio de Janeiro. Após o Estado Novo, Anísio passou a ser perseguido pelo governo, acusado de ser comunista, tendo que deixar o Rio de Janeiro, onde atuava. Por outro lado, Capanema recorreu a um equilíbrio entre suas ideias e a de Anísio. O Estado passou a bancar a educação que levou a criação da Universidade do Brasil, hoje UFRJ. No ensino secundário, foi privilegiada a educação técnica, voltada à formação de profissionais para a indústria e o comércio. Já na área da economia, o Estado Novo foi através da proteção do produto nacional, criando condições para o desenvolvimento industrial e agrícola. O café seguia sendo o principal produto de exportação, mas a crise de 1929 ainda mostrava seus efeitos. A solução foi buscar novos meios na área da agricultura, como o açúcar (que se desdobrava também no álcool). Mas o grande destaque foi a indústria. O Estado Novo passou a investir em indústrias de base, criando condições para o investimento de particulares. Foi criada a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Companhia Vale do Rio Doce (1942), Campanha Nacional de Álcalis (1943) e a Hidrelétrica de São Francisco (1945).

Por outro lado, a II Guerra Mundial colaborou bastante por dois motivos: 1 – As indústrias europeias se voltaram para os produtos de guerra, deixando o mercado interno brasileiro livre. / 2 – Os EUA decidiu estreitar laços concedendo empréstimos e facilitando o pagamento da dívida externa. Além disso, quando a II Guerra Mundial foi declarada, em 1939, Vargas tendia para o lado do Eixo, apoiando a Alemanha de Hitler. Tal escolha seria um grande golpe para os EUA que tendiam apoiar os Aliados. Por esse motivo, houve muitos esforços diplomáticos para que Vargas mudasse de ideia, incluindo a facilitação de pagar as dívidas externas e um empréstimo para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional. Então, Vargas escolheu apoiar EUA mandando tropas para a Europa, sobretudo para a Itália. Com o fim da guerra, Getúlio ficou em uma posição política delicada. Aqueles que haviam aceitado o Estado autoritário em nome da paz e da segurança já não percebiam mais a utilidade dessa forma de governo, acreditando que o país poderia continuar a se desenvolver de forma democrática. Diante das pressões, Getúlio convocou eleições e concedeu anistia aos presos políticos, permitindo a organização de partidos. O PCB, com Luís Carlos Prestes livre, voltou a atuar. Foram criados: a União Democrática Nacional (UDN), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Democrático (PSB). As massas se agitaram em prol da continuidade de Getúlio Vargas no poder, o que ficou conhecido como “Queremismo”, movimento apoiado pelo PTB e pelo PCB.

Antes que Getúlio desse um Golpe novamente, as forças da oposição se uniram, exigindo sua deposição, o que foi alcançado em 29 de outubro de 1945.

 

Resumo da Aula 03 – Populismo

Um dos conceitos mais utilizados para se referir ao Período Democrático (1946-64) é o de populismo. Devido a posição de Getúlio Vargas, alguns autores consideram que o Estado brasileiro pós-1930 é o núcleo inicial do populismo, que teria atingido o auge na década de 1950. O uso do conceito populismo tem sido criticado a partir da década de 1980. O principal foco das críticas é a ideia de que as massas de trabalhadores teria se deixado iludir, sendo manipuladas por seus líderes. O termo populismo deriva de população, tendo também ligações com popular (conhecido, famoso). Logo, o líder populista é aquele que se identifica com a população e, por isso, é reverenciado, causando comoções públicas. No Período Democrático, quase todos os presidentes podem ser considerados líderes populistas: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart (Jango).

O Período Democrático coincide com o início da Guerra Fria. A Guerra Fria envolveu praticamente dodos os países do mundo, embora alguns tenham tentado manter a neutralidade. As duas lideranças eram os EUA (capitalista) e a URSS (socialista), protagonistas na derrota da Alemanha na II Guerra Mundial. Um dos canais utilizados para a disputa era a ameaça mútua através das armas nucleares que, se utilizadas, poderiam gerar uma terceira guerra mundial. Mas como as armas não eram colocadas em ação – e, por isso, não “esquentaram” – a guerra foi assim batizada.

O término do Estado Novo representou o retorno das instituições democráticas ao país. Com a volta do pluripartidarismo, a população brasileira novamente poderia escolher seus representantes. Eurico Gaspar Dutra se candidatou pelo Partido Social Democrático (PSD), associado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Dutra não era carismático como Vargas. Porém, foi beneficiado pelas relações que os partidos tinham com o ex-Presidente. Apesar da promessa de um grande desenvolvimento para o país, no plano econômico o governo foi marcado pela abertura do mercado nacional aos produtos estrangeiros. Tal postura contrariava as propostas de seu partido, e foi responsável pela atração de empresas internacionais que se instalaram aqui. Entre os fatos principais de seu mandato estão:

  • A construção de duas rodovias, uma ligando São Paulo e Rio (Via Dutra), e a outra, o Rio à Bahia;
  • A proibição dos jogos de azar no Brasil, acabando com a tradição dos cassinos. Entre os mais famosos estava a Urca, no Rio de Janeiro, que tinha sido palco de grandes estrelas de 1940, como a Carmem Miranda;
  • A promulgação de nova Constituição, em 1946. A Carta não trazia novidades em relação à de 1934. Mas, entre as garantias institucionais da nova Carta, estava a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, a liberdade de associação, o abrandamento da Censura e a liberdade de manifestação religiosa;

Na eleição de 1950, Vargas chegou mais uma vez. Uma vez eleito, Getúlio procurou realizar uma aliança entre nacionalistas e liberais. Os primeiros, representados pelo PTB e PSD, acreditavam no fechamento da economia e no incentivo da indústria local, sob a tutela do Estado. Os outros, representados pela UDN, acreditavam no oposto: na abertura ao capital estrangeiro e na livre iniciativa, exatamente como Dutra havia feito. A criação da Petrobrás e da Eletrobras representaram a vitória da campanha e da visão do governo. Além disso, o ministro do Trabalho, João Goulart (Jango), propôs um aumento de 100% do salário mínimo, o que desagradou os empregadores e os liberais. Por outro lado, Carlos Lacerda, jornalista e político ligado à UDN, começou uma campanha aguerrida pela deposição de Vargas, tornando-se seu principal adversário político. Em agosto de 1954, houve um atentado frustrado à vida de Lacerda, e o major Vaz, que o acompanhava, acabou morrendo. Diante do incidente, o jornalista passou a acusar o governo pela tentativa de assassinato. A comoção foi imensa, sendo exatamente o que Lacerda precisava para aumentar a pressão contra o governo de Getúlio. No dia 24 de agosto, devido as tamanhas pressões, Vargas se suicidou em seu quarto, no Palácio do Catete. Ele deixou uma Carta Testamento alegando que uma campanha internacional estava armada contra o povo brasileiro, de quem ele era o defensor.

Os anos de 1940 e 1950 também foram marcados pela atuação dos modernistas em diversas áreas. Na pintura e na poesia, surgiu o Movimento Concreto. Em pintura, isto se manifestou pela utilização de figuras geométricas e cores básicas. Na poesia, pela repetição de palavras, com vistas a criar sentidos tanto através dos significados quanto das imagens. Também podemos destacar a fundação dos estúdios de cinema Vera Cruz e do Teatro Brasileiro de Comédia, o Museu de Artes de São Paulo e a primeira emissora de televisão do país – a TV Tupi. Enquanto São Paulo investia em uma arte refinada, o Rio de Janeiro ficava no entretenimento popular, como o teatro revista. Os estúdios Vera Cruz, de São Paulo, procuravam imitar a infraestrutura de Hollywood, produzindo dramas sofisticados. Por isso, foram bastante elogiados e incentivados na década de 1950. Por outro lado, a Atlântida, localizada no Rio e especializada em comédias populares, era muito criticada devido a aparência “boba” e pérolas de humor irônico.

O suicídio de Vargas causou uma comoção nacional. O jornal de Lacerda, Tribuna da Imprensa, foi depredado. O próprio Lacerda teve que se esconder, para não sofrer represálias. As agitações não cessaram logo, havendo muitos rumores de tentativas de golpe por parte da UDN. Por fim, pouco mais de um ano depois, Juscelino Kubitschek (JK) venceu as eleições presidenciais, tendo se candidatado pela coligação PSD-PTB (apoiada por uma frente esquerda). Porém, Carlos Lacerda ataca novamente para impedir a posse de JK, pois este não havia vencido por ampla maioria, o que não era exigido pela Constituição. A intenção golpista de Lacerda, sustentada por parte das Forças Armadas, foi sufocada por um contragolpe do ministro da Guerra, Marechal Lott, em novembro de 1955. Os eventos envolveram bombardeios, navios de guerra e o impeachment de Café Filho. Um estado de sítio se instaurou até a posse de JK, em 31 de janeiro de 1956. Além disso, o filme Rio, 40 Graus (1955), considerado o inaugurador do cinema moderno brasileiro, foi proibido pelo Chefe de Segurança Pública da capital, devido ao envolvimento do cineasta com o PCB, além de filmar favelas cariocas que eram consideradas ofensivas.

Com JK no governo, o slogan de sua campanha era “Cinquenta anos em cinco”, ou seja, 50 anos de progresso em cinco de governo, para tanto, foi elaborado um plano de metas de desenvolvimento, incluindo as áreas de transporte, energia, alimentação, indústria de base e educação. Além disso, JK prometeu construir uma nova capital para o país, a mesma que já constava na Constituição de 1891: Brasília. Então, JK decidiu abrir o país para a entrada de indústrias de produção de bens de consumo, de capital estrangeiro ou misto. O governo de JK facilitou o crédito financiado, incentivando o consumo, para aumentar as nossas reservas de dólar. Foi adotado o famoso “american way of life“, facilitando a compra de eletrodomésticos e de carros. Outra marca de JK é a opção pelo transporte rodoviário. Enquanto outros países contam com uma malha ferroviária bem desenvolvida, incluindo metrôs, o nosso país é atravessado por rodovias. Assim sendo, em 1950, a indústria automobilística lucrou bastante.

Brasília é considerada o grande feito de JK, pois, levando a capital para o interior do país, muitas pessoas passariam a ter que frequentar essa região. Logo, dois objetivos eram atingidos ao mesmo tempo: a ocupação do interior do Brasil e a construção de mais rodovias. Com a construção de Brasília, JK adotou o Modernismo como marca registrada de sua atuação. Por outro lado, sua construção atraiu milhares de trabalhadores pobres, vindos da região nordeste. Esses homens e suas famílias, fugindo da seca e da fome, permaneceram no entorno da capital, com a esperança de conseguir bons empregos. As cidades-satélites em que eles se instalaram logo se tornariam áreas de pobreza extrema. Enfim, poucos itens do Plano de Metas foram atingidos. A inflação e a dívida externa tinham subido. Mas, em 1960, quando a nova capital foi inaugurada, os brasileiros não queriam pensar nisso. JK foi batizado de “Presidente Bossa Nova”, uma referência ao novo ritmo surgido no fim dos anos 1950. Ser “Bossa Nova” significava ser moderno e sofisticado, mas também superficial.

Em 1960, Jânio Quadros foi eleito para a presidência. Embora conservador em termos políticos, Jânio mostrava-se aberto a uma renovação na forma de governar, prometendo “varrer” a corrupção do Brasil. O emblema da campanha era, justamente, uma vassoura de palha. Jânio foi o primeiro a governar em Brasília, embora boa parte da administração nacional ainda continuasse no Rio. Além disso, Jânio tomou decisões um pouco controversas como, por exemplo, a proibição do uso de biquíni nos concursos de Miss. Por outro lado, em plena Guerra Fria, Jânio se aproximou da URSS e de Cuba, recém-convertida ao socialismo. O revolucionário Che Guevara veio a o Brasil receber a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, distinção de honra concedida pelo governo do Brasil a estrangeiros. Este lance desagradou a muitos. E, novamente, Lacerda entra em cena discursando em cadeia nacional, pelo rádio e pela TV, acusando Jânio de golpista no dia 24 de agosto de 1961. Por coincidência, era o mesmo dia em que Getúlio tinha se suicidado. No dia seguinte, Jânio se renunciou.

Devido a renúncia de Jânio, deveria assumir o vice, João Goulart. Mas João Goulart não era visto com bons olhos pelos conservadores da UDN, que o viam como uma ameaça por suas convicções trabalhistas ligadas a linhagem da esquerda. Isso ocorreu desde o governo Vargas, quando era ministro do Trabalho, passando para vice-Presidência durante o governo JK. Para piorar a situação, como parte estratégica diplomática de Jânio, João Goulart estava em visita diplomática à China, um país comunista. Sendo assim, os ministros militares queriam vetar a posse do Presidente. Leonel Brizola, cunhado de Jango, lançou a “Campanha da Legalidade”, convocando a população a lutar pela manutenção das instituições democráticas que garantiam a posse. O Congresso passou a adotar o Parlamentarismo, onde o Presidente não governa, mas, sim, o Primeiro-Ministro. Jango permaneceu no poder, mas não o exerceu de fato até 1963, quando um plebiscito decidiu pela volta ao Presidencialismo. Em seguida, Jango anunciou as Reformas de Base, que englobavam reforma agrária, bancária, tributária e educacional. Em resumo, mostrava-se descaradamente que era um governo de esquerda. O anúncio das reformas veio ao encontro dos jovens intelectuais e artistas que acreditavam em uma revolução socialista no país, e que somente ela poderia corrigir as injustiças sociais. Ao longo do ano de 1963, surgiram algumas rebeliões das Forças Armadas, criando uma situação tensa para o governo. Havia rumores de que Jango preparava um Golpe de esquerda, junto com os baixos escalões das Forças Armadas. Em 13 de março de 1964, ocorreu o Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Cerca de 150 mil pessoas compareceram em apoio ao Presidente.

O Comício da Central foi considerado a gota d’água pelos conservadores, que se articulavam para tirar o Presidente do cargo. Era um conjunto vasto de pessoas e instituições, que se uniram aos militares para arquitetar o Golpe, que chegaria em 1 de abril de 1964. Jango não resistiu. Os brasileiros ainda não sabiam, mas o Período Democrático havia acabado.

 

Resumo da Aula 04 – Imprensa, Democracia e Conflitos Sociais

Certamente, a história da Imprensa no Brasil é bastante diversificada. O Período Democrático (1946-64) foi marcado pela liberdade de associação e direito ao pluripartidarismo mas, por trás disso, estava a perseguição ao comunismo. A imprensa é justamente uma das áreas que nos permitem entender bem esse processo histórico. Estando livres da Censura, jornais e revistas ousaram mais na defesa de opiniões. Por conta disso, o combate político se tratava intensa e explicitamente através desses veículos, que ajudavam a identificar a posição social e o corte ideológico de quem os lia. Já na segunda metade da década, coincidindo com o governo JK, a impressa passou por uma modernização radical. A identidade visual dos veículos foi repensada, havendo maior investimento nas fotografias e na cor. A revista O Cruzeiro foi um marco nessa área, sendo reconhecida pelo design sofisticado. Outro ponto de mutação do período foi a busca da objetividade, quando os jornais passaram a perseguir uma apresentação “neutra” dos fatos, deixando as disputas políticas de lado. Por outro lado, mesmo que os ataques e defesas de cunho político fossem evitados, os jornais não deixaram de ter preferências.

O jornal Última Hora apoiava o Presidente Vargas constantemente, mesmo nos momentos mais difíceis que antecederam o seu suicídio. Contudo, pouco depois de seu lançamento, um escândalo atrapalharia a vida do jornal. Samuel Wainer, dono do Última Hora, foi acusado de receber favores do governo, sobretudo na compra de papel-jornal. Em resumo, o jornal era acusado de ser um órgão oficial do governo Vargas, disfarçado de empresa privada. Logo, uma campanha difamatória foi lançada. A ideia da campanha era expor a má qualidade do jornal. Afinal, ao se evidenciar que o apoiador de Vargas era de baixo nível, o próprio Presidente seria indiretamente atacado.

Desde que lançaram o jornal Tribuna da Imprensa, seu líder, Carlos Lacerda, reforçava, como jornalista, o perfil conservador que tinha como político. E os leitores da Tribuna da Imprensa, em sua grande maioria de classe média e alta, seguiam tal perfil. Ou seja, o conservadorismo era de cunho moral e, também, ideológico. Como exemplo desse posicionamento, vale dizer que a campanha “O petróleo é nosso”, lançado por Vargas, sofreu muitas críticas nas páginas desse jornal. Nesse embate, Getúlio só teve apoio do Ultima Hora. Afinal, quase todos os outros jornais receberam incentivos em dinheiro de empresas norte-americanas para defender o liberalismo e a livre-iniciativa. Por certo, a maior batalha foi o atentado onde Lacerda saiu ferido e o major Vaz, morto. Foi através da Tribuna que Lacerda acusou o Presidente pelo evento, exigindo sua renúncia. Sendo assim, após o suicídio de Vargas, a Tribuna foi atacada por nacionalistas, que chegaram a invadir e depredar sua sede.

Dentre os detentores de grandes redes de comunicação, Assis Chateaurbriand era o mais poderoso do Período Democrático. Conhecido como Chatô, começou sua trajetória como empresário das comunicações na década de 1920, crescendo bastante ao longo da Era Vargas. Contudo, somente nos anos 1950 os Diários Associados alcançariam maior sucesso, com dezenas de jornais, revistas, emissoras de rádio e TV em todo o Brasil. Com a morte de Chatô, em 1968, o  “império” começaria a desmoronar. Recuperado da crise, existe ainda hoje, mas não com as mesmas características. Como exemplo deste desmoronamento, é a extinção da TV Tupi e a revista O Cruzeiro. A modernidade de O Cruzeiro foi um marco do jornalismo brasileiro. Foi nos anos 1950 que se deu o auge de sua modernização. Já no fim da década, a revista adotou o termo “Bossa Nova”, aplicando-o a diversos produtos, chegando mesmo a associá-lo com sua própria imagem. Por outro lado, a TV Tupi, a primeira da América Latina, havia sido inaugurado em 1950 e, ao longo da década, ainda buscaria seu espaço entre os brasileiros. A TV Tupi também fazia parte dos Diários Associados de Chatô. Os poucos aparelhos existentes no país pertenciam às pessoas de posses, já que eram muito caros. Isso dificultava a popularização dos programas, acessíveis a poucos espectadores. Juscelino Kubitschek chegou a inserir uma cláusula na concessão de emissoras de radio e TV: aquelas que autorizassem insultos a figuras públicas ficariam suspensas por um mês. Essa cláusula é devido aos discursos de Lacerda nas emissoras com sua base de maestria em matéria de oratória. Na segunda metade da década, os jornais brasileiros passaram por um intenso processo de modernização, encabeçado pelo Diário Carioca, logo seguido pelo Jornal do Brasil. Até o fim da década, todos os jornais de grande circulação no país os haviam acompanhado.

Enfim, a era dos grandes embates entre jornais, como o que ocupou a Tribuna da Imprensa e o Última Hora, havia ficado para trás. Contudo, a defesa de ideias e de posicionamentos políticos nunca deixaria de compor as páginas dos periódicos nacionais.

 

Resumo da Aula 05 – O Golpe de 1964 e a Ditadura Civil-Militar (1964-1974)

O conceito “Civil-Militar” é de acordo com interpretações recentes sobre a ditadura que vigorou no país entre 1964 e 1985. Os agentes que participaram do Golpe de 1964 e que contribuíram para que a ditadura sobrevivesse por 21 anos, a maioria eram civis e não militares. Logo, para que a ditadura acontecesse e fosse sustentada, foi necessário que parte da sociedade concordasse com ela, conferindo-lhe “consentimento”. O caso da palavra “Civil-Militar” de maneira alguma absolve os militares. Trata-se apenas do reconhecimento de que eles não estavam sós.

Desde 1955, as forças democráticas estavam abaladas no Brasil. A UDN, principal partido conservador do período, apoiada pelas Forças Armadas, tentou impedir a posse de JK, sobretudo devido ao vice, Jango. O parlamentarismo serviu como paliativo por algum tempo, até que um plebiscito retomou o presidencialismo, recolocando Jango no lugar. Foi então que ocorreu o Golpe de 1964, levado adiante pelos militares. A UDN foi apoiada por outros partidos como o PSP e o PSD. Além disso, houve suporte intelectual por parte de órgãos privados, como o IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática); setores da Igreja Católica (como a CNBB) e diversos agentes, atuando principalmente através da mídia. O governo norte-americano de John Kennedy, preocupado com a falta de participação do Brasil na política de bloqueio a Cuba, também participou do Golpe, através de seu serviço diplomático e oferecendo apoio militar. Após o Golpe, os militares no poder se justificavam através da ideia de “salvação” da democracia e do cristianismo, contra o comunismo ateu. Como Jango não resistiu ao Golpe, a Presidência foi declarada vaga pelo congresso. Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu o cargo até a eleição, pelo Congresso, de Castelo Branco, ainda no mês de Abril, mês do Golpe. Também foi redigido um Ato Institucional (AI) como forma de emenda à Constituição de 1946. O AI deu amplo poderes aos militares para intervirem na organização política do país.

As ligas camponesas estavam organizadas na luta pela reforma agrária. Os sindicatos e a UNE estavam comprometidos como trabalhismo e com ideias políticas de esquerda. Logo, eram associações identificadas com o governo Jango, e por isso, precisavam ser punidas e neutralizadas. Tais atitudes eram apresentadas pelos militares como uma “limpeza” na política nacional. Para convencer a população, propagavam a ideia de que as Forças Armadas eram uma espécie de “poder moderador”, que precisava entrar em ação todas as vezes que a situação política do país beirava o caos. Assim que “limpassem” tudo, diziam, haveria novamente eleições no Brasil. Por outro lado, o pessoal da Linha Dura temia as eleições, acreditando que o Brasil poderia dar um “passo atrás”, com o retorno das antigas lideranças de esquerda. No fim do ano seguinte, a oposição venceu em cinco estados. Diante disto, a Linha Dura passou a liderar o governo decretando o AI-2, que suspendeu as eleições presidenciais de 1966, decretando eleições indiretas para Presidente. Além disso, o pluripartidarismo foi substituído pelo bipartidarismo. Agora, os políticos poderiam se aliar à Arena (Aliança Renovadora Nacional) ou ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro), de oposição. Em seguida, vieram o AI-3, que decretou eleições indiretas para as prefeituras das capitais e para os governadores, e o AI-4, que transformou o Congresso em Assembleia Constituinte. Diante de tantas mudanças, alguns líderes civis que haviam apoiado o Golpe se voltaram contra os militantes, como os antigos governadores Carlos Lacerda e Adhemar de Barros. Muitas outras pessoas e instituições que apoiaram o Golpe também mudaram de ideia.

Seguindo o AI-2, o general Costa e Silva foi eleito indiretamente para a Presidência da República. Assim que assumiu, foi outorgado a Constituição de 1967, que agregava os AI, aumentando os poderes nas mãos do Executivo, ou seja, do Presidente. No Plano Econômico, de cunho liberal, tratava-se do Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), conseguindo conter a inflação, que vinha crescendo no Período Democrático, mas não foi acompanhada por benefícios sociais.

No ano de 1968, muitos eventos importantes aconteceram no mundo como a Primavera de Praga, o Movimento Hippie (Woodstock), as barricadas nas ruas de Paris, entre outros. Na América Latina, este ano também foi muito significativo, especialmente no México e no Brasil. Em nosso país, tivemos uma explosão de protestos estudantis contra o estabelecimento da ditadura. Em dezembro de 1968, o general Costa e Silva decretou o AI-5, fechando o Congresso, suspendendo direitos políticos e civis. Em 1969, como o general Costa e Silva estava doente, deveria assumir o vice, Pedro Aleixo. Este era um dos políticos aliado à UDN e que havia apoiado o Golpe. Contudo, após o aumento da repressão, Aleixo também passou à oposição. Por conta disso, os militares impediram a sua posse colocando Emílio Garrastazu Médici. Evidentemente, Médici era um general de “linha dura”, o que tenderia a aumentar ainda mais o nível de violência cometida pelo Estado no Brasil.

Entre 1969 e 1974, o país viveu o período de maior repressão por parte da ditadura. Centenas de pessoas foram presas e torturadas. O AI-5 havia anulado o direito de habeas corpus de presos políticos, o que permitia ao Estado torturar e matar, sem que tais crimes fossem averiguados. Foram tempos que conhecemos como “Anos de Chumbo”. O ufanismo no Brasil reunia aspectos positivos em um conjunto para investir em altas doses de propaganda política. A vitória do Brasil na Copa de 1970, por exemplo, foi usada como uma prova irrefutável de que o país estava no caminho certo. Para ajudar no clima ufanista, o Brasil entrou em uma fase de crescimento das finanças, conhecido como “Milagre Econômico”, resultado do PAEG. Contudo, o fenômeno também foi auxiliado pelo investimento do Estado na economia, voltando à era das empresas estatais, embora mantendo parcerias com empresas privadas. Este era o objetivo do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), lançado em 1972. Lembrando que a economia estatal era defendida por Jango e fortemente criticada no período do Golpe. Outros aspectos dessa economia foram os altos investimentos em obras públicas de grande porte, como a rodovia Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói.

Do outro lado do ufanismo, estava a resistência. Houve uma opção radical escolhida por jovens que militavam no PCB, ainda na ilegalidade: a luta armada. O PCB se dividiu, surgindo o Partido Comunista do Brasil (PC do B), que passou a investir em guerrilhas rurais. O número de movimentos de guerrilha rural e urbana cresceu bastante a partir de 1968, justamente nos Anos de Chumbo. Entre os movimentos, estavam a Aliança Libertadora Nacional (ALN), a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR-Palmares), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e a Ação Popular, única de inspiração católica. A Igreja Católica que apoiava o golpe se dividiu. De um lado, os conservadores, que continuaram a dar o apoio. De outro, a Teologia da Libertação, que não separava a luta política da vivência religiosa, passando à oposição. Outra oposição (menos radical) foram as artes. Através da música, do cinema, do teatro, da literatura e das artes plásticas, tanto os artistas quanto seu público se comprazia em protestar contra a ditadura. A ideia de que os moradores das áreas mais pobres, nas cidades e nos campos, estavam mais próximos da “essência da nacionalidade”, por não terem sido contaminados pela modernidade. A estas manifestações artísticas chamamos “nacional-populismo”. Tais ideias eram propagadas, desde a década de 1950, pelo Instituto de Estudos Brasileiros (ISEB). Um dos lugares que sofreu influência do ISEB foi a UNE. Através do Centro Popular de Cultura (CPC), foram produzidos filmes, peças, exposições e livros, todos procurando apresentar os brasileiros a eles mesmos. Também surgiram o Tropicalismo, liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, e a Jovem Guarda, com Roberto e Erasmo Carlos à Frente. O Tropicalismo era marcado pela experimentação, com letras que também eram politizadas, mas de conteúdos mais cifrados, às vezes difíceis de entender. Já a Jovem Guarda era considerada alienada, despolitizada, na época, mas hoje se percebe o quanto de rebeldia juvenil, marcada pela revolução dos costumes, ela ajudou a moldar e divulgar.

 

Resumo da Aula 06 – Redemocratização (1974-1988)

Em 1973, o Brasil ainda estava sob a ditadura civil-militar. Neste ano, foi eleito para a Presidência (indiretamente) o general Ernesto Geisel, que daria início ao processo de abertura política – ou seja, a ditadura teria fim. Devido a uma crise internacional causada pela alta do preço do petróleo, a economia brasileira sofreu um grande baque. O “Milagre Econômico” na Ditadura Militar dependia de um contexto internacional favorável, e que não se sustentaria. O II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) procurou dar continuidade ao primeiro PND, tentando, em vão, contornar a crise. Em paralelo ao insucesso financeiro, estava o vazamento de informações sobre as prisões, torturas e assassinatos ocorridos ao longo da ditadura, sobretudo durante os Anos de Chumbo. Um caso exemplar foi a morte do jornalista Vladimir Herzog. Em 1975, foi anunciado oficialmente seu suicídio, mas uma investigação apontava incongruências da versão oficial. Como a polícia política não teve como refutar a denúncia, o caso virou notícia nacional, causando muita comoção. Levantamentos recentes apontam mais de 400 casos de “desaparecimentos”, um número que ainda pode aumentar.

Então, com a crise do “Milagre Econômico” e constantes denúncias de tortura e assassinato, a maioria dos brasileiros passa a desejar que a ditadura acabe. Daí a explicação para o processo de Abertura. Ainda no governo Geisel, o AI-5 seria revogado. Isto significava que muitos dos direitos civis e políticos que os brasileiros haviam perdido em 1968 eram agora recobrados. Os brasileiros saíram às ruas exigindo mudanças, e isto depois de dez anos reprimidos. A campanha pela Anistia exigia o perdão dos crimes políticos, mas também o fim da repressão e, sobretudo, da impunidade. Com a chegada do general João Figueiredo à Presidência, em 1979, a lei de Anistia foi imediatamente votada e aprovada. Figueiredo daria continuidade à política de Abertura iniciada no governo Geisel. Enfim, o Brasil poderia vivenciar a emoção com a volta dos exilados e a libertação de alguns presos. Contudo, os condenados por envolvimento com a luta armada ainda não teriam a anistia. Além disso, os torturadores recebiam anistia junto com aqueles que haviam torturado.

Em relação as artes e a mídia, as pretensões dos artistas eram se comprometer com o nacional-populismo já que a Censura ainda não estava sistematizada. Depois de 1968, a repressão sobre a arte aumentou bastante. Compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil tiveram muitas canções proibidas ou foram obrigados a mudar alguns versos. Os três – entre muitos outros artistas – foram para o exílio, mas voltaram ainda no início dos anos 1970. Cálice é uma canção de Chico Buarque, uma canção escrita em 1973, mas só foi exibida ao público em 1978. O Cálice era uma canção censurada e a sua exibição é fruto da política de Abertura. Por outro lado, já menos comprometida com as ideias nacional-populistas, se destacam os grupos Oficina e Arena em São Paulo, onde preferiam focar na crítica velada à ditadura. Com peças altamente politizadas, procuravam chamar o público à interação, com fins de conscientizá-lo da realidade política brasileira, em um método de encenação conhecido como “brechtiano (por seguir ideias de Bertolt Brecht). A marginalidade foi uma das ideias mais fortes em determinada vertente artística dos anos 1970. Alguns movimentos adotaram o termo como Cinema Marginal e Poesia Marginal. Também temos o rádio e a TV que sempre agiram a partir de posicionamentos políticos. Durante a ditadura, houve canais que sempre apoiavam o governo, recebendo benefícios por conta disso, e haviam aqueles que ousavam burlar a Censura. Por outro lado, a mídia era uma arma perigosa se fosse utilizada para educar, em vez de apenas entreter. O ano de 1976 foi o primeiro em que o Brasil parou por conta de um final de novela. Todos queriam saber o destino de Carlão, o protagonista interpretado por Francisco Cuoco. Para o regime militar, uma novela como esta era bem mais interessante, pois enquanto o povo esperava pelo último capítulo, ninguém pensava na política. Também tivemos a onda dos “discos”, produzida nos EUA, que suplantou a música brasileira, não apenas nas boates, mas também nas paradas de sucesso das rádios. As discotecas foram um dos lugares que favoreceram a popularização do uso das drogas sintéticas e da cocaína, outra válvula de escape para o clima repressivo da ditadura. No início dos anos 1960, era comum o uso da maconha, como forma de contestação da “moral e dos bons costumes”. Ela entrava no pacote junto com o uso da minissaia, o abandono do sutiã e o sexo antes do casamento.

O movimento parcialmente vitorioso em prol da Anistia animou os brasileiros, que começaram a se mobilizar para exigir a volta das eleições diretas para Presidente. Por isso o nome do movimento que ganhou força em 1984 se chamava “Diretas Já”. A ideia era que as eleições presidenciais, em 1985, já se realizassem com voto popular. Um processo fundamental para entendermos as pressões pela Abertura são as greves do ABC paulista, iniciadas no fim dos anos 1970 e ganhando força nos anos 1980. Os operários da região do ABC, liderados por Luís Inácio Lula da Silva, mais conhecido como Lula, mobilizaram o apoio nacional da população. Os conservadores da Arena foram para o Partido Democrático Social (PDS), liderado por José Sarney, ex-UDN e fiel ao regime. O MDB, a única oposição, transformou-se em Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). O PMDB, contudo, não abarcou todas as ideias de esquerda. Os políticos liberais de centro fundaram o Partido Popular (PP), enquanto a bancada trabalhista se dividiu em PTB, PDT e PT. O PTB ressurgiu com força concentrada em São Paulo. O PDT, sob a liderança de Leonel Brizola, plantou bases no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. E o PT, sob a liderança do Lula, se articula em torno dos sindicais, atraindo também socialistas e grupos de esquerda não reformista. Muitas figuras levantaram a bandeira da Redemocratização, ganhando destaque nos anos 1980: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Teotônio Vilela e Lula. Como todos os Presidentes durante a Ditadura Militar eram militares filiados à Arena, logo, o candidato do PMDB se tornaria o favorito. Tancredo Neves foi escolhido por sua moderação política, e a escolha do vice foi José Sarney, que fora líder da Arena e agora é presidente do PDS (partido que substituiu a Arena). Tancredo Neves foi eleito acenando para uma definitiva transição entre a ditadura e a democracia. Mas, para a decepção dos brasileiros, Tancredo adoeceu, vindo a falecer antes de assumir o cargo. Desse modo, José Sarney, mais identificado pela ditadura, se tornaria o primeiro Presidente civil do período. Contudo, não deixou as promessas de Tancredo de lado, vindo a Constituição.

Depois das AIs e da Constituição autoritária de 1967, finalmente o Brasil teria uma Constituição que novamente prezasse a democracia. Ulysses Guimarães, líder da Assembleia Nacional Constituinte, batizou a nova carta de “Constituição Cidadã”, devido ao fato de garantir direitos políticos e civis negados durante 21 anos. Até hoje, é esta a Constituição do Brasil, o que indica a continuidade institucional desde a Abertura. Ou seja, a democracia vem sendo mantida pelos sucessivos governos desde então. Por outro lado, o governo Sarney foi marcado pelas altas inflações, atingido níveis assustadores. Os preços aumentavam, literalmente, da noite para o dia. O trabalhador, quando recebia seu salário, corria para fazer a compra do mês, pois no dia seguinte o dinheiro já valia menos. Por conta disto, governo investiu no Plano Cruzado, criando uma nova moeda e investindo no congelamento de preços. O Cruzado valia mil Cruzeiros, que era a moeda antiga. Além disso, o governo garantiu o recebimento adiantado do salário, estimulando o consumo. Mas, em 1986, o plano já dava mostras de desgastes, fazendo faltar produtos nas prateleiras e levando pequenos comerciantes à ruína. A tentativa do Plano Cruzado II de restabelecer a normalidade econômica, levou novamente às altas taxas de inflação, que assim permaneceram até o fim de seu mandato. Por outro lado, o governo Sarney cumpriu tudo que se esperava de um governo comprometido com a Abertura. A nova Constituição estabeleceu as eleições diretas, o voto dos analfabetos e o voto facultativo para jovens entre 16 e 18 anos. Também consolidou o fim da Censura nas artes e meios de comunicação.

 

Resumo da Aula 07 – O Brasil Contemporâneo (1989-2013)

Os sucessivos planos econômicos do governo Sarney não tinham dado conta de resolver os problemas básicos da população, sobretudo a mais pobre. Foi este o clima das eleições de 1989, as primeiras em que os brasileiros iriam escolher um Presidente desde 1960! Diante de tamanha responsabilidade, o temor de errar era grande. A maioria dos partidos se apegou a candidatos que foram contra a ditadura militar, ou que tinham se destacado pela guarda da democracia no governo Sarney. No entanto, foram dois candidatos sem grandes antecedentes políticos que se destacaram: Lula, pelo PT, e Fernando Collor de Mello, pelo PRN. Lula surgia como uma liderança de esquerda, associado a ideia de busca por justiça social. Caso eleito, sua origem pobre e pouca escolaridade soaria como uma espécie de justiça social, uma correção dos erros históricos do país. Por outro lado, se políticos experientes e bacharéis não conseguiram domar o Brasil, como se sairia um metalúrgico bem-intencionado? A ideia era de que os brasileiros construíssem, de fato, uma República nova, sustentada sobre bases inovadoras. Então, Collor preferiu fazer uma campanha baseada na novidade e no aceno de incursão do país ao Primeiro Mundo. Collor era a “cara do futuro” e desfrutava das possibilidades que oferecia a todos os brasileiros na campanha: usava jet-ski, motos, celulares, etc. Collor venceu as eleições com 28% dos votos, enquanto Lula ficou com 16%.

Já no início de seu mandato, o Presidente surpreendeu a todos com medidas radicais de intervenção na economia através do Plano Collor. A ministra Zélia Cardoso de Mello ficou tão conhecida quanto o Presidente, embora sua popularidade estivesse associada a valores negativos. O Plano Collor apontava para uma proposta neoliberal, “vendendo” o país às empresas multinacionais; e, também, agia de forma autoritária, como os ditadores que estavam há pouco no poder. Apesar de tais impactos, o Plano, seguido do Plano Collor 2, conseguiu diminuir a inflação, abrindo mercado para produtos importados. Com uma moeda forte – a volta do Cruzeiro -, uma parte dos brasileiros conseguia ter acesso às “maravilhas” do Primeiro Mundo. Com o tempo, a inflação voltaria a crescer, a indústria nacional sofreria o impacto da concorrência dos importados, os salários diminuiriam e o desemprego aumentaria. Por outro lado, no ano de 1992, uma série de denúncias de corrupção por parte do Presidente começou a ser confirmada. Diante disso, a sociedade se mobilizaria novamente e se prepararia para tomar as ruas. O Impeachment então foi concretizado, mostrando ser uma prova de que a democracia tinha realmente voltado e que os gritos de descontentamento eram ouvidos.

Após o impeachment, assumiu o vice Itamar Franco. Um dos temas que mais chamaram atenção em seu governo foram as declarações ambíguas sobre as privatizações, que dividia nacionalistas e liberais, sem que o Presidente tomasse partido. O escândalo conhecido como “os Anões do Orçamento”, outro ponto negativo, era um caso que envolvia a corrupção de deputados federais favorecidos com propinas para repassar verbas públicas para empresas privadas. Por outro lado, no plano econômico, o ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso (FHC), filiado ao PSDB, lançou o Plano Real, que conseguiu resgatar a saúde da economia do país, controlando a inflação. O sucesso do Plano Real foi tão grande que FHC conseguiu vencer no primeiro turno das eleições de 1994. Por outro lado, as privatizações que tinham começado no governo Collor, iriam continuar com força total. O Real se manteve como uma moeda forte, diferentemente das novas moedas criadas nos planos econômicos anteriores, o que favoreceu o investimento de indústrias internacionais no país. O Presidente também investiu na ideia de Estado Mínimo, seguindo o direcionamento do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ou seja, o Estado deveria se manter limitado à área administrativa, abandonando setores como energia, comunicações, saúde e educação. Outra marca registrada no governo FHC, foi a parceria com as Organizações Não Governamentais (ONGs) na administração das questões sociais. Em vez de esperar por um Estado que, na maioria dos casos, se mostrava indiferente, muitos começaram a se organizar para gerir assuntos que lhes diziam respeito – e assim foram surgindo as ONGs. Se no início dos anos 1990 as ONGs surgiam como uma solução inovadora e plena de credibilidade, já nos anos 2000 sofriam com denúncias sobre desvio de verba pública para ONGs que nada faziam a não ser receber dinheiro. Uma das áreas de parceria entre governo e ONGs que surtiu bom resultado foi o combate à AIDS. A epidemia mundial iniciada nos anos 1980 tinha atingido números altíssimos em nosso país no final dessa mesma década. O governo FHC investiu no controle da epidemia, através do fornecimento público de coquetéis e da propaganda de prevenção. Outro destaque do período foi a popularidade dos telefones celulares, da TV por assinatura e da internet que cresceu aceleradamente no final dos anos 1990. Não é a toa que o Brasil é um dos campeões de uso das redes sociais, que vêm se mostrando como um meio bastante eficaz de mobilização política.

No ano de 2002, Lula chegou no poder não mais como sindicalista de esquerda, mas como um líder carismático que mostrava capacidade de dialogar com a oposição. O abraço entre Lula e FHC no momento da transmissão da faixa presidencial, é uma imagem bastante simbólica. Tratava-se de uma passagem sem rupturas ou traumas, o que se confirmariam ao longo dos dois mandatos de Lula. Foi um marco na história da democracia brasileira, um ex-operário e líder sindical chegar na Presidência. Embora tenha conseguido mais de 60% dos votos, Lula ainda causava receios em parte da população. O principal é em relação à imagem do Brasil no mundo, com um Presidente que não se notabilizou pela linguagem complexa e intelectualizada. Seria um grande contraste com FHC, sociólogo e professor universitário. Na economia, o governo Lula se notabilizou por conseguir manter a estabilidade do Real e o controle da inflação. A descoberta do petróleo na área do pré-sal, entre outras novidades, fortaleceu a economia, uma das poucas que não se abalou com a crise internacional de 2008. O fluxo de privatizações diminuiu consideravelmente, enquanto que o Estado voltava a investir em áreas que havia abandonado nos governos anteriores. As classes C e D ascenderam, ganhando melhores condições de vida e maior poder de consumo. Os programas Bolsa Família e o Fome Zero, além de construção de universidades e a adoção de cotas raciais, causaram muita repercussão no governo Lula. Muitas pessoas viram como aspectos demagógicos sem nada resolver de fato. Ao longo dos mandatos, surgiu uma série de escândalos envolvendo o PT como, por exemplo, o mensalão. O impacto destes escândalos foi imenso, sobretudo entre aquelas pessoas que apoiavam o partido há anos. De repente, as pessoas ouviam notícias semelhantes às que haviam abalado o governo Collor, mas desta vez atingindo o PT.

Ao fim do mandato, Lula apontou Dilma Rousseff, Chefe da Casa Civil de seu governo, com sua sucessora. Então, em 2010, os brasileiros elegeram a primeira mulher à Presidência da República, mantendo o partido no poder. Embora não tenha o mesmo carisma de Lula, em 2011 e 2012, a Presidente atingiu um nível de popularidade até mesmo maior que o de seu antecessor. A continuidade das políticas sociais de Lula, além de alguns avanços no sentido da consolidação dos Direitos Humanos no Brasil, explicava estes resultados. No campo dos Direitos Humanos, o governo se preocupou em abrir os arquivos secretos da ditadura civil-militar, procurando desfazer injustiças históricas. A continuação das denúncias envolvendo o PT e as altas taxas de inflação, contudo, abalaram a recepção positiva que Dilma vinha tendo. Além disso, em 2013, uma onda de protestos se espalhou pelo país, inicialmente contra o aumento das passagens, mas logo ganhando outros significados tais como: a presença de religiosos no governo, os altos gastos e desvio de verbas nas obras monumentais realizadas para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas, em 2016. O fenômeno destas manifestações é ainda muito recente e seria arriscado interpretá-los em termos absolutos.

 

Resumo da Aula 08 – A Questão Agrária (1930-2013)

No governo Vargas, havia uma grande preocupação em investir no campo, já que a economia brasileira ainda era baseada em produtos agrícolas. Porém, Vargas não analisou o outro lado – a situação do trabalhador rural. Uma das principais causas do êxodo rural era a não aplicação da legislação social ao campo. O trabalhador rural se sentia ignorado e desamparado. Sem educação, sem saúde, sem transporte e crédito, e somente aqueles que não conseguiam migrar que continuavam no campo. Em seguida, quando Vargas percebeu a organização das grandes cidades do Sudeste juntamente com o crescimento das favelas no Rio de Janeiro e dos bairros pobres em São Paulo, passou a demonstrar uma certa preocupação com o trabalhador rural. As ideias do governo Vargas passaram a favorecer o produtor que, estando bem amparado, produziria mais e melhor. Por outro lado, ainda havia uma total ausência à reforma agrária e os patrões acreditavam que o trabalhador rural, tendo acesso a educação e saúde, seriam mais perigosos, pois seriam mais ativos politicamente.

Quanto a doação de terras, ela aconteceria em áreas pouco povoadas, conhecido como “Marcha para o Oeste”, cuja proposta era ocupar o Centro-Oeste brasileiro, até pouco conhecido e povoado. Tais terras eram destinadas tanto a trabalhadores da região como aos imigrantes sem emprego nas cidades. Boa parte da política de Vargas para o campo estava associada ao problema da imigração. A zona rural, sobretudo do Nordeste, vinha sendo trabalhada pela arte como um espaço de “reserva da brasilidade” desde o início do século XX, com o lançamento de Os Sertões, de Euclides da Cunha. A lógica era associar uma linguagem experimental com temas locais, de forma que o conjunto da obra pudesse dar conta de uma brasilidade ao mesmo tempo original e moderna. Contudo, não estavam de fora dessa operação as preocupações sociais. Muitos escritores regionalistas, como Rachel de Queiroz e Jorge Amado, lançaram um olhar politizado sobre o campo. A literatura era capaz de fazer denúncias que não eram explícitas. Por outro lado, tais denúncias não se destinavam ao trabalhador rural (analfabeto, na maior parte das vezes), mas aos brasileiros da classe média das cidades. A ideia de uma arte que pudesse se dirigir diretamente aos excluídos só surgiria mais tarde, no fim do Período Democrático.

Um momento em que a situação precária dos trabalhadores ficou evidente foi a construção de Brasília no governo JK. Ao mesmo tempo em que JK investia na construção do futuro com uma nova capital modernista, os trabalhadores que chegavam para as obras eram migrantes, sobretudo nordestinos. Ao mesmo tempo em que uma cidade modernista nascia, ao fundo, haviam claros sinais de pobreza entre aqueles que erguiam a nova capital. O “candango”, aplicado aos trabalhadores que construíam Brasília, indica uma visão bastante pejorativa sobre os migrantes. Aos poucos, os candangos passariam a morar nas cidades-satélites (em torno da capital), formando núcleos de extrema pobreza e carestia nas bordas do centro administrativo do país. Com o tempo, o termo “candango” perdeu o sentido pejorativo, sendo aplicado a todos que nascem na cidade. A postura que os artistas tinham com o nacional-populista, viam os brasileiros mais pobres como os depositários da nacionalidade. Contudo, no lugar de apenas apreenderem as características nacionais e/ou fazer a política através da obra de arte, os artistas também investiam na politização do público.

Quase no fim do Período Democrático, a situação dos trabalhadores só se agravava. O mais grave desta situação é que, até a década de 1960, os trabalhadores rurais eram a maioria dos trabalhadores no Brasil. Ao mesmo tempo, mantinha-se a relação desigual na posse de terras, com alta concentração das terras nas mãos de poucos. Ou seja, o Brasil precisava urgentemente de uma reforma agrária. João Goulart se preocupava com diversas reformas no Brasil que levou ao Golpe de 1964. Entre suas ações, o Estatuto do Trabalhador Rural lançado em 1963, previa a extensão dos direitos trabalhistas ao campo. Entretanto, o Estatuto foi recebido de forma agressiva pelos donos de terra, que começaram a expulsar os trabalhadores que exigiam seus direitos, aumentando ainda mais o êxodo rural. Com efeito, surgiram as Ligas Camponeses, iniciadas no interior do Pernambuco. As Ligas começaram com a tentativa dos trabalhadores rurais de uma fazenda em se organizarem através de cotas, para alcançar benefícios que as leis não garantiam. Acusados de “comunistas” e impedidos de se organizarem, procuraram ajuda na cidade, com o advogado Francisco Julião, que seria reconhecido como líder. Através das ações de Julião, a Fazenda seria desapropriada em 1959, resultando em uma vitória significativa para os trabalhadores rurais. Rapidamente, a ideia das Ligas se espalhou pelo nordeste. Neste contexto, a Revolução Cubana acabara de ser realizada com forte participação de trabalhadores rurais. As Ligas eram cada vez mais ligadas com o comunismo, o que gerou uma perseguição atroz contra seus líderes. Já sob a ditadura civil-militar, o movimento seria desarticulado.

Apesar da criação do Estatuto da Terra ainda em 1964 – que ainda dá bases para a reforma agrária -, a ditadura pouco fez na direção de uma reforma efetiva. Na maior parte dos casos, o Estatuto foi usado como forma de controle dos movimentos sociais. Por outro lado, os movimentos sociais no campo seriam retomados e, a partir da Abertura, a luta pela reforma agrária no Brasil: o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). O MST surgiria em plena agitação das Diretas Já, através do Primeiro Encontro Nacional dos Sem Terras, em Cascavel, Paraná, em 1984. Durante o governo Sarney, apesar das promessas de realização efetiva da reforma com o Plano Nacional da Reforma Agrária (PNRA), nada foi feito de efetivo. Foi também nesta época que os proprietários rurais se organizaram para boicotar os avanços da Constituição de 1988 que tinha cedido espaço para a Reforma Agrária. Durante os anos 1990, os governos neoliberais favoreceram a bancada ruralista, gerando muitas perdas para o MST. Foi também nesta época que ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás, onde 19 ativistas do MST foram mortos pela PM do estado do Pará, uma semana antes da criação do Ministério da Reforma Agrária pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso.

Com a chegada do PT ao poder, em 2003, a expectativa do MST e de todos os trabalhadores rurais era grande. O PT foi organizado ao mesmo tempo e no mesmo clima democrático das Diretas Já, mantendo uma relação de apoio ao MST. Porém, o PT que chegou ao poder não era o mesmo que se formara nos anos 1980. Com o resultado de alguns reajustes, figura uma das maiores decepções da gestão PT: o ritmo lento e pouco expressivo da reforma agrária. Enfim, a história da Reforma Agrária, do MST e de outros movimentos que lutam pelos mesmos ideais ainda está só começando.

 

Resumo da Aula 09 – A Questão Indígena

Enquanto atualmente tendemos a aceitar e valorizar as culturas indígenas em sua diversidade e autonomia, permitindo às diferentes etnias que ainda habitam nosso país para que escolham como se vestir e se comportar, para os anos 1930 e 1940 foi colocado em prática a assimilação. Ou seja, os índios seriam bem tratados no Brasil, desde que aceitassem a cultura ocidental. Que não andassem nus ou seminus, que falassem Português e que, preferencialmente, fossem cristãos. A assimilação era entendida como um dos motores do progresso da humanidade e aconteceria de qualquer forma, porém lenta e gradualmente. O SPI (Serviço de Proteção aos Índios), criado em 1907 e mantido durante a Era Vargas, trabalhava com premissas coloniais, como a “conquista” dos índios através de doação de presentes para, em seguida, vesti-los e ensinar-lhes hábitos ocidentais. A Marcha para o Oeste, empreendida por Getúlio Vargas, assim como influenciou na relação do governo com os trabalhadores rurais, também envolveu as políticas indigenistas. Para Vargas, os índios que habitavam as regiões Norte e Centro-Oeste, deveriam ser usados como aliados na ocupação do interior do Brasil. A melhor forma de colaborar seria através da assimilação à cultura ocidental e consequente a transformação em um trabalhador rural. Em 1940, foi fundado o Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI) para atuar junto ao SPI. Fora isso, tivemos a atuação de antropólogos no Brasil, como Claude Lévi-Strauss, considerado um dos fundadores da Antropologia moderna. No início da década de 1960 – Período Democrático -, foi implantado o Parque Indígena do Xingu, em que tribos de diversas etnias vivem até hoje em torno do rio Xingu, no norte do Mato Grosso, entre o Planalto Central e a Amazônia.

Em 1967, para tentar solucionar os problemas de comunicação com as aldeias devido a estradas de péssima qualidade, dificultando o trabalho dos fiscais, onde a presença do SPI e do CNPI levou à morte muitos índios por epidemias e fome devido aos agentes despreparados, foi criado o FUNAI pelo governo civil-militar que há pouco tomara o poder no Brasil. A atuação da FUNAI durante a ditadura militar é ambígua. Há quem defenda referindo ao atendimento de índios doentes e na prática da medicina preventiva. Outros, contudo, fazem denúncias graves que envolvem casos de escravidão e genocídio. Por outro lado, o Estatuto do Índio criado em 1973 regulamentou o direito dos índios à posse das terras que tradicionalmente eram suas. No entanto, apesar de ter fixado um prazo de cinco anos para que este processo de realizasse, o Estatuto até hoje não garantiu que ele acontecesse. Além disso, a disputa pelas terras continuou causando inúmeras agressões contra os índios.

Durante a Constituição de 1988, muitos grupos de diversas etnias se organizaram e foram a Brasília garantir que seus direitos fossem assegurados. Afinal, a Constituição de 1988 considera que os índios tem o direito a sua cultura, podendo permanecer como índios, em vez de serem “integrados” à força na sociedade brasileira. No fim da década de 1980, a consequência das lutas pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, foi o sucesso internacional alcançado pelo líder caiapó Raoni Metuktire. Lutando pela preservação da floresta amazônica e pelo direito à demarcação de terras indígenas, Raoni angariou apoio de figuras internacionalmente conhecidas, entre políticos, intelectuais e artistas. Vale lembrar que, embora a luta de Raoni tenha sido parcialmente vitoriosa, há muitos casos de derrotas daqueles que lutavam pela preservação da floresta e dos povos indígenas. Chico Mendes, por exemplo, foi assassinado justamente no ano em que a Constituição foi promulgada, devido a sua luta pela preservação Amazônica.

Neste século XXI, apesar de toda proteção legal, os povos indígenas continuam a sofrer ataques, muitas vezes com o apoio de parte do governo. Por exemplo, a Internet. Os índios agora tem acesso à tecnologia e isto pode causar uma certa desconfiança. Alguns dizem que não são os índios que estão publicando seus textos nas redes sociais, pois não dominam a tecnologia a este ponto. Outros já pensam que, se os índios possuem acesso a tecnologia, então já não podem mais ser considerados índios. Por outro lado, as notícias sobre os índios são divulgadas com mais liberdade, permitindo que as pessoas se informassem sem precisar passar pelas mídias tradicionais. Claro que nem tudo o que é divulgado no Facebook é confiável. Um índio que use a internet pode contribuir para preservar e divulgar sua cultura através de um meio de tecnologia contemporâneo. Sim, com ou sem Internet, eles continuam sendo índios. São seres humanos como nós.

Gilberto Freyre foi um pensador que contribuiu para a divulgação de uma cultura indígena vaga e difusa. Suas ideias envolvendo a miscigenação como o traço fundamental da cultura brasileira fez com que as características originais das etnias que habitam o Brasil fossem apagadas em nome de uma “cultura nacional” mestiça e sintética. Entretanto, a apropriação e o empobrecimento de suas ideias tiveram consequências negativas para nossa apreensão das culturas e das histórias indígenas – tanto quanto dos negros. Por outro lado, a abordagem da cultura indígena em sala de aula é defendida pela lei No 11.645 de 10 de março de 2008, que estabelece a inclusão do currículo oficial da rede de ensino da obrigatoriedade temática: “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Sendo assim, as escolas de todo território nacional têm a obrigatoriedade de abordar essa temática, e por isso se faz necessário pensar metodologias que possam orientar os docentes na abordagem de tais conteúdos.

 

Resumo da Aula 10 – O Brasil e o Mundo (1990-2013)

Olhamos para a França e idealizamos uma cena romântica no alto da Torre Eiffel. Olhamos para a Grécia e milênios de História nos passam pela mente. Os EUA podem nos fazer desejar diversão, arte e boas compras. O Haiti nos faz lembrar de belas paisagens, mas também crise e miséria. Mas, e o Brasil? Como será que é visto lá fora? Na passagem do século XX para o século XXI, a face do Brasil mudou bastante neste período. De um país submisso e alinhado à vontade dos EUA, passou a ser um dos países com alguma voz e respeitabilidade no mundo. Contudo, alguns aspectos são mais resistentes – quem nunca ouvi falar que o Brasil é a terra do samba, do Carnaval, das praias e do futebol?

O Fundo Monetário Internacional (FMI) foi criado no fim da II Guerra Mundial, com vista à reconstrução dos países atingidos pelo conflito. É um grupo de países que participa de um sistema de cotas, investindo em determinada quantia e, com isso, passa a ter o direito de fazer empréstimos quando há necessidade de sanar a economia em caso de crise. A questão reside no significado político das cotizações e do poder de influência que os países com maiores cotas podem ter. Em 2013, os EUA tinham 17,08% do poder de voto, enquanto o Brasil tinha 2,46%. É por este motivo que muitas críticas ao FMI são também endereçadas ao governo norte-americano. O fato de o país ser o maior cotista, lhe dá o direito de interferir na política econômica dos outros participantes. Ao longo de sua existência, o FMI não tem se preocupado muito com os Direitos Humanos, desde que as políticas econômicas estejam de acordo com o que determina para os países.

Durante o Período Democrático (1946-1964), o que mais deve ser levado em conta é a participação do país na política internacional da Guerra Fria. O Brasil se manteve alinhado aos EUA e, portanto, ao bloco capitalista. No entanto, alguns desvios à esquerda ocorreram no início dos anos 1960. O presidente Jânio Quadros optou por uma política independente, distante dos EUA e da URSS. Mas, como o alinhamento dos EUA já ocorria desde o início da Guerra Fria, alguns sinais apontavam que o Brasil optava por ficar em cima do muro. A política de Jânio trouxe muitas repercussões negativas. Como consequência, veio a sua renúncia e uma tentativa de impedir que Jango assumisse o poder através do parlamentarismo e, em seguida, do Golpe Militar de 64.

Após a Guerra Fria, foi estabelecida uma Nova Ordem Mundial, onde a bipolaridade (EUA e URSS) foi substituída pela multipolaridade. Neste novo contexto, os países passam a se organizar em blocos, procurando proteger mutuamente suas economias. Por outro lado, o poder de decisão do FMI sobre a economia brasileira não diminuiu. A política de privatizações iniciada no governo Collor e levada adiante por Itamar Franco e FHC, também foi determinada pelo órgão. As diretrizes do FMI exigem que o Estado interfira o menos possível na economia, gerando ondas de privatizações que, por sua vez, geram desemprego e pobreza. Ao longo do governo Lula, o Brasil passou a ocupar uma posição mais privilegiada no FMI, sobretudo devido ao fato de fazer parte do BRIC, grupo de cinco países em desenvolvimento com economias relativamente estáveis, em busca de maior poder de decisão internacional. Tais países são: Brasil, Rússia, Índia e China. Em resumo, Lula conseguiu atender às expectativas do FMI, sem descuidar das demandas sociais. O crescimento do PIB, a estabilidade durante a crise mundial de 2008 e o fato de emprestar dinheiro ao FMI fizeram com que o Brasil aumentasse sua cota no FMI (de 1,78% para 2,46%). Isso tudo fez com que o Brasil fosse muito bem visto internacionalmente, recebendo elogios de revistas de economia, que apontaram o país como exemplo para outros em desenvolvimento. Porém, a manifestação dos brasileiros contra o aumento do valor das passagens, ganhou proporções bem maiores em 2013. No governo Dilma, o PT retornou as políticas de privatizações e as taxas de inflação voltaram a crescer e o descontentamento social atingiu níveis altíssimos. A rejeição à Presidente aumentou ainda mais devido a sua demora em demonstrar algum posicionamento diante dos eventos. Quando o fez, procurou um caminho neutro: não condenou, mas tampouco demonstrou apoio.

De 2009 para 2013, podemos perceber a passagem de uma visão otimista sobre o país para outra que põe em dúvida este mesmo otimismo. E duas provas de fogo passaram pelo país em 2014 e 2016: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Para entender a gravidade da situação, basta perceber que todas as lentes do mundo se voltaram para o Brasil nestes dois momentos: qualquer passo falso era televisionado, ao vivo e internacionalmente. É uma espécie de portfólio em que o país ficou à amostra e foi testado, para ver se vale a pena ser investido ou não. Um dos testes envolve justamente a forma de como o país pretendeu lidar com questões sociais durante os jogos. Não é a toa que nos protestos de junho e julho de 2013, um dos gritos de ordem era: “Não vai ter Copa!”. Isto para indicar que o país, com inúmeros problemas sociais, estaria deixando-os de lado, para focar apenas na construção dos estádios e outros aparatos necessários aos jogos. Despejos de populações pobres e aldeias indígenas, demolições de favelas, além do aumento generalizado do custo de vida, formam o preço a se pagar por eventos deste porte.

 

Bons estudos!

Marcell

Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar o resumo das aulas da disciplina História Contemporânea II do 6o período do curso de Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

 

Resumo da Aula 01 – A Primeira Guerra Mundial

Para entendermos a Primeira Guerra Mundial ocorrida em 1914 à 1918, temos que voltarmos ao panorama político e econômico da Europa no século XIX. A industrialização desenvolveu uma nova demanda, tanto de mercados consumidores quanto de matérias-primas, fazendo com que a Europa voltasse para os continentes que ainda não haviam se industrializados – Ásia e África. A partir desse momento surge o Imperialismo, uma política de colonização que caracterizaria toda a segunda metade do século XIX e estaria ligada aos confrontos da Primeira Guerra Mundial.

As grandes potências Europeias, como a Inglaterra, a França, a Rússia e a Alemanha, tinham seus processos industriais e política imperialista bem diversificadas, por diferentes motivos. A Inglaterra aproveitou por um longo tempo sua supremacia econômica e marítima, mas logo foi ameaçada pela Alemanha, cuja unificação, em 1871, transformara em um império forte cuja indústria baseava-se na formação de carteis. Investindo na indústria pesada e estimulando a associação entre os bancos e as indústrias, a Alemanha deu um salto de desenvolvimento. A construção de uma intensa malha ferroviária tornou o país economicamente ágil e mais integrado.

No caso francês, a industrialização voltou-se para os produtos de luxo, já que havia uma tradição em remeter a França como lugar de civilidade e sofisticação. O mercado francês era único e não entrava em concorrência com os ingleses. Já a Rússia, embora tivesse uma pequena industrialização, a maioria de sua população era camponesa. O sistema de governo era monarquia czarista, totalitária e centralizadora. Era uma potência muito mais pelo seu tamanho e contingente populacional do que, propriamente, por questão bélica. Esta situação valeu-lhe a alcunha de “gigante com pés de barro”.

No ano de 1873, o marechal Otto von Bismarck, que unificou a Alemanha, formou a Liga dos Três Imperadores – Alemanha, Rússia e Áustria-Hungria. Em 1878, essa aliança foi rompida devido ao desacordo entre a Rússia e a Áustria-Hungria acerca dos Balcãs. Em 1882, uma nova aliança foi formada sendo a Rússia substituída pela Itália – Tríplice Aliança. Tais pactos alemães mexeram com a Inglaterra e com a França. A França guardava grande ressentimento devido à guerra franco-prussiana, ocorrida no final do século XIX, e da qual sairia derrotada. Esta derrota implicou na perda territorial francesa para os alemães, a Alsácia-Lorena (rica em minério). O revanchismo francês foi um dos fatores da Primeira Guerra Mundial. Em 1904, temendo o crescimento de um inimigo, Inglaterra e França se aliaram na Entente Cordiale. A adesão da Rússia à entente deu origem a Tríplice Entente. Configurava-se assim, o panorama político europeu – Tríplice Aliança e Tríplice Entente.

As potências europeias disputavam mercados e territórios devido a industrialização constante que demandava recursos. A Alemanha e a Itália, por terem sido unificados tardiamente, também entraram nesta disputa de territórios e consideravam suas posses insatisfatórias. Algumas regiões estratégicas estavam no centro desta disputa, é o caso dos Balcãs. Os alemães lutavam contra a independência desta região, já a Rússia estimulava esta independência para diminuir o poder da Alemanha, e levantar novos aliados.

Os Balcãs são uma região situada entre os mares Negro e Adriático. Foi ocupada por povos eslavos, que deram origem a vários países diferentes como Kosovo, Macedônia, Bósnia, Herzegovina, Bulgária, Montenegro e Servia. Durante muito tempo, esteve sob influência do Império Otomano, mas, no início do século XX, este império entrou em decadência e os países europeus, como a Alemanha, Áustria Hungria, França e Itália, passaram a disputar a região. Com o enfraquecimento Otomano, surgiu um processo de unificação liderada pela Sérvia e estimulada pela Rússia, conhecido como pan-eslavismo. Em 1908, a Bósnia-Herzegovina foi anexada pelo Império Austro-Húngaro, o que fomentou a Guerra dos Balcãs em 1912. Grécia, Bulgária, Montenegro e Sérvia desejavam a expulsão dos turcos com o objetivo de formar a Grande Sérvia, que se tornaria um país independente. A Áustria interferiu no expansionismo dos sérvios, reconhecendo a Albânia como país independente e provocando uma onda nacionalista servia.

No ano de 1914, em uma tentativa de acalmar os ânimos, o Arquiduque e herdeiro do trono Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, viajou até Saravejo, capital da Bósnia, para consolidar a posse da região e legitimar a expansão da Áustria-Hungria. Em junho de 1914, ele foi assassinado pelo sérvio Gavrilo Princip, que pertencia a uma organização nacionalista sérvia, denominada Mão Negra. O assassinato foi o estopim da Primeira Guerra Mundial.

A Primeira Guerra Mundial é dividida em duas fases: a guerra de movimento e a guerra de posição, também chamado de guerra de trincheira. Alguns historiadores defendem uma terceira fase, ofensiva, com a entrada dos EUA no conflito. A guerra de movimento, iniciada em 1914, marca a marcha alemã em direção à França. Para isso, foi necessário invadir a Bélgica para chegar ao território francês. Por essa razão, a Bélgica se uniu a Tríplice Entente para expulsar os alemães. Após vencerem os franceses, os alemães se preparavam para enfrentar seu pior inimigo – a Rússia. Foi no final de 1914 que teve início a nova fase: a guerra de posição ou de trincheira. Nesta fase, milhares de soldados ficavam entricheirados, em enormes condições de insalubridade, o que aumentava o número de mortos. Muitos soldados passavam dias em trincheiras lamacentas, sujeitos ao frio, à fome e às doenças, que matavam tanto quanto as balas do inimigo.

Em 1915, a Itália deixa a Tríplice Aliança e se alia a Tríplice Entente devido a uma promessa de que o país receberia territórios do império  Austro-Húngaro caso fosse derrotada. Em 1917, a Rússia se retira da guerra devido a um conflito interno – Revolução Russa – onde o czar foi deportado e um novo governo foi instaurado. A saída da Rússia parecia ser uma oportunidade para os alemães bombardearem a Inglaterra. Mas a entrada dos EUA na guerra foi uma surpresa. Embora apoiassem a Entente, os EUA ainda não haviam enviado tropas para o conflito, mas contribuíam, mandando suprimentos. Após o bombardeamento da Alemanha contra os navios norte-americanos, as tropas americanas começaram a chegar para por fim ao conflito. A Alemanha ficou isolada, pois os seus aliados haviam abandonado a aliança ou enfraquecidos com os anos de conflito. Em novembro de 1918, o Armistício de Compiègne foi assinado tendo como base a superioridade da Entente.

Em 1919, a paz foi selada com a assinatura do Tratado de Versalhes. O presidente norte-americano, Wodrow Wilson, era a favor de uma guerra sem vencedores e para isso estabeleceu os 14 Pontos de Wilson, uma lista de proposições que buscava a harmonia entre as potências europeias. Mas, no fundo, o Tratado de Versalhes foi um instrumento para subjugar a Alemanha, que foi responsabilizada pelo conflito que dizimara milhares de pessoas. O país perdeu uma boa parte de seus territórios e colônias, e foram distribuídos aos países aliados. A Alemanha ficou completamente destroçada, humilhada, o desemprego e a inflação levariam a população a um estado de fome e miséria. É neste contexto, sob as humilhantes condições de Versalhes, que emergem os movimentos nacionalistas, dentre os quais se destacaria o Nazismo e o início da Segunda Guerra Mundial.

A Europa antes da Primeira Guerra

 

A Europa após a Primeira Guerra

 

Resumo da Aula 02 – Revolução Russa

A história da Rússia na Era Moderna foi, sem dúvida, a história da construção de império, cujo número de habitantes e extensão territorial  faziam dela um dos mais importantes e poderosos países europeus. Contudo, ao chegar ao século XX, a sociedade e a economia do “gigante com pés de barro” pouco se modernizavam. A elite russa era formada pela nobreza, pelos grandes latifundiários, pela igreja e pelo exército. A propriedade de terras e os títulos de nobreza eram os símbolos da prosperidade e riqueza desta sociedade. O sistema era monárquico, regido pelo czar, a principal figura de autoridade.

Os nobres eram chamados de boiardos e a maior parte da população era formada por mujiques, camponeses que trabalhavam nas terras dos nobres. No entanto, os camponeses russos eram diferentes dos medievais. Em 1861, os Estatutos da Emancipação cederam a esta classe não só a liberdade individual, mas a possibilidade de comprar terras – significando que, teoricamente, a mobilidade social era possível. Na prática, nenhum camponês tinha condições para comprar uma terra e, também, não havia um apoio do Estado (empréstimos/financiamento) para o camponês conquistar sua terra. E, por outro lado, as terras que não pertenciam aos nobres, eram propriedades do Estado. Sendo assim, o camponês que não trabalhava para um nobre, acabava que trabalhando para o Estado.

O governo czarista tinha como principal característica sua centralização e autoritarismo. A mais importante dinastia foi a Casa dos Romanov. O czar Pedro I, cuja gestão ocorreu entre 1682 e 1725, foi um dos czares progressistas que modernizou o império, reformou a educação e a administração pública, tendo se tornado um dos maiores líderes políticos de seu tempo. Entretanto, o sentido de progresso era alterado de acordo com a concepção de cada czar. O czar Alexandre II, que reinou entre 1855 e 1881, defendeu o liberalismo e a modernização das estruturas do Estado, abolindo a servidão e anistiando as dívidas dos mujiques (Estatutos de Emancipação). O governo de Alexandre II, ainda que guardasse fortes características liberais, era uma nobreza centralista e por isso reprimia violentamente a oposição. Os niilistas – aqueles que defendiam o uso da razão sobre todas as coisas e a alfabetização dos servos -, embora pacíficos, foram igualmente reprimidos. E, portanto, a eles é atribuído o assassinato do czar em 1881. Alguns historiadores discordam que foram os niilistas que assassinaram Alexandre II, mas sim um grupo terrorista.

Com a morte do czar, Alexandre III subiu ao trono e iniciou o processo industrial russo, com o estímulo à entrada de capital estrangeiro no país. A Casa dos Romanov somente deixaria o poder com a Revolução Russa, de 1917, sendo Nicolau II o último czar. Ainda que tenham feito reformas e que a industrialização tenha sido um dos mais importantes assuntos, a centralização do poder, o autoritarismo, a perseguição política e a predominância dos interesses das elites eram características deste regime, os quais fomentaram a Revolução de 1917.

Em 1904, o czar Nicolau enfrentaria o Japão na Guerra Russo-Japonesa. O centro da discórdia foi a disputa por territórios das regiões da Manchúria e da Coreia. O Japão passara pela Revolução Meiji e possuía um potencial bélico muito superior ao dos russos. Logicamente os russos foram derrotados e tiveram enormes perdas materiais e humanas, o que levaram a já descontente população a empreender uma série de revoltas, motins e greves.

Em 1905, houve uma manifestação popular em frente ao palácio real em São Petersburgo. Os manifestantes eram trabalhadores e desejavam a implantação de uma assembleia constituinte. O povo queria o sufrágio universal e o fim da Guerra Russo-Japonesa. Além disso, a população não estava violenta, e nem armada. Porém, a guarda russa fuzilou os manifestantes e este episódio ficou conhecido como Domingo Sangrento. Se o regime russo já estava fragilizado devido a guerra contra o Japão, o Domingo Sangrento apenas piorou a situação e aumentou as animosidades antigovernistas. Este ato violento fomentou em uma greve geral entre os trabalhadores e até mesmo as forças militares aderiram aos protestos. Buscando conciliação, Nicolau II lançou o Manifesto de Outubro, que previa a instalação de uma Monarquia Constitucional. Os trabalhadores que haviam feito as greves passaram a se organizar em sovietes, conselhos que passaram a existir em todo o território russo.

A despeito da perseguição, a oposição crescia. Diversos grupos proliferaram pela Rússia. Dentre desses grupos, destacavam-se os anarquistas e socialistas. O grupo socialista possuía duas facções: os bolcheviques e os mencheviques. Os mencheviques (minoria) defendiam a aplicação das ideias de Marx. Já os bolcheviques (maioria) defendiam uma revolução, uma ditadura do proletariado. Seu líder, Vladimir Lênin, logo se tornaria uma das mais importantes figuras políticas do século XX.

O último golpe ao czarismo foi dado com a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial. Entretanto, não se esperava que o conflito durasse tanto tempo, nem que contasse com a participação de tantos países. A Primeira Guerra Mundial apenas agravou as condições internas da Rússia tornando-se impopular e provocando uma fome generalizada, culminando com a deposição do czar. Em 1917, uma nova onda de greves envolvendo trabalhadores, soldados e marinheiros assolou o país. Com a renúncia do czar, a república foi instalada. Nesta revolução, logo após a monarquia, os mencheviques, sendo liderado por Alexander Kerensky, tomaram o poder. Entretanto, os mencheviques mantiveram a Rússia na Primeira Guerra, um dos fatores que contribuíram para sua derrocada. Os bolcheviques, liderados por Lênin, conseguiam um apoio cada vez maior junto à população, já que uma das primeiras reivindicações era abandonar a Primeira Guerra Mundial.

Sob a direção de Lênin, o revolucionário Leon Trotsky reunia os bolcheviques para um conflito armado formando o exército vermelho. Em outubro, os bolcheviques invadiram o Palácio do Governo e expulsaram os mencheviques que eram considerados burgueses e não proletariados. Os principais nomes deste novo governo eram o de Lênin, de Trotsky e de Josef Stálin. Em 1918, Lênin ordenou a execução da família real, que ainda vivia na Rússia. Os Romanov foram executados, não só Nicolau II, mas toda sua família, composta pela mulher, Alexandra e por 5 filhos, 4 meninas e 1 menino. Uma das filhas do czar, Anastácia, rendeu filmes, livros e um desenho animado devido a um mito levantado por causa do seu corpo não ter sido encontrado. Somente no século XXI, testes de DNA  feitos com restos mortais encontrados comprovaram que não havia sobreviventes. A monarquia russa acabara de fato.

Os bancos e as fábricas foram estatizados. O Estado também confiscou a produção agrícola e centralizou a distribuição de gêneros básicos, o que foi chamado de comunismo de guerra e provocou, como não podia deixar de ser, grande descontentamento. Lênin instituiu uma política econômica intitulada NEP prevendo a liberdade do comércio interno, regulando a propriedade privada e o comércio. De modo geral, a NEP aliava princípios socialistas e capitalistas. Esta modalidade estabelecida é única e por isso foi chamada de Marxismo-Leninismo. Isto quer dizer que o pensamento marxista jamais foi aplicado na íntegra, em nenhum dos países que adotou o socialismo. Além disso, foi estabelecido o sistema de partido único, o Partido Comunista Russo.

Lênin esteve no poder até a sua morte, em 1924. Em seguida, Trotsky e Stálin disputaram no governo. Trotsky pregava a Internacional Comunista e a ideia de revolução permanente. Já Stálin, defendia a consolidação do socialismo soviético em seu território e de seus aliados. Josef Stálin acabou vencendo a disputa e Trotsky foi perseguido até ser assassinado em 1940, no México.

De modo geral, a Revolução Russa marca um momento de transição de um regime monárquico e capitalista para um Estado republicano e socialista.

 

Resumo da Aula 03 – A Crise de 1929

Após a Primeira Guerra Mundial, a Europa entrou em fase de reconstrução. As economias internas estavam arrasadas, não só o processo de industrialização que havia sido interrompido, mas também a agricultura havia sofrido muitas perdas. Os operários foram convocados pelas forças armadas e, além disso, não havia um mercado ativo em tempos de guerra como existia antes do conflito.

Após o fim da Primeira Guerra, a Liga das Nações foi criada como sendo a primeira tentativa de agregar diversos países em torno do mundo para buscar uma negociação diplomática. O objetivo era evitar um outro conflito mundial. Esta Liga funcionou até a década de 1940 e participaram os países vitoriosos na guerra. A exceção foram EUA que jamais fizeram parte deste organismo, embora tenha sido Woodron Wilson, o Presidente do país, um dos principais defensores desta iniciativa. A Liga das Nações também deu origem à ONU, que é hoje uma das principais organizações políticas internacionais do planeta.

Por outro lado, com o fim da Primeira Guerra, os EUA acabaram emergindo como potência mundial, especialmente devido ao fato de sua produção industrial e agrícola não ter sofrido prejuízo, pois não houve nenhum combate em seu território. Os presidentes norte-americanos que sucederam Woodron Wilson, acreditavam na aplicação de uma política econômica liberal. O liberalismo é uma modalidade do capitalismo onde não exigia a interferência direta do Estado. Ou seja, os presidentes de então pouco faziam para regular os mecanismos econômicos, permitindo que estes se desenvolvessem sozinhos. Se por um lado, esta atitude aumentou o crescimento do país, por outro levou a um resultado desastroso: a crise de 1929.

Na década de 20, com a economia europeia desorganizada, os EUA  passaram a exportar para o continente todos os tipos de mercadorias industrializadas. Também houve uma aproximação com os países latinos, cujas economias agrárias eram de grande interesse para os norte-americanos. Ainda que a América Latina exportasse enormes quantidades de produtos, eles eram muito baratos, pois eram gêneros agrícolas ou matérias-primas. E o que os latinos importavam eram bens industrializados, que eram produtos muito mais caros. Isso significa que o balanço comercial era sempre desfavorável para os latino-americanos. Já o aumento das exportações fomentou o mercado de trabalho, bem como os salários dos trabalhadores. Esta prosperidade gerou um boom de consumo, o que aqueceu ainda mais a economia. A década de 20 não foi só marcado pela economia, mas, também, pela cultura como a “Era do Jazz”. Além da música, o cinema, que foi inventado no século XIX, ganhou força nos anos 1920. Nasciam as grandes estrelas do cinema, ainda mudo e preto e branco.

Do ponto de vista social, o feminismo tornou-se um dos mais importantes movimentos. Devemos lembrar que na Primeira Guerra, as mulheres acabaram ocupando parte do mercado de trabalho, que havia sido deixado vago pela ida dos homens para o front. Com o fim da guerra, esta demanda de ocupação de postos de trabalho, antes exclusivamente masculino, continuou. No ano de 1919, as mulheres norte-americanas conseguiram o direito ao voto, através da luta das chamadas “sufragetes”. As reivindicações logo transcenderam a questão do direito ao voto, sendo a ela acrescentados direitos trabalhistas e sociais, como a conscientização acerca dos direitos reprodutivos e do controle natalidade. Entre as décadas de 1910 e 1920, foram estabelecidos dias dedicadas às mulheres, instituindo o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

Por outro lado, os anos 20 também foram marcados pelos conservadores que defendiam valores como “a moral e os bons costumes”, condenando o comportamento dos “desviantes”, ou seja, aqueles indivíduos que não se adequavam a um padrão social. Mesmo assim, as vedetes continuavam fazendo sucesso, e o número de bares, boates, lugares dedicados à dança e a festas não paravam de aumentar. Contudo, a prosperidade econômica daquele país dava-lhe maior visibilidade e acabou por fazer surgir a expressão “american way of life”, o estilo de vida americano, que seria cobiçado e reproduzido ao longo do planeta.

Apesar do Estado não interferir na economia, a livre concorrência também não era praticada. A economia norte-americana era dominada por monopólios, que aconteciam sob a forma de trustes, holdings e cartéis. O primeiro truste data de 1870 – a Standard Oil, uma empresa de petróleo que pertencia a John D. Rockefeller. Esses monopólios eram ilegais, pois existiam leis antitruste desde finais do século XIX, o que na prática não impediu sua ocorrência.

Apesar do aumento do emprego e do consumo, havia uma desigualdade na distribuição de renda, além do surgimento de grandes fortunas baseadas na especulação do mercado de ações. As companhias que possuem ações na bolsa são chamadas de capital aberto e, nos anos 1920, a compra de ações era considerada um grande investimento. A euforia financeira aumentou a especulação e era como se os anos de prosperidade jamais fossem acabar. Porém, com a Europa se recuperando economicamente, ela deixava, cada vez mais, de importar as mercadorias norte-americanas. Com a diminuição do mercado externo, as indústrias também diminuíam sua produção, aumentando o número de desempregados. A agricultura sofreu crises de superprodução, ou seja, havia gêneros agrícolas, mas não havia consumidores o suficiente. Diversos fazendeiros foram a falência. Com as falências da agricultura e o aumento do desemprego, o poder de consumo também foi decrescendo. Os bancos, que haviam investido tanto na indústria quanto na agricultura, começaram a quebrar, já que não tiveram o retorno de seu investimento. Fortunas e mais fortunas foram perdidas do dia para a noite. Nova York foi tomada pelo desespero, por uma onda de suicídios jamais vista até então.

A crise de 1929 afetou boa parte dos países ocidentais. A América Latina, com sua economia agroexportadora, tinha os EUA como o principal parceiro econômico, foi uma das mais prejudicadas. O Brasil, por exemplo, cuja receita se baseava na agricultura cafeeira, sofreu uma crise de superprodução. Esta crise econômica brasileira, aliado a outros aspectos, foi um dos fatores que levaram ao fim da Primeira República e ao início da Era Vargas.

Para sanar suas finanças, o presidente Franklin Roosevelt instituiu um conjunto de medidas intitulado New Deal. Tais medidas tinham como objetivo a recuperação financeira e a diminuição do desemprego, e deveriam ser aplicadas rapidamente. Foi através de Roosevelt que o Estado passou a interferir na economia. Foi implantada a Previdência Social, bem como uma série de garantias aos cidadãos, como o salário mínimo e o amparo aos desempregados. Os sindicatos foram incentivados e foram estabelecidos subsídios, e crédito financeiro para a recuperação agrícola. Roosevelt se tornou um dos mais importantes presidentes da História dos EUA e teve quatro mandados presidenciais. Essa crise é estudada ainda hoje, e muitas teorias sobre ela são ainda elaboradas. É importante lembrar que a União Soviética não foi afetada pela crise de 1929, já que não havia adotado o capitalismo.

 

Resumo da Aula 04 – Regimes Totalitários: Nazismo e Fascismo

O período entre guerras que compreende os anos de 1919 a 1939, foi marcado por grandes transformações, especialmente na Europa. Entre as décadas de 1920 e 1930 emergem os regimes totalitários que dominariam não só a Alemanha e a Itália, mas também Portugal e Espanha. O Totalitarismo é como um regime tentacular, que age não somente no tocante à vida pública, mas na normatização da vida privada. O Estado determina o que a população pode ler, transmitir, as formas de se expressar, de vestir. De modo geral, podemos ver que, no período pós-guerra, uma crise política e econômica europeia, que se torna mais evidente na Alemanha derrotada, mas também na Itália, teve enormes perdas humanas e materiais. Países europeus mais pobres, como Portugal e Espanha também se tornaram terreno fértil para a disseminação do totalitarismo.

Na Itália, o sentimento nacionalista cultivado a partir da unificação do país, em 1870, ganhava força. O regime italiano era a monarquia parlamentarista. O parlamento estava dividido em Partido Socialista e o Partido Popular, cuja vertente era a democracia cristã e, portanto, apoiado pela Igreja Católica. As diferenças ideológicas provocavam um impasse no parlamento, impedindo a votação das grandes questões e das reformas que a Itália necessitava. Em meio a instabilidade política, é fundado o Partido Fascista, por Benito Mussolini.

Segundo o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva:

“O termo fascismo deriva de uma antiga expressão latina, fascio, que denominava o feixe de varas carregado pelos litores, na antiga Roma, e com os quais se aplicava a justiça. Dessa forma, tal símbolo foi, durante a Revolução Francesa, na Itália, utilizado pelos jacobinos, como representação de liberdade e Risorgimento, já no século XIX, como unidade nacional. Ao longo do século XIX, na Itália, assumiu o caráter de símbolo de ação política, valorizando a justiça e a igualdade. Foi assim, por exemplo, com o seu uso pelo movimento dos trabalhadores sicilianos, entre 1893-94, ou com os intervencionistas de esquerda, interessados na entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial em 1914.” (SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Os fascismos. In: ZENHA, Celeste, REIS FILHOS, Daniel Aarão e FERREIRA, Jorge (orgs.) O século XX: o tempo das crises. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 112.)

Como podemos notar, Mussolini se apropria de um símbolo que já fazia parte da história política italiana e o utiliza para fortalecer seu partido ideologicamente. Seus militantes eram denominados de “camisas negras”, em alusão ao símbolo de vestimenta que se tornaria comum nos anos seguintes. Foi na Marcha sobre Roma, onde milhares de camisas negras confluíram para a capital italiana, exigindo que o Executivo ficasse a cargo de seu líder. Pressionado, o Rei Vitor Emanuel III cede e entrega a Mussolini o cargo de Primeiro Ministro. Em 1924, novas eleições são realizadas e os fascistas venceram. Aqueles que eram da oposição denunciavam fraude, mas foram perseguidos, presos e assassinados. Em 1929, foi assinado o Tratado de Latrão entre o Duce e o Papa Pio XI. Este tratado reconhecia a soberania do papa e fazia do Vaticano um Estado soberano eclesiástico. Rapidamente, o governo do Duce torna-se tentacular e estende-se pelas mais diversas áreas. A crise de 1929 e o colapso do sistema econômico norte-americano fizeram com que o Estado intensificasse a produção bélica e começasse uma política de expansão territorial, sobretudo, em direção à África. A Itália logo se aliaria a Alemanha, em uma aliança decisiva para os rumos da guerra que eclodiria em 1939.

Na Alemanha, após a primeira guerra, foi estabelecida a República de Weimar, que virou entre 1918 e 1933. O regime monárquico foi substituído pelo republicano e uma nova constituição foi feita, na cidade de Weimar, que daria nome ao período republicano alemão. Porém, a crise econômica deflagrava uma enorme insatisfação social. As clausulas de Versalhes inflamaram o sentimento nacionalista alemão, em uma combinação perigosa: crise e nacionalismo, da qual o regime nazista se aproveitaria para ascender ao poder. Não devemos esquecer que o país teve que pagar pesadas indenizações aos vencedores, além de ter perdido parte de seu território. Durante a década de 1920, um partido foi fundado em Munique e que começou a ganhar destaque – Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, também chamado de o Partido Nazista. Embora tenha a palavra socialista em seu nome, o Partido não carrega uma ideologia marxista e, além disso, combatia comunistas e socialistas, a quem vê como oposição ao Estado. Um de seus líderes, Adolf Hitler, prega o fim da República de Weimar e, em 1923, tenta dar um golpe de Estado na mesma cidade, em Munique.

O golpe foi um fracasso e Hitler foi preso. Na prisão, ele escreve a obra que seria a base da ideologia nazista – Mein Kampf (Mina Luta). O arianismo se tornaria fundamental durante todo o período nazista e seria um dos motivos à intensa perseguição e eliminação dos judeus do território dominado pela Alemanha. A crise de 29 piorou as condições de vida já intoleráveis na Alemanha. Em meio ao caos, a pobreza e ao desemprego, as palavras de Hitler ganharam corpo e os adeptos do nazismo cresceram em número e força política. Nas eleições de 1932, os nazistas ocuparam um grande número de cadeiras no parlamento e, em 1933, o então presidente da Alemanha, Paul von Hindemburg nomeou Adolf Hitler como chanceler, o que equivale ao cargo de primeiro ministro.

As primeiras medidas de Hitler como chanceler foram: a eliminação da oposição (socialistas, parlamentares, judeus); criação das Sessões de Segurança (SS), uma política que tinha como objetivo identificar e prender os oposicionistas; a instituição da Gestapo, constituindo em uma equipe de forças especiais. Em março de 1933, tem início o Terceiro Reich e, em 1934, falece o Presidente Hindemburg, o que permite a Hitler assumir também a presidência, sendo proclamado Führer. O racismo se torna uma política do Estado – e essa é uma das diferenças principais entre nazismo e fascismo – e tem início a perseguição aos judeus. Chamada de “solução final”, os judeus eram levados a campos de trabalhos forçados, os campos de concentração, onde eram submetidos as mais degradantes condições. Milhares perderam a vida nos campos, que se tornaram um símbolo do regime nazista.

O Estado Nazista  investiu maciçamente na produção bélica e no militarismo. Não ser um membro do partido era mal visto pelos vizinhos e havia o risco de denúncia como oposição, o que levaria, inevitavelmente, a prisão. Em 1939, a invasão da Polônia da início a Segunda Guerra Mundial e, seu término, em 1945, significaria também o fim do nazismo e do fascismo. Entretanto, nem todos os regimes terminaram ao  fim da guerra. Portugal e Espanha mantiveram seu regime até a década de 1970.

A Primeira Guerra Mundial e, em seguida, a crise de 1929, levou Portugal a uma crise econômica. Um dos temores da república era o socialismo e a possibilidade de reforma agrária, que afetaria diretamente a elite portuguesa. Deve-se lembrar que desde 1917 o Socialismo tornou-se uma ameaça na Europa devido a Revolução Russa. A intensificação da crise econômica portuguesa levou a um golpe militar na década de 1920. Em 1930, foi criado o partido União Nacional, liderado por um dos políticos que havia participado no regime militar, Antônio de Oliveira Salazar. Em 1933, a União Nacional chega ao poder e o Estado Novo passa a ser conhecido também como salazarismo, em referência ao líder deste partido. Como regime totalitário, o salazarismo era contra o liberalismo e perseguia seus opositores. Utilizou largamente a propaganda para fins políticos e foi claramente influenciado, sobretudo, pelo fascismo da Itália. Salazar deixa o poder em 1968, mas o salazarismo permaneceu até 1974, quando a Revolução dos Cravos iniciou um novo período, de abertura democrática no país.

O caso da Espanha tornou-se emblemático por envolver uma intensa guerra civil, que seria considerada um ensaio geral para a Segunda Guerra Mundial, diferente dos outros países, onde o totalitarismo se estabeleceu sem que houvesse uma guerra civil. Nos anos 30, havia duas posições políticas: os falangistas e a Frente Popular. Os falangistas eram um grupo fascista cujo líder, Francisco Franco Bahamonde, defendia o combate ao comunismo. Além da elite espanhola, Franco também era apoiado pela Igreja Católica. De forma gera, a Igreja Católica sempre se opôs ao socialismo e ao comunismo, pois estas ideologias pregam o fim da religião constituída. Por outro lado, a Frente Popular, que tinha o apoio soviético, era formada por trabalhadores, sindicalistas, comunistas e partidos de esquerda. Em 1936,  os falangistas  de Franco empreenderam um golpe de Estado, pondo fim à República Espanhola. A Frente Popular reagiu e teve início a Guerra Civil. Franco obteve apoio da Alemanha e da Itália para combater a Frente Popular. As forças aéreas alemã e italiana foram enviadas para a Espanha. Foram elas que protagonizaram o mais conhecido e trágico episódio do conflito, o bombardeio da cidade de Guernica, em abril de 1937, imortalizada na tela de Pablo Picasso. O apoio alemão e italiano foi decisivo e, em 1939, Franco toma o poder e inaugura o regime que levou seu nome, o franquismo.

 

Resumo da Aula 05 – A Segunda Guerra Mundial

Em 1919, após o fim da Primeira Guerra, teve início a uma onda de movimentos totalitários pela Europa. Em 1929, tais movimentos ganham força devido a quebra da bolsa de valores norte-americana. Em 1935, após a consolidação dos regimes alemão e italiano, tem início a uma política expansionista. A Itália tomou a Etiópia, na África. A Alemanha avançava por territórios franceses e, em nome da paz mundial, os demais países ignoravam esses movimentos.  A incapacidade da Liga das Nações em reagir demonstrou a fragilidade que a levaria à extinção. Em 1936, o apoio de Hitler e Mussolini a Franco, na guerra civil espanhola, permitiu a estes líderes perceberem o alcance de seu poder de fogo e estabelecerem sua aliança, que ficaria conhecida como Eixo Berlim-Roma. Enquanto isso, na Ásia, o avanço japonês provocaria a reação de outras potências que já disputavam a Manchúria chinesa, em especial, a União Soviética. Temorosos com a União Soviética, os japoneses se aliaram aos alemães e aos italianos, configurando o que seria chamado, na Segunda Guerra, de Eixo. Também foi assinado um pacto entre estes três países, o Anti-Komintern, cujo objetivo era impedir o avanço do Comunismo.

Outros países europeus, em especial a França e a Inglaterra, não viram com bons olhos a expansão alemã. Entretanto, com medo de um novo conflito mundial, tais países buscavam negociações e a diplomacia sem hostilidade. Como demonstração desta diplomacia, em 1938, houve a Conferência de Munique para debater sobre a situação da Checoslováquia. Neville Chamberlain da Inglaterra, Édouard Daladier da França, Mussolini da Itália e Hitler da Alemanha estiveram presentes, mas não houve nenhum representante da Checoslováquia. A Conferência cedeu o território para Alemanha e na repartição das Checoslováquia. Seria a última parte da expansão alemã e um erro diplomático que cobraria um enorme preço aos envolvidos. A cessão dos Sudetos tencionava proteger a Polônia de uma invasão Germânica. Porém, este país estava nos interesses dos nazistas que haviam perdido no Tratado de Versalhes. Com o desejo de invadir a Polônia, Hitler fez um acordo com a União Soviética, o pacto nazi-soviético (ou Ribbentrop-Molotov). Estrategicamente, Hitler estava eliminando o último entrave real à expansão nazista.

O pacto nazi-soviético foi muito perigoso. Primeiro, ambos foram obrigados a deixar para trás suas diferenças ideológicas – o nazismo era anti-socialista e anti-comunista, já a União Soviética os defendiam. De modo geral, Stalin acreditava que a vitória de Hitler ampliaria sua esfera de influência e haveria uma divisão política internacional apenas entre soviéticos e alemães. Foi naquela certeza de que não seria atacado, nesta frente, que permitiu a Hitler invadir a Polônia no ano de 1939, iniciando a Segunda Guerra Mundial.

A Polônia fora dominada em curto tempo, graças à técnica militar denominada blitzkrieg, que significa guerra-relâmpago. Com essa tática, a Alemanha conseguiu invadir e derrotar os exércitos da Dinamarca, Noruega, Bélgica e Países Baixos. Em 1940, os nazistas invadem a França e, para concretizar a vitória nazista na Europa, faltava invadir a Inglaterra. A RAF, força aérea inglesa, combatia a Luftwaffe no ar. Londres foi bombardeada e o Primeiro Ministro Winston Churchill conclamava o povo a lutar. Os londrinos foram às ruas defender a cidade.

No ano de 1941, os EUA que apoiavam os aliados com armas e suprimentos, foram bombardeados pelos japoneses em um ataque à base militar de Pearl Harbor, no Havaí. Neste mesmo ano, Hitler quebra o pacto com a URSS e invade seu território. Imediatamente, Stalin reage entrando para a equipe dos aliados que agora conta com diversos países como a Inglaterra, França, EUA e Brasil. A Itália tornou-se incapaz e rendeu-se declarando guerra à Alemanha, em 1943, com a deposição de Mussolini. No ano de 1944, no dia 6 de Junho, conhecido  como Dia D, tropas de diversas nações do mundo desembarcam na Normandia e definem o conflito. A Alemanha, obrigada a lutar em diversas frentes, não conseguia alinhar suas tropas. Em uma clara demonstração de nacionalismo, os nazistas se rendem marchando, jamais abandonando o ideal de germanismo que lhes havia sido incutido pelo Führer.

Com o conflito chegando ao fim, Franklin Rossevelt dos EUA, Winston Churchill da Inglaterra e Stálin da URSS se unem na Conferência de Yalta, com o objetivo de discutir os rumos da Europa no pós-guerra. A parte oriental da Alemanha seria zona de influência soviética e a parte ocidental, zona de influência norte-americana e inglesa. Configurava-se a Guerra Fria.

Apenas no final da Guerra, entre 1944 e 1945, à medida que as tropas aliadas avançavam, se deparavam com campos de trabalhos forçados, os campos de concentração, espalhados por todas as regiões dominadas pelos alemães. O mais famoso deles foi Auschwitz, mas estima-se que existiam outras dezenas destes campos, que foram destruídos pelos alemães ao se retirarem. Nestes campos estavam judeus, oposicionistas, comunistas, homossexuais, ciganos e todos os outros que eram considerados inimigos do regime nazista. Em relação aos judeus, a comunidade judaica internacional, horrorizada pelo genocídio, pressionou pela criação de um Estado Judaico, o que ocorreria em 1948, com a criação de Israel.

Após o Dia D, restavam Alemanha e Japão que mantinham o Eixo. Mussolini havia fugido, mas logo foi capturado pelos italianos. Em 1945, os soviéticos invadem Berlim e uma bandeira da URSS é hasteada no Reichstag, o parlamento alemão. No dia 8 de Maio de 1945, a Alemanha se rende. Hitler havia se suicidado no dia 30 de Abril, no bunker onde vivia com sua mulher e o Estado Maior alemão. O Japão foi o último país a se render e o fez de um modo trágico. Em agosto de 1945, os EUA lançaram bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando, instantaneamente, milhares de pessoas. Foi a única vez, na história, até o momento, que uma bomba atômica foi usada em um combate e tendo como alvo civis.

As perdas humanas estimadas em mais de 50 milhões de mortos, entre 22 milhões de russos e 6 milhões de judeus, foram algumas das mais notáveis consequências da guerra. A Europa sofreu um aumento geral de sua dívida pública com os EUA. Os alimentos foram racionados até os anos 1950, e os EUA foram obrigados a controlar rigidamente as áreas essenciais, como energia, preços, cambio e matérias-primas.

 

Resumo da Aula 06 – Guerra Fria

A divisão da Alemanha, ratificada em agosto de 1945, compreendia quatro zonas de ocupação, dividida entre franceses, ingleses, norte-americanos e soviéticos. Estava estabelecida a Guerra Fria, baseada na bipolaridade, e que consistia em uma disputa ideológica por zonas de influência entre dois blocos: EUA (Capitalista) e URSS (Socialista, liderado por Stalin). Cabe lembrar que a Guerra Fria não se restringiu a esses dois governos.

Em 1946, Winston Churchill cunhou uma expressão que seria sinônimo da ordem que se estabelecera: a Cortina de Ferro. A Cortina de Ferro referia-se ao isolamento que a URSS assumiu como postura após a Segunda Guerra. Por outro lado, há o medo de que um conflito aberto, entre EUA e URSS, significasse uma terceira guerra mundial e, desta vez, o horror de Hiroshima e Nagasaki, se repetisse em todo o planeta. Ainda que não tenha sido um conflito aberto, a Guerra Fria foi o pano de fundo para diversos outros conflitos que eclodiram nas décadas seguintes.

Em 1947, o presidente dos EUA, Harry Truman, o mesmo que autorizou as bombas em Hiroshima e Nagasaki, foi contra o avanço socialista. Truman viu no contexto da Guerra Fria, uma maneira de se afirmar na vida pública, fazendo do combate ao comunismo uma de suas principais bandeiras. Neste mesmo ano, a URSS estabeleceu o Kominform, cujo objetivo era a coordenação política dos diversos partidos comunistas na Europa e fora dela. Em 1949, foi criado o Comecon, o Conselho para Assistência Econômica Mútua, uma versão do Plano Marshall, mas para auxiliar os países socialistas, sobretudo aqueles do Leste Europeu. Devemos ressaltar que, no mundo socialista, não havia um presidente da república, mas do partido. O poder pertencia ao Partido Comunista e seu líder, neste caso, Josef Stalin. Lenin estabeleceu esta estrutura que permaneceu assim até o fim da URSS.

Em 1948, procurando formas para boicotar o lado Ocidental da Alemanha, a URSS estabeleceu um bloqueio isolando as partes oriental e ocidental. O bloqueio buscava impedir o abastecimento da parte Ocidental por meio terrestre, já que uma artilharia antiaérea significaria uma declaração de guerra. Porém, os EUA driblaram fácil o bloqueio, abastecendo a Alemanha por via aérea. Em 1961, começou a ser construído aquele que se tornaria o mais evidente símbolo de uma cisão internacional, o Muro de Berlim. O Muro de Berlim foi considerado o mais emblemático símbolo da Guerra Fria.

Nesse mesmo ano de 1948, houve um processo ao surgimento do Estado de Israel. Após a Primeira Guerra, foi criada a Liga das Nações para intermediar as relações internacionais e políticas, mas a Liga fracassou em seu intento. A prova deste fracasso é a Segunda Guerra Mundial. Mas podemos apontar diversas razões, políticas e ideológicas para a criação do Estado de Israel ter ocorrido neste período. No século XIX, o jornalista e escritor Theodor Herzl, considerado “pai do sionismo”, defendia o direito à soberania e a autodeterminação do povo judeu que para isso deveria retornar a sua região de origem a qual historicamente tinham direito. Durante o século XIX, os judeus eram muito perseguidos e, no século seguinte, Hitler sistematizou esta perseguição com o holocausto. Na Rússia também houve perseguições contra os judeus, casas e estabelecimentos pertencentes a judeus eram queimados e os judeus em si eram apedrejados. O sionismo é uma resposta a esta discriminação que existia há séculos, mas que ganhou evidência após a Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Segunda Guerra, e com a revelação dos campos de concentração, a comunidade judaica passou a exigir, de uma forma mais contundente, seus direitos a um território, não só como uma forma de compensar a morte de 6 milhões de judeus durante a guerra, mas também como uma crítica à inércia dos países aliados sobre o massacre. Os EUA tinham uma comunidade judaica com grande influência política e que auxiliou na articulação da criação de Israel. Por outro lado, os EUA também tinham um grande interesse em formar um país que nasceria como apoio em uma região problemática. Os países do Oriente Médio, como a Palestina, não eram favoráveis às interferências norte-americanas, e ter um país judaico na região era uma estratégia de expansão importante na Guerra Fria. Logicamente, o maior opositor à criação de Israel foi a URSS. Ao final, a Palestina foi dividida entre um Estado Judeu e o outro Árabe. Tal divisão enfureceu os palestinos dando início a uma longa trajetória de conflitos, atentados e invasões que continuam até hoje.

Em 1949, os EUA criaram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A OTAN era uma aliança política militar reunindo os principais países capitalistas da época, além dos EUA, Reino Unido, França, Bélgica, entre outros, compunham essa aliança. Em 1955, a URSS criou uma aliança nos mesmos termos da OTAN voltado para os países socialistas, o Pacto de Varsóvia. Quando a Alemanha foi dividida, ela foi considerada uma região desmilitarizada. Ou seja, nem os EUA e nem a URSS podiam fornecer armas e, também, nenhuma parte da Alemanha poderia constituir um exército. Quando a OTAN surgiu, as potências capitalistas quebraram este termo e passaram a estimular as forças armadas na Alemanha Ocidental. É neste contexto que o Pacto de Varsóvia surgiu.

Durante essa Guerra fria, houve um investimento maciço na indústria bélica, em ambos os blocos, o que aumentava ainda mais o clima de terror e tensão do planeta. Inovações tecnológicas, satélites espiões, agências de inteligência, espionagem industrial foram constantes dos dois lados. Também houve a corrida espacial, onde a URSS chegou perto, mas foram os EUA os primeiros a pousarem na Lua, em 1969. Na esfera cultural, o cinema americano alardava o perigo comunista em filmes como Invasores de Corpos. Os soviéticos criticavam a sociedade americana como fútil e consumista. Nos quadrinhos, o Capitão América tornou-se um símbolo de resistência derrotando o Caveira Vermelha, que personificava os soviéticos. Nas décadas de 1940 e 1950, nos EUA, o senador Joseph McCarthy deu início ao macarthismo ou Caça às Bruxas. McCarthy empreendeu uma verdadeira caçada contra os formadores de opiniões contando com a ajuda do FBI. O ator Charles Chaplin foi vítima das perseguições do senador o que o obrigou a deixar o país, acusado de ações antiamericanas.

No ano de 1949, ocorre a Revolução Chinesa. A China passara todo o século XIX sob a influência do imperialismo sendo mergulhado em diversos conflitos, sendo a Guerra do Ópio um dos mais significativos. O ano de 1911, foi o ano em que a China abandona sua monarquia e adota a República. Após a Primeira Guerra Mundial, a China estava sob ameaça do imperialismo japonês, o Partido Nacionalista – Kuomitang – era intensamente impressionado e sob estas condições cedia às investidas japonesas, que demandavam territórios, além de interferir politicamente no Estado chinês. Esta situação provocou a mobilização de vários setores nacionalistas, que promoviam marchas e manifestações em Pequim. Em 1920, influenciados pelo sucesso da Revolução Russa, foi fundado o Partido Comunista Chinês (PCC), um de seus membros foi o famoso Mao Tsé-Tung. O PCC crescia de uma forma assustadora. Em 1925, o Kuomitang passa a ser liderado por Chiang Kai-Shek, iniciando uma perseguição aos comunistas. Diante destas perseguições, Mao Tsé-Tung se refugia no interior do país, de onde organiza uma resistência ao governo do Kuomitang. Em 1931, foi proclamada a República Soviética da China.

Desde o período imperial, a China era dividida em regiões autônomas comandadas por chefes locais. Esta fragmentação manteve a China vulnerável às investidas estrangeiras. A República de 1911 tinha então, como maior desafio, construir uma unidade nacional, mas o preço desta unificação era alto. Em 1931, o Japão invadiu a Manchúria e as forças administrativas chinesas foram rompidas. Por sua vez, Mao Tsé-Tung organizava um exército formado por camponeses, estudantes e nacionalistas em geral. Seu discurso era a igualdade social e a exaltação ao nacionalismo. Entre 1934 e 1935, foi levantado a Longa Marcha onde Mao reuniu cerca de cem mil homens formando o Exército de Libertação Nacional. Tal demonstração de poder consagrou Mao Tsé-Tung como líder comunista e obrigou Chiang Kai-Shek a aceitar uma aliança com os comunistas. O objetivo era combater os japoneses. Porém, foi a derrota do Japão na Segunda Guerra que a China conseguiu se livrar do seu inimigo.

Em tempos de Guerra Fria, Chiang Kai-Shek passou a ser apoiado pelos norte-americanos. E, logicamente, a URSS passou a apoiar os comunistas chineses. O PCC acreditava que o apoio norte-americano seria uma nova forma de imperialismo e o Estado teria sido vendido ao capital estrangeiro. Com tais argumentos, o exército vermelho continuou a luta até marchar vitorioso sobre Pequim em 1949. Após a vitória, Mao fundou a República Popular da China, um regime comunista que manteve o país isolado durante décadas. Mas, nos últimos anos, a China pratica algo que denomina como socialismo de mercado, um sistema sem precedente na História, já que embora pratique o capitalismo como política externa, mantém a estrutura comunista no plano interno. Além disso, o desenvolvimento industrial fez do país um dos maiores consumidores e petróleo do mundo.

Nos finais da Guerra Fria, prevaleceu o lado capitalista como o sistema econômico regendo as relações do mercado internacional. Os EUA emergem de imediato como potência, mas não se mantém solitários nesta posição por muito tempo. Logo a Comunidade Econômica Europeia e a própria China viriam a se colocar igualmente como potências, inaugurando a era da multipolaridade, onde as esferas de influência política e econômica internacionais podem ser encontradas em diversos países, e não mais concentrada em um bloco de influência.

 

Resumo da Aula 07 – Descolonização Africana e Asiática

Durante o século XIX, o imperialismo europeu incorporou diversas possessões nestes continentes devido a questões econômica (Industrialização) e ideológica (fardo do homem branco). Esta conjuntura, que levou à Primeira Guerra Mundial, permaneceu até o final da Segunda Guerra Mundial. O caso da Índia que foi submetido aos ingleses, as duas forças políticas indianas – o Partido do Congresso (formado por hindus, em 1885) e a Liga Muçulmana, formada em 1906 – sempre fortaleceram o movimento nacionalista, que ganhou força após a Primeira Guerra Mundial através da participação política de Mahatma Gandhi, que logo se tornaria a principal figura na independência do país. Se, por um lado, a existência desses partidos lembra a possibilidade de uma autonomia política indiana, por outro evidencia a cisão religiosa – entre hindus e muçulmanos – dividindo o país. Esta cisão atuava a favor dos ingleses e, por isso, a atuação de Gandhi foi tão significativa que acaba por conciliar os interesses de autonomia tanto de hindus quanto de muçulmanos. A postura pacifista de Gandhi desestimulava os ingleses à repressão violenta, pois corriam o risco de transformá-lo em um mártir, o que só fortaleceria a causa da independência colonial. E foi esta atuação de Gandhi que obrigou a Inglaterra a conceder a independência da Índia, em 1947, e a forma pacífica permitiu aos ingleses manter seus interesses econômicos na região. Por outro lado, internamente, a cisão indiana acabou provocando o surgimento de dois países: a Índia (União Indiana), de maioria hindu; e o Paquistão, de maioria muçulmana. Sendo assim, Gandhi também foi considerado um traidor pelos nacionalistas por não combater esta divisão. E, em 1948, Gandhi foi assassinado por um radical hindu que não aceitava a formação do Paquistão.

Além da Índia, também houve conflitos em uma outra região. É o caso de Israel e Palestina. A primeira Guerra Árabe Israelense ocorre em 1948, quando a área destinada a Israel começa a ser efetivamente ocupada. Em tempos de Guerra Fria, se o Estado Judaico era aliado norte-americano, os países árabes eram apoiados pelos soviéticos. Já o caso das colônias francesas, na Ásia, foi bastante diferente do que ocorrera na Índia. Os franceses dominavam a região conhecida como Indochina, invadida pelo Japão na Segunda Guerra. A invasão japonesa motivou a reação das forças locais. O líder da resistência, Ho Chi-minh, fundou o movimento de libertação do Vietnã (que fazia parte da Indochina), denominada Vietminh, empreendendo uma guerrilha contra os franceses. A França perde a guerra e a posse da Indochina seria desmembrada em três países diferentes: Laos, Camboja e Vietnã. A independência destes países foi reconhecida em 1954, na Conferência de Genebra. Nesta mesma conferência, o Vietnã foi dividido em mais uma demonstração da Guerra Fria. O Vietnã do Norte, liderado por Ho Chi-minh, adotando o comunismo, e o Vietnã do Sul, o capitalismo. Esta cisão levaria à Guerra do Vietnã em 1965. Em 1955, ocorreu a Conferência de Bandung, na Indonésia, reunindo dezenas de países asiáticos e africanos, com o objetivo de impedir que a Guerra Fria “esquente” na região da Indochina. Pois, submeter-se à aliança a um dos blocos significaria uma nova forma de submissão a potências estrangeiras que poderia levar à dependência política e econômica.

Além disso, a África foi praticamente dividida em sua totalidade e qualquer ameaça a independência recém-conquistada era alvo de repúdio. Logo surgiu a expressão “terceiro mundo”, para se referir a estes países não alinhados. Em seguida, esta expressão se popularizou para se referir a países que ainda não haviam conseguido adquirir um grau de desenvolvimento econômico e político semelhante àquele dos países europeus e dos EUA. No século XIX, a França tomou posse da Argélia e este domínio se estendeu após a Segunda Guerra. Em 1952, houve um conflito que se acirra em 1954, com a Frente de Libertação Nacional (FLN) em confronto aberto contra os franceses que ocupavam a capital, Argel. O conflito trouxe de volta ao poder, na França, o General Charles de Gaulle, que havia sido um dos símbolos de resistência francesa ao nazismo. O general articula um plebiscito e negocia com a FLN. O resultado aconteceu em 1962, quando a maioria vota pela emancipação levando Ben Bella ao poder do novo país, a República Democrática Argelina.

O Sudão, um dos maiores países africanos, também foi marcado por intensos conflitos. Em finais do século XIX, o Sudão estava dividido entre a posse da Inglaterra e do Egito. Esta divisão também agravou uma intensa divisão entre cristãos (no Norte) e muçulmanos (no Sul). Com o fim da Segunda Guerra, o Egito viu uma oportunidade de dominar todo o Sudão, e exigiu a retirada dos ingleses do país. Após a independência, em 1956, o Sudão mergulha em uma situação de instabilidade política e conflito interno entre Norte e Sul que viria a se prolongar por mais de quatro décadas. Esta instabilidade é demonstrada através do Conflito de Darfur iniciada no século XXI. Desde 2003, disputas políticas internas no Oeste do Sudão, rico em petróleo e minérios, tem oposto grupos árabes e não árabes. Mas a questão vai muito além de religioso, assumindo contornos de conflito étnico e genocídio. Darfur foi um dos conflitos mais recentes, mas não o primeiro. E pela situação política sudanesa, dificilmente será o último.

Portugal foi um dos últimos países europeus a abrir mão de suas colônias africanas, o que só ocorre nos anos 1970 do século XX mediante a um conflito, a Revolução dos Cravos, que eclode em 1974. Esta revolução derrubou o salazarismo de Portugal e acabou libertando as colônias portuguesas, como Angola.

As independências promoveram fronteiras arbitrárias o que faz da África o único continente em que algumas fronteiras são linhas retas. Por outro lado, o mundo ocidental via na África como um bloco único, e não como regiões com culturas e sociedades próprias, provocando uma série de conflitos étnicos que resultaram em massacres, como o ocorrido em Ruanda, em 1994. Mesmo livre do jugo europeu, o continente ainda não foi capaz de resolver seus problemas internos.

 

Resumo da Aula 08 – Os Conflitos da Guerra Fria: Vietnã, Coréia e Cuba

As décadas de 1950 até 1980 do século XX foram repletos de guerras civis e crises internas, ocorridas em diversos países. Os mais emblemáticos foram: Coréia, Vietnã e Cuba.

Em 1949, com a Revolução Chinesa, o temor da expansão socialista provocou diversos conflitos na Coréia. E, em 1950, a Coréia da Norte invadiu a Coréia do Sul para unificar o país sob o regime comunista. A guerra civil se estendeu até 1953 com a morte do líder soviético, Josef Stálin, provocando alteração na política externa da URSS. Stálin foi sucedido por Nikita Khurshchev. Já nos EUA, Dwight Eisenhower foi eleito. E os dois novos líderes tentaram um acordo de paz, sem ninguém se interessar pela extensão da Guerra da Coreia. Por outro lado, durante o período imperialista, a Coreia foi invadida e ocupada pelo Japão. Os japoneses consideravam esta região estratégica, política e militarmente, além de terem interesses nos recursos locais. Com a entrada do japão na Segunda Guerra, a situação da Coreia se agravou, já que além de buscar recursos, muitos coreanos foram enviados para o exército japonês.

Já Cuba, após a sua independência no século XIX, passou a ser submetida à política norte-americana do Big Stick e da Doutrina Monroe, que justificava a intervenção dos EUA, nos países latinos, com o pretexto de manter a ordem e garantir a emancipação das ex-colônias latinas de suas respectivas metrópoles. Neste contexto, a Constituição Cubana possuía um mecanismo chamado Emenda Platt. Esta emenda permitia a presença militar dos EUA em Cuba, e quebrava a soberania do país, motivo de grande revolta entre a população cubana. Em 1933, Fulgencio Batista chega ao poder, cujo governo rapidamente assumiu o aspecto de uma ditadura. Batista não se opunha a intervenção estrangeira na ilha. Conforme a ditadura tornava-se cada vez mais opressora, iam crescendo também os grupos de resistência, normalmente, na clandestinidade. Com uma tática de guerrilha, os revolucionários foram tomando aos poucos as cidades do interior, até que, em 1958, entram vitoriosos em Havana, a capital cubana. Fulgencio se exilou em Portugal e, em seguida, na Espanha, onde faleceu em 1973. Nos anos 1950, surge um movimento guerrilheiro liderado por Fidel Castro, filho de um grande produtor de cana de açúcar, que havia estudado Direito na Universidade de Havana, onde começou a se interessar por questões políticas. Junto com o seu irmão, Raul, e com o apoio de Camilo Cienfuegos e do médico argentino Ernesto “Che” Guevara, Fidel iniciava um movimento sistemático de oposição a Fulgêncio Batista. No princípio, a Revolução Cubana deste grupo não era um movimento socialista. Che Guevara era um dos poucos que defendia a adoção deste regime em Cuba. Foi no ano de 1959 que é marcada a vitória da Revolução Cubana. Suas primeiras medidas foram a realização de uma intensa reforma agrária, além da nacionalização de diversos empreendimentos, como refinarias, usinas e indústrias, pois a maior parte desses setores pertenciam a norte-americanos. Em tempos de Guerra Fria e uma economia agrária, um embargo econômico seria uma sentença de morte. Este embargo significava que nem os EUA e nem seus aliados comprariam ou vendiam qualquer produto para os cubanos, sufocando o mercado e, por consequência, sua economia. Mas, por outro lado, a URSS recebeu Fidel de braços abertos. Foi desta forma que, em 1961, uma revolução sem pretensões socialistas, adota este regime e se coloca como aliado do bloco soviético. Ter um aliado socialista no “quintal dos EUA” era uma grande vantagem estratégica para os soviéticos. Logo, essa vantagem traria um incidente internacional – a  Crise dos Mísseis.

Já o Vietnã, que sofreu com a divisão a partir da Convenção de Genebra, onde o Sul seria comandado por Bao Dai (capitalista) e o Norte, comandado por Ho Chi Minh (Comunista), deveriam, em 1956, ser realizadas eleições livres, que novamente unificariam o país em um único regime. O presidente norte-americano Eisenhower, temendo que o país se consolidasse sob a liderança de Ho Chi Minh, enviou tropas para o Vietnã do Sul e mediante um plebiscito – que parece ter sido fraudado – colocou no poder, Ngo Dinh Diem, que apoiava abertamente os EUA. Ngo Dinh Diem logo se tornaria um ditador, cancelando as eleições e proclamando a independência do Sul. Porém, houve uma resistência interna no Sul independente, de orientação comunista, disposto a lutar contra a interferência norte-americana e pela redemocratização do país. A partir dos anos 1970, sem um avanço significativo contra o Norte, e contabilizando milhares de mortos, a derrota norte-americana era iminente. Diversos grupos protestavam abertamente contra o conflito. Feministas, hippies, músicos, intelectuais, jornalistas, formadores de opinião, levantavam suas vozes e pediam pelo fim do conflito. O Vietnã foi um dos primeiros conflitos a ter a cobertura maciça da imprensa e a divulgação das informações vindas diretamente do front revelavam o horror da guerra.

Três anos após a unificação do Vietnã, eclode, no Irã, uma guerra civil, que ficaria conhecida como Revolução Iraniana. O Oriente Médio era palco de disputa e alvo de muitos interesses, por ser a maior região petrolífera do planeta. O Irã era governado pelo Xá (monarca) Reza Pahlevi. Pahlevi favorecia os interesses norte-americanos o que provocava a oposição dos nacionalistas, que não desejavam interferências estrangeiras em sua soberania nacional. A população, insatisfeita, levou ao poder o aiatolá Ruhollah al-Khomeini no ano de 1979. Esta revolução levou ao poder o fundamentalismo islâmico, a ala radical dos muçulmanos. Logo, radicais e moderados passaram ao embate, provocando uma guerra civil. Em 1980, Saddam Hussein, líder do Iraque, invade o Irã em busca de territórios. É importante ressaltar que Hussein era apoiado pelos EUA do presidente Ronald Reagan. Este mesmo Hussein foi, anos mais tarde, acusado de crimes de guerra e retirado do poder por pressão norte-americana. A Guerra Irã-Iraque prosseguiu até os anos 1990, quando o Iraque finalmente reconheceu a posse do Irã de seu território original. Esta foi uma guerra sem vitoriosos e os dois países sofreram intensas perdas, humanas e materiais.

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o posterior esfalecimento da União Soviética, teve fim uma das mais longas guerras da história, a Guerra Fria.

 

Resumo da Aula 09 – O Fim da URSS e a Nova Ordem Mundial

A década de 1970 foi caracterizada por uma série de acordos, objetivando, sobretudo, o controle da produção e a comercialização de armamentos entre os dois blocos envolvidos na guerra fria. Pois qualquer conflito poderia lançar mão de armas nucleares, o que seria devastador não só para os países envolvidos, mas para todo o planeta. O presidente dos EUA, no período, John F. Kennedy, foi assassinado no Texas, em 1963, por Lee Harvey Oswald. O atirador alegava ser inocente e estaria sendo incriminado somente por ter vivido parte da sua vida na URSS. Oswald foi morto enquanto era transferido para prisão. Com a morte de Kennedy, Lyndon Johnson assume a presidência. Seu governo recrudesce a participação dos EUA, na Guerra do Vietnã, empenhando no combate ao socialismo. É somente no governo do republicano Nixon, em 1968, que se inicia uma conciliação com os países comunistas, sem comprometer o bloco capitalista.

No início dos anos 1970, os EUA defende a entrada da China no Conselho de Segurança da ONU. Este Conselho foi criado em 1946, um ano depois da fundação da ONU, e é formado por 15 membros, dentre os quais apenas 5 são permanentes. Atualmente, são eles: EUA, Rússia, China, Reino Unido e França. As outras 10 vagas são preenchidas mediante eleição da Assembléia Geral e cada país pode ocupá-la por 2 anos. O apoio de Nixon à entrada da China comunista no Conselho de Segurança da ONU, demonstrou o início de um período que ficou comumente conhecido como detente (afrouxamento da austeridade política que dividia o mundo até então) e caracteriza a década de 1970. A aproximação entre China e EUA se consolidou, em 1972, com a visita de Nixon ao país, governado por Mao Tse Tung. Após a vitória do comunismo chinês e a ascensão de Mao Tse Tung ao poder, o líder comunista se referia ao Ocidente como “tigre de papel”, demonstrando que, na verdade, não havia nada a temer. O secretário do Estado norte-americano, Henry Kissinger, foi um dos principais articuladores da aproximação EUA/China e se tornou um dos maiores especialistas em política internacional na história recente. Por outro lado, a política de Nixon foi incrivelmente inovadora, já que quebrava o isolamento diplomático de décadas entre os blocos capitalista e socialista. Nixon também se encontrou com Brejnev, líder da URSS, rendendo a assinatura do primeiro SALT – Strategic Arms Limitation Talks – as conversações sobre limites de armas estratégicas, cujo termo envolve diversos tipos de armamentos, como aviões de guerra, armas nucleares e mísseis intercontinentais. No ano de 1972, Nixon caiu no “escândalo Watergate”, que obrigou-o a renunciar. Membros do Partido Republicano foram acusados de espionar o partido rival, Democrata. Watergate era o nome do complexo de prédios localizado em Washington onde abrigava a sede do Partido Democrata. Nixon foi obrigado a renunciar e esta renúncia ocorreu em 1974.

Os sucessores de Nixon, Gerald Ford e Jimmy Carter, continuaram com a política externa de Nixon. Entretanto, no governo de Ronald Reagan (1981-1989), esta política sofre alguns percalços. Em 1980, ainda na gestão de Carter, os norte-americanos boicotam as Olimpíadas realizadas em Moscou, devido a invasão soviética no Afeganistão ocorrida em 1979. Em 1984, foi a vez dos soviéticos boicotarem as Olimpíadas do mesmo ano sediadas em Los Angeles. Em 1985, Mikhail Gorbatchev assume o poder na URSS. O novo líder estabelece um conjunto de amplas reformas, fundado em dois pilares: a Glasnost (transparência) e a Perestroika (reconstrução/reestruturação). Em 1987, Gorbatchev assinou o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, implicando na destruição e controle de mísseis de médio e longo alcance. Pouco antes da assinatura do Tratado, em junho de 1987, Reagan, em visita a Alemanha, discursa pela queda do Muro de Berlim. Cabe lembrar que, ao imputar a Gorbatchev a decisão acerca da manutenção ou queda do muro, Reagan isentava os EUA da responsabilidade pela existência desta estrutura, já que, após a Segunda Guerra, o país havia apoiado a divisão da Alemanha. Em 1989, o muro caiu e surpreendeu o planeta. O ministro alemão Helmut Kohl proclamava ser aquele o início de uma Alemanha como jamais havia sido visto. Com a unificação, a Alemanha se tornava a terceira maior potência na época, atrás somente dos EUA e do Japão. A queda do muro e a adoção do capitalismo foi interpretado como a falência do regime socialista.

Apesar dos esforços de Gorbatchev, a Perestroika e a Glasnost conseguiram desagradar tanto aos socialistas radicais como aos simpatizantes do capitalismo. Para os socialistas, as medidas representavam a fraqueza do líder soviético que comprometia o regime. Para os capitalistas, tais medidas eram mudanças de pouco alcance, cujos resultados só poderiam ser vistos a longo prazo. Sem apoio, Gorbatchev viu as repúblicas soviéticas se organizarem sob uma nova bandeira, a CEI, Comunidade dos Estados Independentes, em dezembro de 1991. Logo depois da criação da CEI, no natal de 1991, Gorbatchev renunciou.

O fim da URSS implicou no término da Guerra Fria e, portanto, da bipolaridade. De imediato, os EUA emergem como potência nesta Nova Ordem Mundial, mas logo ficaria claro que, com o desenvolvimento europeu e chinês, a nova realidade seria multipolar. Os mercados mundiais passaram a ser unificados em torno do capitalismo – ainda que o socialismo e o comunismo se mantivessem em alguns países, como Cuba e China – e o processo de globalização foi acelerado.

 

Resumo da Aula 10 – Terrorismo e Política Externa Norte-Americana

Após o fim do governo Ronald Reagan, assumiu a presidência dos EUA, George H. W. Bush, cujo mandato se estendeu de 1989 a 1993. Essa foi a última gestão antes do fim da URSS e foi marcada pela Guerra do Golfo. Esta guerra eclode em 1990, mas não há uma interferência direta da Guerra Fria. Neste mesmo ano, Saddam Hussein, líder do Iraque, invade o Kuwait, rico em petróleo. Rapidamente, os EUA reagem, apoiados pelas Nações Unidas, pelo Reino Unido e pela França. Esta guerra mostrou a preocupação do Ocidente com os países do Oriente Médio, devido ao fato de estes concentrarem as maiores reservas de petróleo do planeta. A derrota do Iraque foi uma demonstração do poderio ibérico norte-americano. Apesar do enorme sucesso, a Guerra do Golfo provocou um enorme gasto financeiro. Por isso, o republicano George H. W. Bush não conseguiu ser reeleito, perdendo as eleições para o democrata Bill Clinton.

Embora a Guerra Fria trouxesse uma aparência de “passividade” às relações internacionais, logo esta realidade mostrou ser apenas ilusória. Como exemplo dessa ilusão, podemos citar os conflitos do Afeganistão. O país havia sido ocupado pela URSS, que apoiou a posse de Barbrak Kamal, em 1980. Visto como um governo que cedia aos interesses estrangeiros, cresce a resistência local pelos mujahedins (guerrilheiros) que buscam expulsar o invasor. Estes guerrilheiros eram apoiados pelos EUA, Paquistão e Arábia Saudita. Nos anos 1980, este grupo forma uma aliança levando o líder soviético Mikhail Gorbatchev a iniciar o movimento de desocupação das tropas soviéticas, concluído em 1988. A ocupação soviética levou o Afeganistão a uma guerra civil entre os nacionalistas e aqueles que defendiam o governo. Durante esses conflitos, o grupo Talibã, fundamentalistas islâmicos, ascendeu ao poder. Este grupo defendia o estabelecimento do Estado que seguisse rigidamente os princípios do Islamismo. Com a milícia talibã no poder, as mulheres foram proibidas de trabalhar fora de casa e foi restaurada a punição de apedrejamento até a morte. O adultério e o homossexualismo são considerados crimes em alguns países que professam a fé islâmica.

Paquistão e Arábia Saudita reconheceram o Talibã como o legítimo governo afegão. Medidas radicais foram tomadas, como a destruição das estátuas históricas de Buda, em 2011, considerado um patrimônio. Neste mesmo ano, em 11 de setembro, dois aviões de passageiros foram lançados contra as torres gêmeas do WTC, em Nova Iorque, no Pentágono e em Pittsburg, na Pensilvânia. Estima-se que tinha como destino a Casa Branca, em Washington, mas os sequestradores foram impedidos pelos passageiros de alcançar seu alvo. Os atentados, reivindicados pelo grupo terrorista Al Qaeda, liderado por Osama Bin Laden, deixaram milhares de mortos, quase todos civis. Tal ataque não só mudou os rumos do país, mas, também, de toda a política internacional. Foi formado uma coalizão antiterrorismo, liderada pelos EUA e apoiada pelo Reino Unido. O alvo era o Afeganistão, sede do grupo terrorista Al Qaeda. Os EUA exigiam a entrega de Osama Bin Laden para julgamento. Porém, o líder talibã, mulá Omar, recusou-se a cumprir a exigência. Esta atitude fez com que os países como Arábia Saudita e Paquistão, aliados do Afeganistão, rapidamente retirassem seu apoio e o país ficou sozinho para lutar contra a ameaça norte-americana. Em outubro de 2001, Cabul foi bombardeada e o governo talibã deposto pelas forças de coalizão. Um novo governo foi instituído, mas a guerra continuou por mais de uma década.

O presidente George W. Bush estipulou o que ficou conhecido como Doutrina Bush, uma série de princípios que justifica o combate ao terrorismo em qualquer parte do mundo. Segundo essa doutrina, os EUA podem interferir militarmente em qualquer país que considere uma ameaça terrorista ou que abrigue terroristas – como é o caso do Afeganistão. Além disso, podem depor regimes que considerem uma ameaça à segurança nacional – como no Iraque. Essa doutrina deu origem à chamada “guerra preventiva”, que busca impedir novos atentados em solo americano ou aliado.

Nos EUA existem diversos partidos, além de candidatos independentes, sem partido, que também podem ser eleitos. Mas, na prática, apenas dois partidos se revezam na presidência: republicanos e democratas. Como a eleição não é direta, e sim feita através de colégios eleitorais, Bush foi eleito sem ter recebido maior número de votos total da população. Esta eleição, ocorrida em 2000, também foi marcada por inúmeras acusações de fraude. Dessa forma, o novo presidente assume o cargo sob uma atmosfera de legitimidade, e o ataque terrorista marcou sua primeira grande atuação na presidência e garantiu sua eleição para um segundo mandato. No plano interno, foi assinado o Ato Patriótico, que cassava uma série de liberdades civis. A partir deste ato, tornou-se possível monitorar qualquer comunicação – internet, email, correios, ligações telefônicas, etc – de cidadãos americanos e estrangeiros, sem autorização prévia da justiça. Em 2004, a segunda gestão de Bush foi marcada pela guerra preventiva contra o Iraque. Além disso, houve inúmeras críticas internas contra o Ato Patriótico e, também, o furacão Katrina devastou a cidade de Nova Orleans, em 2005, mostrando uma certa inabilidade da parte do governo em lidar com as consequências naturais.

A Guerra do Iraque, que também caracterizou a segunda administração de Bush, levou a uma enorme crise financeira. Sob justificativa de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, o país foi invadido em 2003. Bush e o primeiro ministro britânico, Tony Blair, temiam que Saddam Hussein, líder iraquiano, pudesse se constituir em uma ameaça imediata de terrorismo. Em 2003, Hussein foi deposto e, em 2006, foi condenado a morte pelos iraquianos. Mesmo após sua morte, a guerra continuou. Com efeito, em 2005, Londres sofreu um dos maiores ataques terroristas de sua História, também empreendido por fundamentalistas islâmicos. A guerra do Iraque prosseguia e, em Bagdá, foi criada a Zona Verde, uma área de não agressão, e mesmo com a cidade destruída e a ameaça terrorista aparentemente controlada, somente em 2011 o conflito teve fim.

O legado da Era Bush, além da manutenção de sua doutrina, foi uma intensa crise financeira. O investimento na indústria bélica deixou de lado questões internas, como a caótica situação da saúde. Em 2008, seu governo se encerra em meio a uma das maiores crises financeiras da História dos EUA, comparável com a Crise de 1929. As eleições seguintes deram vitória ao democrata Barack Obama, que assumiu o compromisso de sanear as finanças, desocupar o Afeganistão, acabar com o Ato Patriótico, revitalizar o sistema de saúde e fechar a base de Guantánamo. Mas, até meados de sua segunda gestão, nenhuma dessas plataformas foi cumprida. Além disso, houve uma crise no mercado mobiliário. De forma simples, Bush investia na construção de imóveis. Logo, havia mais residências que compradores, e os bancos passaram a estender seus financiamentos mesmo sem garantia de pagamento de empréstimos. Quando as pessoas passaram a não conseguir quitar seus empréstimos, os bancos retomavam estas casas e as colocavam no mercado novamente. Sem crédito, não havia como comprar imóveis, e os bancos se viram donos de diversas propriedades. Quando o Lehman Brothers, o quarto maior banco norte-americano, decretou falência, a situação já era irreversível.

 

Obrigado pessoal!

Bons estudos!

Ola pessoal!

Nesta postagem irei apresentar um resumo das aulas da disciplina Sustentabilidade do 6o período do curso de Licenciatura em História, Faculdade Estácio de Sá.

Resumo da Aula 01 – Desenvolvimento Sustentável: Conceitos e Objetivos

O rastro deixado pela humanidade sobre a Terra está por toda parte. As estatísticas de conversão e desmatamento são frequentemente contestadas, pois o falso orgulho nacional quase sempre distorce esses dados para que as coisas pareçam melhores do que na realidade estão, tanto para o público interno como para o externo (Dourojeanni e Pádua, 2007). A preocupação com os problemas ambientais ganhou escala e maior repercussão no final da década de 60 e início da década de 70. Discussões formais sobre os impactos ambientais causados pelo desenvolvimento e pela industrialização aconteceram com a criação do Clube de Roma, em 1968, na Itália, formado por cientistas preocupados com os impactos provocados pelo crescimento econômico e com a disponibilidade de recursos naturais do planeta.

O começo dos estudos do relacionamento entre o meio ambiente e o crescimento econômico foi marcado pelo relatório Os limites do crescimento, escrito por Jay Forrest e Dennis Meadows, do Instituto Tecnológico de  Massachusetts (MIT). O trabalho enfatiza que a exploração e degradação dos recursos naturais limitariam o crescimento da economia mundial. Tratava essencialmente de problemas cruciais para o futuro desenvolvimento da humanidade. A conclusão que chegaram é que o planeta Terra não suportaria mais o crescimento populacional por causa da pressão sobre os recursos naturais e do aumento da poluição (Hernandez, 2009).

A concepção de desenvolvimento sustentável tem suas raízes fixadas na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, capital da Suécia, em julho de 1972, segundo Brunacci e Philippi Junior (2009). “O desenvolvimento sustentável satisfaz às necessidades atuais sem comprometer a capacidade de futuras gerações satisfazer suas próprias necessidades”. Vemos que o conceito de desenvolvimento sustentável surgiu em um contexto de crise econômica e da revisão de paradigmas de desenvolvimento. Ao qualificar o desenvolvimento com o adjetivo “sustentável”, incorpora-se um conceito de capacidade de substituir ou continuar. A sustentabilidade expressa uma preocupação com o meio ambiente para que as gerações futuras o utilizem e o desfrutem da mesma forma que o presente.

É importante ressaltar que o desenvolvimento sustentável exige que se definam prazos, com qual ordem de prioridades, a que níveis e escalas e quais recursos econômicos utilizar para obter a sustentabilidade. Um outro problema a ser considerado é o da interpretação. Por exemplo, uma grande parte da literatura disponível tende reduzir o conceito a uma mera sustentabilidade ecológica ou a um desenvolvimento ecologicamente sustentável, preocupando-se apenas com as condições ecológicas necessárias para manter a vida humana ao longo das gerações futuras, segundo Bifani (1997 apud Funiber, 2009).

Desenvolvimento ambientalmente sustentável: O desenvolvimento econômico e o bem-estar do ser humano dependem dos recursos  da Terra. Os recursos da Terra são suficientes para atender às necessidades de todos os seres vivos do planeta se forem manejados de forma eficiente e sustentada. O desenvolvimento econômico com o meio ambiente são compatíveis, interdependentes e necessários.

Desenvolvimento socialmente sustentável: A chave para o desenvolvimento é a participação, a organização, a educação e o  fortalecimento das pessoas. O desenvolvimento sustentado não é centrado na produção, é centrado nas pessoas. Nenhum sistema social pode ser mantido por um longo período quando a distribuição dos benefícios e custos seja extremamente injusta, especialmente quando parte da população está submetida a um debilitante e crônico estado de pobreza.

Vemos que há diversas formas de interpretar o conceito de desenvolvimento sustentável, mas todas têm as mesmas características e devem derivar para um consenso quanto ao conceito básico e quanto às estratégias necessárias para sua consecução. Dessa forma, destaca-se que o conceito de desenvolvimento sustentável não é único, mas converge para um consenso.

 

Resumo da Aula 02 – A Prática do Desenvolvimento Sustentável

Há três níveis ou sistemas distintos de existência que obedecem às suas próprias leis (Dias, 2004). São eles: Físico, Biológico e Social.

Físico: O planeta físico, sua atmosfera, hidrosfera e litosfera (rocha e solos), que seguem as leis da física e da química.

Biológico: A biosfera, com toda as espécies de vida, que obedecem as leis da física, química, biologia e ecologia.

Social: A tecnosfera e a sociosfera, o mundo das máquinas e construções criadas pelo homem, governos e economias, artes, religiões e culturas, que seguem leis da física, da química, da biologia, da ecologia e também das leis criadas pelo homem.

Um exemplo de uma lei física é a lei da entropia, segundo a qual todas as máquinas se desgastam. Um exemplo de uma lei biológica é a composição química e organização de qualquer indivíduo que são determinados pelo código genético em longas moléculas de DNA dentro de cada célula. As leis geradas pelo homem são muito variáveis  de acordo com as circunstâncias e com o tempo. Uma vez que os fenômenos ambientais obedecem às mesmas leis físicas, eles se comportam, em sua maioria, da mesma forma, em qualquer lugar, embora sua complexidade possa levar a enormes variações locais (Dias, 2004).

A busca de um modelo de desenvolvimento sustentável e de sua consequente implantação já ocorre em algumas décadas, alicerçada na visão crítica da organização da sociedade humana e impulsionada pelos diversos problemas de caráter ambiental e social. Um resultado importante desta discussão é a crescente conscientização sobre as significantes interferências que o homem impõe aos sistemas naturais. O modelo de desenvolvimento sustentável deve ser capaz não só de contribuir para a superação dos atuais problemas, mas também de garantir a própria vida, por meio da proteção e manutenção dos sistemas naturais que a tornam possível.

A Constituição de 1988, no Brasil, reflete esse quadro sustentável em seu art. 225:

Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

O documento do Ministério do Meio Ambiente (MMA 2011) revelou que:

Até novembro de 1996, mais de 1.800 cidades em 64 países, envolveram-se em atividades de Agenda 21 local – A21L. Entre elas, o ICLEI (International Council for Local Environmental Initiatives) constatou que: 993 cidades em 43 países já tinham estabelecido um processo de planejamento para o desenvolvimento sustentável, e outras 879 estavam apenas iniciando (p. 12).

O setor industrial também demonstra seu interesse nessa questão, refletido pelas mais de 2 mil certificações em Sistemas Integrados de Gestão em todo país. O entendimento da existência de limites no que se refere aos padrões de consumo e produção, e a necessidade de promoção de justiça social encerram questões de revisão e mudanças na forma de planejar. Diversos trabalhos vêm sendo elaborados no campo do assunto, na busca de princípios metodologias e ferramentas de avaliação. Eles têm como objetivo colaborar para a reversão dos processos de degradação ambiental, consumo elevado de recursos naturais e desigualdade socioeconômica, alcançando assim melhoria da qualidade de vida dos seres do planeta de forma sustentável.

Segundo Funiber (2010), uma forma de medir o desenvolvimento é através de indicadores, os quais normalmente estão relacionados apenas com questões econômicas. Tais indicadores devem considerar as dimensões econômicas, sociais e ambientais. É necessário, entretanto, que se busque formas de comunicação desses indicadores, de modo que possam ser compreendidos por todos os atores da comunidade, onde, então, a educação ambiental assume papel vital nesse processo.

 

Resumo da Aula 03 – Da Questão Ambiental para o Campo do Consumo

O crescimento populacional vem causando sérios impactos degradadores sobre o meio ambiente neste século. Os estudos demonstram que os países com um rápido crescimento demográfico vêm enfrentando dificuldades para gerar um desenvolvimento econômico sustentável. Por outro lado, a conscientização ambiental também está relacionada ao controle da natalidade e ao consumo desenfreado que estamos nos impondo culturalmente como fator de status social. Prevê-se que a população humana aumentará de 6,5 bilhões a 8-9 bilhões ou mais entre 2005 e 2050, com um crescimento particularmente rápido nos países em desenvolvimento, como a China.

Aqueles que não acreditam que a terra está superpovoada apontam que a expectativa de vida média de 6,5 bilhões de pessoas é maior hoje do que já foi em qualquer época do passado, e está previsto que aumentará ainda mais. Também alegam que o crescimento populacional representa o recurso mais valioso do mundo para solucionar problemas ambientais e outros, e para estimular o crescimento econômico em razão do aumento de consumidores. Determinados países em desenvolvimento e alguns membros das minorias de países desenvolvidos consideram o controle populacional uma forma de genocídio, cujo intuito é impedir que sua economia e suas forças políticas cresçam.

Já os que apoiam uma diminuição ou uma possível interrupção no crescimento populacional, alegam que falhamos ao suprir as necessidades básicas de cerca de um a cada cinco indivíduos. Aqueles que propõem esta diminuição advertem que há duas sérias consequências caso a taxa de natalidade não declinem de forma drástica. A primeira, a taxa de mortalidade pode aumentar em razão do declínio das condições de saúde e ambientais. O segundo é o uso de recursos e os danos ambientais podem se intensificar conforme mais consumidores aumentam suas já grandes pegadas ecológicas em países desenvolvidos e em alguns países em desenvolvimento, como China e Índia, que estão passando por um rápido crescimento econômico.

O aumento da população e o consequente crescimento do consumo podem elevar os estresses ambientais. Estes analistas acreditam que as pessoas devem ter liberdade de gerar quantos filhos que quiserem, mas somente se isso não reduzir a qualidade de vida das pessoas agora e no futuro, seja pelo enfraquecimento da capacidade da terra de sustentar a vida, seja por rupturas sociais. Segundo Paul Hawken (2007), os problemas a serem enfrentados são vastos e complexos, mas se resumem a isto: 6,5 bilhões de pessoas estão procriando exponencialmente.

O papel dado à população reflete menos conflitos de evidências do que de interpretação da mesma evidência. Os estudos de caso com populações regionais têm sugerido cautela nas associações “população – transformação”. Quando esses estudos foram conduzidos regionalmente e em áreas que exibiam condições socioambientais similares, foram encontradas correlações fortes. Bilsborrow e Okhoto-Ogendo (1999) citam diversos estudos que comprovaram tais correlações (Brasil, Haiti e Bolívia); entretanto, caracterizam-nas como “casuais”. No nosso estudo sobre a região de Taguatinga, Ceilândia e Samambaia, em 1996-1999 (Dias, 1999), essa correlação foi muito clara, inclusive com outros vetores sociais, como a violência, o desemprego, o aumento da emissão de gases estufa e outros.

Um outro estudo relevante, buscando a compreensão dessas inter-relações, foi conduzido por Myers (1995 apud Dias, 2004).  Esse autor, enfatiza, falando sobre biodiversidade, que existem muitos elos que fazem o quadro muito mais complexo do que uma simples equação população/biodiversidade. Acrescenta que o crescimento populacional não é o único fator que está produzindo as mazelas ambientais conhecidas, não sendo mais que uma variável dentre as demais. Esse crescimento passa a ser significativo, em termos de produção de pressão ambiental, quando ele excede à capacidade de oferta de recursos naturais de um país aos seus habitantes ou quando excede a capacidade dos seus planejamentos de desenvolvimento.

Ao longo da história, várias formas de conquista e manutenção do poder foram desenvolvidas no interior de diferentes sociedades visto que essa relação assimétrica vincula-se necessariamente a uma desigualdade social preexistente.

Poder econômico: O poder econômico repousa na capacidade que a posse dos bens considerados vitais em determinadas situações, confere a quem os possui, no sentido de determinar o comportamento alheio.

Poder ideológico: O poder ideológico, por sua vez, consiste na propriedade que determinados grupos possuem para criar e difundir valores – que lhes são próprios – para o conjunto da sociedade.

Poder político: Consiste na posse dos instrumentos mediante os quais se podem coagir outros indivíduos (Zioni, 2008).

Nas sociedades antigas, o poder ideológico representava a estratégia predominante  de dominação. Nas sociedades modernas, de maior complexidade tecnológica e diferenciação social, o poder econômico passou a impor-se sobre as outras formas, como o Estado (poder político) e a arte, cultura, ciência e educação (poder ideológico). Nas sociedades contemporâneas, extremamente complexas, esses três tipos de poderes coexistem e se desenvolvem no sentido de que “fundamentam e mantém uma sociedade de desiguais” (Bobbio e Bovero, 1994 apud Zioni, 2008).

A população de 2017 está em cerca de 7,3 bilhões e está projetada para crescer em cerca de 1 bilhão na próxima década. Os problemas que  conhecemos hoje, serão apenas pequenas demonstrações do que pode acontecer com a nossa qualidade de vida, se os rumos da escalada humana não sofrerem redirecionamentos.

 

Resumo da Aula 04 – Educação Ambiental

A sociedade humana, empurrada por padrões de consumo insustentáveis, impostos por modelos de desenvolvimento insanos, completados por um mórbido e renitente crescimento populacional, tornou-se mais injusta, desigual e insensível de poucas décadas para cá. O papel da educação ambiental neste contexto torna-se mais urgente.

Segundo Paulo Freire, famoso educador brasileiro, ninguém educa ninguém, ninguém conscientiza ninguém e ninguém se educa sozinho. Isso significa que a educação depende de adesão voluntária, depende de quem a incorpora e não de quem a propõe. No Relatório para a UNESCO de 1996, a educação aparece como indispensável à humanidade na construção dos ideais de paz, da liberdade e da justiça social como também para o desenvolvimento contínuo, tanto das pessoas como das sociedades, do século XXI em diante (Pelicioni, 2009).

A educação ambiental se coloca numa posição contrária ao modelo de desenvolvimento econômico vigente no sistema capitalista selvagem, em que os valores éticos, de justiça social e solidariedade não são considerados nem a cooperação é estimulada, mas prevalecem o lucro a qualquer preço, a competição, o egoísmo e os privilégios de poucos em detrimento da maioria da população (Pelicioni e Philppi Junior, 2005). A educação ambiental tem como proposta  principal a superação da dicotomia entre natureza e sociedade, através da formação de uma atitude ecológica nas pessoas. Um dos seus fundamentos é a visão socioambiental, que afirma que o meio ambiente é um espaço de relações, é um campo de interações culturais, sociais e naturais (a dimensão física e biológica dos processos vitais).

A educação ambiental na década de 1960 ainda não estava bem delineada e, por vezes, era confundida com educação conservacionista, aulas de ecologia ou atividades propostas por professores de determinadas disciplinas, que ora privilegiavam o estudo compartimentalizado dos recursos naturais e as soluções técnicas para os problemas ambientais locais, ora visavam despertar nos jovens um senso de maravilhamento em relação à natureza (Pelicioni, 2002 apud Pelicioni, 2009). Vários autores apontam a Keele Conference on Education and Countryside, realizada em 1965, na Universidade de Keele (Inglaterra), como um marco a partir do qual o termo Environmental Education (educação ambiental) alcançou ampla divulgação (Martin e Wheeler, 1975 apud Pelicioni, 2009).

No Brasil na década de 1960, ocorreu uma nova onda de produção legislativa – o novo Código Florestal, a nova Lei de Proteção aos Animais e a criação de vários parques nacionais e estaduais. Entretanto, continuavam não sendo discutidos problemas fundamentais como o estilo de desenvolvimento que o país deveria adotar, a poluição, o zoneamento das atividades urbano-industriais, entre outros. A ditadura de 64 desmobilizou a cidadania, resultando numa atuação estatal tímida e particularmente voltada para a preservação do chamado ambientalismo geográfico, naturalista, ou seja, ainda voltado para a criação de áreas naturais protegidas.

No final da década de 60, a UNESCO organizou a Conferência da Biosfera. Este evento deu continuidade ao tema da cooperação internacional em pesquisas científicas, que havia sido inicialmente abordado, em 1949, na Conferência Científica das Nações Unidas sobre a Conservação e Utilização de Recursos (Pelicioni, 2009).

A primeira Conferência Intergovernamental sobre a Educação Ambiental foi realizada em Tbilisi, capital da Geórgia, em 1977. E foi intitulada Conferência de Tbilisi. Esta Conferência  produziu um documento chamado Livro Azul, que até hoje é uma importante fonte de consulta para ações em Educação Ambiental. Dez anos depois, em 1987, trezentos especialistas de 100 países reuniram-se em Moscou. Esta reunião ficou conhecida como Congresso de Moscou. O Congresso de Moscou fez uma análise da situação ambiental global e não encontrou sinais de que a crise ambiental houvesse diminuído. Portanto, concordou-se que a Educação Ambiental deveria preocupar-se com a promoção da conscientização, transmissão de informações, desenvolvimento de hábitos e habilidades, promoção de valores, estabelecimento de critérios e padrões, e orientações para resolução de problemas e tomada de decisões.

A Conferência do Rio, ou Rio-92, veio contrariar os que gostam de tornar as coisas mais complicadas. Ficou patente a necessidade do enfoque interdisciplinar e da prioridade das seguintes áreas de programas:

  • Reorientar a educação para o desenvolvimento sustentável;
  • Aumentar os esforços para proporcionar informações sobre meio ambiente, que possam promover a conscientização popular;
  • Promover o treinamento;

A Rio-92 também endossou as recomendações da Conferência sobre Educação para Todos, realizada na Tailândia (1990), que incluiu o tratamento da questão do analfabetismo ambiental. Esse tipo de analfabetismo foi classificado como o mais cruel, pernicioso e letal para a perda contínua e progressiva da qualidade de vida no planeta.

 

Resumo da Aula 05 – Preocupação Mundial

Ao instituir uma política ambiental, é necessário que o governo estabeleça os objetivos, defina as estratégias de ação, crie as instituições e estruture a legislação que a contém e que orienta sua aplicabilidade. Com isso, a gestão ambiental é a implementação pelo governo de sua política ambiental, pela administração pública, mediante a definição de estratégias, ações, investimentos e providências institucionais e jurídicas, com a finalidade de garantir a qualidade do meio ambiente, a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável (Philippi Junior e Maglio, 2009).

A Encyclopedia Britannica realça a visão de gestão relacionando-a ao uso racional de recursos naturais: o controle apropriado do meio ambiente físico, para propiciar seu uso com o mínimo abuso, de modo a manter as comunidades biológicas, para o benefício continuado do homem. Já Hurtubia coloca a perspectiva da gestão ambiental relacionada ao uso de recursos naturais em atividades primárias.

Numa visão mais moderna, a gestão ambiental desenvolve-se  com base na formulação de uma política ambiental, em que estejam definidos os instrumentos de gestão a serem utilizados (controle ambiental, avaliação de impactos ambientais, planejamento ambiental, objetos de conservação ambiental, planos de gestão, etc). O conceito de gestão vem sendo utilizado para incluir, além da gestão pública do meio ambiente, os programas de ação desenvolvidos por empresas e instituições não-governamentais para administrar suas atividades dentro dos modernos princípios de proteção do meio ambiente.

Gestão ambiental é, portanto, um processo político-administrativo de responsabilidade do poder constituído, destinado a, com participação social, formular, implementar e avaliar políticas ambientais a partir da cultura, realidade e potencialidade de cada região, em conformidade com os princípios de desenvolvimento sustentável. A preocupação com a qualidade ambiental vem crescendo com a evolução da sociedade, paulatinamente, à medida que os problemas se tornam cruciais e exigem soluções. Em sua evolução, a sociedade volta-se globalmente para preservar o meio ambiente em prol das gerações futuras. Nesse panorama de encontros e discussões sobre meio ambiente, destaca-se a importância da formação de profissionais que saibam compreender as diferentes dificuldades de suas sociedades, podendo então contribuir com soluções adequadas, não predatórias e voltadas para a conservação, a preservação e o controle dos recursos da natureza.

 

Resumo da Aula 06 – Legislação e Políticas Públicas

Desde o princípio, o homem interage com o meio ambiente esforçando-se em descobrir as charadas da natureza. A harmonia com o meio ambiente, porém, é obstruída pelo aumento do número de pessoas, bem como pelo consumo em larga escala dos recursos ambientais. Com isso, surge as políticas públicas, que deveriam regular o uso desses recursos, necessários para a vida da sociedade, de forma justa e com igualdade.

Até o início do século XX, o campo político e institucional brasileiro não se sensibilizava com os problemas ambientais, embora não faltassem problemas e nem vozes que os apontassem. A degradação de uma área não era considerada um problema ambiental pela classe política, pois sempre havia outras a ocupar com o trabalho escravo. Nenhuma legislação explicitamente ambiental teve origem nas muitas  denúncias desses políticos, que podem ser considerados os precursores dos movimentos ambientalistas nacionais e que, já nas suas origens, apresentavam uma tônica socioambiental dada pela luta  contra a escravatura, a monocultura e o latifúndio. Somente quando o Brasil começa a dar os passos firmes em direção à industrialização, inicia-se o esboço de uma política ambiental. Conforme Barbieri (2010), uma data de referência é o ano de 1934, quando foram promulgados os seguintes documentos relativos à gestão de recursos naturais: Código de Caça, Código Florestal, Código de Minas e Código de Águas.

As políticas públicas dessa fase procuram alcançar efeitos sobre os recursos naturais por meio de gestões setoriais (água, florestas, mineração, etc), para as quais foram sendo criados órgãos específicos, como o Departamento nacional de Recursos Minerais, Departamento Nacional de Água e Energia Elétrica, entre outros. Até meados da década de 1970, a poluição industrial ainda era vista como um sinal de progresso e, por isso, muito bem-vinda para muitos políticos e cidadãos.

Enquanto as mudanças ocorriam no Brasil, no mundo iniciava-se uma política de comando e controle que assumiu duas características definidas:

  1. A imposição pela autoridade ambiental, de padrões de emissão incidentes sobre a produção final do agente poluidor;
  2. A determinação da melhor tecnologia disponível para abatimento da poluição e cumprimento do padrão de emissão;

Nessa modalidade de política ambiental, os padrões de emissão deixam de ser meio e fim da intervenção estatal e passam a ser instrumentos, dentre outros, de uma política que usa diversas alternativas e possibilidades para a consecução de metas acordadas socialmente. O Brasil, após a Conferência de Estocolmo de 1972, o governo militar brasileiro não reconheceu a gravidade dos problemas ambientais e defendeu sua ideia de desenvolvimento econômico em razão da ausência de preocupações com o meio ambiente e a distribuição de renda. Porém, os estragos ambientais levaram, em 1973, o Executivo Federal a criar a Secretaria Especial do Meio Ambiente e diversos estados criaram suas agências ambientais especializadas, como a Cetesb no Estado de São Paulo e a Feema no Estado do Rio de Janeiro.

Foi com o advento da Lei 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a Politica Nacional do Meio Ambiente, que conhecemos uma definição legal e passamos a ter uma visão global de proteção ao meio ambiente. Temos que ter em mente que: “a sociedade não é o lugar da harmonia, mas, de conflitos e de confrontos que ocorrem em suas diferentes esferas (da política, da economia, das relações sociais, dos valores, etc.)”.

 

Resumo da Aula 07 – Sustentabilidade

Alguns críticos acreditam que as visões de mundo ambientais centradas no ser humano deveriam ser expandidas para reconhecer o valor intrínseco ou inerente de todas as formas de vida, independentemente de seu uso potencial ou real para os seres humanos. Esta visão ecocêntrica é dedicada à preservação da biodiversidade e do funcionamento de sistemas de suporte à vida para todas as vidas. Nosso desafio é tentarmos focar naquela que se reverta em benefício conjunto: Terra, homem e outras formas de vida. Segundo Miller Junior (2007), a sustentabilidade é a capacidade dos diversos sistemas da Terra, incluindo as economias e sistemas culturais humanos, de sobreviverem e se adaptarem às condições ambientais em mudança.

O primeiro passo em direção à sustentabilidade é entender os componentes e a importância do capital natural e da renda natural ou biológica que ela fornece. Por analogia, os recursos renováveis que compõem parte do capital natural da Terra, podem nos fornecer uma renda biológica indefinidamente renovável, desde que não usemos esses recursos mais rápido do que a natureza o renova. Desde as primeiras discussões relacionadas ao meio ambiente, vários acordos ambientais têm sido negociados e inúmeros fóruns de discussão criados com o objetivo de repensar o modelo economicista adotado para o desenvolvimento e de conter o encaminhamento para a exaustão dos recursos naturais. É percebido que nos últimos 20 anos, a agenda ambiental internacional e a busca pela sustentabilidade têm evoluído tanto no sentido de implementar os acordos já assinados, como no sentido de encontrar formas de proteger outros recursos naturais essenciais como, por exemplo, mananciais de água. Para que se alcancem os objetivos de sustentabilidade, é importante que o trabalho iniciado prossiga em diversas frentes, em âmbito global e local, com a modificação dos sistemas produtivos e das práticas de uso dos recursos naturais.

A pesquisadora Elisete Batista da Silva Medeiros nos apresenta que o objetivo da sustentabilidade é colocado sob forma de três restrições:

  1. Os recursos naturais devem ser extraídos procurando fazer a substituição por recursos equivalentes;
  2. A exploração dos recursos renováveis  deve ser feita respeitando a sua renovação;
  3. A emissão de rejeitos deve ser compatível com a capacidade de assimilação do ambiente;

Esse estilo é guiado por uma nova ética de desenvolvimento, ética essa na qual os objetivos econômicos do progresso estão subordinados às leis de funcionamento dos sistemas naturais e aos critérios de respeito e dignidade humana e de melhoria da qualidade de vida das pessoas. Nós precisamos entender que a Terra não precisa que a manejemos para que ela avance, mas nós precisamos da Terra para sobreviver. O que precisamos salvar é a existência da nossa e de outras espécies que podem se tornar extintas por causa de nossas atividades, essa é a lição pregada pela sustentabilidade.

 

Resumo da Aula 08 – Ações Sustentáveis

Os conceitos de sustentabilidade e crescimento econômico constituem temas emergentes. Uni-los é uma tarefa árdua para economistas, políticos, empresários, ecologistas e população, visto que a preocupação das elites com o meio ambiente é mínima ou nenhuma, inclusive falta conscientização por parte da população (Oliveira Neto, 2008). Na atualidade, o problema principal é que essas discussões parecem míopes, pois o conceito de sustentabilidade é muito mais abrangente do que apenas tratar do desmatamento, do derretimento das geleiras, etc.

Para que possamos começar a pensar numa reversão de valores para que efetivamente façamos ações em prol da sustentabilidade, é necessário que indicadores nos forneçam informações do meio natural e socioeconômico para a análise, que deve ser sistemática e relevante, no planejamento de um sistema de gestão ambiental. Os indicadores são instrumentos auxiliares e no acompanhamento de um projeto  no decorrer do tempo. A seguir, alguns indicadores muito úteis nos planos de ação da gestão do meio ambiente (FUNIBER, 2009):

  1. Programa de monitoramento de planos de ação específicos, que permitem o acompanhamento de um plano de proteção, de recuperação e de introdução da flora e fauna, de um plano de educação e sensibilização ambiental e de outros planos de ação que façam parte dos planos de gestão.
  2. Programa de acompanhamento biológico, que tem como principal objetivo o monitoramento do estado em que se encontram as populações de fauna e flora de uma determinada área natural, num período de tempo o mais dilatado possível, e sob  uma metodologia padronizada;
  3. Programa de acompanhamento socioeconômico, que visam o monitoramento das características apresentadas pela população humana na área natural, ou em suas proximidades, num dilatado período de tempo e sob uma metodologia padronizada.
  4. Programa de controle de impacto que busca como objetivo destacar mudanças de parâmetros biológicos e ambientais, produzidos geralmente por problemas de origem ou indução humana em escala global (diminuição do ozônio na estratosfera, chuva ácida) e em âmbito local e regional (contaminação de um rio, erosão de uma bacia hidrográfica, etc).

A história do desenvolvimento de indicadores ambientais teve início oficial na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Natural e Desenvolvimento, quando se produziu um consenso geral a respeito da necessidade de avançar para a implementação da sustentabilidade. Segundo o educador ambiental, Mitchell Thomashow, quatro perguntas básicas estão no âmago da alfabetização ambiental:

  1. De onde vem as coisas que consumo?
  2. O que sei sobre o lugar onde vivo?
  3. O quanto estou preocupado com a Terra e com outros seres vivos?
  4. Qual o meu propósito e minha responsabilidade como ser humano?

Temos que ter um senso de reverência, admiração, mistério e humildade ao ficarmos sob as estrelas, sentados no meio de uma floresta ou observando a majestade e o poder do oceano, pois isso é o que realmente temos na vida.

 

Resumo da Aula 09 – Consumo Consciente

A sociedade moderna está cada vez mais consciente do impacto ambiental associado ao desenvolvimento. O uso intensivo dos recursos naturais e a cada vez maior geração de resíduos representam, paradoxalmente, um limite para o próprio desenvolvimento. Os problemas ambientais que afetam mais diretamente os países são o desflorestamento, a erosão, a contaminação; tais problemas ambientais estão associados ao consumo. Consumir é necessário para a sobrevivência dos seres vivos. Todos os organismos consomem: água, nutrientes e energia. Mas há uma diferença significativa entre outras espécies de organismos vivos e o homem: O consumismo desenfreado e exagerado que não é somente para sobreviver no meio em que vive.

Segundo o site Ressoar, quando se fala em consumo, a primeira coisa que vem à mente é o simples ato de comprar por necessidade ou por impulso. Então, o consumo consciente é uma maneira de consumir levando em consideração os impactos provocados pelo consumo. O consumidor consciente busca o equilíbrio entre a sua satisfação pessoal e a sustentabilidade do planeta, lembrando que a sustentabilidade implica em um modelo ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável. Já o consumo sustentável é a maneira de como usamos os recursos naturais para satisfazer as necessidades pessoais sem o comprometimento das necessidades das gerações futuras. Isto é, saber usar para nunca faltar.

A satisfação das necessidades humanas possui três componentes: O utilitário, o de comunicação e o psicológico. O componente utilitário nem sempre determina a escolha; as vezes o ato do consumo está motivado pelo propósito de se comunicar com os outros, de demonstrar que se respeitem as convenções sociais, que se está na moda ou que se é completamente diferente. O componente psicológico impulsiona a consumir para se provar algo a si mesmo, para se assemelhar à imagem que tem de si e se sentir bem consigo mesmo. Modificar os hábitos de compra da população é um objetivo indispensável para coadjuvar a proteção do meio ambiente, diminuir a contaminação e a geração de resíduos e promover um eficiente controle de energia, entre outras coisas.

Sabemos hoje que a questão do consumo está relacionada principalmente com a cultura social atual: do modismo e do “ter mais significa poder mais”. Mas, infelizmente, se isso não for revertido logo, teremos cada vez menos. Cabe aqui uma palavra: consciência!

 

Resumo da Aula 10 – Tecnologias Limpas

Segundo Tachizawa (2009), a tecnologia não é só uma força isolada. É também o motor propulsor da competição global. O encurtamento dos ciclos de vida dos produtos ressalta a situação pela redução do número de anos, ao longo dos quais os custos fixos serão amortizados com maior volume proveniente de vários países e precisar ser conseguido um menor número de anos. O resultado significará maior número de organizações, que precisarão de volume global significativo para que possam sobreviver.

Segundo Miller Junior (2008), muitos analistas nos desafiam a dedicar mais atenção ao desenvolvimento econômico sustentável no que se refere ao meio ambiente. Um sistema econômico produz mercadorias e serviços utilizando recursos naturais, humanos e manufaturados e é uma instituição por meio da qual mercadorias e serviços são produzidos, distribuídos e consumidos para satisfazer às necessidades das pessoas e os desejos ilimitados da maneira mais eficiente possível.

A tecnologia limpa é uma estratégia ambiental preventiva aplicada a processos, produtos e serviços para minimizar os impactos sobre o meio ambiente carregando 3 propósitos: lançar menos poluição no meio ambiente, gerar menos resíduos e consumir menos recursos naturais, principalmente os não renováveis. Proposto pela Comissão da Comunidade Econômica Europeia, em meados da década de 1970, esse conceito referia-se a qualquer tecnologia que pudesse reduzir a poluição e economizar recursos.

Várias diretrizes foram sugeridas para favorecer a cooperação em vez do confronto quando lidamos com problemas ambientais importantes. Dessa maneira, ambientalistas e líderes de corporações poderiam se tornar parceiros em uma busca conjunta de sustentabilidade ambiental e econômica. Pessoas de ambos os lados de questões ambientais delicadas deveriam se comprometer a não exagerar ou distorcer suas posições na tentativa de jogar no ganha-perde ou ganhador – leva-tudo. Há compromissos em qualquer decisão ambiental, logo elas devem trabalhar juntas para encontrar soluções ganha-ganha equilibradas, implementadas de uma maneira flexível e adaptativa.

A antropóloga Margaret Mead resumiu nosso potencial de mudança: “Nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos atentos e comprometidos possa mudar o mundo. Na realidade, só assim se foi capaz de mudar o mundo até hoje”. Isso significa que devemos aceitar nossa responsabilidade ética de administradores do capital natural da Terra, deixando-a em uma condição boa, senão melhor, do que aquela que encontramos.

Para que serve uma casa se você não tiver um planeta para colocá-la? (Henry David Thoreau)

 

E acabou! 🙂

 

Bons estudos!

Ola pessoal!

Esta postagem é referente à disciplina Tópico em Libras do curso à distância de Licenciatura em História da Faculdade Estácio de Sá. Infelizmente, não tem como montar um resumo desta disciplina pois são poucos conteúdos online e muito vídeo-aula. Isso é algo meio que lógico porque estudar Libras requer mais prática do que teoria. Por ser uma disciplina de ensino à distância, confesso que não gostei muito. Eu estou já acostumado a estudar sozinho, realizar trabalhos acadêmicos sozinho, ou seja, fazer cursos à distância tem tudo a ver comigo. Agora… Libras? Estou no último período da faculdade EAD e Libras foi a única disciplina que não concordei em ser uma disciplina à distância. A única didática foi essa – decorar o abecedário em Libras e repetir os movimentos que o professor faz nas videoaulas. Na minha opinião, deveria ter uma interação frente a frente/cara a cara entre os alunos e o professor, onde haja uma conversação bem bacana em libras, uma atividade entre os alunos, e por aí vai.

Enfim, na minha opinião, estudar Libras à distância é horrível! Há quem discorde de mim, claro. Mas uma disciplina tão importante como Libras não deveria ser apenas decoreba e repetir os movimentos que o professor faz. É tedioso.

No entanto, é muito importante para nós que trabalhamos na área da Educação estudar Libras. Então, eu gostaria aqui de deixar logo abaixo uma gravura do alfabeto em Libras. E caso você tenha um profundo interesse em estudar Libras, procure um curso presencial. Se não me engano, o SENAC oferece curso presencial de Libras. Caso você estudou Libras à distância e gostou muito, pode deixar aqui o seu comentário defendendo este curso à distância que irei aprovar com muito prazer!

 

Grato pela atenção,

Marcell